sábado, 29 de agosto de 2009

A-GOSTAR

Quem foi à Feira de Sant'Iago, trouxe uma recordação e disse-me que "feirou". O Livreiro Velho não foi à Feira (as minhas estórias de feirante!...), mas viveu Agosto, mais um Agosto, este de 2009 que está no fim. Posso permitir-lhe que me diga: "agostei"? A minha dúvida nada tem a ver com a palavra. Foi a primeira vez que a ouvi, mas entendi-a. É que Setembro lhe promete a ele uma dureza de vida muito dura: a saga dos manuais escolares. Será capaz de ainda assim colher dele algumas recordações que lhe permitam dizer que "setembrou"? Se for, arrisco-me a ter que tolerar, a partir desta sua extravagância, que para aqui venha conjugar os meses todos. Como se um blogue se pudesse alimentar com tais banalidades! Vou permitir-lhe, apenas, que venha, de chapéu e bengala, dar uma volta aqui pelo blogue que neste Agosto inaugurou. Parece-me que ainda não percebeu muito bem como há-de por aqui andar e muito menos para quê. Ora vejamos se acaba por dizer coisa com coisa.
Quando o Livreiro Velho se põe a falar sozinho são tantos os disparates que bem tenta não os ouvir, mas não há maneira.
Sabes muito bem que já devias estar fora de serviço. O teu futuro já foi todo engolido por um passado a que podes com propriedade chamar de teu tempo. A tua sorte foi teres aprendido a fazer do presente uma janela para o futuro de quem o tem. Os novos tempos. É de facto uma bela maneira de gastares os tostões de energia que te restam. Mas tens de compreender que eles não chegam para tudo o que te apetece. "Ah! se eu ainda pudesse!" Dizes bem. "Tanto que fazer! Tantas oportunidades novas, excelentes!" Tens razão. Mas o que é queres? Vais-te queixar? Cheio de sorte e...! Olha para ti: um Verão tão difícil, com tremendas limitações, e no entanto, a tua sorte de Livreiro Velho!
Este Verão não conseguiste fugir para a tua Ilha para respirares a frescura e o verde do teu paraíso natal, mas diariamente, e sobretudo quando o calor já não te permitiu manter a livraria aberta, o Onésimo convocou-te a participar na roda de amigos açorianos que galhardamente o acompanharam na embriaguez com que andou por S. Miguel, Flores, Faial, S. Jorge e Pico a sentir a beleza das paisagens e a acumular vivências donde hão-de provir preciosidades literárias. Para cúmulo, veio acabar as férias a olhar para a Arrábida e houve uma tarde para o ouvires pela segunda vez a contar à Leonor, à Isabel e ao Artur como te conheceu exactamente há cinquenta anos, em 15 de Agosto de 1959. E não querias estar velho! Tomara muita gente ter vivido tanta vida como tu viveste! E até por bem mais os Açores vieram ter contigo. Mas estás num blogue. Não estás a escrever uma carta, um diário ou isso dos e-mails.
-E os netos! -Não comeces!!! Circunscreve-te ao livreiro.
Foi de mais! Que de bons momentos o Livreiro Velho viveu aqui na livraria, oferecidos pelos leitores. Exactamente a partir de encontros com livros. Esta profissão deu-lhe sempre muitas dores de cabeça. Neste Mundo dos Livros há muita coisa que não dá para entender. Ao Livreiro Velho dá-lhe sempre dores de cabeça quando a estupidez é tal que não dá para entender. Mas sempre lhe deu destas compensações. E cada vez mais as tem vindo a dar nestes últimos tempos.
Até nisto de se aproximar dos blogues. A Blogosfera está cheio de blogues que se dedicam aos livros. Um dos grandes prazeres foi entrar em blogues de livrarias. Espera continuar a visitá-los, sempre que tenha oportunidade. E esta conversa não vai ficar por aqui.
Quanto a chapeuebengala, não lhe parece que possa ser propriamente o blogue de uma livraria, esta sua, a Culsete. Também não deixará de o ser, mas ao ter o nome que acabou por ter, deverá entender-se mais como o blogue de um livreiro velho. À sua volta uns amigos que até suportam os seus disparates com simpatia como já começou a acontecer, alguns que trazem o nível da sua escrita e da sua leitura como contributo ao bom convívio entre todos, ao fim e ao cabo um modo simpático de estar em comunicação com que se quer, como se quer e quando se quer. Sempre com os livros e a leitura por pano de fundo. Uma multiplicação dos bons momentos que tantos leitores me vão oferecendo aqui na "culsetezinha".
L. V.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PALAVRAS LIVRES (1)

"Palavras livres". Lembro-me. Ficou escrito. Livres!? Mas... Onde? Como? Quando? Porque o substantivo de "livres" não o são as palavras, mas a Liberdade.
Por entre o tanto e muito que se diz, quem me ajuda a encontrar "palavras livres"?

