quarta-feira, 30 de junho de 2010

RELANÇAR AS ATENÇÕES

O sucesso do futebol?
Antes de mais, diga-se que é inegável. Excessivo? Aí já entramos no campo das opiniões, dos gostos, das explicações e, naturalmente, das paixões.
Mas, pronto! Portugal perdeu com a Espanha e o resto do Mundial já não nos dá nervos. E agora, com que nos vamos distrair?
Porque, salvo melhor opinião, aquilo para que no fundo o futebol serve é para distrair.  Ou tenho de entrar nos pântanos?
Bem precisamos de distracções. E sobretudo quando as coisas estão em clima de mal-estar generalizado.
Quem me quer dizer se há por aí alguma coisa com que se possa preencher o vazio aberto  pela derrota no futebol?
Enquanto espero pela resposta vou ver se consigo ler qualquer livro bom para me distrair, em vez de estar para aqui a pensar na subida do I. V. A., já amanhã, 1 de Julho deste 2010 de crises. Também chegou aos livros, desta vez,  para armar confusão de comunicados das editoras e distribuidoras, uma confusão simples, mas que dá dores de cabeça e das tais de que menos gosto.
Por fora disto tudo, fica-se perplexo:
ou já não há seres pensantes nesta sociedade ou desistiram de arrombar as fortalezas da estupidez pelos fundamentos, que é donde vem a sua resistência.
L. V.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ARLINDO MOTA APRESENTA NOVO LIVRO

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Amanhã, dia 26 de Junho de 2010, pelas 21,30 horas, a  Culsete abrirá as suas portas para um encontro com Arlindo Mota a propósito do seu mais recente livro, Flor de Sal, uma narrativa de ficção cuja acção se desenrola no dealbar da ditadura do Estado Novo.

Arlindo Mota é uma personalidade que dispensa apresentações. É reconhecida a sua intervenção cívica e cultural, tocando múltiplas áreas, quer enquanto professor, homem de pensamento, cidadão empenhado. Desde sempre tem dedicado à escrita boa parte do seu tempo, investindo em áreas tão distintas como a filosofia, o municipalismo, o património. Porém, a mais íntima, a mais secreta, a mais constante, é a escrita literária, sendo de destacar os seus livros de poesia, Canto Viageiro (1981), Incertos Dias (1986), Marca de Água (1996) e A Seda das Palavras (2004).

Com Flor de Sal Arlindo Mota dá os primeiros passos na narrativa de ficção. Esta será, portanto, uma oportunidade de reencontro entre o escritor e os seus leitores e amigos. É, pois, mais uma sessão imperdível na Culsete. Apareça! Contamos consigo.

F.R.M.

[Foto: Arlindo Mota na Culsete em 23/04/2010]

domingo, 20 de junho de 2010

Parabéns, Matilde!

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Matilde Rosa Araújo completa hoje oitenta e nove anos. A quantidade de crianças e jovens que desde 1957 (O Livro da Tila, cantigas pequeninas, Lisboa, Editorial Os nossos filhos) descobriu o prazer da leitura a partir dos seus livros não tem conta. A nossa gratidão por tudo o que fez e faz pelas letras portuguesas não consegue dizer-se em meia dúzia de palavras. Por isso não consigo perceber o esquecimento a que tem sido votada por quem tem o dever e a obrigação de se lembrar. Hoje, porém, é o dia de lhe dizer apenas: Parabéns, Matilde! E obrigada!

Quando há pouco lhe telefonei para assinalar a data, respondeu-me na sua voz de passarinho de cristal: um fraternal abraço e um beijo de muito carinho e gratidão para todos. São sempre poderosas, superiores e poéticas as suas palavras, mesmo as mais simples. Lê-la é ir ao encontro dos sentimentos e valores mais puros. Há quanto tempo já não lê Matilde?
F.R.M.
DOIS POEMAS DE MATILDE ROSA ARAÚJO:

CONCERTO
As cigarras abrem, livres, sobre as flores,
Os seus caderninhos de poetas;
E as formigas, carregadas de embrulhos, silenciosas,
Metem-se pela terra húmida
Vindas da cooperativa das formigas trabalhadoras.
Tudo isto sem fábulas, sem fome, sem lições de moral.
Noite: dá-me um dedo de cristal muito fino
Para tocar este concerto no pianinho das minhas bonecas!
O Cantar da Tila, 1957

