quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DUAS LINHAS DESENHA O BANCO DA ESPERANÇA SOBRE O MURO EM FUNDO

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Chegar a «último dia do ano» sem que tenhas satisfeito a necessidade sentida desde há meses, neste 2010, de reler Antero.
Sentas-te no banco  e voltas as costas ao muro sem pensar em que o fazes.
De saco ao ombro e olhar em frente seria de esperar que um braço se tivesse levantado. Ou deste banco o que se vê não anima a caminhar? Não sei bem. Mas sei muito claramente que Antero de Quental vou ter que continuar a lê-lo em2011, cento e dez anos depois de se ter assentado no Banco da Esperança.
L. V.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

BONS TEMPOS! E TÃO JOVENS! E O FUTURO TODO QUE HOJE ESTE LIVRO CONTA!

IGUAL

SE CONSEGUISSES
VOLTAR A SER O QUE UM DIA FOSTE…
E FECHASSES NA MÃO, COMO UM BRINQUEDO,
A CURVA DOS TEUS PASSOS…

SE FOSSES SEMPRE IGUAL
E TIVESSES NOS OLHOS
A SOMBRA DAS GIESTAS

VERIAS
QUE PARA ALÉM DAQUILO QUE SE FINGE
HÁ SEMPRE A CERTEZA DAQUILO QUE SE É,
COMO PARA ALÉM DAS FOLHAS MORTAS
                   E DO MAR REVOLTO
HÁ O SEGREDO DAS COISAS INDIFERENTES.

                                                                       ANGRA, MAIO DE 1956
(ARTUR GOULART, NO FIO DAS PALAVRAS, PÁG. 27)

«Há o segredo das coisas indiferentes». Quer dizer…
No Fio das Palavras pode não ser um livro fácil de encontrar por um qualquer leitor numa qualquer livraria, mas para nós, os privilegiados que agora o temos nas mãos, após tantos anos a querer vê-lo editado, é um livro precioso, carregado de tempos, de percursos ricos de vivências e convivências: vida, literatura, artes…
De 1954 a 2010, os poemas que são livro em No Fio das Palavras. Anos 50? Será que houve anos 50? Ou os 60 vieram do nada?
«Há sempre a certeza daquilo que se é».
Ainda não agradeci como e quanto devo, a quem devo, esta alegria que há tão pouco tempo continuava tão distante…

L. V.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LÊ, MAS NÃO ESCREVAS! NÃO ESCREVAS!

JÁ NÃO SÃO PRECISAS AS VOSSAS FERRAMENTAS
(…)
PODEIS GUARDAR TUDO ISSO PARA
DEPOIS DE AMANHÃ (QUANDO
COMEÇAR A PRÓXIMA ETERNIDADE)

POR ORA DEIXAI OS NEGÓCIOS
(…)
OH! E ESSA DEPLORÁVEL QUESTÃO DOS DIREITOS DO HOMEM
(…)

SIM DEIXAI TUDO ISSO
- E MESMO DIGO-VOS E MESMO A POESIA!
(DE QUE VOS SERVIU?) -

DEIXAI TUDO ISSO
ENQUANTO TIVERDES
O QUE DEIXAR

DEIXAI TUDO ISSO

(Eduíno de Jesus, Os Silos do Silêncio, pág. 343)

Lê! Lê!
Podes ler o poema todo.
Verso a verso.
Punhal a punhal.
Mas não escrevas! Não escrevas!
E se caíres em escrever
NÃO ASSINES
OH! NÃO ASSINES!

L. V.

sábado, 25 de dezembro de 2010

QUEM MUITO FALA…

Não era preciso completar, pois não?
«Quem muito fala, pouco acerta». Sábia sentença! Uma sentença que muito respeito, mas…
É o destino! Acertar pouco! É por isso que a partir de certa altura da vida tive de pôr-me a falar muito… Como acertava pouco, tinha de ser. De outro modo não colheria acerto suficiente para o sustento do dia a dia.

Ora acontece que sou obrigado a falar ainda mais, a partir da nova etapa da vida que o Natal deste ano de 2010/pso me trouxe de prenda. Previsão: não haverá fogo que chegue para a tanta palha!
Mesmo sabendo tudo isto com antecedência, estou numa de me atirar de cabeça e há-de ser o que for. Fugir, como? Tenho mesmo que acertar, ainda que seja uma em cem ou até mil, para que esta incapacidade de me passear pelas minhas quintas, a trabalhá-las com o empenho de até agora, não me lance no despenhadeiro de uma vida parada. Sem nada fazer, de que vale viver?

Grito bem alto e quanto posso     li-vre      li-vre
e a palavra enche redonda e prenhe o espaço
desfaço prisões preceitos preconceitos
sinfonia perene de acordes imperfeitos
(Artur Goulart, No Fio das Palavras, Velas-S. Jorge, 2010, pág.93).

A ver se neste estar por um fio é um acerto amarrar-me com o «fio das palavras» ao amor e beleza da realidade ambiente.

L. V.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CONVITE PARA UM COPO

Mesmo quando a combinação de cores representa a Vida sob as quantas  formas que a História, a Ficção ou a Ilusão inventam, a Festa é sempre a Festa da Vida.
Até posso agarrar hoje e mais uma vez no Morte e Vida Severina e tentar que os amigos menos azafamados me acompanhem – bem sei, está toda a gente na roda viva do 24 de Dezembro…
Bem sei! Bem sei!
Como é que sei?
Já lá vamos. Antes, porém…

No dia e momento em que o sentido da viagem já só dá para que o «severino» salte «fora da ponte e da vida», o Nascimento do Menino faz eclodir no inteiro Universo que o envolve um contagiante Hino de Alegria.
Que grande página! Que perfeição de simplicidade nesse tão belo Cântico à Vida!
Recordar hoje o momento em que pela primeira vez li esta passagem de Morte e Vida Severina também será acaso, mas sabe a mais qualquer coisa de coincidente.

Por esse mais qualquer coisa é que o Livreiro Velho está feliz por poder viver este Natal em família e a ser menino com os seus três netos. E tem gosto, este muito-gosto de o vir dizer aqui.
Pela primeira vez, depois de menino, o Livreiro Velho volta a passar o 24 de Dezembro como em menino o passava: só à espera de que a noite chegasse para que acontecesse a Noite de Natal.

«Como é que sei?»
Agora já é óbvia a resposta: de manhã à noite, o dia 24, ano após ano em muitos anos, que duro dia de trabalho, por mais alegre e compensador que fosse!
Não era bom?
Era, era. Muito bom, porque em casa também na cozinha havia dura azáfama.
E então?
Então, agora que me deu para voltar a estar livre de azáfamas, por respeito às exigências do continuar na Festa,  aos amigos que têm vindo aqui ao «chapeuebengala» e só têm encontrado nada a seguir a nada, desde há uns tempos, convido-os a,
onde quer que estejam,
encherem o seu copo.
Para?
Para bebermos juntos
ainda mais este copo
em louvor da Vida.
Feliz Natal!
L. V.

domingo, 28 de novembro de 2010

HÁ MOMENTOS MUITO BONS!

Ontem foi bom de mais para que o L. V. queira e possa ficar calado!
?
Evidentemente:
a anunciada sessão de lançamento, aqui na nossa Culsete,  de Edição e Editores . O Mundo do Livro em Portugal,  1940-1970.
Tudo a concorrer, até o facto de na mesma tarde ocorrerem em Setúbal, e cada um em seu local, mais três lançamentos de livros, como no seu blogue («nestahora») hoje comenta João Reis Ribeiro.
Trago para aqui os nomes das pessoas que fizeram da tarde, aqui na livraria, uma tarde feliz de excelente nível intelectual e de calor humano?
Impossível!
Os participantes excederam outra vez as expectativas, a ponto de faltarem à volta de vinte «lugares sentados» (mea culpa!). Amizade, muita amizade! Interesse, muito interesse!
E o L. V. a desejar, mais do que a venda de muitos exemplares (também nesse aspecto superadas as expectativas da sessão), que ninguém por si mesmo considerado como fazendo parte das «Gentes do Livro» deixe passar muitos dias sem ler esta obra, tão importante  para todos os que pensamos «O Mundo do Livro em Portugal».
L. V.

sábado, 20 de novembro de 2010

«O MUNDO DA EDIÇÃO E DOS EDITORES DE LIVROS»

 

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O título do post e agora a frase completa: «O tema deste livro é, então, o mundo da edição e dos editores de livros, e o seu objecto específico concerne à configuração que este mundo adquiriu em Portugal durante parte substancial do período do Estado Novo».

Este livro! Como é que este livreiro que sou, Livreiro Velho, cada vez mais longe dos seus começos, se sente ao chegar-lhe este livro à livraria e ao expô-lo na montra? É que por mais que a grande festa tenha sido ver e ler o original acabado, vê-lo em livro e folhear este livro é muito outra coisa, é bem outra a sensação.

Nuno Medeiros, Edição e Editores – O Mundo do Livro em Portugal, 1940-1970, uma edição ICS - Imprensa de Ciências Sociais. Prémio Fundação Mário Soares de História de Portugal do Século XX de 2009, lembra a cinta.

É um orgulho – nada de o esconder por modéstias tolas – para o Livreiro Velho. Porquê? Porque o Nuno é seu filho e este livro é de um valor extraordinário para todos nós os que vivemos e pensamos com seriedade e dedicação o mundo dos livros.

Sinceramente.

Gostava mesmo que, na tarde do sábado, dia 27 do mês corrente, às 16h, dia do lançamento na Culsete, o ambiente aqui na livraria fosse de encontro entre algumas das pessoas que a sério e a fundo se dedicam ao livro. Um encontro de «Gentes do Livro». Até porque a apresentação do livro será feita por Diogo Ramada  Curto.

É que, não tenho receio nenhum de o dizer nem vejo qualquer hipótese de alguém me contradizer, não há muita coisa publicada assim tão válida sobre a edição de livros portuguesa.

L. V.

sábado, 13 de novembro de 2010

FERNANDO AIRES: « O CORAÇÃO PODE PARAR»

«É lei da vida, acontece a todos: a pobres e a ricos, a reis e a rainhas. Pois sim, mas custa que se farta! Nascemos para ser fortes, cheios de saúde, senhores de nós e do mundo, da vida – não para as dietas, os medicamentos, a incerteza do dia de amanhã em que o coração pode parar»(Fernando Aires numa carta de 2001).

Ir ao Google. Escrever «Fernando Aires».  Início da pesquisa começando por clicar em RTP-AÇORES, Blogue COMUNIDADES: Carta Aberta a Fernando Aires, Onésimo Teotónio Almeida.

Antes de seguir para o muito mais que a seguir ao texto do Onésimo se pode ler, para estarmos com a memória de Fernando Aires, transcrever  o final do post-scriptum:
«E-mail do teu amigo e companheiro de geração, o Eduíno de Jesus. Arribou há pouco, direitinho de Lisboa, numa só linha, como poema saído do silo do seu silêncio: Queria que o Fernando Aires ainda estivesse vivo...
Por isso eu acabo abruptamente, acrescentando apenas: E eu também.
É isso. Só.»

- E eu também.
- E eu também.
- E eu também.
Em quantos de nós o eco e o mesmo sentir?
Em todos os que ao longo dos longos anos tomou por amigos.
Sim, muitos amigos!…  E muito amigos!…

Cultivar a amizade era  um saber-e-arte natural em Fernando Aires. Se ele se tivesse empenhado na escrita tanto quanto se empenhou no cultivo de generosas amizades a obra do Fernando Aires, não sei…! E mesmo assim a obra, em sua relevância que muitos estão a sublinhar por estes dias,  a ser escrita e publicada sempre com os excessos de modéstia. Para além da desculpa que era capaz de confessar: preguiça. «Uma preguiça espessa, maligna, que me tolhe».

