segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

QUEM ESTARÁ A LER? E A LER O QUÊ?

O «Natal dos Livros - 2009» entrou de escrever-se em epílogo com o desembrulhar das prendas. Os livros que se ofereceram... Os livros que se receberam...
E lê-los?
Ou isso já ao livreiro não diz nada? Vendeu o que vendeu e... até para o ano!, nisto de contar com que persista o bom hábito de oferecer livros pelo Natal.
Se há, ao perto ou ao longe, quem pinte um tal retrato do livreiro, posso entreter-me por um minuto a borrar a pintura?
Um minuto! Não é pedir muito. Um minuto agradável a imaginar os bons momentos de leitura que o intenso trabalho livreiro dos dias que precederam o Natal estão por aí a proporcionar a muitas pessoas.
-Olha ele! Como se não soubesse que muitos dos livros oferecidos nem serão abertos!... Cumpriram o rito da prenda e... viagem terminada.
O Livreiro Velho sorri a tal comentário com condescendência. Mas não vai sair da sua. Quem quiser que continue a alimentar-se desse negativismo tão generalizado de voltar os olhos para o lado pior. Perde a oportunidade de ver o melhor, que, pese embora toda a melancolia que vem do outro lado, é uma fonte inesgotável de surpresas felizes.
L. V.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Terras de Além Tejo – Mora – N. S.ra das Brotas

«Sobre um fundo de nuvens e um recanto de paisagem, aparece Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo. A seus pés a vaca já morta e o pastor ajoelhado, em adoração da Senhora e de seu Filho. Não é uma pintura de grandes primores técnicos, antes pelo contrário, e o que faz o seu encanto é a sua ingenuidade popular bem marcada.» (Lopes Cordeiro).

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Dizes bem, velho livreiro, não é o presépio de Francisco de Assis, não tem burrinho e a vaquinha está morta! É, sim, um painel de vinte azulejos do século XVII em que setubalenses da confraria de Nossa Senhora das Brotas entenderam registar para a posteridade o milagre da cura de uma vaca, razão de ser do culto medieval e da ermida, situada ao fundo dum barranco e dedicada à Mãe de Jesus. O quadro fica por detrás dum pequeno altar situado na varanda da galilé.

Diz a lenda que a vaca tinha caído na ribanceira. A Senhora curou-a e, em troca, pediu que lhe construíssem, ali memo, uma ermida em sua honra. E assim se fez. Terá pertencido inicialmente a S. Pedro das Águias, patrono duma importante vila do mesmo nome, entrada em pleno declínio já durante século XVI. A devoção à Senhora alargou-se de forma a atrair ao local peregrinações de todo o país e até da Índia e do Brasil.

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Testemunham-no as casas de alojamento de peregrinos construídas pelas confrarias de Cabeção, de Cabrela, de Lavre, de Mora, de Palmela e, particularmente, a de Setúbal que teve papel preponderante nos melhoramentos do edifício realizados ao longo dos séculos XVII e XVIII. Devem-se-lhe, também, os azulejos da capela-mor, do cruzeiro e da nave, então ampliada.

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A fachada do templo erigido Santuário e Monumento Nacional contempla três níveis, rés-do-chão, varanda e cimalha. No interior podem apreciar-se vistosos retábulos, ao fundo e aos lados, com os seus nichos e as respectivas imagens, frescos diversos e um quadro com pintura evocativa do milagre.

O nome de Brotas «proveio», diz o citado autor, «de uma planta cheia de virtudes medicinais denominada abrótea [toma lá esta, açoriano, ou pensavas que isto de abrótea era pertença exclusiva dos teus mares!]. O Santuário Mariano assina-lhe [à abrótea planta] muitas [de tais virtudes]. Assim, a semente e a folha pisada ou fervida em água alivia das cãibras, quebraduras e ciáticas […] também faz crescer o cabelo aos calvos e para que assim suceda basta queimá-la em cinza e misturá-la com óleo de semente de rábano, untando depois as partes calvas.»

Ora aí está! Feliz Natal.

Olegário Paz

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

RAZÕES DE QUEIXA? ATÉ NO NATAL?

É o que se ouve: «toda a gente se queixa!».
Antes que aconteça perguntar-me se a generalização é ou não metafórica, apresso-me a virar a conversa para outra direcção, sem deixar de anotar que sempre encontrei pessoas que, por mais razões que tenham para o fazer, não se queixam, por delicadeza, isto é, para não descarregarem sobre os outros as suas tristezas, dores ou problemas.
São dias bons, na livraria, estes que antecedem de perto o Dia de Natal. Já o disse. Apesar disso, cá estão as razões de queixa a perseguir!!!
As nossas, de quem cá trabalha. As de pessoas que vão por cá passando.
Estamos satisfeitos por haver movimento. Como não? Mas só quem não quiser é que não compreenderá que este excesso de trabalho não há dinheiro que o consiga pagar. Nos momentos em que satura, é natural que apeteça uma queixa. Depois passa, evidentemente. E com a maior das facilidades quando a pessoa que atendemos traz as prendas pensadas e vai perguntando por um livro e ele aí vem, a seguir outro e é só ir à estante, ainda outro, e... Até que... «está tudo!». A satisfação dessa pessoa, revelada por palavras também mas sobretudo pela expressão facial, «vale um dinheirão»!, para quem acima de tudo prefere, na vida e portanto no seu trabalho, ser gente entre gente. Compensa!
A pena é que cada vez é mais difícil a uma das agora chamadas «livrarias independentes» estar preparada para propiciar momentos assim. E se fosse só no Natal, com os livros para prendas!... Pois! É que cada vez mais vai sendo um grande problema do dia a dia.
Queixam-se as pessoas, queixa-se o livreiro. Para que se prove que «toda a gente se queixa», porque não convidar para o coro os editores e distribuidores, a ver se é possível minorar as razões deste fenómeno, tão risível!!!, de os livros que as pessoas procuram estarem fechados em armazéns, à espera de que já só sirvam para saldar ou guilhotinar, por não haver nem espaço nem gestão financeira que os suportem?
L. V.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O NATAL E OS LIVROS DÃO-SE BEM