"-Não há vantagem em falar dos controles. De quem foi a ideia?"
"-Minha, X-47-CS-5000 AG. A vantagem de falar dos controles está em habituar as pessoas à ideia de que eles existem e são omnipotentes, omniscientes."
"-Realmente ele é capaz de ter razão. (...) Este computador é inteligente."
(...)
"-Tudo se passou com a maior precisão. (...) Os deuses acabaram, os demónios acabaram, os anjos acabaram... Eu sou o senhor do mundo!"
"-Desliguem-no! Desliguem-no! Está doido!"
(...)
"-Sabes? Estamos livres, livres, livres..."
"-E de que vamos viver?"
"-Agora, não temos ninguém nem nada no mundo senão tu ... Epimeteu... Que vamos fazer?"
(Jorge de Sena, Mater Imperialis (Teatro): Epimeteu, ou o Homem que Pensava Depois)

Não creio que mais longa citação de algum modo servisse para satisfazer a curiosidade de quem, como eu até hoje, não leu esta peça de Jorge de Sena. Encontrei-a porque a procurei? Não! Por acaso? Também não! Foi no meu trabalho comum. Uma pessoa, leitor exigente, à procura de Fernando Pessoa & C.ª. E Mater Imperialis ficou-me nas mãos. Hesitei entre chamar ao caso um "petisco" ou "palavras livres". Não sei. Gostava de saber da opinião de quem tenha lido o Epimeteu. Versus Prometeu, fica já dito, para aguçar a curiosidade a quem, com eu até hoje, não tiver ainda lido este texto de se lhe tirar o chapéu, como a tantos outros de Jorge de Sena.
E até parece de propósito, acontecer-me isto hoje! Epimeteu a dizer-me: Estou só e não estou... Eu sou quem sou... Logo agora que Portugal, donde Jorge de Sena se ausentou para poder ser quem foi, o acolhe em restos mortais que homenageia. Desliguem-me o computador! Não creiam nem na omnipotência, nem na omnisciência dos controles. Nem se controlem: "palavras livres"!
L.V.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

PETISCOS (1)

Foi um belo tempo, aquele em que o Livreiro Velho era jovem, tinha muito que aprender e lia muito! Lia tudo o que apanhava. Nem é bom comparar com os dias de hoje. Não era só o que não havia. Esta abundância em que estamos! Era uma sorte, apanhar livros para ler, fossem quais fossem. O Livreiro Velho sempre achou que conseguiu fazer com que aí a sorte estivesse do seu lado. Havemos de ter uma oportunidade para duas palavras sobre isso. A conversa aqui é outra.
Agora o Livreiro Velho, com todo o medo-de-saber que nas suas veias inoculou, só quer é aprender. Tanto que aprender! De que lhe serviu saber? O Mundo não virou Paraíso e o Mistério de Tudo continua além de cada deslumbramento. Por isso o Livreiro Velho deseja ler multidões de autores, livros sem conta. Mas lê tão pouco!... E logo agora que muito mais avançada é a consciência que tem da sua ignorância. A sorte dele, porém, continua a acompanhá-lo. Não consegue ler muito, mas petisca e tem sempre à sua volta estantes com preciosidades onde, hoje uma página, amanhã outra, vai enganando a fome e com tais requintes de sabor que até se esquece da hora de jantar e se não fosse a invenção do micro-ondas nunca provava comida quente.
Hoje passou-se, ao voltar a Mircea Eliade. Imagens e Símbolos. A tradução é brasileira, da Martins Fontes. Embaraça? Pois! Mas dá para petiscar, com subido proveito e prazer. Posso escolher para aqui duas ou três linhas? Tantas que valia a pena escolher! Só estas:
"Isto se torna ainda mais evidente quando lembramos que a função de um símbolo é justamente revelar uma realidade total, inacessível aos outros meios de conhecimento: a coincidência dos opostos, por exemplo, tão abundantemente e simplesmente expressada pelos símbolos,não é visível em nenhum lugar do Cosmos e não é acessível à experiência imediata do homem, nem ao pensamento discursivo".
Íamos longe! E mesmo com tão pouco, já vou apanhar o jantar frio.
L. V.