[MINHA BENGALA FININHA]
Minha bengala fininha
Tronquinho de cerejeira
Ajudas o meu andar
És a minha companheira

Prendo-te com minha mão
Num afago que te dou
Nossa conversa é tão muda
Como um filme de Charlot

Falamos ambas da vida
Do tempo em que eu corria
Tu eras um tronco verde
Primavera que nascia

Charlot às vezes sorri-me
Entre a mão e a bengala:
Tronquinho de cerejeira
Também tem a sua fala.
Segredos e Brinquedos, 1999

[Na foto Matilde Rosa Araújo e Manuel Medeiros em 2001]

A GRANDE MORTE ATRIBUÍDA A JOSÉ SARAMAGO

Curvo-me, com todo o meu respeito e uma admiração perplexa muito forte e sincera, perante o trajecto pessoal e social de José Saramago, neste dia em que, após a solene homenagem universal, o corpo com que nos falou foi levado para ser reduzido a pó.
Agora já não considero que ter-lhe sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura seja o ponto mais alto da consagração do seu nome pela sociedade. Foi-lhe atribuída  a consagração de Morte Grande.

A consagração por Morte Grande é admirável. Sempre que é atribuída faz sentir que algo de maior, no dia a dia dos vivos, espreita uma oportunidade para se revelar sobre o que cada um deseja de todos para si mesmo e de si mesmo para todos.
Não se chega, creio eu, a perceber bem o que é.
Não parece que a atribuição de uma Morte Grande signifique ou, pelo menos, signifique apenas o respeito pela imortalidade de «aqueles que  por obras valorosas se vão da lei da morte libertando». Uma imortalidade que é tão inútil para quem morreu não parece esgotar todo o sentido da atribuição de uma Morte Grande.

Não será na aspiração de todos a verem respeitada a dignidade universal da Vida Humana que se deve procurar esse sentido mais profundo? Assim sendo, há que crer na Humanidade, contra todos os pessimistas da perdição, do descalabro e da autodestruição. Porque permanece de pé uma certeza: a luta continua, após a morte seja de quem for. A luta por nos entendermos e conduzirmos pelo melhor e maior do que somos: a inteligência livre e a existência solidária.

A Grande Morte que Portugal e o Mundo atribuíram a José Saramago merece um imenso respeito. É verdade que o Prémio Nobel contribuiu muito, mas não é uma explicação suficiente. 

L. V.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, José. Viva, José!

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Quando fui almoçar, já tarde, liguei a TV e ouvi: José Saramago terminou uma caminhada para iniciar outra, a definitiva.

Num relance vieram-me à memória os livros que escreveu e eu li, os incontornáveis, os polémicos, os nem por isso. O Levantado, o Memorial, os poemas, os «possíveis» e os outros, os contos, feitos Objecto Quase, as crónicas que sempre andaram na sua «bagagem de viajante». E A Maior Flor do Mundo, o texto que escreveu a pensar nas crianças e que João Caetano tão bem ilustrou.

Revi o alvoroço do Prémio Nobel, pódio universal incontestado, que muitos de nós aplaudimos com contentamento. E a corrida aos seus livros, cujas edições pareciam excessivas para um país de poucos leitores.

Lembrei ainda o José Saramago editor literário da Editorial Estúdios Cor, que soube dar ao leitor português autores importantíssimos. Podia referir muitos nomes, mas vou lembrar apenas um. Luísa Ducla Soares, hoje nome maior da literatura portuguesa de recepção infantil, viu a sua obra para crianças editada pela primeira vez pela mão de Saramago que, depois de lhe publicar o primeiro título, lhe encomendou outros seis, entre eles O Soldado João, construindo assim a primeira colecção de livros desta escritora.

Desse período guardamos uma pequena brochura de 29 páginas intitulada O Embargo, um conto assinado por Saramago, com ilustrações de Fernando de Azevedo, livro "exclusivamente destinado aos amigos da Editorial Estúdios Cor", oferecido por esta no Natal de 1973.

José Saramago esteve uma vez na Culsete, em 7 de Dezembro de 1991, para falar sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Dessa visita, de que não temos fotos - pois Saramago, que vinha do Alentejo, atrasou-se, o que levou o fotógrafo contratado a desistir, uma vez que tinha de ir fotografar um baptizado (evento que lhe daria muito mais trabalho e, portanto, dinheiro) - releio agora o pequeno apontamento que deixou no Livro de Honra da livraria:
Numa tarde de chuva e de amizade, conversando sobre o «Evangelho», esta lembrança grata e afectuosa do
José Saramago

Todas as personalidades deste país estão a tecer comentários sobre a grande figura das letras portuguesas e universais que foi José Saramago. Finalmente a reconciliação entre o escritor e o seu povo, após a morte, como é de uso.

