segunda-feira, 26 de outubro de 2009

DESPEDIDA DO ABETO DE ANDERSEN

O tempo é pouco e as forças menos. Mas deixar passar? O Livreiro Velho continua a recusar-se a ir à bola com medíocres, cobardes, ignorantes, indiferentes, interesseiros adoradores do seu umbigo e abutres de ridícula importância, mas de sagaz competência em arrecadar proventos.
Quem quiser que fique em sua casa. Não faz cá falta. São muitos os que, embora em sua impotência perante a onda da estupidez avassaladora, se respeitam e se empenham em respeitar o que merece respeito.
Sábado à tarde. Ir ver a exposição «Morgado de Setúbal», comemorativa do centenário deste artista tão ilustre cujo nome tanto ilustra a cidade onde viveu e morreu. Envergonhar-me ao saber tão pouco visitada esta exposição de vinte e quatro dos seus quadros, que se vê que é resultado de um meritório esforço e que nem tão cedo se voltará a repetir. Depois, ainda na atrapalhada Av. Luísa Todi, aonde se tornou tão desagradável circular, visitar o Abeto de Andersen.
Já há dias, de passagem, me incomodara o aspecto. Acompanho esta respeitável Árvore desde que chegou a Setúbal, há onze anos.
Completar-se-ão no próximo dia 29 deste mês de Outubro. Nunca o vi assim, com tão mau aspecto. Vi-o sorrir de viço, apesar dos receios iniciais com a mudança de clima. Vi-o maltratado e agredido por gente sem respeito e sem vergonha. Vi-o resistir e afirmar-se vivo para os seus cem anos de crescimento. Mas parece que foi de mais e que está em agonia. À cautela, aproveitei para me despedir. Desta vez olhei para o chão. Terá sido daí que poderá ter vindo uma agressão fatal? Deixo a resposta para o que vier a acontecer e para os entendidos e responsáveis.
Alguém se lembra do panfleto que escrevi e divulguei em Abril sobre a inconsciência com que foi urbanisticamente tratado este monumento à simpatia de Andersen para com a cidade e região de Setúbal? Que agora vá ver. Nem numa palha se mexeu. Alertei aí e tinha alertado muito antes para o perigo que havia. Agora? Se calhar já é tarde. Embora eu nada perceba do que se possa ter passado debaixo do chão que esconde as raízes e só pelo que vejo nos ramos me sinta inevitavelmente alarmado.
Quem vai dar importância a este caso? E no entanto, não posso esquecer-me de que, naquela tarde de 29 de Outubro de 1998, a plantação da Árvore de Andersen em Setúbal foi feita com a dignidade festiva que lhe emprestaram centenas de crianças, seus pais e professores, respeitáveis cidadãos, notáveis escritores, os edis, o embaixador da Dinamarca, o representante da Unesco e a representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Gente de respeito. E agora? Se alguém, à cautela, também quiser despedir-se e desejar a minha companhia, estou disponível.
Revoltado? Pois, claro! Embora inutilmente e em minha insignificância.
Portanto, expondo-me ao ridículo. Mas para meu herói antes o Dom Quixote do que quem anda a erguer monumentos em que dependura as cordas onde o irão enforcar.

Manuel Medeiros

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TERRAS DE ALÉM TEJO - Mora – Anta de Pavia


Tem uns bons milhares de anos (vem, talvez, de meados do séc. IV a.c.) este curioso dólmen que terá sido «constituído por uma mamoa ou montículo de terra e de pedra, que o ocultaria na imensidão da planície alentejana, uma câmara e um corredor». Resta a câmara funerária posta ao serviço do culto católico na Idade Media


Monumento Nacional, tem de altura 3,30 m e 4,30 de diâmetro.




O altar apresenta este painel de gosto barroco em má hora colocado no lugar duma pintura popular datada de 1600.



Que tal?

Velho livreiro, imagina-te agora a fugir duma manada de toiros bravos numa antiga herdade da Comenda para os lados de Montemor-o-Novo, quando pretendias visitar outra grande anta, tu açoriano que até nem és da ilha Terceira: à tua frente, soltando gritinhos aflitos uma adolescente e uma dama de saia travada tentam correr. De repente, a toda a brida, passa perto um tresmalhado que se vai juntar aos outros… Olhas para trás e vê-los, serão pelo menos nove, postados em fila ao lado da Anta como guardas sagrados da Pré-História!


Um ‘sagrado’ abraço.

Olegário Paz