P. S.
O jantar arrefeceu, mas alimentou-se o blogue. Com os comentários da Rita Pimenta, do Onésimo, do João Ribeiro. Isto sensibiliza. Mãozinha da Fátima... Não o abriria, talvez, se não fosse chamado à atenção. Estava no petisco. Olha, trouxe-o para a mesa! Será que estou a ver bem? Parece que está a ficar redonda. Ou será efeito das minhas operações às cataratas?
M. P. M.




domingo, 23 de agosto de 2009

CHAPÉU PÕE-SE BARRETE ENFIA-SE

O Livreiro Velho, se quer levar a sério a sua entrada na Blogosfera, respeitando a comunicação e convivência em que por ela é lançado, tem de dizer a si próprio que Chapéu e Bengala é, logo à partida, um divertido convite ao bom humor.
Chapéu e Bengala! É a sua caricatura e uma caricatura humorística. Fácil de perceber. O Livreiro Velho sorri perante a caricatura e de imediato também percebe que só com o apoio da bengala poderá evitar que o seu chapéu vire barrete.
A minha colecção de bengalas é-me preciosa. A primeira! Usou-a meu avô quando era um jovem regressado do Brasil, no início do séc. XX. Época de jovens com bengala. Em velho já a não usava. Pedi-a à minha avó tinha os meus dezassete anos. Pus-me a passear com ela pelas ruas da nossa aldeia e só se riram de mim na primeira semana. Nem sequer deu tempo de se perguntarem que proveito tiraria um rapaz de ir assim passeando de bengala. E o orgulho da minha avó? Que ternura!
Só com uma boa colecção de bengalas, de se lhe tirar o chapéu, o Livreiro Velho pode acreditar que não está enfiando um barrete ao aceitar este desafio de alimentar um blogue.
E para já vem tirar o chapéu ao Damião Miguel e ao Urbano Bettencourt. Os primeiros a aparecerem com comentários. E o "feed" do Damião Miguel? Para o Livreiro Velho, já só por estes momentos felizes lhe teria valido a pena a entrada na Blogosfera.
Amigos e circunstantes: Chapéu e Bengala só contando com o vosso apoio pode ser um blogue com interesse. Foi para o criar e terá de ser para o ir alimentando. O Livreiro Velho tem uma razoável consciência das suas múltiplas limitações. O que o anima é esta surpresa boa, por pouco que já consiga fazer, de ainda estar vivo e activo neste tempo riquíssimo de oportunidades de comunicação e de criatividade.
Mais do que de livros, gosto é de leituras. As vossas leituras. Também as minhas. Dos Livros. Da Vida. Das pessoas que somos. Porque não é para sempre que podemos encontrar-nos e contribuir para que os nossos dias comuns, sujeitos a tantos virús, sejam dias felizes.
L. V.

sábado, 22 de agosto de 2009

ENKI BILAL – UM GÉNIO DA BANDA DESENHADA


Resolvi contribuir para o Chapéu e Bengala com um feed sobre banda desenhada. Há que ser diferente. Até porque não estou a ver o Livreiro Velho, vulgo Manuel Medeiros, a escrever sobre BD. E vai daí... Fica aqui o desafio. De qualquer forma, não sou intelectual. Nem sequer pseudo-intelectual. o artista que está no tema, esse considero-o como tal.

Portanto, o tema deste feed é o Bilal – o “o” é premeditado, porque aqui quer-se um tom mais informal e próximo, típico da BD, apesar desta ser uma arte. Isto porque descobri recentemente a tetralogia Hatzfeld que já anda aí desde 1998, sendo que o último título saiu na sua edição original em 2007.

Bilal é um autor de BD nascido em Belgrado, ex-Jugoslávia, hoje Sérvia, em 1951. Cada vinheta sua é uma obra de arte. Algumas são absolutamente extraordinárias. Às vezes até defino imagens dele como fundo do ambiente de trabalho no computador.