É bom saber que a obra literária de Fernando Aires(nomeadamente os seus diários intitulados Era Uma Vez o Tempo) em breve estará novamente disponível.
Na História da Literatura Açoriana o nosso Fernando Aires é já um nome consagrado e incontornável. E na Literatura  Portuguesa em geral? Quantos diaristas estão à frente dele?

18 de Janeiro de 1928 – 9 de Novembro de 2010.
Soube tão bem saborear a vida, o Fernando!
Mais entranhado ainda do que o prazer da escrita, o prazer da leitura.  Com tempo hei-de recuperar a palavra de antologia que lhe ouvi e anotei, num serão lá na ilha com ele e a Linda, sobre o papel da leitura nos seus anos de bonita idade.
Agora fica aqui é esta  palavra de uma outra das cartas que guardo:
«Felizmente tenho aprendido algumas respostas com a vida. Cada vez são mais simples e pequenas as coisas que me dão alegria: uma carta amiga; a orelha macia do meu gato; descobrir mais uma folhinha nova na buganvília do jardim».

Adeus, amigo…
L. V.

domingo, 31 de outubro de 2010

MADALENA FÉRIN - Chegou ao fim o “intervalo entre o nada e o nada”

 

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Os anos e as circunstâncias passam, mas continuo a cair no mesmo erro. Por que adio eu tantas vezes a necessidade de escrever sobre alguém que se cruzou comigo (e me tocou) na praça da leitura? Por que persisto em dizer a mim mesma que estou cheia de obrigações penduradas na corda das urgências? Que mal é este crónico em mim que me faz arrastar até à inevitabilidade vontades que me invadem e que só o marcar de datas para isto e aquilo consegue vencer?

Cá estou eu, confrontada de novo com a morte de alguém que fez da escrita um dos gestos mais significativos dos seus dias e que inscreveu o seu nome e os seus versos na minha antologia pessoal. Refiro-me a Madalena Férin, que chegou “ao cais do nada” para “nunca mais voltar” no passado dia 5 de Setembro.

No já longínquo ano de 1988, apôs ela na página de rosto de um exemplar de A Cidade Vegetal, feito prenda sua, a seguinte dedicatória:

À Maria de Fátima Medeiros,
a muita amizade desta açoriana desterrada
Madalena Férin

E ao entregar-me o livro disse baixinho, com um sorriso nos lábios e no olhar: Este é só para ti. Coisas nossas.

Aquela cumplicidade e aqueles olhos haviam de regressar sempre a todos os nossos encontros, mesmo quando a saúde, essa traidora, pregava as suas partidas.

Tenho por estes dias procurado encontrá-la nas antologias poéticas dos últimos anos e nada… Nem sequer os Cem Poemas Portugueses no Feminino a incluem (Então, Josés?). Mulher e ainda por cima assumindo-se das letras açorianas…  De parabéns estão Pedro da Silveira e Ruy Galvão de Carvalho que não a ignoraram (não conheço as antologias que mais recentemente preparou Urbano Bettencourt, por isso não posso confirmar se incluem ou não textos de M.F.).

Não era de vedetismos, não gritava olhem para mim, leiam-me, que vale a pena, aparecia nos sítios para ouvir os ditos donos das letras e escondia-se nos fundos das cadeiras para que não dessem por ela, por isso passou entre jornalistas e editores e leitores sem que sentissem o seu perfume de palavras que, contudo, está no ar. Tocou em vários géneros, mas é a sua poesia que mais se afeiçoa ao meu sentir.

Sem mais comentários, aqui ficam alguns poemas de Meia-Noite no Mar (1985) e A Cidade Vegetal (1987), os mais meus dos livros de poesia de Madalena Férin.

Arraial

Que sombra de infância
p
erpassa na gente!
Estrelas pousadas
nos braços das árvores!
e todos andando
e todos buscando
atrasar o tempo!
E o tempo correndo
e a roda girando
e as estrelas caindo
e as pedras voando!

Eu sou entre tantos?
Que é feito de mim?
No pomar de estrelas
– perdida, perdida –
nunca mais me encontro?

[Se a vida é um intervalo]

Se a vida é um intervalo
entre o nada e o nada
tormentosa viagem
entre dois portos inexistentes
que bom será chegar ao termo do caminho.

Não ter ouvidos nem para o silêncio
nem olhos para a sombra ou para a luz
nem alma para os anjos
Chegar ao cais do nada
e nunca mais voltar…

Auto-retrato

asa talvez
mas réptil
indeciso
entre o voo
e o rastejo
ave talvez

rasgando o lamaçal
mas serpente
mas lava
mas parede
         que aparta

pomba
faca
rastilho

pedra no ar

[Verde é o riso]

                        Verde é o riso
e traz o selo intacto
e as marcas verticais
das estátuas nuas
como a mentira em todas as verdades
e o lírio branco em todas as mentiras

                       Verde é o riso
no espaço marginado
entre a manhã e a noite
das vertigens

F.R.M.

[Foto: Outubro de 2001, no F. Luísa Todi]

sábado, 30 de outubro de 2010

«LUCIDEZ BARBITÚRICA»* OU RESPOSTA À TUA CARTA EM NADA ANÓNIMA

Gostei da expressão «lucidez barbitúrica» e já sei que não te surpreendo com isso, mas vamos lá a ver: afinal queres atar-me ao futuro ou ao passado? Talvez a um, talvez ao outro. E vai daí, se o culpado sou eu, enganei-te e enganei-me talvez um pouco a mim mesmo. Porque se o futuro não é tempo para mim, o passado só me deixou o resto que é este presente em que me sinto mais lixo do que ainda gente, um ser gente em que apesar de tudo muito me empenho, para que sinta justificada esta recompensa da alegria que me dão muitas das pessoas que aparecem na minha horta, aquela em que fui conseguindo semear umas quantas sementes do Amor.
Mal sabes tu como foste conseguindo deixar picanço de silva no meu andar.
Andar com ele obriga a fingir a indiferença - às vezes não se consegue! – mas sempre sem que a possamos cá por dentro sentir.
Não vejo que seja necessário curar-me de «o sentimento trágico da vida» para   com verdade interior sorrir a uma criança, encantado com a promessa de um salto para a frente se… E tudo na realidade pode acontecer quando a Vida, correndo tudo pelo normal, está no terreno para ser vivida. Como a nós aconteceu. Tanto é assim, que efectivamente foi: viveste tanto, depois, e tanto também eu vivi! Não é para voltarmos lá. É só para termos a consciência clara de que não é por acaso que nos entendemos tão bem e nos estimamos apesar dos silêncios e invisibilidades.
Esta carta que aqui te envio  não se escreve e apresenta assim, num blogue. Pelo menos é o que  julgamos nós, as pessoas ainda sujeitas ao complexo das conveniências. Por isso não é como a carta que é que a publico. É carta só entre nós e em resposta. Para quem mais ler pretende-se que seja apenas uma  paginazinha de prosa, para uns descabida, mas para outros talvez compreensível.
E o que torna tudo mais justificado é que aqui estamos ainda juntos, depois de mil voltas  por mil mundos, com esta convicção de que se a Vida continua é para que seja  possível a alegria de nos irmos reencontrando.
L. V.
* Cf. Comentários ao post abaixo : «Manuais Escolares: Hoje? Porquê?»

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Eu e Nós Perante «Este Assunto»

«Tenho, acho, através da leitura, do conhecimento daqueles que já foram e nos deixaram o seu pensamento, avançado imenso nas conclusões possíveis sobre este assunto.»
Há quantas vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas não entrava na blogosfera? E logo foi hoje que voltei a aproximar-me, quando saltou para o ecrã este texto de Jaime Bulhosa sobre a morte, o assunto que é «este assunto» (Blogue Pó dos Livros).
Ora «este assunto» não é habitual vê-lo tratado com este…, permitam dizer assim, com este desembaraço.
Faz hoje um mês que recomecei a consertar. E ontem fez um mês sobre o terceiro dos apertos por que passei em dez dias. Etc.
Mas o melhor ( Melhor do que…??) é que tudo isso acaba por ajudar a mergulhar mais livremente na verdade da insignificância. De há muito ela me vem ensinando a preferir olhar-me muito mais em «nós» do que em «eu». Não creio que algo seja de maior eficácia para esconjurar medos e angústias perante «este assunto». A não ser promessas, mas isso… O resto é, mais do que o mistério da morte, o mistério da Vida e do movimento do Universo.
L. V.

domingo, 3 de outubro de 2010

MANUAIS ESCOLARES: HOJE? PORQUÊ?

Pois!
Porquê?
Simplesmente por ser 1 de Outubro.
Durante quantos anos as escolas portuguesas abriram a 1 e 7 de Outubro, ano após ano sempre nesses dias, conforme o grau de ensino?

Setúbal, 1970, 1 de Outubro. 40 anos. Setúbal. 1 de Outubro de 2010. Primeira Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria em que ainda trabalha. Era a Galeria Culdex. Última Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria onde não sabe quando deixará de poder e querer trabalhar, por mais vagarosamente que seja.

E acima de todos aquele 1 de Outubro de 1973. A Culsete reabre  nesse dia a livraria que entretanto uma gestão impossível obrigara a encerrar uns meses antes.    
Quem sabe o que significa de esforço, resistência e paciência prestar este serviço a uma cidade e região vasta e diversificada como Setúbal, entende que o livreiro velho não se importe que o  critiquem por trazer para aqui esta emoção de estar dizendo a si próprio: «o meu último 1 de Outubro dedicado ao trabalho dos manuais escolares das crianças e adolescentes de Setúbal…».

São muitas as histórias que me contam meninas e meninos de ontem que  são os pais das meninas e meninos de hoje. São muitas! Nada de admirar, é por ser realmente velho. Um dia acaba por se compreender que ser velho é ir dando por findas muitas das tarefas em que nos investimos.

Fiz, pessoalmente, quarenta aberturas de ano lectivo em Setúbal. Foi uma teima comigo: «mais este ano, para ficar nos quarenta!» 
Se calhar, teria sido melhor… Veremos… Nesta fase da vida é bom teimar, mas não é sempre nem em tudo.

Hoje é esta emoção, apenas. Ficarei por aqui? Espero que não. Os manuais escolares, em meu entender, devem dar referências culturais fortes e firmes para toda a vida. São por isso um tema importante. Em meu entender…
L. V.

domingo, 19 de setembro de 2010

ESCONDER-SE EM OUTONO

No Outono vai a Vida num esconder seus viços tão em ambiente de despedida que o convite ao silêncio não se ouve, sente-se apenas, no resguardo dos sentimentos.
L. V.

domingo, 12 de setembro de 2010

«Desfecho (…) mais decepcionante que o meu»

E continuo a citar ou transcrever:

«- Aí é que se engana. Com o entendimento dos espíritos esclarecidos e a preparação da consciência pública, a revolução será uma realidade concreta, transformada a sociedade no ponto de vista político, económico, e religioso!
-Gostava de partilhar desse entusiasmo, mas não é fácil. Aliás, já vi escrito em qualquer lado que uma única revolução é possível ou antes inevitável em Portugal: é a revolução anárquica da fome, mas essa não precisa que ninguém a promova, nem pode ser matéria de programas políticos.
-Todos passamos por momentos de desânimo – condescendeu Antero, por fim, antes de os dois se remeterem de novo ao silêncio.»

