Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
QUEM ESTARÁ A LER? E A LER O QUÊ?
E lê-los?
Ou isso já ao livreiro não diz nada? Vendeu o que vendeu e... até para o ano!, nisto de contar com que persista o bom hábito de oferecer livros pelo Natal.
Se há, ao perto ou ao longe, quem pinte um tal retrato do livreiro, posso entreter-me por um minuto a borrar a pintura?
Um minuto! Não é pedir muito. Um minuto agradável a imaginar os bons momentos de leitura que o intenso trabalho livreiro dos dias que precederam o Natal estão por aí a proporcionar a muitas pessoas.
-Olha ele! Como se não soubesse que muitos dos livros oferecidos nem serão abertos!... Cumpriram o rito da prenda e... viagem terminada.
O Livreiro Velho sorri a tal comentário com condescendência. Mas não vai sair da sua. Quem quiser que continue a alimentar-se desse negativismo tão generalizado de voltar os olhos para o lado pior. Perde a oportunidade de ver o melhor, que, pese embora toda a melancolia que vem do outro lado, é uma fonte inesgotável de surpresas felizes.
L. V.
Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
Terras de Além Tejo – Mora – N. S.ra das Brotas
«Sobre um fundo de nuvens e um recanto de paisagem, aparece Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo. A seus pés a vaca já morta e o pastor ajoelhado, em adoração da Senhora e de seu Filho. Não é uma pintura de grandes primores técnicos, antes pelo contrário, e o que faz o seu encanto é a sua ingenuidade popular bem marcada.» (Lopes Cordeiro).
Dizes bem, velho livreiro, não é o presépio de Francisco de Assis, não tem burrinho e a vaquinha está morta! É, sim, um painel de vinte azulejos do século XVII em que setubalenses da confraria de Nossa Senhora das Brotas entenderam registar para a posteridade o milagre da cura de uma vaca, razão de ser do culto medieval e da ermida, situada ao fundo dum barranco e dedicada à Mãe de Jesus. O quadro fica por detrás dum pequeno altar situado na varanda da galilé.
Diz a lenda que a vaca tinha caído na ribanceira. A Senhora curou-a e, em troca, pediu que lhe construíssem, ali memo, uma ermida em sua honra. E assim se fez. Terá pertencido inicialmente a S. Pedro das Águias, patrono duma importante vila do mesmo nome, entrada em pleno declínio já durante século XVI. A devoção à Senhora alargou-se de forma a atrair ao local peregrinações de todo o país e até da Índia e do Brasil.
Testemunham-no as casas de alojamento de peregrinos construídas pelas confrarias de Cabeção, de Cabrela, de Lavre, de Mora, de Palmela e, particularmente, a de Setúbal que teve papel preponderante nos melhoramentos do edifício realizados ao longo dos séculos XVII e XVIII. Devem-se-lhe, também, os azulejos da capela-mor, do cruzeiro e da nave, então ampliada.
A fachada do templo erigido Santuário e Monumento Nacional contempla três níveis, rés-do-chão, varanda e cimalha. No interior podem apreciar-se vistosos retábulos, ao fundo e aos lados, com os seus nichos e as respectivas imagens, frescos diversos e um quadro com pintura evocativa do milagre.
O nome de Brotas «proveio», diz o citado autor, «de uma planta cheia de virtudes medicinais denominada abrótea [toma lá esta, açoriano, ou pensavas que isto de abrótea era pertença exclusiva dos teus mares!]. O Santuário Mariano assina-lhe [à abrótea planta] muitas [de tais virtudes]. Assim, a semente e a folha pisada ou fervida em água alivia das cãibras, quebraduras e ciáticas […] também faz crescer o cabelo aos calvos e para que assim suceda basta queimá-la em cinza e misturá-la com óleo de semente de rábano, untando depois as partes calvas.»
Ora aí está! Feliz Natal.
Olegário Paz
Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
RAZÕES DE QUEIXA? ATÉ NO NATAL?