O Livreiro Velho pede licença para sugerir a quem deseja ver o país a ler mais que por estes dias invernosos se disponha a passear pelas livrarias. É bom estar por aqui nestes dias de aproximação ao Natal.
Ver, ouvir, observar, refelectir. Pode ser que concorde: o Natal e os livros dão-se bem. De ano para ano se comprova. Não foi  sempre assim? Também se pode depois perguntar isso. A pergunta agora e aqui é sobre o que isso significa. O Livreiro Velho tenta perceber o porquê do fenómeno. Será que, afinal, o culto do livro não está tão por baixo como alguns pensam? Será que é o livro a facilitar a necessidade de dar a prenda - «resolve-se com livros»? E mesmo assim... O que interessa saber é se quem recebe aprecia receber um livro. 
Depois, durante o ano, as mesmas livrarias, a mesma população e a sensação de que o apetite pelos livros só reaparecerá no próximo Natal.
Quando era criança, não me passava pela cabeça comer figos passados noutra altura. Natal e figos passados davam-se bem. Não quero comparar, nem esses tempos com os actuais, nem os livros com os figos, fico é a pensar.
Se as pessoas gostam de ler, como posso contribuir para que tenham apetite ao longo de todo o ano? Ou não é de pensar nisso? Gostava de falar com alguém sobre o assunto a ver se aparece uma boa resposta.
L. V.

sábado, 12 de dezembro de 2009

DIREITO À CRÍTICA

Não me lembro de, com esta clareza, ter tomado consciência de que o «direito à crítica» tanto significa «direito a criticar» como «direito a ser criticado». Tem a sua piada! Porque... Ora! Tem piada porquê? É fácil de adivinhar, depois destas semanas a beber de mais com a saga da edição do Papel a Mais.
Sempre, desde muito novo, fiz crítica (criticazinha, bem entendido, como praticante de escrita em jornais e revistas, como livreiro e como amigo de autores que me pediram opinião sobre originais). E também fui criticado, mas pouca atenção dei a isso como facilmente se explica. Mal começara, interrompi uma optativa carreira de escrita. E não é agora que a considero ou quero retomada. Não é isso! Sim, também diz respeito a este caso da publicação de Papel a Mais, mas a reflexão faz sentido em si mesma.
Críticas competentes e incompetentes, não são a mesma coisa. Favoráveis ou desfavoráveis, também não. Mas o pior que pode acontecer a quem publica, se foi capaz de auto-crítica, é não ser criticado. Parece-me. A indiferença ou o silêncio, por falta de atenção e sobretudo por positiva intenção, atacam de não-sentido a publicação muito mais do que qualquer crítica arrazadora. Parece-me.
Continuo? Alguém poderá continuar, que, por hoje, o Livreiro Velho não deve roubar mais tempo à livraria.
L. V.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

BEBER DE MAIS SEM FICAR BÊBADO

«Excessos, sim; exageros, não»: um princípio ou máxima do Livreiro Velho. De outro maneira agora: «beber de mais, sem ficar bêbado». Dizem que é impossível de conseguir e que tentá-lo dá sempre em asneira, mas o Livreiro Velho, que teimoso!, não se quer convencer, apesar de não esperar resultados perfeitos. É vê-lo de pouco a pouco a cambalear! E não é que continua a tentar e tem o descaramento de confessar que toma essa como uma das melhores nascentes da felicidade que vai apanhando, depois de beberem dela os seus dias, em deliciosos frutos da Árvore da Vida?!
Bela tarde a de ontem, 6 de Dezembro de 2009/AV, na Culsete, depois do belo serão da sexta-feira, 27 de Novembro de 2009/AV, na Casa dos Açores de Lisboa! Não foi «com» o Papel a Mais ou «com» ele, se bem que também para ele como para os outros participantes. Foi «à volta» dele e desse seu livro, o que é outra coisa. Um excesso!
Artur Goulart, nas amigas palavras que lhe dirigiu, repreendeu o Livreiro Velho, exactamente por juntar este adjectivo ao respectivo substantivo. Mas ele riu-se, não se ressentiu nem nada!, com a repreensão. Artur Goulart até disse que só era um ano mais novo e que sabia muito bem o que era a verdade... Então como é? Portanto, que venham livreiros novos, que de isso continuar possível é que se trata! Quanto ao Livreiro Velho, dá-lhe uma alegria muito grande sentir à sua volta gente tão boa e com expressões de felicidade tão evidentes. Não sei até se ele não devia descer a pormenores, nomear pessoas, agradecer a cada uma, excesso a excesso. Aqui?
Muito se bebeu! Moscatel, como estava previsto, sim senhor. Mas disso até muitos nem provaram. Foi o mais! Taças cheias e umas a seguir às outras! É verdade que o Livreiro Velho ficou um pouco atordoado e dedilhou na viola algumas das suas cordas da asneira. Mas que foi uma tarde de excessos e felicidade a corresponder, isso é que foi! Com livros, leitura e leitores! Ah! E com muita estima! E pessoas que gostaram de se encontrar!
Velho, porque não? Antes isso lhe chamem do que o que ele sabe que, muitas vezes e diversos modos, é preciso ser para conseguir excessos, embora sem ser possível evitar por completo o exagero: um velh(...)!
L. V.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