É verdade que o Senhor José Meirinho Sousa Saramago partiu do convívio dos vivos, parece que serenamente; porém, o escritor José Saramago permanece e permanecerá, continuando por mais algum tempo a alimentar controvérsias literárias, já que nunca quis uma obra de consensos. Por volta das 16h recebemos um telefonema da sua editora a saber se queríamos reforçar alguns dos seus títulos. Haverá coisa melhor para um escritor do que continuar a ser procurado e encontrado pelos seus leitores, antes ou para além da morte?

Por isso digo:
Adeus, José.
Viva, José!
F.R.M.
[Foto retirada de instituto-camoes.pt/revista/images]

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A LETRA «V»

A Violeta tem agora três anos e meio.
Há pouco fui encontrá-la sentada na sua cadeira cá de casa, ao lado da cama do avô. Sobre esta, coberto com um paninho, o seu«filho». Enquanto o vigiava, não fosse vomitar (foi o que me disse), folheava nem mais nem menos do que Os Pescadores de Raul Brandão. Para mim, procurou encontrar a letra «V», a sua letra, não a encontrou, mas não ouve crise: mudámos de assunto.

Desconfio, por já uma outra vez a ter surpreendido a olhar muito atenta para outra página de um livro só com letras, que ter tirado da estante Os Pescadores e sentar-se ali sozinha com ele na mão, a folheá-lo,  não fora com a intenção de procurar o seu «V».
Será que a Violeta  já anda a ver as letras como código misterioso em que se ocultam hipóteses de infinitas descobertas?

O mistério de cada ser humano!
Violeta e o mistério que é para um avô a quem os livros sempre se desdobraram em infinitas descobertas! E sobretudo esta: «em mistério é que se vive».
L. V.

domingo, 13 de junho de 2010

OUVIR E LER ERNÂNI LOPES

Foi por acaso, mas que bom acaso!
Ouvir, ontem à noite, o Professor Ernâni Lopes, da altura da sua dignidade de homem sério perante o que lhe resta de vida, a falar perante o seu e nosso país, este Portugal enrolado em revolta sem esperança contra uma situação de que há responsáveis, e perante a necessidade de alguém nos vir falar com autoridade, foi um momento bom. Muito bom!

Ouvir e ler!
No ecrã as letras dão imensa força às palavras!

Pois! Não basta querer, é preciso poder!
Era assim:
I
Alguém sério e com poder, uma vez por dia, todos os dias a diversas horas, fazia passar em TV a fala e os papéis do Professor Ernâni Lopes.
II
Alguém sério e com poder reunia as reservas sérias e, portanto, competentes do país, de que o Professor Ernâni Lopes faz parte, e dava-lhes carta branca para pôr em marcha a limpeza - das leis, das actuações, dos tachos, etc. - e para lançar o arranque dos novos rumos.

-Acreditas nisso?
-Claro que não. Alguém acredita?

Ninguém pode acreditar. Mas é de desejar que também não se acredite que o país está a navegar por conta só de bandidos, de estúpidos e de cobardes. Mesmo que apeteça, seria errado e injusto.
Porque é que os mais competentes só se vêem e ouvem a falar e agir em lugares de segunda ou centésima fila?
Passá-los para a frente! Não seria a melhor forma de se passar à urgente desratização da democracia?
Onde é que já li qualquer coisa sobre isto?

-Achas que algum dia será possível?
-Eu? Que nem se tente! Já viste que  fim do mundo ia ser, apenas por se  tentar? Limpinho, limpinho, só o lençol da minha avó, sob o céu azul de Julho, a corar na eira!
L. V.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

«UPS!», DIGO EU!

Para um livreiro a quem um amigo chamou a atenção para os «apanhados» de Maria do Rosário Pedreira no seu blogue «horasextraordinarias.blogs.sapo.pt» -  «postes»  de 26 e 31 de Maio p. p. intitulados «Um Episódio» e  «Outro Episódio» - este «UPS!» que hoje a conhecida escritora e editora lá publicou poderia ser-lhe indiferente?
É bonita esta franqueza. Mas Maria do Rosário Pedreira subestima-se. Só porque o Manuel Valente também não se lembrou imediatamente? E então quem é o autor de A Criada Zerlina, que na Difel teve uma edição já neste século?