Nem todos os álbuns publicados pelo autor saíram em Portugal, mas os mais importantes, esses sim. E a maior parte estão aqui em casa, numa prateleira da estante ou ali na mesa-de-cabeceira. Suponho que a mais importante obra do autor será a trilogia Nikopol que deu origem ao filme Immortelque, por acaso, ainda não vi, pois só o descobri há dias. Gostei muito dessa história, mas sublime mesmo é A Caçada. As Falanges da Ordem Negra também não lhe ficam atrás. O primeiro é a história de uma conspiração e o segundo um conto de gente resistente.

A imagem deste feed está na capa do álbum 32 de Dezembro, terceira parte da tetralogia de que falei.

Tudo isto está obviamente online. Fica aqui o site oficial:

http://bilal.enki.free.fr/

Abraço e boas leituras!

Damião Medeiros


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

AS ARRELIAS DO LIVREIRO VELHO (1)

São muitas! Mesmo virando costas às mais risíveis e sombreando as menos discutíveis, ao Livreiro Velho restam muitas arrelias para lançar ao barulho no ecrã dos simpáticos blogers que lhe acolherem o "Chapéu e Bengala" no vestíbulo das suas consultas, ou seja, nos seus Favoritos. E é sem sair do Mundo dos Livros, evidentemente...

Esta é já uma: os prazos de validade dos livros. Não é? A ficha técnica agora já inclui obrigatoriamente a data de edição. Uma das mais respeitadas bases de trabalho da Lei do Preço Fixo dos Livros, esse produto acabado da da arte maravilhosa de fazer leis para não resolver os problemas reais. E o prazo de validade? Porque é que nos livros não vem indicado? Como nos medicamentos ou nos iogurtes? Exactamente! Quem me vai dizer que estou a delirar? Como se o livreiro não soubesse ao que se chega!!!

Livros, livros e mais livros! Só que os leitores que sabem o que querem (são muitos e os melhores e talvez os mais respeitáveis, sendo que, evidentemente, todos o são), quando procuram um livro, ou não chegam a encontrá-lo ou penam para o encontrar em algum livreiro que, por não o ter devolvido, arrisca queimar-se junto da editora ou distribuidora . E porquê? É simples: por causa do prazo de validade! Foi retirado da circulação! Os leitores têm que se habituar. Têm de comprar os livros quando os editores querem que eles se vendam. Não quando lhes apetece ou precisam. Arriscam-se a que caiam no fora de prazo. Alguns ainda pode ser que venham a aparecer na confusão dos saldos, saldos declarados ou disfarçados de feiras. Mas cada vez o inevitável fim, para muitos livros, é a condenação inapelável à guilhotina. Tanto faz que sejam obras primas ou apenas papel sujo de tinta. Todos foram feitos para vender e não para ler. Portanto os leitores têm de respeitar os prazos de validade. Mas como é que podem? Não vêm indicados!...

É uma arrelia! Cada vez mais constante! E ninguém pergunta porquê nem ninguém se propõe explicar. Estranho! Arreliante!

Por agora, basta. De arrelias e de

LIVREIRO VELHO

domingo, 2 de agosto de 2009

SOB A PROTECÇÃO DA SERRA DA ARRÁBIDA

O Livreiro Velho hesita em deixar-se seduzir pela hipótese de ainda ser capaz de atinar com a navegação pela Blogosfera. Trazem-lhe o chapéu e a bengala para que sorria à sua caricatura e se sinta igual a si próprio em sua deselegância e insignificância. Finge que não, mas de si para si está mesmo a sorrir com o carinho com que assim o caricaturam. Até que, quando já parecia esquecida a brincadeira, surge esta tarde tranquila em que uma luz preciosa ilumina a Serra da Arrábida e o Livreiro Velho é desafiado a lançar no ecrã a primeira mensagem do blogue.

Olhar dos altos da Serra da Arrábida para os lados da terra ou do mar convoca o silêncio necessário às palavras para que tenham sentido em si mesmas, livres de quem as diga, na medida em que brotam do sentir e do pensar espontaneamente, sem controle de intenções, e livres de quem as ouça, pois que a ninguém são dirigidas.
Palavras livres! Como as coisas que são o que são.

Sob a protecção da Serra da Arrábida o Livreiro Velho experimenta uma navegação certamente menos arriscada do que a de tantas embarcações que Ela, a Serra Deusa, viu sair do Sado para os mares desconhecidos e sem fim.