BOOK PARTY DE DOMINGO À TARDE

Não sei se a designação Book Party serve para toda a «gente dos livros» e se eu próprio vou voltar a usá-la em futuras animações com livros, autores, leitores. Mas para a tarde que pretendi oferecer, no próximo domingo, a quem quiser estar comigo, com o editor e, sobretudo, com a grande responsável da publicação destes papéis de um livreiro que dão pelo título de Papel a Mais, foi mesmo um achado. Se me perguntarem, posso dizer porquê. Logo se vê.
O que estou é na disposição de descontraidamente contribuir o melhor que souber e puder para que seja uma tarde bem passada, com toda a gente que quiser aparecer. Gente dos livros, amigos, pessoas mais anónimas ou mais notáveis que frequentam a livraria ou outras que há muito tempo não vejo e inclusivamente quem não conheço, mas a quem a notícia despertou curiosidade. Afinal, coisa simples. Tudo a depender da disposição de espírito de quem quiser aparecer e, evidentemente, do interesse por livros e leitura, um mundo, esse dos livros e da leitura, que atravessa um momento repleto de contradições.
O Livreiro Velho mete-se em cada uma!
L. V.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UMA COISA É CERTA

Uma coisa é certa: agora o Papel a Mais, para o que der e vier, está lançado e o Livreiro Velho tem de aguentar com as consequências. O lado bom da factura, para já, está a ser penhorante. Há um lado mau ou, suavizando, menos bom? Isso, podemos ver depois, se me dão licença.
Tenho obrigação de voltar a sexta-feira em memória... Pois! O Livreiro Velho sabe como é isto da memória, quando a idade começa a fazer efeito: o mais recente evapora-se cá com uma facilidade...! Mas foram impressões tão fortes, que vou confiar em que, quando for tempo de  recordação, ninguém nem nada deixarei de mencionar, aqui ou noutros sítios.
E no próximo domingo à tarde, como vai ser? Francamente, se for como sexta-feira na Casa dos Açores de Lisboa, tenho de exigir-me estar à altura, como anfitrião agora, dos anfitriões que lá me receberam. Sei que não vou conseguir, mas farei por receber os amigos e leitores de modo a que o tempo em que estivermos em convivência seja tão feliz como o que se viveu na sexta-feira, 27 de Novembro de 2009, numa Casa dos Açores tão cheia de emoções e de suas razões. Um serão inesquecível!
Até domingo, agora aqui em Setúbal, a cidade em que a escrita foi para mim «papel a mais» durante quatro décadas e por uma boa razão!
L. V.

domingo, 22 de novembro de 2009

O LIVREIRO VELHO ENTRE COISAS & LOISAS

Está bonito! E agora, como é?
Dizem uns que andas muito calado, outros que nunca te calas. Uns, «trabalhas de mais» e outros, «já não consegues fazer nada».
E tu, que dizes?
Se calhar tens mesmo que dizer alguma coisa.
Talvez não a quem te censura, pois está no seu mundo e nem tentas impedi-lo de desimpedir o seu caminho, que o que tens é de seguir no teu.
E muito menos a quem da tua existência, como é natural, só sabe que o planeta é habitado por um número cada vez mais infinito de desconhecidos, que para si é como se não existissem.
Mas, francamente, pelo carinho e respeito que, apesar de já te sentires fora de prazo, muitas pessoas te dedicam, ainda vale a pena puxares por ti, tirando-lhes o chapéu, como merecem, resguardando-te com o cachecol (Cuidado! Que, se constipas,lá se vai o resto...) e socorrendo-te da bengala, na incerteza do teu passo a passo.

Livreiro Velho, einh! Não vais dizer que te é indeferente a publicação do teu Papel a Mais, pois não?
Tens todos os motivos para te congratulares com todos aqueles para quem essa publicação ou é o resultado de um empenho esforçado ou/e uma alegria bem manifesta.
Também acho bem que não te dê para entrares em órbita, como se isto viesse de algum modo abalar a consciência que tens da tua pequenez e insignificância perante a complexidade e magnitude dos problemas da leitura, do livro e das livrarias, no ponto em que estão no país, e para cuja discussão muito desejarias que o que experimentaste, pensaste e escreveste chegasse a constituir um contributo, por mínimo que fosse.
Mas isso já não está nas tuas mãos.
Ainda por cima, sabes muito bem que tudo o que querias dizer embrulhaste conscientemente numa rede de meias conversas, num disfarce de caso pessoal e num entrar pelo lado de poeta prometido ao teu futuro já ultrapassado, que só mesmo quem estiver disposto a isso é que se poderá dar à paciência de ir além do que aí lê, de modo a encontrar não as tuas, mas as suas ideias, sentimentos, experiências, empenhos.
Tens de o confessar... E só te custa que pelo menos metade das trezentas e tal páginas não tenham sido para textos de muitos mais dos teus amigos. Dá-te uma enorme alegria que, a meio do livro, quem o abrir encontre a «Escrita Amiga»! Por ti? Quem quiser que o pense, não te incomodes. Pelo significado, isso sim. Está conforme com o que quiseste significar. Repete, para cada um dos escritores que te ofereceram inéditos, a epígrafe de abertura a essa parte: «Gratidão».
L. V.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