Antes que aconteça perguntar-me se a generalização é ou não metafórica, apresso-me a virar a conversa para outra direcção, sem deixar de anotar que sempre encontrei pessoas que, por mais razões que tenham para o fazer, não se queixam, por delicadeza, isto é, para não descarregarem sobre os outros as suas tristezas, dores ou problemas.
São dias bons, na livraria, estes que antecedem de perto o Dia de Natal. Já o disse. Apesar disso, cá estão as razões de queixa a perseguir!!!
As nossas, de quem cá trabalha. As de pessoas que vão por cá passando.
Estamos satisfeitos por haver movimento. Como não? Mas só quem não quiser é que não compreenderá que este excesso de trabalho não há dinheiro que o consiga pagar. Nos momentos em que satura, é natural que apeteça uma queixa. Depois passa, evidentemente. E com a maior das facilidades quando a pessoa que atendemos traz as prendas pensadas e vai perguntando por um livro e ele aí vem, a seguir outro e é só ir à estante, ainda outro, e... Até que... «está tudo!». A satisfação dessa pessoa, revelada por palavras também mas sobretudo pela expressão facial, «vale um dinheirão»!, para quem acima de tudo prefere, na vida e portanto no seu trabalho, ser gente entre gente. Compensa!
A pena é que cada vez é mais difícil a uma das agora chamadas «livrarias independentes» estar preparada para propiciar momentos assim. E se fosse só no Natal, com os livros para prendas!... Pois! É que cada vez mais vai sendo um grande problema do dia a dia.
Queixam-se as pessoas, queixa-se o livreiro. Para que se prove que «toda a gente se queixa», porque não convidar para o coro os editores e distribuidores, a ver se é possível minorar as razões deste fenómeno, tão risível!!!, de os livros que as pessoas procuram estarem fechados em armazéns, à espera de que já só sirvam para saldar ou guilhotinar, por não haver nem espaço nem gestão financeira que os suportem?
L. V.
Domingo, 20 de Dezembro de 2009
O NATAL E OS LIVROS DÃO-SE BEM
Ver, ouvir, observar, refelectir. Pode ser que concorde: o Natal e os livros dão-se bem. De ano para ano se comprova. Não foi sempre assim? Também se pode depois perguntar isso. A pergunta agora e aqui é sobre o que isso significa. O Livreiro Velho tenta perceber o porquê do fenómeno. Será que, afinal, o culto do livro não está tão por baixo como alguns pensam? Será que é o livro a facilitar a necessidade de dar a prenda - «resolve-se com livros»? E mesmo assim... O que interessa saber é se quem recebe aprecia receber um livro.
Depois, durante o ano, as mesmas livrarias, a mesma população e a sensação de que o apetite pelos livros só reaparecerá no próximo Natal.
Quando era criança, não me passava pela cabeça comer figos passados noutra altura. Natal e figos passados davam-se bem. Não quero comparar, nem esses tempos com os actuais, nem os livros com os figos, fico é a pensar.
Se as pessoas gostam de ler, como posso contribuir para que tenham apetite ao longo de todo o ano? Ou não é de pensar nisso? Gostava de falar com alguém sobre o assunto a ver se aparece uma boa resposta.
L. V.
Sábado, 12 de Dezembro de 2009
DIREITO À CRÍTICA
Sempre, desde muito novo, fiz crítica (criticazinha, bem entendido, como praticante de escrita em jornais e revistas, como livreiro e como amigo de autores que me pediram opinião sobre originais). E também fui criticado, mas pouca atenção dei a isso como facilmente se explica. Mal começara, interrompi uma optativa carreira de escrita. E não é agora que a considero ou quero retomada. Não é isso! Sim, também diz respeito a este caso da publicação de Papel a Mais, mas a reflexão faz sentido em si mesma.
Críticas competentes e incompetentes, não são a mesma coisa. Favoráveis ou desfavoráveis, também não. Mas o pior que pode acontecer a quem publica, se foi capaz de auto-crítica, é não ser criticado. Parece-me. A indiferença ou o silêncio, por falta de atenção e sobretudo por positiva intenção, atacam de não-sentido a publicação muito mais do que qualquer crítica arrazadora. Parece-me.
