
NEM A LUZ O SEGREDO
nem por sombras escolherei entre pontos e linhas para significar o que em palavras não vem a significar-se
aceito-me em todas as geometrias que criaram mundos
digo isto para quando nem pensar nem sentir pretendam ir além
do limbo em que ficam entre nascer ou não
talvez num sensível receio de não encontrar a forma
que revele o indefinido em que se reconheçam como são
toda a gente sabe o que falta à luz
para iluminar o que invisível
nos espera na escura solidão
de uma alma fechada
mas ainda assim eu digo certo embora de que o não direi
porque a luz em si não se vê e donde vem pouco se sabe
e por isso benditos são
o sol dos nossos dias e as estrelas das nossas noites
que sempre venceram as trevas do nosso entendimento
vou chamar palavra ou melodia ao que falta à luz?
não bastará um gesto ou um olhar?
um traço em dispersas continuidades
ou um ponto que não se reduza a zero?
não é de retratos que te quero falar
nem por sombras a luz que venha de pontos ou linhas
a significar o que em palavras não vem ao visível da cela que sou
pretenderá retratar seja quem for ou o que for
mesmo que te traduzisse em palavras de poema
a poesia que neste momento está jorrando
da má vlast de smetana para a concha da minha outra mão
a que para tanto dispensei desta escrita
(oh! minha terra! assim tão bela
mesmo sem palavra terra ou vlast!)
por tudo te pediria que visses para além
das traduções em palavras riscos melodias ou manchas de cor
o que em tua alma fechada só tu podes ver
porque só tu conheces em ti por onde a luz nascendo de um olhar
pode atingir-te em respeito ou paixão
talvez em flor de tristezas ou atenta simpatia
e agora que te disse o que não queria que lesses em quanto
não é luz interior a teu pessoal sentir e entender
espero que queiras revelar-me o segredo
que para além de todas as teorias que lhes aplique
as minhas próprias palavras e riscos e gestos
sempre me escondem
sempre me escondem
sempre escondem no infindo invisível de mim
R. V.