PAPEL A MAIS – O blogue

Há já algum tempo que o livreiro velho não se passeia por Chapéu e Bengala.

Primeiro foi a azáfama dos livros escolares, as filas à porta, as correrias para as editoras.

Agora é a preparar a época de Natal, a fazer encomendas de livros e a pensar em estratégias de promoção de leitura e vendas que passa os dias.

Entretanto, no meio de tanto e tão absorvente trabalho eis que surge mais um motivo de distracção do livreiro velho em relação ao seu blogue: foi posto à venda por estes dias, o seu livro, Papel a Mais, um livro de poesia que é também um livro de reflexão e pensamento, onde dá a ler muito do que tem sido o seu percurso de livreiro.

capa

Quem quiser saber mais coisas sobre Papel a Mais deve ir a http://papelamais.blogspot.com/

E podem ter a certeza de que, um dia destes, quando menos estivermos à espera, o livreiro velho vai voltar a Chapéu e Bengala, no meio de uma das suas “arrelias” ou simplesmente para um grande desabafo.

F.R.M.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

DESPEDIDA DO ABETO DE ANDERSEN

O tempo é pouco e as forças menos. Mas deixar passar? O Livreiro Velho continua a recusar-se a ir à bola com medíocres, cobardes, ignorantes, indiferentes, interesseiros adoradores do seu umbigo e abutres de ridícula importância, mas de sagaz competência em arrecadar proventos.
Quem quiser que fique em sua casa. Não faz cá falta. São muitos os que, embora em sua impotência perante a onda da estupidez avassaladora, se respeitam e se empenham em respeitar o que merece respeito.
Sábado à tarde. Ir ver a exposição «Morgado de Setúbal», comemorativa do centenário deste artista tão ilustre cujo nome tanto ilustra a cidade onde viveu e morreu. Envergonhar-me ao saber tão pouco visitada esta exposição de vinte e quatro dos seus quadros, que se vê que é resultado de um meritório esforço e que nem tão cedo se voltará a repetir. Depois, ainda na atrapalhada Av. Luísa Todi, aonde se tornou tão desagradável circular, visitar o Abeto de Andersen.
Já há dias, de passagem, me incomodara o aspecto. Acompanho esta respeitável Árvore desde que chegou a Setúbal, há onze anos.
Completar-se-ão no próximo dia 29 deste mês de Outubro. Nunca o vi assim, com tão mau aspecto. Vi-o sorrir de viço, apesar dos receios iniciais com a mudança de clima. Vi-o maltratado e agredido por gente sem respeito e sem vergonha. Vi-o resistir e afirmar-se vivo para os seus cem anos de crescimento. Mas parece que foi de mais e que está em agonia. À cautela, aproveitei para me despedir. Desta vez olhei para o chão. Terá sido daí que poderá ter vindo uma agressão fatal? Deixo a resposta para o que vier a acontecer e para os entendidos e responsáveis.
Alguém se lembra do panfleto que escrevi e divulguei em Abril sobre a inconsciência com que foi urbanisticamente tratado este monumento à simpatia de Andersen para com a cidade e região de Setúbal? Que agora vá ver. Nem numa palha se mexeu. Alertei aí e tinha alertado muito antes para o perigo que havia. Agora? Se calhar já é tarde. Embora eu nada perceba do que se possa ter passado debaixo do chão que esconde as raízes e só pelo que vejo nos ramos me sinta inevitavelmente alarmado.
Quem vai dar importância a este caso? E no entanto, não posso esquecer-me de que, naquela tarde de 29 de Outubro de 1998, a plantação da Árvore de Andersen em Setúbal foi feita com a dignidade festiva que lhe emprestaram centenas de crianças, seus pais e professores, respeitáveis cidadãos, notáveis escritores, os edis, o embaixador da Dinamarca, o representante da Unesco e a representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Gente de respeito. E agora? Se alguém, à cautela, também quiser despedir-se e desejar a minha companhia, estou disponível.
Revoltado? Pois, claro! Embora inutilmente e em minha insignificância.
Portanto, expondo-me ao ridículo. Mas para meu herói antes o Dom Quixote do que quem anda a erguer monumentos em que dependura as cordas onde o irão enforcar.

Manuel Medeiros

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TERRAS DE ALÉM TEJO - Mora – Anta de Pavia


Tem uns bons milhares de anos (vem, talvez, de meados do séc. IV a.c.) este curioso dólmen que terá sido «constituído por uma mamoa ou montículo de terra e de pedra, que o ocultaria na imensidão da planície alentejana, uma câmara e um corredor». Resta a câmara funerária posta ao serviço do culto católico na Idade Media


Monumento Nacional, tem de altura 3,30 m e 4,30 de diâmetro.