É de um conto: «O comboio inexistente». Com ele Urbano Bettencourt abre o seu recentíssimo livro Que Paisagem Apagarás que acaba de sair em Ponta Delgada numa edição Publiçor, uma autêntica preciosidade literária que, como é certo e decepcionante, por cá só será lido por uns quantos privilegiados, entre os quais felizmente me conto.
Literatura açoriana e ainda por cima editada nos Açores?
É melhor falar disso noutra ilha.
Aqui foi só para esta homenagem a Antero, na comemoração do desfecho da sua viagem, em 11 de Setembro de 1891, e para agradecer ao Manuel Urbano não apenas o livro, mas também esta preciosa página anteriana.
L. V.

domingo, 5 de setembro de 2010

O MUNDO DOS LIVROS E O OUTRO (2)

«Somos amigos», a Beatriz, o Gonçalo, a D. Fernanda, o Sr. José Ruy e muitos, felizmente muitos mais. «Tem bons amigos Senhor Medeiros» – o comentário da D. Fernanda, hoje, ao post que aqui deixei em 24 de Agosto p. p..
Agradecido: pela amizade, pelos comentários que aqui tem lançado e por este pormenor, trazer-me à promessa que significava o «(1)» junto ao título do post que comenta.
Este «(2)» parece um voltar, mas é só um remorso por não o ter conseguido como me propusera.

O título deste blogue, desde que o meu menino me fez sentar diante do seu computador e me disse: «escreve!», não me enganou: é uma bem colhida caricatura a que impagavelmente Pedro Vieira veio dar forma artística, tão correcta quanto a minha netinha apanhou.
Aceitei o desafio experimentalmente. Passaram mais de quinze meses…
E…?

Não sei bem. Por enquanto não me sinto na blogosfera como em ambiente que me seja próprio. Andava tão longe de imaginar-me nele!
O que sei é que ou se alimenta o blogue ou se tem a desagradável impressão de não prezar os amigos que se sabe que o visitam na expectativa de algo mais ir encontrando. Faz parte do estarmos vivos?
L. V.

sábado, 4 de setembro de 2010

MANUAIS ESCOLARES: ao redor da fogueira

«Estás mesmo velho e acabado! Não desistes, é? Mas não podes ignorar quanto vais de-sistindo. Foi já uma semana de muito trabalho com o atendimento dos manuais escolares. E este foi um sábado já muito cheio, a abertura das escolas a chegar e muitas crianças, adolescentes e seus pais a contar com o teu habitual desempenho razoável.
E mesmo assim vens aqui?»

Só por respeito a comentaristas e visitantes aqui venho, embora apenas para dizer que estou atento. E muito desejo contribuir com as minhas achas para a fogueira, mas tem de ser daquelas que sempre foram para mim de enlevo e proveito. «Ao redor da fogueira / vimos ouvir os conselhos /(…)».
Não, não desejo, de modo algum, que a minha falta de tempo e forças alguém a creia  um silêncio preferido.
Ao redor da fogueira, vale a pena reflectir sobre este tema dos manuais escolares. E muito para além do meu desabafo num dia em que de novo a comunicação social de maneira insensata, como de costume, ano após ano por esta altura,  aborda o assunto.
Tragam as vossas achas!
Uma «notita» mais: posso?
Podem dizer-me que sem razão, mas penso, efectivamente, que estou entre as pessoas com alguma obrigação de ter um razoável conhecimento da evolução do assunto  manuais escolares em Portugal nos últimos cinquenta anos, talvez até um pouco mais. Qualquer dia já não estarei em condições de dizer seja o que for sobre seja o que for. E agora, já que ainda estou por cá? Não creio que vá fazer grande diferença seja o que for que diga. Portanto, é só convencerem-me de que não percebo nada do assunto e também de que não vale a pena fazer o que se pode, por pouco que seja, enquanto se está vivo e se acredita que o bom futuro das nossas crianças é o melhor investimento dos nossos desejos e dos nossos esforços. Por agora,  desejo voltar ao assunto logo que possa.
L. V.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Longe de um Setembro Antigo

Setembro, agora, é mês de fazer o que só quero. De modo algum o que gosto. Talvez, por isso, o Setembro da infância  me aparece aqui para deliciar o dia com a feliz recordação.
Só pode devidamente avaliar, quem foi criança na ilha, vendo o mar do alto da aldeia a cerca de 300m de altitude e altas rochas, e que  em Setembro ia, em família, para tão ao pé do mar que o quebrar da vaga e a música do calhau a rolar lhe embalavam as noites. Oh!
Admiráveis caranguejos! Como eles corriam com a mesma facilidade numa direcção ou na direcção contrária sem rodarem!
A criança admirando.
No regresso das vindimas, quase a chegar o mês de começar a escola!  A escola: com que gosto!
Setembro, agora, com as escolas. Oh! As crianças! É o que compensa.
L. V.

domingo, 29 de agosto de 2010

«ACABAR COMO TODA A GENTE»

29 de Agosto.
Releio esta última carta de Antero de Quental dirigida a Oliveira Martins, datada de 29 de Agosto de 1891. Lancinante. Uma leitura que mais impressão faz a cada vez que se repete.

«Procurava o definitivo e afinal ainda agravei o instável e provisório que tanto me assusta. Paciência. Fui talvez imprudente, contei demais com as minhas forças, seduziu-me a ideia de, depois de tantos anos de excentricidade, acabar como toda a gente».

«Conto partir daqui no Açor, a 18 de Setembro».  Dar esta notícia do regresso ao Continente, três meses depois da tentativa de se fixar em Ponta Delgada, era a razão da carta. E Oliveira Martins lá estava no cais à sua espera.
No dia 11 Antero sentara-se no banco da Esperança e disparara dois tiros na boca… «Depois de (…) o grande desejo que tinha de não desistir de uma resolução e programa final de vida único satisfatório (…)».

Que português, no seu tempo, foi mais respeitado do que Antero de Quental? «Um Génio que era um Santo».
Algo mais a acrescentar, neste 29 de Agosto? Dava para isso, dava! Mas fico só com o final de Eça de Queiroz no seu texto do In
Memoriam:
«Por mim penso, e com gratidão, que, em Antero de Quental, me foi dado conhecer, neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus, que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua vasta alma em curtos versos – era um Génio e era um Santo».

Não transcrevo mais nada nem derivo para outros 29 de Agosto, mas prometo que ainda vou reler, de Antero, o fragmento «A Metafísica da Morte» do ensaio Ensaio sobre as Bases Filosóficas da Moral ou Filosofia da Liberdade e acabarei com as últimas páginas de Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX. Alguém me quer acompanhar?
L. V.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MANUAIS ESCOLARES: QUE PENA!

Já está! Novamente a falange dos bombistas agarrada ao ossinho dos manuais escolares… Como «eles» adoram meter o nariz no que cheira mal! Para quê? Só provocação. Como se o assunto não merecesse ser estudado a sério… Minhas ricas crianças! Pobres famílias! A preciosidade da escola para todos tão maltratada…
E no ano passado? Se era o mesmo de sempre, o habitual assunto? Não deu para conversa na comunicação social. Porquê? Já não se lembram?

Um serviço duríssimo, com condicionalismos miseráveis… E o lado do benefício que prestamos à sociedade, uma sociedade infantilizada por uma educação de que todos se queixam mas ninguém remedeia e é a que temos, nunca o vi reconhecido.
Um dia destes era bom que falássemos do assunto: REVOLUÇÃO DE ABRIL E MANUAIS ESCOLARES.

Tantas histórias! 
Era uma vez o livro único a veicular a ideologia do regime. Tu viste e tentaste desmontar o enredo nas tuas aulas. «A verdade é só uma, Moscovo não fala verdade». E já eras livreiro nos últimos anos em que o livro único vigorou. Tu viste e pasmaste.
Era uma vez a Liberdade e foi inimaginável a perturbação no ensino. Entraram as regras. Mas como? Tu viste… Sempre envergonhado…
Manuais escolares: quarenta anos de muita vergonha… Que pena!
Mas é o que temos!…
L. V.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O MUNDO DOS LIVROS E O OUTRO (1)

O dia ficou bem gravado: a Beatriz nasceu a 14 de Fevereiro. Em que ano? Tive de fazer um esforço e relacionar com outros dados, mas cheguei lá: 2008. Que idade tem a Beatriz?
A Beatriz chegou ontem de uma viagem de férias. Aos meus Açores, vejam só!: S. Jorge, Pico e Faial. Descida à Fajã do Santo Cristo e  passeio de mar para ver os cachalotes: os dois  pormenores que a Beatriz sublinhou na nossa conversa sobre a viagem.
Somos amigos. Tanto ela como o irmão (o Gonçalo vai - já? - a caminho dos cinco anos), desde pouco depois que nasceram são visitantes habituais. Hoje a família não era para cá vir. Mas teve de passar pela rua da livraria e… a Beatriz fez com que todos entrassem. Ver o Livreiro Velho e dar uma vista de olhos pelos livros. Se vissem!
É perante isto que uma pessoa fica a pensar no que é a realidade deste Mundo. Tanto este Mundo dos Livros, como o outro, o Grande Mundo de que parece que se percebe cada vez menos.
L. V.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

VOLTAR A LER JOEL SERRÃO

Quando se arrumam estantes acontece quase sempre: um livro que revisitamos com renovado interesse e carinho.
Joel Serrão, Portugueses Somos. 
Ensaios anteriores, prefaciados num dia invernoso de Fevereiro de 1975, na sua casa de Santana, Sesimbra.
Assim (excertos):

Sobretudo, impõe-se-me gradualmente, a certeza de que, neste momento decisivo e porventura genesíaco da vida portuguesa, é fundamental compreendermo-nos tais quais somos, prestando a máxima atenção ao fenómeno nacional nos seus múltiplos aspectos – dos económicos e sociais até aos mentais e culturais.
(…)
É que ou nos compreendemos tais quais somos, aproando, a partir daí, para o futuro que importa inventar, ou correremos o risco de nos enovelarmos em contradições insanáveis que, de um mesmo golpe, nos velarão a inteligibilidade quer do Mundo em que estamos, quer do País que somos, quer do País que desejamos e podemos vir a ser.

Sobre esse dia de Fevereiro de 1975, invernoso aqui na Península de Setúbal e porventura em todo o país, passaram já 35 anos.
Ah! …um cacho de glícinias – um só cacho ainda…
É real, no encerramento do prefácio:

Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias
- um só cacho ainda – antecipa-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilaz… 
Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo – e assumi-lo.

Quem pode ler isto hoje e não sentir revolta perante a falhada esperança de «um lençol lilaz»?
Não foi por falta de aviso, como se vê. E o pior é que continuamos a ignorá-lo.
L. V.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

«JÁ NÃO TEREI TEMPO»: PÁGINA 12

Agora já na página 13:
«Podemos procurar o Novo porque, como Baudelaire, este mundo nos desiludiu. Também podemos desejar explorar o Desconhecido precisamente porque nos maravilhou. Com a esperança, talvez ilusória, de compreender o seu sentido».

Hubert Reeves é um eminente cientista e um verdadeiro sábio.  78 anos. Admirável! Como o cientista  está para o sábio e o sábio para o cientista!
E basta por hoje e agora: o tempo disponível é para ler e não para escrever. O livro chegou ontem, só hoje o abri e ainda por cima torna-se-me inevitável «entrelê-lo» com as suas Íntimas Convicções que sempre tenho à mão. 
Hubert Reeves, JÁ NÃO TEREI TEMPO – memórias: só mais um período, a fechar. Página 285:
«Tomemos consciência de que entre 1950 e 1980 a humanidade esteve de facto à beira de desaparecer. Somos uma espécie eminentemente extinguível».
Também já li a página em que nos dá conta de como veio a assumir o testemunho de Théodor Monod. 
Voltar a Monod e «entrelê-lo» com Reeves?
Tem calma!
L. V.