A preciosidade desta «coleção pequenina» da Difel (O Amin Malouf premiado que hoje pus em montra: Adriana Mater)! Ainda de formato mais pequeno do que o de O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001, e de A Casa e o Cheiro dos Livros, 2002 (não refiro de cor, fui à estante onde está um exemplar de cada um)!

Mas há mais e melhor! Em 11 de Fevereiro de 1989, passou aonde a sua tarde de sábado a escritora e editora Maria do Rosário Pedreira? Lembro-me muito bem. Aqui na Culsete, com Manuel Dias de Carvalho e Guilhermina Gomes. Apresentação por Francisco José Viegas de Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo, que tinha ao seu lado um excelente leitor, o editor Manuel Valente. De certeza que nesse dia, na nossa estante das Edições 70, estariam Os Sonâmbulos de Hermann Broch, editados no ano anterior. E é desse ano de 1989 a edição da Relógio d’Água de A Morte de Virgílio.  Anos oitenta, anos oitenta! Os anos da grande hipótese perdida de uma avançada Política da Leitura!  
Certamente, mas mesmo certamente!, Maria do Rosário Pedreira e também Manuel Valente já se recordam da recepção portuguesa de Hermann Broch nos anos oitenta. Quem lhes relevaria a desatenção? Não certamente Eduardo Prado Coelho. E, do mesmo modo,  também se recordarão dos livros de H. B. praticamente todos os livreiros portugueses com alguns anos de profissão, ao ler este simples lembrete.
 
Refiro-me a livreiros, não a simples merceeiros de livros. Entendamo-nos: com todo o meu respeito por mercearias e seus merceeiros, especialmente os que sabem tudo sobre as melhores batatas. A minha primeira escola, antes da primária, foi uma mercearia e taberna. Muito do que lá aprendi valeu muitíssimo ao livreiro que sou.
Os «livreiros informados que praticamente desapareceram»? 
Havia livreiros informados? Creio que hoje o país tem muitos mais.
São poucos? Evidentemente. Mas sempre houve poucos livreiros!
Porquê?
Ah! assim começamos a conversar a sério…
Vamos contar os editores que conhecem livreiros porque  a sua cultura geral lhes exige frequentar livrarias?
O problema da cultura geral dos livreiros é o problema da cultura geral do país. A começar por quem? Não digo! Não devo nem tenho agora paciência.

E a quem pensar que vim para aqui alardear uma imagem de mim, desejo um bom fim-de-semana. Sem óculos escuros. Talvez possa ver que, por aqui, em fim de carreira, pouco me interessa o que pensem agora de mim. Sei o que é ser livreiro num país que não sabe ir a livrarias, nem as teve, para ao menos  incluir a palavra no seu vocabulário. É tão fácil prezar alguns livreiros, ao querer menosprezar um grupo profissional que nunca foi devidamente respeitado! Não o admito. É só por isso.
L.V.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

REQUIEM POR UM POETA MORTO OU O SILÊNCIO QUANDO DÓI

Ouvi-te. 
Agora, o silêncio veste o teu rosto de ausência e para os teus olhos fixos  nada existe a ver.
Dantes, quem eras?
Quem és, agora?
O teu silêncio a pedir e fechamos-te os olhos.
Não. Já não estás à nossa espera.
É tarde de mais para te darmos atenção. Com muito para nos dizer, esperaste-nos em vão.
Desististe.
«Sem nada pra dizer também se vive?»
Agora, já não estás à nossa espera. Mas nós iremos. Que ao menos para o ficarmos a saber não seja em vão a dor com que vemos este silêncio de que o teu rosto se vestiu. 
L. V.

terça-feira, 8 de junho de 2010

QUEM ME PODE CONTAR? QUEM SE LEMBRA DE MANUEL DIAS DE CARVALHO?

Leio no blogue da Ler o texto de Francisco José Viegas sobre a confirmação pela Autoridade da Concorrência da «aquisição pelo Grupo Porto Editora da área editorial da Bertelsmann».
É um acontecimento de incalculável importância no mundo português do livro.
Vale a pena gravar a data: 7 de Junho de 2010.