O altar apresenta este painel de gosto barroco em má hora colocado no lugar duma pintura popular datada de 1600.



Que tal?

Velho livreiro, imagina-te agora a fugir duma manada de toiros bravos numa antiga herdade da Comenda para os lados de Montemor-o-Novo, quando pretendias visitar outra grande anta, tu açoriano que até nem és da ilha Terceira: à tua frente, soltando gritinhos aflitos uma adolescente e uma dama de saia travada tentam correr. De repente, a toda a brida, passa perto um tresmalhado que se vai juntar aos outros… Olhas para trás e vê-los, serão pelo menos nove, postados em fila ao lado da Anta como guardas sagrados da Pré-História!


Um ‘sagrado’ abraço.

Olegário Paz

sábado, 19 de setembro de 2009

TERRAS DE ALÉM TEJO - Vila de Mora – Fluviário

É, hoje, o espaço de maior atracção, o Fluviário. Devidamente anunciado na circular que dá acesso ao centro de Mora, situa-se na freguesia de Cabeção, ali, a poucos quilómetros da vila.




Ocupa uma área de cerca de 2300 m²






e alberga, em espaçosos aquários, centenas de exemplares de 70 espécies de peixes (e outros) trazidos de rios e albufeiras para ali se mostrarem vivos como escola activa a quem quiser saber mais do que apreciá-los ao almoço ou jantar!






O espaço contíguo proporciona uma estadia saudável. Quem assim o entender, pode adquirir lembranças, matar a sede no bar e, até, apanhar um pouco de sol no arejado Açude do Gameiro.

Ouve lá esta, ó Velho Livreiro: vem a gente descansados da vida, contentes com a visita ao Fluviário e, depois de galgar a estreita ponte que nos separa da outra banda do Açude, já a meio dos terrenos da Santa Casa, zás!, atravessam-se-lhe à frente dois listados (javalis pequenos). Sair do carro e apontar a máquina, por mais rápido que tenha sido, só deu para os apanhar a esconderem-se numa ceara de milho.




Dizem que é raro encontrar javardos por estas bandas. Mas acontece!


Toma!


Olegário Paz

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

TERRAS DE ALÉM TEJO - Vila de Redondo

Sei de um tipo que decidiu ir fornecer-se de vinho à Cooperativa Vinícola do Redondo. Foi, fundado na conversa de amigos dos copos: lá, compras vinho do bom e mais barato. Trouxe meia dúzias de caixas do que diziam ser de qualidade acima do corrente. Passados alguns dias fez uma coisa típica de masoquistas, passou na secção de vinhos do hiper-mercado Continente e foi ver os preços. Verificou, então, que o tal vinho de ‘qualidade acima do corrente’ se vendia ali por metade do preço! Uma coisa é o negócio do vinho, outra é o ‘engenho e a arte’ das flores de papel com que, de dois em dois anos, o povo engalana as ruas da sua vila, nada ficando a dever a Campo Maior, por exemplo. E com que assuntos, meu velho livreiro!



Uma rua com o abecedário completo a convidar ao prazer da leitura e da escrita:


E, entre tantas, esta rua dedicada à magia de contos e rimances tradicionais:



A Carochinha do João Ratão.


E o Capuchinho Vermelho.

E muitas outras histórias.

Obrigado, povo do Redondo!
Olegário Paz

Somos Construtores do Tempo

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Perguntam-me muitas vezes o que é a poesia

respondo-lhes que a poesia é uma casa
habitada de palavras __ onde cada palavra
é uma janela aberta

respondo-lhes que a poesia é uma ponte
que encurta as distâncias que separam os homens

respondo-lhes que escrever um poema
é como atravessar um deserto __ que a escrita
é um caminho onde aprendemos a conhecer-nos
onde nos questionamos e recrudescemos

o que não lhes digo __ é que muitas vezes
a poesia é tão só __ a coragem de escrever o silêncio.