AGORA JÁ ESTÁ!

Carambes!
Abre parêntesis:
(Errado! Que disparate: carambes! Devia corrigir ou ter mais cuidado para que não acontecesse? Agora, já está! Agora vai assim e o leitor que engula). Parêntesis fechado, bem entendido! Já está e talvez bastasse.

Está difícil não encontrar, sobretudo nas traduções, implacáveis misérias. É livro após livro! Já não bastavam as impertinentes gralhas que apesar de todo o saber e cuidado sempre passaram e passam! Gralhas é uma coisa, isto é outra. É abuso! Escritores, tradutores, revisores e editores: que nível? E críticos? Que… Que… Que…
As palavras! O sentido das palavras! As frases! A inteligibilidade! 
E o livreiro é que se vê na obrigação de pedir desculpa aos leitores… Caramba!
L. V.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

VERANEAR

Férias: Agosto partido ao meio. Uns quantos amigos regressam, outros agora é que partem. Veranear: ainda  há quem diga? Ainda se vai «passar o Verão»? Ou já somente se diz «ir de férias»?
-Isto a propósito de?
-Do mais, evidentemente, que entre amigos se conversou. Mas, para aqui, a propósito de, chegado o momento do silêncio à minha volta, me ter apetecido reler a última crónica  de João Bénard da Costa em Muito lá de Casa: «Fechar a Casa». Um texto arrabidino que acaba assim: «À Arrábida e ao cinema, volto sempre». 
A crónica dá imagens de uma Arrábida de veraneio muito diferentes das que o país viu neste fim-de-semana de meio de Agosto. 
A Arrábida – creio sem arredar pé – continuará a ser um lugar de culto. Mas era bom que não demorasse muito a aparecer por lá quem de novo lhe soubesse chamar «Serra-Mãe» e tivesse força e coragem para levar o amor por Ela até às últimas consequências.
L. V.

domingo, 15 de agosto de 2010

SE PUDESSE AQUI…

A única coisa que aqui pode em aboio oferecer-se, apenas palavras. Do outro lado, pessoas.
-Quer dizer que…
-Não! Não é isso! Por mais inúteis que possam ser, as palavras conservam a sua capacidade de serem preciosas.
Mas aí é que está! Serão as palavras só por si preciosas? Fiz a pergunta de frente para a morte das pessoas que as escreveram e aqui a faço em frente das pessoas que as lêem.
-O que é que estava a ler?
-O poema «Lucidez» de António Manuel Couto Viana, do qual veio o título do último livro que nos deixou: AINDA NÃO.

O outro lado! As palavras não chegam para quem lê:
«Quem sou de mim, foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
-Ainda não!)»
L. V.

sábado, 14 de agosto de 2010

«A QUESTÃO DA CULTURA»

«Se abordo aqui a questão da cultura é porque, nestas coisas, deve-se considerar como atingido só aquilo que entrou na cultura, na vida diária, nos costumes. E entre nós pode dizer-se que o que há de bom na organização social não foi meditado a fundo, não foi compreendido nem sentido (…).
E para isso faz falta, precisamente, a cultura. (…) Possuímos uns conhecimentos, uma educação, uma instrução que são ridiculamente escassos (…)».

Digo ou não digo a quem fui roubar isto ao tentar encaminhar o pensamento para as minhas preocupações com um novo ano escolar?
Não é que tenha receio de o dizer. É que, para além de achar bem que os estimados visitantes de «chapeuebengala» prefiram adivinhar, estou tão horrorizado com a ineficácia do combate aos incêndios na rectaguarda onde eles não queimam colarinhos, quanto curvado ante o heroísmo de quem no terreno os combate e solidarizado com as populações que são as angustiadas vítimas. Ou alguém me vai dizer que uma coisa nada tem a ver com a outra? Ai não! Voltem a ler, por favor, e depois digam-me como vamos de rectaguarda. Enquanto espero, vou relendo este dorido poema de Matilde Rosa Araújo em Voz Nua: «Ardem Pinhais».
L. V.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

OU TAMBÉM POR AÍ. TALVEZ POR AÍ!

«Está aqui tudo! É a prova acabada, a prova de toda a minha tese sobre o entretenimento como pai da tecnologia eu devia, o que eu podia era escrever e publicar um ensaio à parte apenas sobre este aspecto, combiná-lo com a preservação da autenticidade da peça musical e da sua efémera interpretação pela mão do seu melhor intérprete ou pelo próprio compositor como Grieg a tocar a sua pavorosa Marcha Nupcial um pedaço de papel tinha-o por aqui algures anotar já tudo isto antes que alguém me roube a ideia, claro que se a anotar é quase um convite a que ma roubem, toda esta correspondência espalhada por aqui a secar qualquer coisa onde escrever porque é precisamente este o cerne da questão e que remonta ao início de tudo, compreendem?»
(William Gaddis, Ágape, Agonia)

Que não é fácil de ler? É o que disseram, dizem. Nem sequer de citar, senti eu. Uma torrente! Pois, uma torrente! Vi muitas torrentes, as torrentes! As torrentes que são força, o que mais parecem ser é apenas força, mas aí é que está, vê-se o que levam, o que leva a torrente não é torrente, mas o que a torrente leva vê-se.
Não te atreves a agarrar, mas vês e aprendes o que é a força que leva um tronco ou uma ideia. Como é arrancar árvores tão seguras por raízes tão fortes e fundas, arrancadas pela raiz?
Quando estamos a ver o que se vê como se não desse para ver, talvez se uma torrente…  Se alguém tiver força, talvez valha a pena tentar.  Há alguém? Ruim dúvida…  («Se não fazes o que sabes e podes…»)

Torrentes?
Ou também por aí. Talvez por aí! 
Para se ver com olhos de ver «o cerne da questão e que remonta ao início de tudo, compreendem?»
Não é fácil…  Coisas de mais que não se compreendem!  Talvez com a força de uma forte torrente.
L. V.

sábado, 7 de agosto de 2010

UMA «PEREGRINAÇÃO A LIVRARIAS» E UMA AZIA QUE JÁ PASSOU

Por mão de Sara Figueiredo Costa e seu conhecido blogue, o Cadeirão Voltaire, logo no dia, fui levado ao DN-Opinião de 4 do mês corrente para ler a «merecida» crónica de Vasco Graça Moura sobre a livraria Poesia Incompleta, já há vinte meses aberta ao público em Lisboa e que o conhecido e reconhecido intelectual, perito em descobrimentos, nomeadamente de livrarias,  capaz de «percorrer quilómetros a deambular de umas para as outras», pelo menos no estrangeiro, acaba de descobrir, como nos quis contar. Obrigado Sara.

I
Com gosto me junto em eco ao que escreve Sara Figueiredo Costa e que é só isto: «No Diário de Notícias, Vasco Graça Moura dedica a sua crónica à Poesia Incompleta. E é mais do que merecido».
Mas a crónica de Vasco Graça Moura só nos últimos três parágrafos é que chega à Rua Cecílio de Sousa… A crónica tem nove! Para lá chegar tive de ler os outros dois terços e cheguei com azia. Foi no dia 4. Ao fim de três dias já estou pronto para outra e portanto já posso levar o caso ao meu objectivo de velho livreiro: contribuir ainda que com o pouco que me é possível para uma discussão séria sobre as livrarias portuguesas e o seu futuro. Dentro do meu nível: as L. I.-Livrarias Independentes.

II
«Em compensação, por cá e salvo raríssimas excepções, o pessoal de uma livraria podia estar a vender detergentes ou margarinas com a mesma pseudo-eficiência com que vende livros ou discos». Que necessidade tinha Vasco Graça Moura de dizer isto no encadeamento lógico da sua crónica? Fica a pergunta. Não tento encontrar a resposta porque  o «em compensação» me baralha. Mas que a frase é um mimo, lá isso é! Mais um mimo a juntar à minha colecção de referências de intelectuais, jornalistas, editores e mais uns quantos mimosos que vão falando de livreiros e livrarias como se não estivessem a morder a própria cauda. É tão interessante isto de se ressalvarem com as «raríssimas excepções»!

III
Quem faz com que uma livraria seja uma verdadeira livraria e não uma simples mercearia de livros, uma mercearia onde é natural que os livros se vendam «com a mesma pseudo-eficiência» com que se devem vender «detergentes ou margarinas»? O livreiro? O seu público? Se calhar os dois… Ou não?
«Detergentes ou margarinas»! E bicarbonato para a azia? Até isso meu pai vendia na sua loja com divisões de mercearia e taberna.
O bicarbonato estava guardado num frasco no lado da mercearia e vendia-se ao peso. Quase sempre era tomado logo ali, na divisão da taberna, já efervescente.
A meio do percurso ficava o sítio da barra de sabão branco e azul, que se cortava por medida, conforme as posses e necessidades do cliente determinavam. Detergentes? Isso os nossos intelectuais, na sua maioria, compram é agora, nestes tempos mais modernos! Onde? Grandes superfícies, centros comerciais, por aí…. Não mo neguem, por favor!
Depois, acabei a quarta classe e mudei de escola: «tens que ir estudar, tens que ser mais instruído do que eu», sentenciou meu pai. Para quê? Para acabar por ser abordado constante e necessariamente como merceeiro de livros, numa sociedade que não tem mais e melhores livrarias e mais e melhores livreiros porque nem sequer os seus intelectuais e muito menos os pseudo-intelectuais, salvo muito agradáveis excepções (valeu, a imitação?!), merecem as  livrarias e os livreiros que apesar de tudo fizeram e continuam a fazer pela leitura portuguesa muito mais do que se lhes reconhece. 
Que pena tenho de não conseguir acabar de vez com as mercearias de livros... Ataberná-las! Bem tenho tentando…
Ando a tentar preparar esse post: Atabernar as Livrarias.
L.V.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

«COM A PENA AGUDA DO SILÊNCIO»

«CARTA
Na caixa viva do peito
Duas taças vazias
E esta carta sem data
Escrita com a pena aguda do silêncio
A carga do sangue já no fim.»
Voz Nua (pág.52), Matilde Rosa Araújo

«Com a pena aguda do silêncio», Matilde, do teu definitivo silêncio iniciado em 6 de Julho de 2010, venho datar esta tua carta hoje, 6 de Agosto, para que quem aqui a ler saiba que te lembrei em alegria quando uma senhora te quis prestar a homenagem de aqui na nossa livraria escolher neste dia para sua leitura Uma Estrada Fascinante e a Praia Nova. Foi o melhor momento do dia para este teu amigo livreiro.
L. V.

domingo, 1 de agosto de 2010

ACREDITAR

Mesmo que sintas que é impossível, acredita. Dói não poder acreditar. Dói mais ainda acreditar sem que possas? Mesmo assim vale mais a pena.

- Tinhas que me dizer isto? Logo hoje? A propósito de quê?
- De nada! De nada! Deixas-me continuar o que estava a ler?

«SABER LER A VIDA
(…)
Só temos uns tantos anos para lermos este livro
Debaixo do Sol,
Ou sob o aço da noite
Para este fogo tecer.
Chamarás ciência cultura vida dor espada ou espanto a tudo isto
Ou ilegível monotonia.
Nada. Mas lê.»

- Agora lê tu. Mesmo que entendas que é publicidade indevida, estou disposto a suportar, desde que aprendas a ler este livro que continua disponível e este livreiro velho te quer vender:Voz Nua.
De quem? Matilde Rosa Araújo, claro!
Ah! Já leste? Então peço-te desculpa. Desculpa! Desculpa! É que…Ouviste-me ler com cara de respeito mas também de surpresa. Foi só por isso… Desculpas? Mais vais voltar a ler, não vais? Por mim, quanto mais releio Matilde Rosa Araújo, mais admiro a sua obra e mais me convenço de que as grandes autoridades do nosso meio literário continuam com a leitura atrasada.
L. V.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

IRRA!

