domingo, 31 de outubro de 2010

MADALENA FÉRIN - Chegou ao fim o “intervalo entre o nada e o nada”

 

ferin

Os anos e as circunstâncias passam, mas continuo a cair no mesmo erro. Por que adio eu tantas vezes a necessidade de escrever sobre alguém que se cruzou comigo (e me tocou) na praça da leitura? Por que persisto em dizer a mim mesma que estou cheia de obrigações penduradas na corda das urgências? Que mal é este crónico em mim que me faz arrastar até à inevitabilidade vontades que me invadem e que só o marcar de datas para isto e aquilo consegue vencer?

Cá estou eu, confrontada de novo com a morte de alguém que fez da escrita um dos gestos mais significativos dos seus dias e que inscreveu o seu nome e os seus versos na minha antologia pessoal. Refiro-me a Madalena Férin, que chegou “ao cais do nada” para “nunca mais voltar” no passado dia 5 de Setembro.

No já longínquo ano de 1988, apôs ela na página de rosto de um exemplar de A Cidade Vegetal, feito prenda sua, a seguinte dedicatória:

À Maria de Fátima Medeiros,
a muita amizade desta açoriana desterrada
Madalena Férin

E ao entregar-me o livro disse baixinho, com um sorriso nos lábios e no olhar: Este é só para ti. Coisas nossas.

Aquela cumplicidade e aqueles olhos haviam de regressar sempre a todos os nossos encontros, mesmo quando a saúde, essa traidora, pregava as suas partidas.

Tenho por estes dias procurado encontrá-la nas antologias poéticas dos últimos anos e nada… Nem sequer os Cem Poemas Portugueses no Feminino a incluem (Então, Josés?). Mulher e ainda por cima assumindo-se das letras açorianas…  De parabéns estão Pedro da Silveira e Ruy Galvão de Carvalho que não a ignoraram (não conheço as antologias que mais recentemente preparou Urbano Bettencourt, por isso não posso confirmar se incluem ou não textos de M.F.).

Não era de vedetismos, não gritava olhem para mim, leiam-me, que vale a pena, aparecia nos sítios para ouvir os ditos donos das letras e escondia-se nos fundos das cadeiras para que não dessem por ela, por isso passou entre jornalistas e editores e leitores sem que sentissem o seu perfume de palavras que, contudo, está no ar. Tocou em vários géneros, mas é a sua poesia que mais se afeiçoa ao meu sentir.

Sem mais comentários, aqui ficam alguns poemas de Meia-Noite no Mar (1985) e A Cidade Vegetal (1987), os mais meus dos livros de poesia de Madalena Férin.

Arraial

Que sombra de infância
p
erpassa na gente!
Estrelas pousadas
nos braços das árvores!
e todos andando
e todos buscando
atrasar o tempo!
E o tempo correndo
e a roda girando
e as estrelas caindo
e as pedras voando!

Eu sou entre tantos?
Que é feito de mim?
No pomar de estrelas
– perdida, perdida –
nunca mais me encontro?

[Se a vida é um intervalo]

Se a vida é um intervalo
entre o nada e o nada
tormentosa viagem
entre dois portos inexistentes
que bom será chegar ao termo do caminho.

Não ter ouvidos nem para o silêncio
nem olhos para a sombra ou para a luz
nem alma para os anjos
Chegar ao cais do nada
e nunca mais voltar…

Auto-retrato

asa talvez
mas réptil
indeciso
entre o voo
e o rastejo
ave talvez

rasgando o lamaçal
mas serpente
mas lava
mas parede
         que aparta

pomba
faca
rastilho

pedra no ar

[Verde é o riso]

                        Verde é o riso
e traz o selo intacto
e as marcas verticais
das estátuas nuas
como a mentira em todas as verdades
e o lírio branco em todas as mentiras

                       Verde é o riso
no espaço marginado
entre a manhã e a noite
das vertigens

F.R.M.

[Foto: Outubro de 2001, no F. Luísa Todi]

1 comentário:

  1. Madalena Férin foi minha colega de trabalho, um escritório, vejam só, nunca pensei que nela existisse a poetisa a que por acaso tive acesso, obrigada Madalena. J. Alvito

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