Fernando Paulino

sábado, 29 de agosto de 2009

A-GOSTAR

Quem foi à Feira de Sant'Iago, trouxe uma recordação e disse-me que "feirou". O Livreiro Velho não foi à Feira (as minhas estórias de feirante!...), mas viveu Agosto, mais um Agosto, este de 2009 que está no fim. Posso permitir-lhe que me diga: "agostei"? A minha dúvida nada tem a ver com a palavra. Foi a primeira vez que a ouvi, mas entendi-a. É que Setembro lhe promete a ele uma dureza de vida muito dura: a saga dos manuais escolares. Será capaz de ainda assim colher dele algumas recordações que lhe permitam dizer que "setembrou"? Se for, arrisco-me a ter que tolerar, a partir desta sua extravagância, que para aqui venha conjugar os meses todos. Como se um blogue se pudesse alimentar com tais banalidades! Vou permitir-lhe, apenas, que venha, de chapéu e bengala, dar uma volta aqui pelo blogue que neste Agosto inaugurou. Parece-me que ainda não percebeu muito bem como há-de por aqui andar e muito menos para quê. Ora vejamos se acaba por dizer coisa com coisa.
Quando o Livreiro Velho se põe a falar sozinho são tantos os disparates que bem tenta não os ouvir, mas não há maneira.
Sabes muito bem que já devias estar fora de serviço. O teu futuro já foi todo engolido por um passado a que podes com propriedade chamar de teu tempo. A tua sorte foi teres aprendido a fazer do presente uma janela para o futuro de quem o tem. Os novos tempos. É de facto uma bela maneira de gastares os tostões de energia que te restam. Mas tens de compreender que eles não chegam para tudo o que te apetece. "Ah! se eu ainda pudesse!" Dizes bem. "Tanto que fazer! Tantas oportunidades novas, excelentes!" Tens razão. Mas o que é queres? Vais-te queixar? Cheio de sorte e...! Olha para ti: um Verão tão difícil, com tremendas limitações, e no entanto, a tua sorte de Livreiro Velho!
Este Verão não conseguiste fugir para a tua Ilha para respirares a frescura e o verde do teu paraíso natal, mas diariamente, e sobretudo quando o calor já não te permitiu manter a livraria aberta, o Onésimo convocou-te a participar na roda de amigos açorianos que galhardamente o acompanharam na embriaguez com que andou por S. Miguel, Flores, Faial, S. Jorge e Pico a sentir a beleza das paisagens e a acumular vivências donde hão-de provir preciosidades literárias. Para cúmulo, veio acabar as férias a olhar para a Arrábida e houve uma tarde para o ouvires pela segunda vez a contar à Leonor, à Isabel e ao Artur como te conheceu exactamente há cinquenta anos, em 15 de Agosto de 1959. E não querias estar velho! Tomara muita gente ter vivido tanta vida como tu viveste! E até por bem mais os Açores vieram ter contigo. Mas estás num blogue. Não estás a escrever uma carta, um diário ou isso dos e-mails.
-E os netos! -Não comeces!!! Circunscreve-te ao livreiro.
Foi de mais! Que de bons momentos o Livreiro Velho viveu aqui na livraria, oferecidos pelos leitores. Exactamente a partir de encontros com livros. Esta profissão deu-lhe sempre muitas dores de cabeça. Neste Mundo dos Livros há muita coisa que não dá para entender. Ao Livreiro Velho dá-lhe sempre dores de cabeça quando a estupidez é tal que não dá para entender. Mas sempre lhe deu destas compensações. E cada vez mais as tem vindo a dar nestes últimos tempos.
Até nisto de se aproximar dos blogues. A Blogosfera está cheio de blogues que se dedicam aos livros. Um dos grandes prazeres foi entrar em blogues de livrarias. Espera continuar a visitá-los, sempre que tenha oportunidade. E esta conversa não vai ficar por aqui.
Quanto a chapeuebengala, não lhe parece que possa ser propriamente o blogue de uma livraria, esta sua, a Culsete. Também não deixará de o ser, mas ao ter o nome que acabou por ter, deverá entender-se mais como o blogue de um livreiro velho. À sua volta uns amigos que até suportam os seus disparates com simpatia como já começou a acontecer, alguns que trazem o nível da sua escrita e da sua leitura como contributo ao bom convívio entre todos, ao fim e ao cabo um modo simpático de estar em comunicação com que se quer, como se quer e quando se quer. Sempre com os livros e a leitura por pano de fundo. Uma multiplicação dos bons momentos que tantos leitores me vão oferecendo aqui na "culsetezinha".
L. V.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PALAVRAS LIVRES (1)

"Palavras livres". Lembro-me. Ficou escrito. Livres!? Mas... Onde? Como? Quando? Porque o substantivo de "livres" não o são as palavras, mas a Liberdade.
Por entre o tanto e muito que se diz, quem me ajuda a encontrar "palavras livres"?

"-Não há vantagem em falar dos controles. De quem foi a ideia?"
"-Minha, X-47-CS-5000 AG. A vantagem de falar dos controles está em habituar as pessoas à ideia de que eles existem e são omnipotentes, omniscientes."
"-Realmente ele é capaz de ter razão. (...) Este computador é inteligente."
(...)
"-Tudo se passou com a maior precisão. (...) Os deuses acabaram, os demónios acabaram, os anjos acabaram... Eu sou o senhor do mundo!"
"-Desliguem-no! Desliguem-no! Está doido!"
(...)
"-Sabes? Estamos livres, livres, livres..."
"-E de que vamos viver?"
"-Agora, não temos ninguém nem nada no mundo senão tu ... Epimeteu... Que vamos fazer?"
(Jorge de Sena, Mater Imperialis (Teatro): Epimeteu, ou o Homem que Pensava Depois)

Não creio que mais longa citação de algum modo servisse para satisfazer a curiosidade de quem, como eu até hoje, não leu esta peça de Jorge de Sena. Encontrei-a porque a procurei? Não! Por acaso? Também não! Foi no meu trabalho comum. Uma pessoa, leitor exigente, à procura de Fernando Pessoa & C.ª. E Mater Imperialis ficou-me nas mãos. Hesitei entre chamar ao caso um "petisco" ou "palavras livres". Não sei. Gostava de saber da opinião de quem tenha lido o Epimeteu. Versus Prometeu, fica já dito, para aguçar a curiosidade a quem, com eu até hoje, não tiver ainda lido este texto de se lhe tirar o chapéu, como a tantos outros de Jorge de Sena.
E até parece de propósito, acontecer-me isto hoje! Epimeteu a dizer-me: Estou só e não estou... Eu sou quem sou... Logo agora que Portugal, donde Jorge de Sena se ausentou para poder ser quem foi, o acolhe em restos mortais que homenageia. Desliguem-me o computador! Não creiam nem na omnipotência, nem na omnisciência dos controles. Nem se controlem: "palavras livres"!
L.V.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

