Quando se arrumam estantes acontece quase sempre: um livro que revisitamos com renovado interesse e carinho.
Joel Serrão, Portugueses Somos.
Ensaios anteriores, prefaciados num dia invernoso de Fevereiro de 1975, na sua casa de Santana, Sesimbra.
Assim (excertos):
Sobretudo, impõe-se-me gradualmente, a certeza de que, neste momento decisivo e porventura genesíaco da vida portuguesa, é fundamental compreendermo-nos tais quais somos, prestando a máxima atenção ao fenómeno nacional nos seus múltiplos aspectos – dos económicos e sociais até aos mentais e culturais.
(…)
É que ou nos compreendemos tais quais somos, aproando, a partir daí, para o futuro que importa inventar, ou correremos o risco de nos enovelarmos em contradições insanáveis que, de um mesmo golpe, nos velarão a inteligibilidade quer do Mundo em que estamos, quer do País que somos, quer do País que desejamos e podemos vir a ser.
Sobre esse dia de Fevereiro de 1975, invernoso aqui na Península de Setúbal e porventura em todo o país, passaram já 35 anos.
Ah! …um cacho de glícinias – um só cacho ainda…
É real, no encerramento do prefácio:
Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias
- um só cacho ainda – antecipa-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilaz…
Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo – e assumi-lo.
Quem pode ler isto hoje e não sentir revolta perante a falhada esperança de «um lençol lilaz»?
Não foi por falta de aviso, como se vê. E o pior é que continuamos a ignorá-lo.
L. V.
Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
VOLTAR A LER JOEL SERRÃO
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