Ao ler o texto de Francisco José Viegas como podia não ler neles, na subliminaridade disponível em qualquer leitura para um leitor concreto,  o nome de Manuel Dias de Carvalho?
A fase final da carreira do eminente editor português da segunda metade do século XX  Manuel Dias de Carvalho foi subitamente interrompida, após mais de dez anos do seu excepcional trabalho ao serviço do Círculo de Leitores, por uma daquelas dolorosas surpresas que a morte nos impõe.

Outro ilustríssimo setubalense…
Quem me pode contar a história e as «estórias» da carreira do editor Manuel Dias de Carvalho, o ilustre setubalense a quem muitos tanto devemos e de que até parece que já ninguém se lembra?
L. V.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

RECEBER FERNANDO CRISTOVÃO, ILUSTRE SETUBALENSE, COM MUITO GOSTO!

-Posso trazer para a blogosfera a nota de imprensa que se segue? 
-Nem se pergunta! Até já o devias ter feito, Livreiro Velho.

Fernando Cristóvão apresentará na Livraria Culsete, no próximo sábado, dia 5 de Junho, pelas 21,30h, o livro Literatura de Viagens – Da Tradicional à Nova e à Novíssima – Marcas e Temas, uma obra colectiva que acaba de ser editada, sob a sua direcção e coordenação, nas Edições Almedina.

O Professor Doutor Fernando Cristóvão é um dos mais notáveis académicos portugueses das últimas décadas. Filho de Setúbal, o seu nome, a sua actividade e a sua vasta obra publicada honram a cidade. No 10 de Junho de 2007 foi condecorado, aqui entre nós, pelo Presidente da República, com a Ordem de Grande Oficial da Instrução Pública.

No volume agora editado, para além do texto introdutório, «Literatura de Viagens: Da tradicional à Nova e à Novíssima», Fernando Cristóvão é também autor de um outro estudo intitulado «Marcas da Literatura de Viagens nos Textos Ufanistas Brasileiros».

Pela vasta investigação sobre a Literatura de Viagens, publicada em diversas obras ao longo dos anos, a autoridade de Fernando Cristóvão é bem conhecida e reconhecida aquém e além fronteiras.

A sua obra é, contudo, muitíssimo mais vasta. Quem tem estado atento recorda-se-á imediatamente desse belo título Cruzeiro do Sul, a Norte e terá de dedicar uma especial menção ao Dicionário Temático da Lusofonia. E como não ler e reler Da Lusitanidade à Lusofonia?

Setúbal precisa de ocasiões assim para demonstrar aos seus filhos ilustres quanto deles se honra.

Que participem nesta sessão quantos o desejem, mas em especial aqueles para quem Fernando Cristóvão não pode deixar de ser uma referência, pela relevância da sua obra!
PARTICIPE!

O Livreiro Velho agradece o apoio e a repreensão acima.
Na onda, para quem não  puder amanhã participar num serão tão agradável, aproveita e deixa outra nota, um NB.

NB:
Por coincidência, amanhã é 5 de Junho. Em 5 de Junho de 1918 nasceu em Setúbal João José da Silva Duarte. O andersanista Silva Duarte. O pintor J.J. Duarte.
Na Alemanha, em Würzburg, onde vive, completará amanhã 92 anos. Saudades do 5 de Junho de 2001! A surpresa, a prenda que tanto o comoveu e a sua ex.ma esposa! A sua cidade natal a festejar com ele o seu 83.º aniversário!
Estes filhos de Setúbal, que tanto a honram! E que, por vezes…
L. V.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2x2 E BASTA!

Bastou para o meu amigo e talvez baste também para muito boa gente que continua com dificuldade em entender. Talvez. Não tenho a certeza, mas talvez …, talvez…
Duas vezes comprou o mesmo livro duas vezes. Da primeira, ficou com os dois e, da segunda, ficou só com um, o que significa que lhe custou o dobro.
-Que charada é esta?
Nada disso! Apenas coisas que raramente acontecem, como se compreende. Porque o meu amigo não comprou cabides para novas camisas.  Nem sabonetes. Nem garrafas do vinho que costuma beber. Foram livros!
Para oferecer, tudo bem. Agora, para si próprio?!… 

Quem é que, em princípio, compra o mesmo livro duas vezes para si próprio?
Só se o perdeu.
Ainda não o tinha lido? 
Achou-o tão precioso que tem de o possuir?