Tirei-lhe o ponto, ao «irra!», para ver aonde ele ia parar sem essa barreira. E logo vi… Tinha de ser! Irracionalidade.
Irra! com tanta irracionalidade!!!

- Estás a falar de livros?
- Pode ser. E do mais? Falas tu?
- Eu, não! A irracionalidade vende-se bem e enquanto se vender bem não digo nada. Irra!
L. V.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

LER ENQUANTO SE ESPERA

Entras e sentas-te  na sala de espera. Estendes a mão para uma revista desactualizada e vais folheando. Curioso, este hábito de ler enquanto se espera! Digamos que é para ajudar a passar o tempo. Mas também pode ser uma forma de tornar precioso o tempo de espera, se…

Hoje aconteceu-me. Tinha de esperar, há mil e uma circunstâncias em que surgem os momentos de espera, e o livro estava à mão. Já leram? Se já o tinha lido? Sim, sim! Quando saiu, em 2009. Uma peça de Manuel António Pina, uma pequena edição de estilo ilustrada por Ilda David, mais uma vez Assírio & Alvim. Lembro-me perfeitamente: levei-o comigo de uma vez que fui a uma consulta médica. É uma estranha peça, não é? História do Sábio Fechado na sua Biblioteca.

É sempre o mesmo: reler é excelente! Pobre dos leitores que nunca conseguem tempo para reler, sobretudo aqueles cuja profissão obriga a ler muitos livros. Será que se apercebem de quanto perdem? E então quando o seu trabalho é fazer recensões em série! Bordões e mais bordões. Publicidade da barata. À  falta de melhor, há sempre quem pegue…

«Sabe-se. Mas quando chega o momento de compreender é que é bom!» Podem confirmar no post escrito para bengala de ontem. 
A peça de Manuel António Pina, muito melhor arrimo!

Página 30:
«SÁBIO – É então isto a fome… Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros…
(…)
Obrigado, bom homem. Ensinaste-me hoje algo que não se aprende em livro nenhum.»
Continuar? Página 37. Com alguém que tenha o livro à mão.
L. V.

terça-feira, 27 de julho de 2010

PARAR

«Parar é morrer», sempre nos disse a antiga sabedoria e adoptei.
Hoje tive de traduzir para «parar ou morrer». E não é que também está certo? Tinha de ser. Questão de clima.

A vida e a questão do clima. Sabe-se. Mas quando chega o momento de compreender é que é bom! A vida sujeita ao clima! Vida na Lua? O clima não dá. É por isso que defender o clima significa defender a vida?

A evolução da educação para os temas ecológicos é um grande avanço. Tema de relevo na literatura infanto-juvenil, felizmente.
Às vezes com alguma pieguice e por moda. Tinha de ser. Mas antes isso.
E como era na educação de antigamente? Que não era preciso? Ora se não era! Quem tivesse acordado mais cedo! É sempre o mesmo…

Saber e arte. Um e outra empenhados na educação ecológica das novas gerações.
E de novo Matilde. Um nome grande. Também aqui.
L. V.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

COM QUE DELICADEZA!

As antigas civilizações e os seus mitos: 
em que altura os educadores devem proporcionar aos mais novos uma boa aproximação a essa riqueza cultural indispensável?
Talvez antes que a adolescência se adiante muito. Talvez…

A pergunta – e naturalmente a tentativa de resposta – surge aqui porque estive a cumprir uma obrigação que ninguém me impunha, mas que se me impunha: olhar com atenção cuidada para esta preciosidade que o presente mês de Julho trouxe para as livrarias: DEUSES & HERÓIS, autores Matthew Reinhart e Robert Sabuda, tradutor Helder Moura Pereira, editora Assírio & Alvim.
Obrigado, Helder!
Sabe tão bem ler uma boa tradução!

Estou a imaginar uma ou um adolescente a ser educado em saberes e delicadeza: é como este precioso DEUSES & HERÓIS pede inevitavelmente para ser aberto, manuseado, observado e lido.
L. V.

sábado, 24 de julho de 2010

FICAR: EM QUE MODO?

«Não fique desiludido (…) nem surpreendido por um concerto de cordas contemporâneo começar por uma fuga».
«O tema da fuga contém a essência da música. Estabelece não só um padrão rítmico e tonal como também fixa o modo de toda a composição.»
«Nos temas das fugas de Bach temos uma enciclopédia de imaginação musical. Por mais magnífica que fosse a sua capacidade de manipular as ideias, é nas próprias ideias que o seu génio mostra a sua força irresistível.»

Não disse nada, eu! Foi só copiar de D. Moore (Guia dos Estilos Musicais, Ed. 70).
Deu, no entretanto, para recordar o mais devotado ouvinte das fugas de Bach que conheci e tive por meu mestre: Simão Bettencourt.
-Foi só?
-Somente, nunca poderia ser. Porque a  pergunta, na sua discutível formulação e pontuação, já estava feita. «Ficar: em que modo?». 
A fuga deu para de algum modo fugir à resposta. E ao mesmo tempo para que «modo«, na pergunta, pudesse ler-se como termo da arte da música. 

Sempre que parte alguém que nos é muito querido, como Simão Bettencourt, há muito, como tantos, antes e depois, alguns em recente, como a Matilde…., ficar tem modo de fuga.
O tema contém a essência. Estabelece o padrão. Fixa o modo.

Aprende-se a viver em modo de fuga.
É bom para continuar em frente, levantando a cabeça sem sair do tema.

Se a algumas cordas contemporâneas esta composição, por estranha, surpreender e desiludir, peço desculpa. Coisas de velho!
L. V.
P. S.
Também devo pedir desculpa se disser que de seguida vou ler a página 265 e as próximas seguintes de Papel a Mais ?
L. V.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

QUEM DIRIA?!

A leitura portuguesa a voltar a Chesterton! Quem diria?!
Vou ter o cuidado de anotar que G. K. Chesterton faleceu em 1936, no mesmo ano em que faleceram, já agora anoto também, dois outros autores cuja recepção entre nós também apetece comentar: Unamuno e Pirandello. E mais não vou anotar de biográfico, porque quem lê blogues facilmente abrirá a Wikipédia ou outro site conforme, se desejar mais informação.

Quanto ao regresso de obras de Chesterton ao nosso mercado livreiro, também não vale a pena dar aqui lista, datas, editoras: é só «pesquisar» por autor.

Mas que tem que se lhe diga este regresso de Chesterton, talvez não seja de se dizer que não. Fico a pensar nisso. Depois, talvez volte ou não. 
Agora, foi – Quem diria?! Ao fim de um dia tão cansativo! – permitir-me este prazer de ler este conto, «O Fantasma de Gideon Wise», numa recolha de Peter Stilwell e tradução de Jorge Pereirinha Pires, que a Assírio & Alvim acaba de enviar para as livrarias com este título:  Os Melhores Contos do Padre Brown.
Não se prendam com uns pormenores, levem o conto até ao fim. Chesterton no seu melhor!
«Como era vívida aquela espuma aluarada (…). E como era tão literária!»
Álibis! A convincente arte de representar álibis! Anda por aí bem representada ou não? Que diz a plateia?
L. V.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

IGNORAR?

Isso, não!
Ignorar seria trair, porque sempre e de algum modo seria alguém trair-se a si próprio.

Ignorar, não!
Mesmo, e até sobretudo, quando o que se aprende e se vê e se sente não vale a pena dizê-lo.

Quando o ouvinte ouve quem diz e não o que é dito, valerá a pena dizer seja o que for?
Mas os profetas não se calam! Porquê?
Crença! Crença!

Tanto que preferimos acreditar em vez de saber!  Por isso ouvimos os profetas e tanto eles se fazem ouvir. Mesmo cansados deles quanto estamos…
L. V.

terça-feira, 20 de julho de 2010

NÃO SEI… SERÁ SÓ NARCISISMO?

Por mim,  já que passou a livro e umas centenas de pessoas, talvez, umas dezenas, sem talvez, se deram ao trabalho de o ler, acho que é um dever agarrar no meu Papel a Mais e pôr-me lê-lo.
Já não na perspectiva de auto-crítica prévia devida a um original, mas no distanciamento de quem vai sentir se sim ou não valeu pena depois de ter lido qualquer livro.

Quando? Quando vou conseguir cumprir? Até aqui, não. E por agora? Não sei.
Continuo a ter muito que fazer, tenho de trabalhar devagarinho, ainda mais devagarinho agora no Verão, muito que ler para minimamente acompanhar os interesses de leitura dos leitores que vêm à livraria e sobretudo levar tudo para a frente, apesar de mais palha que grão. Portanto não sei…

A verdade é que este exemplar veio parar aqui à mão de semear e nos últimos dias tenho lido algumas páginas, este ou aquele texto, um poema, uma que outra prosa.

Livraria fechada, «vamos a ver se hoje não faço grande serão» e… caio. Lá vou outra vez jantar tarde e sem adiantar vida! Abri em «Entre Crono e Cronos». Nem de porpósito!...

«Sentar-nos-emos, ao fim do dia, ante o devir insaciável: volta ao país, volta ao mundo, somos todos actuais e amanhã, por feitos e efeitos devorados, seremos mantidos em actualidade. Mas sem presente – este presente só passa. Evanescente, não deixa passado a abrir um futuro – o feito sobre o qual fazer. Fazer de novo, fazer mais. Para poder sobreviver é impossível descansar sobre objectivos atingidos. Hiper, super. Superprodução de acontecimentos, super-produção industrial, super-vendas, hiper-realidade, hiper-tempo.»

- Que dizes?
- Não digo nada! Apesar de tudo, é preciso descansar.
L. V.

domingo, 18 de julho de 2010

PERGUNTA QUE NÃO SE FAZ


Um leitor.
Pessoa habituada à leitura como alimento de vida, pessoa sensata, compreensiva, naturalmente humilde e serena.

O que sentirá uma pessoa assim, perante a evidente realidade de que essa riqueza, de que disfruta e em respeito por si não pode dispensar, tanta gente nunca a descobriu, não lê ou lê pouco e mal, por esta ou aquela razão?
L. V.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

LIVROS & FÉRIAS: O MELHOR DO DIA

Catarina.
3.º ano de escolaridade.
A Catarina veio com a mãe à livraria e foi para o livreiro velho o bocadinho melhor do dia.
Primeiro foi um caderno de apoio escolar, para aperfeiçoamento e não tanto para não esquecer a matéria. A mãe, aí, já sabia o que queria, foi só ir à prateleira.
Depois, num já agora, escolher, com apelo à colaboração do velho, um livro para a Catarina ler, a seu gosto, leitura de férias.
No diálogo, logo à primeira hipótese: «esse já li e gostei muito». Tudo muito à vontade, distraída e atentamente, como quem está a passear no seu ambiente. E que bem que soube decidir-se, primeiro por um só, mais a seu gosto, e, depois, por um dos dois que, dando-lhe a oportunidade de levar mais um, a mãe lhe propôs!
Não penso que seja de propósito. Talvez simplesmente por nunca terem pensado nisso.
Quantos pais, se quisessem, poderiam viver com os filhos um momento belo e de enriquecimento mútuo como aquele que hoje vi viverem a Catarina e sua mãe?
Vale a pena existirem livrarias, as livrarias que se receia que não tenham futuro?
Se não fosse por ter o seu futuro já todo investido só no passado e num resto de presente, daqui a uns aninhos, quando crescida, era à Catarina que o livreiro velho gostaria de pedir opinião.
L. V.

terça-feira, 13 de julho de 2010

SILÊNCIO

« Nada a assinalar.
Esta calma perturba.
Está tudo de férias, não é?»