Continuo? Alguém poderá continuar, que, por hoje, o Livreiro Velho não deve roubar mais tempo à livraria.
L. V.
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
BEBER DE MAIS SEM FICAR BÊBADO
Bela tarde a de ontem, 6 de Dezembro de 2009/AV, na Culsete, depois do belo serão da sexta-feira, 27 de Novembro de 2009/AV, na Casa dos Açores de Lisboa! Não foi «com» o Papel a Mais ou «com» ele, se bem que também para ele como para os outros participantes. Foi «à volta» dele e desse seu livro, o que é outra coisa. Um excesso!
Artur Goulart, nas amigas palavras que lhe dirigiu, repreendeu o Livreiro Velho, exactamente por juntar este adjectivo ao respectivo substantivo. Mas ele riu-se, não se ressentiu nem nada!, com a repreensão. Artur Goulart até disse que só era um ano mais novo e que sabia muito bem o que era a verdade... Então como é? Portanto, que venham livreiros novos, que de isso continuar possível é que se trata! Quanto ao Livreiro Velho, dá-lhe uma alegria muito grande sentir à sua volta gente tão boa e com expressões de felicidade tão evidentes. Não sei até se ele não devia descer a pormenores, nomear pessoas, agradecer a cada uma, excesso a excesso. Aqui?
Muito se bebeu! Moscatel, como estava previsto, sim senhor. Mas disso até muitos nem provaram. Foi o mais! Taças cheias e umas a seguir às outras! É verdade que o Livreiro Velho ficou um pouco atordoado e dedilhou na viola algumas das suas cordas da asneira. Mas que foi uma tarde de excessos e felicidade a corresponder, isso é que foi! Com livros, leitura e leitores! Ah! E com muita estima! E pessoas que gostaram de se encontrar!
Velho, porque não? Antes isso lhe chamem do que o que ele sabe que, muitas vezes e diversos modos, é preciso ser para conseguir excessos, embora sem ser possível evitar por completo o exagero: um velh(...)!
L. V.
Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
BOOK PARTY DE DOMINGO À TARDE
O que estou é na disposição de descontraidamente contribuir o melhor que souber e puder para que seja uma tarde bem passada, com toda a gente que quiser aparecer. Gente dos livros, amigos, pessoas mais anónimas ou mais notáveis que frequentam a livraria ou outras que há muito tempo não vejo e inclusivamente quem não conheço, mas a quem a notícia despertou curiosidade. Afinal, coisa simples. Tudo a depender da disposição de espírito de quem quiser aparecer e, evidentemente, do interesse por livros e leitura, um mundo, esse dos livros e da leitura, que atravessa um momento repleto de contradições.
O Livreiro Velho mete-se em cada uma!
L. V.
Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
UMA COISA É CERTA
Tenho obrigação de voltar a sexta-feira em memória... Pois! O Livreiro Velho sabe como é isto da memória, quando a idade começa a fazer efeito: o mais recente evapora-se cá com uma facilidade...! Mas foram impressões tão fortes, que vou confiar em que, quando for tempo de recordação, ninguém nem nada deixarei de mencionar, aqui ou noutros sítios.
E no próximo domingo à tarde, como vai ser? Francamente, se for como sexta-feira na Casa dos Açores de Lisboa, tenho de exigir-me estar à altura, como anfitrião agora, dos anfitriões que lá me receberam. Sei que não vou conseguir, mas farei por receber os amigos e leitores de modo a que o tempo em que estivermos em convivência seja tão feliz como o que se viveu na sexta-feira, 27 de Novembro de 2009, numa Casa dos Açores tão cheia de emoções e de suas razões. Um serão inesquecível!
Até domingo, agora aqui em Setúbal, a cidade em que a escrita foi para mim «papel a mais» durante quatro décadas e por uma boa razão!
L. V.