Não foi o caso do meu amigo.
Contou-me ele: por duas vezes  comprou o mesmo livro duas vezes. Assim mesmo: duas vezes duas. Inacreditável, mas acreditei, porque ele me disse, no primeiro caso, a quem o comprou. No segundo, não quis dizer. Que se tratava também de um livreiro meu conhecido e… (como se eu não suspeitasse imediatamente…, mas respeitei a sua delicadeza de sentimentos e…).
Neste segundo caso pouco há a dizer. Acabara de pagar o livro, cumprimenta-o uma pessoa conhecida, sai a conversar com ela. Lembra-se. Uns dez minutos. Volta pelo livro que esquecera sobre o balcão e já lá não está. O livreiro mostra as mãos abertas, apesar de «mãos sujas».  Acabou-se! Pediu outro exemplar. Novo pagamento, mas com o livro seguro na outra mão.
Pior teria sido se não pagasse duas vezes: enquanto conversava,   pusera distraidamente o cartão multibanco dentro do livro. Como, desta segunda vez que pagou, o exemplar era o mesmo, não perdeu o cartão.

Estas distracções dos poetas! Um deles contou-me: foi à rua levantar dinheiro, guardou o cartão, voltou para casa e então é que se lembrou de recolher o dinheiro.  Tão poeta, que voltou por ele à caixa multibanco! Juro! Foi ele que contou!
Se alguém está a ler esta «estória» e espera que lhe diga que o milagre aconteceu, fico mesmo convencido: meu país de poetas!

E agora o primeiro caso. Este é muito bonito! Com um livreiro que conheço e me foi mencionado. O meu amigo é dos tais que não consegue passar por uma livraria sem entrar para dar uma vista de olhos. Conhece-as a todas! Sempre foi assim, mesmo no tempo em que se estava longe desta loucura da catadupa de novidades impossível de acompanhar. Quem quiser dar com livrarias e conhecer livreiros, fale com ele. Alguém quererá? Talvez… Embora se saiba que o bom hábito de frequentar livrarias não apanhou nunca muita gente que se tem na conta de gente letrada.

Há anos que o meu amigo não relia os contos de  D. H.Lawrence reunidos sob o título de Amor no Feno e Outros Contos, a não ser O Homem que Morreu, editado em 2004 separadamente, também pela Assírio & Alvim, com excelente apresentação e tradução de Aníbal Fernandes.
Viu o livro na estante e desejou reler em especial aquele conto que tanto o marcara e de que até decorara o início: Havia um  homem que amava ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu. «Encontrar ainda o livro» (horasextraordinarias.blogs.sapo.pt), não o surpreendeu, sabia que continuava disponível, mas não deixou de dirigir ao livreiro um aplauso por ter nas suas estantes um exemplar. Percebeu logo que o livreiro entendera que ia comprá-lo.
Tinha-o em casa. Voltar a comprá-lo? E não é que comprou mesmo! Foi esta a primeira vez que, para si próprio, comprou um livro duas vezes.

Quando pagava, o livreiro comentou:
-Então, gosta de ler contos! Eu também gosto. Procuro ter sempre  grandes clássicos e o que de bom continua a aparecer. E olhe que vou vendendo. Ainda hoje um senhor que me disse ir passar uns dias nas termas se decidiu por levar consigo os Contos do Pacífico.  O meu amigo disse-me que nada respondeu. Apenas sorriu. Depois despediu-se e saiu.
Não esperou para chegar a casa. Abriu o livro no penúltimo conto: «O Homem que Amava Ilhas». Foi lendo pela rua. Que perigo!
Lembram-se daquele caso da mulher que por causa disso morreu atropelada em Nova Iorque ou foi em Washington? 
Pois! Esse, não. O livreiro não tinha nas suas estantes o livro onde o caso é contado. Casa de Papel? Não digo que sim nem que não. «Se quiserem preocupar-se, que não se preocupem»: é só a velhice.

E acho que me esqueci de contar qualquer coisa…
Ah! Sim! Não contei o que levou o meu amigo a comprar duas vezes para si próprio o Amor no Feno e Outros Contos... 
Mas também, agora, já seria abusar do tempo de quem visita o blogue. Só se algum visitante achar que vale a pena.
Por mim, se der para se entender como o problema do comércio livreiro apanhou o meu amigo nas suas delicadezas de boa pessoa, terei muito gosto.
L. V.