Domingo, 12 de Setembro de 2010

«Desfecho (…) mais decepcionante que o meu»

E continuo a citar ou transcrever:

«- Aí é que se engana. Com o entendimento dos espíritos esclarecidos e a preparação da consciência pública, a revolução será uma realidade concreta, transformada a sociedade no ponto de vista político, económico, e religioso!
-Gostava de partilhar desse entusiasmo, mas não é fácil. Aliás, já vi escrito em qualquer lado que uma única revolução é possível ou antes inevitável em Portugal: é a revolução anárquica da fome, mas essa não precisa que ninguém a promova, nem pode ser matéria de programas políticos.
-Todos passamos por momentos de desânimo – condescendeu Antero, por fim, antes de os dois se remeterem de novo ao silêncio.»

É de um conto: «O comboio inexistente». Com ele Urbano Bettencourt abre o seu recentíssimo livro Que Paisagem Apagarás que acaba de sair em Ponta Delgada numa edição Publiçor, uma autêntica preciosidade literária que, como é certo e decepcionante, por cá só será lido por uns quantos privilegiados, entre os quais felizmente me conto.
Literatura açoriana e ainda por cima editada nos Açores?
É melhor falar disso noutra ilha.
Aqui foi só para esta homenagem a Antero, na comemoração do desfecho da sua viagem, em 11 de Setembro de 1891, e para agradecer ao Manuel Urbano não apenas o livro, mas também esta preciosa página anteriana.
L. V.

2 comentários:

  1. Caro Livreiro Velho (tão «velho» que me editou o meu primeiro livro em 1972, onde estas «coisas» começaram a ganhar estabilidade):
    Surpreendido e grato pela citação do meu conto, que é, neste fragmento, uma citação de fragmentos do próprio Antero. Jogo de espelhos. Antero continua a assombrar-me,pela força do seu mistério e inquietação; é um dos meus fantasmas bons.
    Grande abraço.
    Urbano

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  2. Pois, caro Urbano, 1972 e era Primavera. Ou pensará alguém que esqueci os cravos do teu grito de Liberdade que só duas Primaveras adiante sairam à rua?
    «Mafra
    é mafra
    e eu
    sou eu.
    Por detrás da máscara eu lá estou
    sem ódios, nem balas,nem guerras
    despido
    e com um ramo de cravos
    em cada mão.»
    Mas também não penses tu que fui à procura deste teu poema para aqui o citar. Reli-o há dias por entre os acasos e tormentas da navegação e ainda estava aqui sobre a mesa.
    Toma nota de que do teu conto não transcrevi aquele «Gostaria de lançar esse projecto na minha ilha», mas disse: «é melhor falar disso noutra ilha».
    L. V.

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