Até aqui é tudo de José Teófilo Duarte, hoje mesmo, no seu blogoperatorio.blogspot.com.
Comentar?
Não sei se foi por comentário que fui a «copiar» e vim a «colar». Apenas um impulso? Talvez também não.

«Esta»…
«Calma»…
«Perturba»…

Esta Esta Esta
calma calma calma calma calma
perturba
perturba
pert….

Pára lá com o gaguejo, ó velho!
O que foi? Impressionou-te?
Até parece…

Na tua experiência de vida, a calma que precedeu tremores de terra.
Qual contradição, portanto!
Agoiros?
Que não! Queiramos que não!
Tem calma!
Será que não há ninguém capaz de pôr um fim a tantos tremores que abalam a «Terra dos Homens»?

A Terra!
Ela em si mesma tão embaladora!

A beleza da Terra, numas belas férias!
Com paisagens de silêncio!…
- Saudades, é?
L. V.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SEGREDO

Quantas vezes aparece na escrita de Matilde Rosa Araújo esta palavra: SEGREDO?
A pergunta é para quem, neste fim-de-semana próximo, dedicar algum tempo a ler os textos que nos deixou a nossa querida Matilde e quiser depois partilhar essa leitura.

Depois de ler a palavra SEGREDO em «O Barco» de O Chão e a Estrela, venho lê-la também agora em A Velha do Bosque.

«Conta a história que virá um dia em que a todas as portas dos velhos –velhas mulheres e velhos homens – chegará um cavalo branco vindo do bosque, com um menino de olhos dourados de ternura sentado sobre a sua sela e um pássaro de fogo no seu ombro pousado.
E todos os podem ver, todos os podem olhar. Todos os podem olhar. Todos podem entender este segredo maravilhoso – segredo que está fechado ainda nas nossas mãos, nas mãos de todos nós.»
L. V.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

HOMENAGEM A MATILDE

Agora, a maior e melhor homenagem a Matilde só pode ser esta:
ler as suas mensagens, compreendê-las e vivê-las, apreciar a sensibilidade e inteligência da sua escrita, lendo cuidadosamente os seus livros e oferecendo à nossa volta essa preciosa leitura.

A todos os que desde ontem, dia em que acabou o seu sofrimento, e mais ainda hoje, dia da solene despedida, estão vivendo já a imensa saudade da nossa querida Matilde, lanço daqui, desta cidade do Rio Azul, um fraterno apelo:
VAMOS LER JUNTOS?

-Por onde começar?
-Peço licença e começo eu.

«-Podes ir para o céu, é lá o teu lugar e fazes falta à noite. Nós, todas as crianças do Mundo, vamos prender o fogo das florestas. Vamos guardar os pinhais, todas as florestas, todos os seres, todas as flores e animais que nelas habitem. E uma criança não promete em vão.
(…)
E a estrela sorriu e caminhou para o céu. E tudo ficou em silêncio. Debaixo das cinzas, sementes cantavam.»

Todos sabemos que o livro que estou a ler convosco é O Chão e a Estrela.
Quando apareceu em 1.ª edição, fui lê-lo à beira do Sado, o Rio Azul. Não sabia que ia encontrar um barco em rio azul.
Não vou contar como transmiti à Matilde esse momento e como ela correspondeu, porque não mo consente este aperto na garganta. Nem também os olhos em água me deixam continuar a ler.
Por favor, tomem o livro. Não posso ler mais, mas posso ouvir e teclar. É a página seguinte: «O Barco».

«Este canto que João amava, e todos amavam, tem um segredo.
E são vocês, meus Amigos verdadeiros, que o vão cantar. Que vão dizer as palavras daquele canto. As palavras do seu amor.
Eu também estou de mãos dadas convosco, tenho estado sempre de mãos dadas.
E de todo o coração vos digo: obrigada!
Obrigada por saberem o segredo. Pelo vosso entendimento.
Há tantos anos que estou convosco e sei que nem um só de vós deixou de entender esse segredo. É essa maravilha de ser criança. Termos sempre um rio azul.
Que beija a terra e vai ter ao mar».

O Rio Azul da Matilde
chegou finalmente
ao Grande Abraço em Mar.
E nós choramos?

Que não! Que não! – uma voz terna, suavissimamente a dizer…
«E ninguém entendia.»
«Os remadores, crianças como o João, cantavam. Em coro». 

Que não! Que não! – a voz terníssima…
Cantemos!
Porque todos vamos neste «BARCO».
Para o Grande Abraço em Mar.

Cantemos em coro!

L. V.

terça-feira, 6 de julho de 2010

MATILDE ROSA ARAÚJO, O ÚLTIMO SONO DA CAPUCHINHO CINZENTO

 

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O telefone despertou-me. A notícia arrancou-me da cama. Matilde Rosa Araújo, a minha querida Matilde partira. Não mais irei ouvir a sua voz dizendo num murmúrio: Fátima, quero muito que fique bem. Não mais me dirá que estamos ambas à espera... Agora só eu espero.

Conhecemo-nos há 32 anos, em 1978. Nesse encontro nasceu uma amizade que cresceu até ter o tamanho que hoje tem. Matilde é e será sempre a escritora, a amiga, a irmã. Durante o último ano, após a descoberta da minha doença, e até Outubro, mês em que também adoeceu, telefonava-me duas vezes por dia, de manhã e à tarde e depois dessa data uma vez por dia. Ligávamos uma à outra à vez. E acabávamos quase sempre com palavras de esperança. Apesar de sabermos que ambas estávamos à espera...

Como parecem já distantes, apesar de tão presentes, os nossos encontros na sua sala, repleta de livros, fotos e diversos objectos, alguns vindos da infância. Matilde então surgia toda inteira, varria a amargura e sorria-me com os seus olhos de menina, voltava a ser a "laranjinha" de sua mãe, a mesma que um dia recebera de presente a Januária. Conversávamos muito e ríamos, enquanto bebericávamos chá, servido em bule de porcelana, provavelmente da China, ou talvez não. Uma vez abriu uma garrafa de Porto com mais de cem anos e brindámos, brindámos a muita coisa, e rimos. Quantas vezes, nessas tardes, Matilde deixou ver o seu finíssimo humor, a sua certeira ironia, a sua delicada crítica a situações e pessoas. E as histórias... E as anedotas... Com quem irei partilhar agora o que partilhava com ela?

Há pouco apetecia-me enfiar-me num buraco e enchê-lo com as minhas lágrimas. Mas não o fiz. Em vez disso estou aqui a partilhar convosco a minha dor.

A Capuchinho Cinzento dorme agora o seu último sono, talvez sentada «numa pedra cheia de musgo. [...] Nem uma rainha de outros tempos descansaria assim num trono de veludos!» Passaritos de cristal, «Cantem! Cantem! Não deixem de cantar», mas cantem baixinho para não a acordarem. E continuem a voar e a cantar para levarem a sua história, uma história «de claros segredos», aos quatro cantos do coração das pessoas.

F.R.M.

MATILDE!… E AGORA, MANUEL?… O «DESEJO ABSURDO»…

Matilde!…
Querida Matilde!…
Minha Querida Matilde!…

Ainda tiveste tempo para me dizer:
«Não sei do alfa, nunca saberei do ómega. Há um fraterno milagre que me ilumina o viver – meu viver já tão longo de dor e de esperança.»
E…
«ser melhor nesta seara humana, de sol e estrelas magoadas»-
Obrigado! Ontem, hoje e sempre!

Morreu hoje, 6 de Julho de 2010, a escritora Matilde Rosa Araújo,
um dos maiores clássicos da Literatura Portuguesa da nossa contemporaneidade. Quem o disse? Não muitos que o deviam:
é difícil ao espírito crítico vencer os mil limites e ultrapassar a ilusão do ruído envolvente.

E agora?
Vem aí a justiça a chegar, quero crer.
Crianças do meu país, posso acreditar?
Matilde Rosa Araújo, a crente nas nossas crianças!
Que amor!
Que crença!
Que vida!
Que dedicação!
Que generosidade!
Que entrega!
Que beleza!
Que saber!
Que grandeza!
Que lição!
L. V.

domingo, 4 de julho de 2010

FÉRIAS & LIVROS

Isto de férias também tem que se lhe diga.
Veraneava-se, ia-se a banhos, fazia-se a temporada na casa da quinta. Agora isso de férias, eram as férias escolares e pouco mais.
Por muitas razões e porque a economia estava assente na agricultura, na pastorícia e na pesca. No verão não se podia parar de trabalhar. Tinha de se parar era no Inverno, dados os seus rigores.

Vidas amarradas ao emprego com umas semanas anuais ditas de férias, só há umas recentes gerações. Hoje, Verão e Férias são noções que em muito coincidem.
Férias e Livros também já há alguns anos que vêm adquirindo coincidência. Nada mau!

Neste início de Julho a época de férias já está em grande.
E se, em vez de recomendar livros para férias, o livreiro velho preferisse saber que livros as pessoas andam a ler ou a desejar ler nas suas férias?
E se de vez em quando quem se convenceu de que sabe o que é bom para as pessoas, se pusesse a aprender com as pessoas o que é bom para elas?

Até poderia ser bom. Talvez o fosse para quem manda. E seria, certamente, muito melhor para todos.

Boas leituras de férias!

L. V.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

RELANÇAR AS ATENÇÕES

O sucesso do futebol?
Antes de mais, diga-se que é inegável. Excessivo? Aí já entramos no campo das opiniões, dos gostos, das explicações e, naturalmente, das paixões.
Mas, pronto! Portugal perdeu com a Espanha e o resto do Mundial já não nos dá nervos. E agora, com que nos vamos distrair?
Porque, salvo melhor opinião, aquilo para que no fundo o futebol serve é para distrair.  Ou tenho de entrar nos pântanos?
Bem precisamos de distracções. E sobretudo quando as coisas estão em clima de mal-estar generalizado.
Quem me quer dizer se há por aí alguma coisa com que se possa preencher o vazio aberto  pela derrota no futebol?
Enquanto espero pela resposta vou ver se consigo ler qualquer livro bom para me distrair, em vez de estar para aqui a pensar na subida do I. V. A., já amanhã, 1 de Julho deste 2010 de crises. Também chegou aos livros, desta vez,  para armar confusão de comunicados das editoras e distribuidoras, uma confusão simples, mas que dá dores de cabeça e das tais de que menos gosto.
Por fora disto tudo, fica-se perplexo:
ou já não há seres pensantes nesta sociedade ou desistiram de arrombar as fortalezas da estupidez pelos fundamentos, que é donde vem a sua resistência.
L. V.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ARLINDO MOTA APRESENTA NOVO LIVRO

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Amanhã, dia 26 de Junho de 2010, pelas 21,30 horas, a  Culsete abrirá as suas portas para um encontro com Arlindo Mota a propósito do seu mais recente livro, Flor de Sal, uma narrativa de ficção cuja acção se desenrola no dealbar da ditadura do Estado Novo.

Arlindo Mota é uma personalidade que dispensa apresentações. É reconhecida a sua intervenção cívica e cultural, tocando múltiplas áreas, quer enquanto professor, homem de pensamento, cidadão empenhado. Desde sempre tem dedicado à escrita boa parte do seu tempo, investindo em áreas tão distintas como a filosofia, o municipalismo, o património. Porém, a mais íntima, a mais secreta, a mais constante, é a escrita literária, sendo de destacar os seus livros de poesia, Canto Viageiro (1981), Incertos Dias (1986), Marca de Água (1996) e A Seda das Palavras (2004).