PETISCOS (1)

Foi um belo tempo, aquele em que o Livreiro Velho era jovem, tinha muito que aprender e lia muito! Lia tudo o que apanhava. Nem é bom comparar com os dias de hoje. Não era só o que não havia. Esta abundância em que estamos! Era uma sorte, apanhar livros para ler, fossem quais fossem. O Livreiro Velho sempre achou que conseguiu fazer com que aí a sorte estivesse do seu lado. Havemos de ter uma oportunidade para duas palavras sobre isso. A conversa aqui é outra.
Agora o Livreiro Velho, com todo o medo-de-saber que nas suas veias inoculou, só quer é aprender. Tanto que aprender! De que lhe serviu saber? O Mundo não virou Paraíso e o Mistério de Tudo continua além de cada deslumbramento. Por isso o Livreiro Velho deseja ler multidões de autores, livros sem conta. Mas lê tão pouco!... E logo agora que muito mais avançada é a consciência que tem da sua ignorância. A sorte dele, porém, continua a acompanhá-lo. Não consegue ler muito, mas petisca e tem sempre à sua volta estantes com preciosidades onde, hoje uma página, amanhã outra, vai enganando a fome e com tais requintes de sabor que até se esquece da hora de jantar e se não fosse a invenção do micro-ondas nunca provava comida quente.
Hoje passou-se, ao voltar a Mircea Eliade. Imagens e Símbolos. A tradução é brasileira, da Martins Fontes. Embaraça? Pois! Mas dá para petiscar, com subido proveito e prazer. Posso escolher para aqui duas ou três linhas? Tantas que valia a pena escolher! Só estas:
"Isto se torna ainda mais evidente quando lembramos que a função de um símbolo é justamente revelar uma realidade total, inacessível aos outros meios de conhecimento: a coincidência dos opostos, por exemplo, tão abundantemente e simplesmente expressada pelos símbolos,não é visível em nenhum lugar do Cosmos e não é acessível à experiência imediata do homem, nem ao pensamento discursivo".
Íamos longe! E mesmo com tão pouco, já vou apanhar o jantar frio.
L. V.

P. S.
O jantar arrefeceu, mas alimentou-se o blogue. Com os comentários da Rita Pimenta, do Onésimo, do João Ribeiro. Isto sensibiliza. Mãozinha da Fátima... Não o abriria, talvez, se não fosse chamado à atenção. Estava no petisco. Olha, trouxe-o para a mesa! Será que estou a ver bem? Parece que está a ficar redonda. Ou será efeito das minhas operações às cataratas?
M. P. M.




domingo, 23 de agosto de 2009

CHAPÉU PÕE-SE BARRETE ENFIA-SE

O Livreiro Velho, se quer levar a sério a sua entrada na Blogosfera, respeitando a comunicação e convivência em que por ela é lançado, tem de dizer a si próprio que Chapéu e Bengala é, logo à partida, um divertido convite ao bom humor.
Chapéu e Bengala! É a sua caricatura e uma caricatura humorística. Fácil de perceber. O Livreiro Velho sorri perante a caricatura e de imediato também percebe que só com o apoio da bengala poderá evitar que o seu chapéu vire barrete.
A minha colecção de bengalas é-me preciosa. A primeira! Usou-a meu avô quando era um jovem regressado do Brasil, no início do séc. XX. Época de jovens com bengala. Em velho já a não usava. Pedi-a à minha avó tinha os meus dezassete anos. Pus-me a passear com ela pelas ruas da nossa aldeia e só se riram de mim na primeira semana. Nem sequer deu tempo de se perguntarem que proveito tiraria um rapaz de ir assim passeando de bengala. E o orgulho da minha avó? Que ternura!
Só com uma boa colecção de bengalas, de se lhe tirar o chapéu, o Livreiro Velho pode acreditar que não está enfiando um barrete ao aceitar este desafio de alimentar um blogue.
E para já vem tirar o chapéu ao Damião Miguel e ao Urbano Bettencourt. Os primeiros a aparecerem com comentários. E o "feed" do Damião Miguel? Para o Livreiro Velho, já só por estes momentos felizes lhe teria valido a pena a entrada na Blogosfera.
Amigos e circunstantes: Chapéu e Bengala só contando com o vosso apoio pode ser um blogue com interesse. Foi para o criar e terá de ser para o ir alimentando. O Livreiro Velho tem uma razoável consciência das suas múltiplas limitações. O que o anima é esta surpresa boa, por pouco que já consiga fazer, de ainda estar vivo e activo neste tempo riquíssimo de oportunidades de comunicação e de criatividade.
Mais do que de livros, gosto é de leituras. As vossas leituras. Também as minhas. Dos Livros. Da Vida. Das pessoas que somos. Porque não é para sempre que podemos encontrar-nos e contribuir para que os nossos dias comuns, sujeitos a tantos virús, sejam dias felizes.
L. V.

sábado, 22 de agosto de 2009

ENKI BILAL – UM GÉNIO DA BANDA DESENHADA


Resolvi contribuir para o Chapéu e Bengala com um feed sobre banda desenhada. Há que ser diferente. Até porque não estou a ver o Livreiro Velho, vulgo Manuel Medeiros, a escrever sobre BD. E vai daí... Fica aqui o desafio. De qualquer forma, não sou intelectual. Nem sequer pseudo-intelectual. o artista que está no tema, esse considero-o como tal.

