quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DUAS LINHAS DESENHA O BANCO DA ESPERANÇA SOBRE O MURO EM FUNDO

DSCF2685

Chegar a «último dia do ano» sem que tenhas satisfeito a necessidade sentida desde há meses, neste 2010, de reler Antero.
Sentas-te no banco  e voltas as costas ao muro sem pensar em que o fazes.
De saco ao ombro e olhar em frente seria de esperar que um braço se tivesse levantado. Ou deste banco o que se vê não anima a caminhar? Não sei bem. Mas sei muito claramente que Antero de Quental vou ter que continuar a lê-lo em2011, cento e dez anos depois de se ter assentado no Banco da Esperança.
L. V.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

BONS TEMPOS! E TÃO JOVENS! E O FUTURO TODO QUE HOJE ESTE LIVRO CONTA!

IGUAL

SE CONSEGUISSES
VOLTAR A SER O QUE UM DIA FOSTE…
E FECHASSES NA MÃO, COMO UM BRINQUEDO,
A CURVA DOS TEUS PASSOS…

SE FOSSES SEMPRE IGUAL
E TIVESSES NOS OLHOS
A SOMBRA DAS GIESTAS

VERIAS
QUE PARA ALÉM DAQUILO QUE SE FINGE
HÁ SEMPRE A CERTEZA DAQUILO QUE SE É,
COMO PARA ALÉM DAS FOLHAS MORTAS
                   E DO MAR REVOLTO
HÁ O SEGREDO DAS COISAS INDIFERENTES.

                                                                       ANGRA, MAIO DE 1956
(ARTUR GOULART, NO FIO DAS PALAVRAS, PÁG. 27)

«Há o segredo das coisas indiferentes». Quer dizer…
No Fio das Palavras pode não ser um livro fácil de encontrar por um qualquer leitor numa qualquer livraria, mas para nós, os privilegiados que agora o temos nas mãos, após tantos anos a querer vê-lo editado, é um livro precioso, carregado de tempos, de percursos ricos de vivências e convivências: vida, literatura, artes…
De 1954 a 2010, os poemas que são livro em No Fio das Palavras. Anos 50? Será que houve anos 50? Ou os 60 vieram do nada?
«Há sempre a certeza daquilo que se é».
Ainda não agradeci como e quanto devo, a quem devo, esta alegria que há tão pouco tempo continuava tão distante…

L. V.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LÊ, MAS NÃO ESCREVAS! NÃO ESCREVAS!

JÁ NÃO SÃO PRECISAS AS VOSSAS FERRAMENTAS
(…)
PODEIS GUARDAR TUDO ISSO PARA
DEPOIS DE AMANHÃ (QUANDO
COMEÇAR A PRÓXIMA ETERNIDADE)

POR ORA DEIXAI OS NEGÓCIOS
(…)
OH! E ESSA DEPLORÁVEL QUESTÃO DOS DIREITOS DO HOMEM
(…)

SIM DEIXAI TUDO ISSO
- E MESMO DIGO-VOS E MESMO A POESIA!
(DE QUE VOS SERVIU?) -

DEIXAI TUDO ISSO
ENQUANTO TIVERDES
O QUE DEIXAR

DEIXAI TUDO ISSO

(Eduíno de Jesus, Os Silos do Silêncio, pág. 343)

Lê! Lê!
Podes ler o poema todo.
Verso a verso.
Punhal a punhal.
Mas não escrevas! Não escrevas!
E se caíres em escrever
NÃO ASSINES
OH! NÃO ASSINES!

L. V.

sábado, 25 de dezembro de 2010

QUEM MUITO FALA…

Não era preciso completar, pois não?
«Quem muito fala, pouco acerta». Sábia sentença! Uma sentença que muito respeito, mas…
É o destino! Acertar pouco! É por isso que a partir de certa altura da vida tive de pôr-me a falar muito… Como acertava pouco, tinha de ser. De outro modo não colheria acerto suficiente para o sustento do dia a dia.

Ora acontece que sou obrigado a falar ainda mais, a partir da nova etapa da vida que o Natal deste ano de 2010/pso me trouxe de prenda. Previsão: não haverá fogo que chegue para a tanta palha!
Mesmo sabendo tudo isto com antecedência, estou numa de me atirar de cabeça e há-de ser o que for. Fugir, como? Tenho mesmo que acertar, ainda que seja uma em cem ou até mil, para que esta incapacidade de me passear pelas minhas quintas, a trabalhá-las com o empenho de até agora, não me lance no despenhadeiro de uma vida parada. Sem nada fazer, de que vale viver?

Grito bem alto e quanto posso     li-vre      li-vre
e a palavra enche redonda e prenhe o espaço
desfaço prisões preceitos preconceitos
sinfonia perene de acordes imperfeitos
(Artur Goulart, No Fio das Palavras, Velas-S. Jorge, 2010, pág.93).

A ver se neste estar por um fio é um acerto amarrar-me com o «fio das palavras» ao amor e beleza da realidade ambiente.

L. V.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CONVITE PARA UM COPO

Mesmo quando a combinação de cores representa a Vida sob as quantas  formas que a História, a Ficção ou a Ilusão inventam, a Festa é sempre a Festa da Vida.
Até posso agarrar hoje e mais uma vez no Morte e Vida Severina e tentar que os amigos menos azafamados me acompanhem – bem sei, está toda a gente na roda viva do 24 de Dezembro…
Bem sei! Bem sei!
Como é que sei?
Já lá vamos. Antes, porém…

No dia e momento em que o sentido da viagem já só dá para que o «severino» salte «fora da ponte e da vida», o Nascimento do Menino faz eclodir no inteiro Universo que o envolve um contagiante Hino de Alegria.
Que grande página! Que perfeição de simplicidade nesse tão belo Cântico à Vida!
Recordar hoje o momento em que pela primeira vez li esta passagem de Morte e Vida Severina também será acaso, mas sabe a mais qualquer coisa de coincidente.

Por esse mais qualquer coisa é que o Livreiro Velho está feliz por poder viver este Natal em família e a ser menino com os seus três netos. E tem gosto, este muito-gosto de o vir dizer aqui.
Pela primeira vez, depois de menino, o Livreiro Velho volta a passar o 24 de Dezembro como em menino o passava: só à espera de que a noite chegasse para que acontecesse a Noite de Natal.

«Como é que sei?»
Agora já é óbvia a resposta: de manhã à noite, o dia 24, ano após ano em muitos anos, que duro dia de trabalho, por mais alegre e compensador que fosse!
Não era bom?
Era, era. Muito bom, porque em casa também na cozinha havia dura azáfama.
E então?
Então, agora que me deu para voltar a estar livre de azáfamas, por respeito às exigências do continuar na Festa,  aos amigos que têm vindo aqui ao «chapeuebengala» e só têm encontrado nada a seguir a nada, desde há uns tempos, convido-os a,
onde quer que estejam,
encherem o seu copo.
Para?
Para bebermos juntos
ainda mais este copo
em louvor da Vida.
Feliz Natal!
L. V.