Com Flor de Sal Arlindo Mota dá os primeiros passos na narrativa de ficção. Esta será, portanto, uma oportunidade de reencontro entre o escritor e os seus leitores e amigos. É, pois, mais uma sessão imperdível na Culsete. Apareça! Contamos consigo.

F.R.M.

[Foto: Arlindo Mota na Culsete em 23/04/2010]

domingo, 20 de junho de 2010

Parabéns, Matilde!

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Matilde Rosa Araújo completa hoje oitenta e nove anos. A quantidade de crianças e jovens que desde 1957 (O Livro da Tila, cantigas pequeninas, Lisboa, Editorial Os nossos filhos) descobriu o prazer da leitura a partir dos seus livros não tem conta. A nossa gratidão por tudo o que fez e faz pelas letras portuguesas não consegue dizer-se em meia dúzia de palavras. Por isso não consigo perceber o esquecimento a que tem sido votada por quem tem o dever e a obrigação de se lembrar. Hoje, porém, é o dia de lhe dizer apenas: Parabéns, Matilde! E obrigada!

Quando há pouco lhe telefonei para assinalar a data, respondeu-me na sua voz de passarinho de cristal: um fraternal abraço e um beijo de muito carinho e gratidão para todos. São sempre poderosas, superiores e poéticas as suas palavras, mesmo as mais simples. Lê-la é ir ao encontro dos sentimentos e valores mais puros. Há quanto tempo já não lê Matilde?
F.R.M.
DOIS POEMAS DE MATILDE ROSA ARAÚJO:

CONCERTO
As cigarras abrem, livres, sobre as flores,
Os seus caderninhos de poetas;
E as formigas, carregadas de embrulhos, silenciosas,
Metem-se pela terra húmida
Vindas da cooperativa das formigas trabalhadoras.
Tudo isto sem fábulas, sem fome, sem lições de moral.
Noite: dá-me um dedo de cristal muito fino
Para tocar este concerto no pianinho das minhas bonecas!
O Cantar da Tila, 1957

[MINHA BENGALA FININHA]
Minha bengala fininha
Tronquinho de cerejeira
Ajudas o meu andar
És a minha companheira

Prendo-te com minha mão
Num afago que te dou
Nossa conversa é tão muda
Como um filme de Charlot

Falamos ambas da vida
Do tempo em que eu corria
Tu eras um tronco verde
Primavera que nascia

Charlot às vezes sorri-me
Entre a mão e a bengala:
Tronquinho de cerejeira
Também tem a sua fala.
Segredos e Brinquedos, 1999

[Na foto Matilde Rosa Araújo e Manuel Medeiros em 2001]

A GRANDE MORTE ATRIBUÍDA A JOSÉ SARAMAGO

Curvo-me, com todo o meu respeito e uma admiração perplexa muito forte e sincera, perante o trajecto pessoal e social de José Saramago, neste dia em que, após a solene homenagem universal, o corpo com que nos falou foi levado para ser reduzido a pó.
Agora já não considero que ter-lhe sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura seja o ponto mais alto da consagração do seu nome pela sociedade. Foi-lhe atribuída  a consagração de Morte Grande.

A consagração por Morte Grande é admirável. Sempre que é atribuída faz sentir que algo de maior, no dia a dia dos vivos, espreita uma oportunidade para se revelar sobre o que cada um deseja de todos para si mesmo e de si mesmo para todos.
Não se chega, creio eu, a perceber bem o que é.
Não parece que a atribuição de uma Morte Grande signifique ou, pelo menos, signifique apenas o respeito pela imortalidade de «aqueles que  por obras valorosas se vão da lei da morte libertando». Uma imortalidade que é tão inútil para quem morreu não parece esgotar todo o sentido da atribuição de uma Morte Grande.

Não será na aspiração de todos a verem respeitada a dignidade universal da Vida Humana que se deve procurar esse sentido mais profundo? Assim sendo, há que crer na Humanidade, contra todos os pessimistas da perdição, do descalabro e da autodestruição. Porque permanece de pé uma certeza: a luta continua, após a morte seja de quem for. A luta por nos entendermos e conduzirmos pelo melhor e maior do que somos: a inteligência livre e a existência solidária.

A Grande Morte que Portugal e o Mundo atribuíram a José Saramago merece um imenso respeito. É verdade que o Prémio Nobel contribuiu muito, mas não é uma explicação suficiente. 

L. V.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, José. Viva, José!

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Quando fui almoçar, já tarde, liguei a TV e ouvi: José Saramago terminou uma caminhada para iniciar outra, a definitiva.

Num relance vieram-me à memória os livros que escreveu e eu li, os incontornáveis, os polémicos, os nem por isso. O Levantado, o Memorial, os poemas, os «possíveis» e os outros, os contos, feitos Objecto Quase, as crónicas que sempre andaram na sua «bagagem de viajante». E A Maior Flor do Mundo, o texto que escreveu a pensar nas crianças e que João Caetano tão bem ilustrou.

Revi o alvoroço do Prémio Nobel, pódio universal incontestado, que muitos de nós aplaudimos com contentamento. E a corrida aos seus livros, cujas edições pareciam excessivas para um país de poucos leitores.

Lembrei ainda o José Saramago editor literário da Editorial Estúdios Cor, que soube dar ao leitor português autores importantíssimos. Podia referir muitos nomes, mas vou lembrar apenas um. Luísa Ducla Soares, hoje nome maior da literatura portuguesa de recepção infantil, viu a sua obra para crianças editada pela primeira vez pela mão de Saramago que, depois de lhe publicar o primeiro título, lhe encomendou outros seis, entre eles O Soldado João, construindo assim a primeira colecção de livros desta escritora.

Desse período guardamos uma pequena brochura de 29 páginas intitulada O Embargo, um conto assinado por Saramago, com ilustrações de Fernando de Azevedo, livro "exclusivamente destinado aos amigos da Editorial Estúdios Cor", oferecido por esta no Natal de 1973.

José Saramago esteve uma vez na Culsete, em 7 de Dezembro de 1991, para falar sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Dessa visita, de que não temos fotos - pois Saramago, que vinha do Alentejo, atrasou-se, o que levou o fotógrafo contratado a desistir, uma vez que tinha de ir fotografar um baptizado (evento que lhe daria muito mais trabalho e, portanto, dinheiro) - releio agora o pequeno apontamento que deixou no Livro de Honra da livraria:
Numa tarde de chuva e de amizade, conversando sobre o «Evangelho», esta lembrança grata e afectuosa do
José Saramago

Todas as personalidades deste país estão a tecer comentários sobre a grande figura das letras portuguesas e universais que foi José Saramago. Finalmente a reconciliação entre o escritor e o seu povo, após a morte, como é de uso.

É verdade que o Senhor José Meirinho Sousa Saramago partiu do convívio dos vivos, parece que serenamente; porém, o escritor José Saramago permanece e permanecerá, continuando por mais algum tempo a alimentar controvérsias literárias, já que nunca quis uma obra de consensos. Por volta das 16h recebemos um telefonema da sua editora a saber se queríamos reforçar alguns dos seus títulos. Haverá coisa melhor para um escritor do que continuar a ser procurado e encontrado pelos seus leitores, antes ou para além da morte?

Por isso digo:
Adeus, José.
Viva, José!
F.R.M.
[Foto retirada de instituto-camoes.pt/revista/images]

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A LETRA «V»

A Violeta tem agora três anos e meio.
Há pouco fui encontrá-la sentada na sua cadeira cá de casa, ao lado da cama do avô. Sobre esta, coberto com um paninho, o seu«filho». Enquanto o vigiava, não fosse vomitar (foi o que me disse), folheava nem mais nem menos do que Os Pescadores de Raul Brandão. Para mim, procurou encontrar a letra «V», a sua letra, não a encontrou, mas não ouve crise: mudámos de assunto.

Desconfio, por já uma outra vez a ter surpreendido a olhar muito atenta para outra página de um livro só com letras, que ter tirado da estante Os Pescadores e sentar-se ali sozinha com ele na mão, a folheá-lo,  não fora com a intenção de procurar o seu «V».
Será que a Violeta  já anda a ver as letras como código misterioso em que se ocultam hipóteses de infinitas descobertas?

O mistério de cada ser humano!
Violeta e o mistério que é para um avô a quem os livros sempre se desdobraram em infinitas descobertas! E sobretudo esta: «em mistério é que se vive».
L. V.

domingo, 13 de junho de 2010

OUVIR E LER ERNÂNI LOPES

Foi por acaso, mas que bom acaso!
Ouvir, ontem à noite, o Professor Ernâni Lopes, da altura da sua dignidade de homem sério perante o que lhe resta de vida, a falar perante o seu e nosso país, este Portugal enrolado em revolta sem esperança contra uma situação de que há responsáveis, e perante a necessidade de alguém nos vir falar com autoridade, foi um momento bom. Muito bom!

Ouvir e ler!
No ecrã as letras dão imensa força às palavras!

Pois! Não basta querer, é preciso poder!
Era assim:
I
Alguém sério e com poder, uma vez por dia, todos os dias a diversas horas, fazia passar em TV a fala e os papéis do Professor Ernâni Lopes.
II
Alguém sério e com poder reunia as reservas sérias e, portanto, competentes do país, de que o Professor Ernâni Lopes faz parte, e dava-lhes carta branca para pôr em marcha a limpeza - das leis, das actuações, dos tachos, etc. - e para lançar o arranque dos novos rumos.

-Acreditas nisso?
-Claro que não. Alguém acredita?

Ninguém pode acreditar. Mas é de desejar que também não se acredite que o país está a navegar por conta só de bandidos, de estúpidos e de cobardes. Mesmo que apeteça, seria errado e injusto.
Porque é que os mais competentes só se vêem e ouvem a falar e agir em lugares de segunda ou centésima fila?
Passá-los para a frente! Não seria a melhor forma de se passar à urgente desratização da democracia?
Onde é que já li qualquer coisa sobre isto?

-Achas que algum dia será possível?
-Eu? Que nem se tente! Já viste que  fim do mundo ia ser, apenas por se  tentar? Limpinho, limpinho, só o lençol da minha avó, sob o céu azul de Julho, a corar na eira!
L. V.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

«UPS!», DIGO EU!

Para um livreiro a quem um amigo chamou a atenção para os «apanhados» de Maria do Rosário Pedreira no seu blogue «horasextraordinarias.blogs.sapo.pt» -  «postes»  de 26 e 31 de Maio p. p. intitulados «Um Episódio» e  «Outro Episódio» - este «UPS!» que hoje a conhecida escritora e editora lá publicou poderia ser-lhe indiferente?
É bonita esta franqueza. Mas Maria do Rosário Pedreira subestima-se. Só porque o Manuel Valente também não se lembrou imediatamente? E então quem é o autor de A Criada Zerlina, que na Difel teve uma edição já neste século?

A preciosidade desta «coleção pequenina» da Difel (O Amin Malouf premiado que hoje pus em montra: Adriana Mater)! Ainda de formato mais pequeno do que o de O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001, e de A Casa e o Cheiro dos Livros, 2002 (não refiro de cor, fui à estante onde está um exemplar de cada um)!

Mas há mais e melhor! Em 11 de Fevereiro de 1989, passou aonde a sua tarde de sábado a escritora e editora Maria do Rosário Pedreira? Lembro-me muito bem. Aqui na Culsete, com Manuel Dias de Carvalho e Guilhermina Gomes. Apresentação por Francisco José Viegas de Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo, que tinha ao seu lado um excelente leitor, o editor Manuel Valente. De certeza que nesse dia, na nossa estante das Edições 70, estariam Os Sonâmbulos de Hermann Broch, editados no ano anterior. E é desse ano de 1989 a edição da Relógio d’Água de A Morte de Virgílio.  Anos oitenta, anos oitenta! Os anos da grande hipótese perdida de uma avançada Política da Leitura!  
Certamente, mas mesmo certamente!, Maria do Rosário Pedreira e também Manuel Valente já se recordam da recepção portuguesa de Hermann Broch nos anos oitenta. Quem lhes relevaria a desatenção? Não certamente Eduardo Prado Coelho. E, do mesmo modo,  também se recordarão dos livros de H. B. praticamente todos os livreiros portugueses com alguns anos de profissão, ao ler este simples lembrete.
 