Portanto, o tema deste feed é o Bilal – o “o” é premeditado, porque aqui quer-se um tom mais informal e próximo, típico da BD, apesar desta ser uma arte. Isto porque descobri recentemente a tetralogia Hatzfeld que já anda aí desde 1998, sendo que o último título saiu na sua edição original em 2007.

Bilal é um autor de BD nascido em Belgrado, ex-Jugoslávia, hoje Sérvia, em 1951. Cada vinheta sua é uma obra de arte. Algumas são absolutamente extraordinárias. Às vezes até defino imagens dele como fundo do ambiente de trabalho no computador.

Nem todos os álbuns publicados pelo autor saíram em Portugal, mas os mais importantes, esses sim. E a maior parte estão aqui em casa, numa prateleira da estante ou ali na mesa-de-cabeceira. Suponho que a mais importante obra do autor será a trilogia Nikopol que deu origem ao filme Immortelque, por acaso, ainda não vi, pois só o descobri há dias. Gostei muito dessa história, mas sublime mesmo é A Caçada. As Falanges da Ordem Negra também não lhe ficam atrás. O primeiro é a história de uma conspiração e o segundo um conto de gente resistente.

A imagem deste feed está na capa do álbum 32 de Dezembro, terceira parte da tetralogia de que falei.

Tudo isto está obviamente online. Fica aqui o site oficial:

http://bilal.enki.free.fr/

Abraço e boas leituras!

Damião Medeiros


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

AS ARRELIAS DO LIVREIRO VELHO (1)

São muitas! Mesmo virando costas às mais risíveis e sombreando as menos discutíveis, ao Livreiro Velho restam muitas arrelias para lançar ao barulho no ecrã dos simpáticos blogers que lhe acolherem o "Chapéu e Bengala" no vestíbulo das suas consultas, ou seja, nos seus Favoritos. E é sem sair do Mundo dos Livros, evidentemente...

Esta é já uma: os prazos de validade dos livros. Não é? A ficha técnica agora já inclui obrigatoriamente a data de edição. Uma das mais respeitadas bases de trabalho da Lei do Preço Fixo dos Livros, esse produto acabado da da arte maravilhosa de fazer leis para não resolver os problemas reais. E o prazo de validade? Porque é que nos livros não vem indicado? Como nos medicamentos ou nos iogurtes? Exactamente! Quem me vai dizer que estou a delirar? Como se o livreiro não soubesse ao que se chega!!!

Livros, livros e mais livros! Só que os leitores que sabem o que querem (são muitos e os melhores e talvez os mais respeitáveis, sendo que, evidentemente, todos o são), quando procuram um livro, ou não chegam a encontrá-lo ou penam para o encontrar em algum livreiro que, por não o ter devolvido, arrisca queimar-se junto da editora ou distribuidora . E porquê? É simples: por causa do prazo de validade! Foi retirado da circulação! Os leitores têm que se habituar. Têm de comprar os livros quando os editores querem que eles se vendam. Não quando lhes apetece ou precisam. Arriscam-se a que caiam no fora de prazo. Alguns ainda pode ser que venham a aparecer na confusão dos saldos, saldos declarados ou disfarçados de feiras. Mas cada vez o inevitável fim, para muitos livros, é a condenação inapelável à guilhotina. Tanto faz que sejam obras primas ou apenas papel sujo de tinta. Todos foram feitos para vender e não para ler. Portanto os leitores têm de respeitar os prazos de validade. Mas como é que podem? Não vêm indicados!...

É uma arrelia! Cada vez mais constante! E ninguém pergunta porquê nem ninguém se propõe explicar. Estranho! Arreliante!

Por agora, basta. De arrelias e de

LIVREIRO VELHO

domingo, 2 de agosto de 2009

SOB A PROTECÇÃO DA SERRA DA ARRÁBIDA

O Livreiro Velho hesita em deixar-se seduzir pela hipótese de ainda ser capaz de atinar com a navegação pela Blogosfera. Trazem-lhe o chapéu e a bengala para que sorria à sua caricatura e se sinta igual a si próprio em sua deselegância e insignificância. Finge que não, mas de si para si está mesmo a sorrir com o carinho com que assim o caricaturam. Até que, quando já parecia esquecida a brincadeira, surge esta tarde tranquila em que uma luz preciosa ilumina a Serra da Arrábida e o Livreiro Velho é desafiado a lançar no ecrã a primeira mensagem do blogue.

Olhar dos altos da Serra da Arrábida para os lados da terra ou do mar convoca o silêncio necessário às palavras para que tenham sentido em si mesmas, livres de quem as diga, na medida em que brotam do sentir e do pensar espontaneamente, sem controle de intenções, e livres de quem as ouça, pois que a ninguém são dirigidas.
Palavras livres! Como as coisas que são o que são.

Sob a protecção da Serra da Arrábida o Livreiro Velho experimenta uma navegação certamente menos arriscada do que a de tantas embarcações que Ela, a Serra Deusa, viu sair do Sado para os mares desconhecidos e sem fim.