Refiro-me a livreiros, não a simples merceeiros de livros. Entendamo-nos: com todo o meu respeito por mercearias e seus merceeiros, especialmente os que sabem tudo sobre as melhores batatas. A minha primeira escola, antes da primária, foi uma mercearia e taberna. Muito do que lá aprendi valeu muitíssimo ao livreiro que sou.
Os «livreiros informados que praticamente desapareceram»? 
Havia livreiros informados? Creio que hoje o país tem muitos mais.
São poucos? Evidentemente. Mas sempre houve poucos livreiros!
Porquê?
Ah! assim começamos a conversar a sério…
Vamos contar os editores que conhecem livreiros porque  a sua cultura geral lhes exige frequentar livrarias?
O problema da cultura geral dos livreiros é o problema da cultura geral do país. A começar por quem? Não digo! Não devo nem tenho agora paciência.

E a quem pensar que vim para aqui alardear uma imagem de mim, desejo um bom fim-de-semana. Sem óculos escuros. Talvez possa ver que, por aqui, em fim de carreira, pouco me interessa o que pensem agora de mim. Sei o que é ser livreiro num país que não sabe ir a livrarias, nem as teve, para ao menos  incluir a palavra no seu vocabulário. É tão fácil prezar alguns livreiros, ao querer menosprezar um grupo profissional que nunca foi devidamente respeitado! Não o admito. É só por isso.
L.V.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

REQUIEM POR UM POETA MORTO OU O SILÊNCIO QUANDO DÓI

Ouvi-te. 
Agora, o silêncio veste o teu rosto de ausência e para os teus olhos fixos  nada existe a ver.
Dantes, quem eras?
Quem és, agora?
O teu silêncio a pedir e fechamos-te os olhos.
Não. Já não estás à nossa espera.
É tarde de mais para te darmos atenção. Com muito para nos dizer, esperaste-nos em vão.
Desististe.
«Sem nada pra dizer também se vive?»
Agora, já não estás à nossa espera. Mas nós iremos. Que ao menos para o ficarmos a saber não seja em vão a dor com que vemos este silêncio de que o teu rosto se vestiu. 
L. V.

terça-feira, 8 de junho de 2010

QUEM ME PODE CONTAR? QUEM SE LEMBRA DE MANUEL DIAS DE CARVALHO?

Leio no blogue da Ler o texto de Francisco José Viegas sobre a confirmação pela Autoridade da Concorrência da «aquisição pelo Grupo Porto Editora da área editorial da Bertelsmann».
É um acontecimento de incalculável importância no mundo português do livro.
Vale a pena gravar a data: 7 de Junho de 2010.

Ao ler o texto de Francisco José Viegas como podia não ler neles, na subliminaridade disponível em qualquer leitura para um leitor concreto,  o nome de Manuel Dias de Carvalho?
A fase final da carreira do eminente editor português da segunda metade do século XX  Manuel Dias de Carvalho foi subitamente interrompida, após mais de dez anos do seu excepcional trabalho ao serviço do Círculo de Leitores, por uma daquelas dolorosas surpresas que a morte nos impõe.

Outro ilustríssimo setubalense…
Quem me pode contar a história e as «estórias» da carreira do editor Manuel Dias de Carvalho, o ilustre setubalense a quem muitos tanto devemos e de que até parece que já ninguém se lembra?
L. V.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

RECEBER FERNANDO CRISTOVÃO, ILUSTRE SETUBALENSE, COM MUITO GOSTO!

-Posso trazer para a blogosfera a nota de imprensa que se segue? 
-Nem se pergunta! Até já o devias ter feito, Livreiro Velho.

Fernando Cristóvão apresentará na Livraria Culsete, no próximo sábado, dia 5 de Junho, pelas 21,30h, o livro Literatura de Viagens – Da Tradicional à Nova e à Novíssima – Marcas e Temas, uma obra colectiva que acaba de ser editada, sob a sua direcção e coordenação, nas Edições Almedina.

O Professor Doutor Fernando Cristóvão é um dos mais notáveis académicos portugueses das últimas décadas. Filho de Setúbal, o seu nome, a sua actividade e a sua vasta obra publicada honram a cidade. No 10 de Junho de 2007 foi condecorado, aqui entre nós, pelo Presidente da República, com a Ordem de Grande Oficial da Instrução Pública.

No volume agora editado, para além do texto introdutório, «Literatura de Viagens: Da tradicional à Nova e à Novíssima», Fernando Cristóvão é também autor de um outro estudo intitulado «Marcas da Literatura de Viagens nos Textos Ufanistas Brasileiros».

Pela vasta investigação sobre a Literatura de Viagens, publicada em diversas obras ao longo dos anos, a autoridade de Fernando Cristóvão é bem conhecida e reconhecida aquém e além fronteiras.

A sua obra é, contudo, muitíssimo mais vasta. Quem tem estado atento recorda-se-á imediatamente desse belo título Cruzeiro do Sul, a Norte e terá de dedicar uma especial menção ao Dicionário Temático da Lusofonia. E como não ler e reler Da Lusitanidade à Lusofonia?

Setúbal precisa de ocasiões assim para demonstrar aos seus filhos ilustres quanto deles se honra.

Que participem nesta sessão quantos o desejem, mas em especial aqueles para quem Fernando Cristóvão não pode deixar de ser uma referência, pela relevância da sua obra!
PARTICIPE!

O Livreiro Velho agradece o apoio e a repreensão acima.
Na onda, para quem não  puder amanhã participar num serão tão agradável, aproveita e deixa outra nota, um NB.

NB:
Por coincidência, amanhã é 5 de Junho. Em 5 de Junho de 1918 nasceu em Setúbal João José da Silva Duarte. O andersanista Silva Duarte. O pintor J.J. Duarte.
Na Alemanha, em Würzburg, onde vive, completará amanhã 92 anos. Saudades do 5 de Junho de 2001! A surpresa, a prenda que tanto o comoveu e a sua ex.ma esposa! A sua cidade natal a festejar com ele o seu 83.º aniversário!
Estes filhos de Setúbal, que tanto a honram! E que, por vezes…
L. V.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2x2 E BASTA!

Bastou para o meu amigo e talvez baste também para muito boa gente que continua com dificuldade em entender. Talvez. Não tenho a certeza, mas talvez …, talvez…
Duas vezes comprou o mesmo livro duas vezes. Da primeira, ficou com os dois e, da segunda, ficou só com um, o que significa que lhe custou o dobro.
-Que charada é esta?
Nada disso! Apenas coisas que raramente acontecem, como se compreende. Porque o meu amigo não comprou cabides para novas camisas.  Nem sabonetes. Nem garrafas do vinho que costuma beber. Foram livros!
Para oferecer, tudo bem. Agora, para si próprio?!… 

Quem é que, em princípio, compra o mesmo livro duas vezes para si próprio?
Só se o perdeu.
Ainda não o tinha lido? 
Achou-o tão precioso que tem de o possuir?

Não foi o caso do meu amigo.
Contou-me ele: por duas vezes  comprou o mesmo livro duas vezes. Assim mesmo: duas vezes duas. Inacreditável, mas acreditei, porque ele me disse, no primeiro caso, a quem o comprou. No segundo, não quis dizer. Que se tratava também de um livreiro meu conhecido e… (como se eu não suspeitasse imediatamente…, mas respeitei a sua delicadeza de sentimentos e…).
Neste segundo caso pouco há a dizer. Acabara de pagar o livro, cumprimenta-o uma pessoa conhecida, sai a conversar com ela. Lembra-se. Uns dez minutos. Volta pelo livro que esquecera sobre o balcão e já lá não está. O livreiro mostra as mãos abertas, apesar de «mãos sujas».  Acabou-se! Pediu outro exemplar. Novo pagamento, mas com o livro seguro na outra mão.
Pior teria sido se não pagasse duas vezes: enquanto conversava,   pusera distraidamente o cartão multibanco dentro do livro. Como, desta segunda vez que pagou, o exemplar era o mesmo, não perdeu o cartão.

Estas distracções dos poetas! Um deles contou-me: foi à rua levantar dinheiro, guardou o cartão, voltou para casa e então é que se lembrou de recolher o dinheiro.  Tão poeta, que voltou por ele à caixa multibanco! Juro! Foi ele que contou!
Se alguém está a ler esta «estória» e espera que lhe diga que o milagre aconteceu, fico mesmo convencido: meu país de poetas!

E agora o primeiro caso. Este é muito bonito! Com um livreiro que conheço e me foi mencionado. O meu amigo é dos tais que não consegue passar por uma livraria sem entrar para dar uma vista de olhos. Conhece-as a todas! Sempre foi assim, mesmo no tempo em que se estava longe desta loucura da catadupa de novidades impossível de acompanhar. Quem quiser dar com livrarias e conhecer livreiros, fale com ele. Alguém quererá? Talvez… Embora se saiba que o bom hábito de frequentar livrarias não apanhou nunca muita gente que se tem na conta de gente letrada.

Há anos que o meu amigo não relia os contos de  D. H.Lawrence reunidos sob o título de Amor no Feno e Outros Contos, a não ser O Homem que Morreu, editado em 2004 separadamente, também pela Assírio & Alvim, com excelente apresentação e tradução de Aníbal Fernandes.
Viu o livro na estante e desejou reler em especial aquele conto que tanto o marcara e de que até decorara o início: Havia um  homem que amava ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu. «Encontrar ainda o livro» (horasextraordinarias.blogs.sapo.pt), não o surpreendeu, sabia que continuava disponível, mas não deixou de dirigir ao livreiro um aplauso por ter nas suas estantes um exemplar. Percebeu logo que o livreiro entendera que ia comprá-lo.
Tinha-o em casa. Voltar a comprá-lo? E não é que comprou mesmo! Foi esta a primeira vez que, para si próprio, comprou um livro duas vezes.

Quando pagava, o livreiro comentou:
-Então, gosta de ler contos! Eu também gosto. Procuro ter sempre  grandes clássicos e o que de bom continua a aparecer. E olhe que vou vendendo. Ainda hoje um senhor que me disse ir passar uns dias nas termas se decidiu por levar consigo os Contos do Pacífico.  O meu amigo disse-me que nada respondeu. Apenas sorriu. Depois despediu-se e saiu.
Não esperou para chegar a casa. Abriu o livro no penúltimo conto: «O Homem que Amava Ilhas». Foi lendo pela rua. Que perigo!
Lembram-se daquele caso da mulher que por causa disso morreu atropelada em Nova Iorque ou foi em Washington? 
Pois! Esse, não. O livreiro não tinha nas suas estantes o livro onde o caso é contado. Casa de Papel? Não digo que sim nem que não. «Se quiserem preocupar-se, que não se preocupem»: é só a velhice.

E acho que me esqueci de contar qualquer coisa…
Ah! Sim! Não contei o que levou o meu amigo a comprar duas vezes para si próprio o Amor no Feno e Outros Contos... 
Mas também, agora, já seria abusar do tempo de quem visita o blogue. Só se algum visitante achar que vale a pena.
Por mim, se der para se entender como o problema do comércio livreiro apanhou o meu amigo nas suas delicadezas de boa pessoa, terei muito gosto.
L. V.