sábado, 15 de janeiro de 2011

«COMO CHOVE!» (1)

Neste meu aprender de uma navegação mais serena, com novos ritmos, ler está a revelar-se também excelente para o efeito compasso.  Compassar? Está escrito: «Ler é sempre cá um assunto!…» Já vem de sábado e já é sábado outra vez e  já não passa de hoje!
Voltar a trazer para aqui Cecília Meireles.
Porque Olegário Paz, Urbano Bettencourt  e Fernando Bento Gomes, nomes da literatura de cá, Setúbal, e de lá, Açores, por causa daquela «solidão plural…», com «a grande poetisa brasileira tão portuguesa, açoriana sobretudo», acabaram por me trazer para toda a semana a companhia gratíssima de dois livros: Cecília Meireles, Obra Poética em um volume (Nova Aguilar, 1983) e A Lição do Poema – Cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues (Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998).

Se faço comentários fica o post muito longo, porque não posso resistir a transcrever… E… e.. é só das cartas lidas nesta tarde de sábado. Portanto, pouca conversa!…

«Pedi-lhe que me mandasse semente de sempre-viva. A flor está mais ou menos extinta, aqui. E que luxo seria recebê-la dos Açores!»
Sempre-vivas? Boninas! Boninas! Amarelas, sim, por tudo o que era terra em minha terra de infância… E isto, quando toca a recordações de vida vivida há muito muitíssimo tempo, não é fácil que não comova. É bom recordar. Viver do passado é que não!
«O antigo é a doença que eu mais detesto,
É viciar o que já foi virtude!
O tornar ao passado é sempre um resto,
Ou, pior, uma falta de saúde.»
(Afonso Duarte, Ossadas).
Estou em crer que o nome de Cecília Meireles, a primeira vez que o encontrei foi exactamente pela mão de Afonso Duarte e em Ossadas. Fins de 1951, com os meus 15 anos.
«Meu coração é estepa delicada
E a minha alma é louca»:  
o título deste poema é «Estepa» e a dedicatória diz «A Cecília Meireles». É por isso que…

Mais comovente, porém, do que as boninas foi…
«Não lhe escrevo mais porque tenho de almoçar a correr, vestir-me a correr, sair a correr, etc., etc..
Se correndo chegasses
à rua do Frias,
meu bom calafate,
como correrias!»

Voltar com Cecília à Rua do Frias. Recordar, por cartas dela, a vizinhança dos meus vinte e pouco, alugando casa em Ponta Delgada, porque acabara de ser colocado no Liceu Antero de Quental e freguesia de S. Sebastião. A casa que aluguei era no meio: um pouco acima, a do poeta Armando Côrtes-Rodrigues e, um pouco abaixo, a do poeta Raposo de Lima, o «Sr. Raposo»:
«P. S. – Se o Sr Raposo lhe falar de mim, garanta-lhe que lhe vou escrever. Tenho na minha frente os seus versos, e ainda hoje conto mandar-lhe umas poucas palavras. Fosse tudo assim tão fácil!»

Raposo de Lima? Poeta Raposo de Lima? Sim, sim! Tanto como: não, não!  Porque o que escreveu não dará para ficar na História da Literatura Açoriana, como o outro vizinho, mas que também ele era um poeta que vivia em elevadíssima verdade a sua poesia, ah!, isso asseguro. De uma sensibilidade poética tão rica, tão delicada, tão dolorosamente humana que ainda agora, séculos passados sem ouvir falar dele, me faz estremecer…

«Se faço comentários…» –eu sabia!
Mas se ao Olegário, ao M. Urbano e ao F. Bento Gomes parecer que vale a pena,  havendo oportunidade, posso continuar amanhã. Porque um blogue, embora aberto a quem mais, dá prazer é sobretudo por quem conhecemos e nos conhece e em simpatia.

Ah! Pois! «Como chove!» É só o início de uma conversa gostosa de transcrever. Mas perdi-a ! E agora?
Mesmo a propósito: posso substituir?!
«Ai, Almirante, vou amarrar uma pedra ao pescoço e deitar-me
à água. Mas isso será depois de St.º – Depois de o ter visto e abraçado, e de ter mirado essas coisas e – quem sabe? – depois de as ter cantado».

«Almirante» era como em muitas cartas Cecília Meireles tratava Armando Côrtes-Rodrigues.
A si tratava-se por «calafate», «Calafate João Manuel» e aqui nesta que tenho diante diante dos olhos («Rio, 28 de Abril de 1951) a assinatura é «João Manuel, o corisco». 
Uma delícia!
Tudo isto!
L. V.

2 comentários:

  1. Meu Caríssimo Manuel
    Lindo, lindíssimo, este texto! Flui como uma brisa benfazeja ou um ribeiro em declive suave. Lindo, sim, lindíssimo! E o Raposo de Lima deve estar feliz por ser lembrado, que bem merece.
    Um abraço, deste outro lado da ilha.
    Daniel

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  2. Caríssimo Manuel, Mestre.
    De facto, "lindo, lindíssimo" o seu texto, como, de resto, a poesia dos poetas evocados. Cecília Meireles, cujas cartas de que fala são, elas mesmas, poemas, longos e belos poemas, Côrtes-Rodrigues e, embora conheça mal,Raposo Lima.
    As cartas de Cecília Meireles a Côrtes-Rodrigues são, para além de poemas, diálogos em Poesia e, lendo o seu texto, lembrei-me deste poema de Côrtes-Rodrigues:

    "Se me encontrasses cantando,
    Ai amor,
    Se me encontrasses cantando,
    Cantarias.

    Se me encontrasses chorando,
    Ai amor,
    Se me encontrasses chorando,
    Chorarias.

    Se me encontrasses pensando,
    Ai amor,
    Se me encontrasses pensando,
    Em que pensarias?"

    A avaliar pelas cartas de Cecília, as de Côrtes-Rodrigues serão, igualmente, belas e reveladoras de inúmeros aspectos da Literatura e cultura portuguesas e brasileiras. Urge, pois, que as conheçamos, mas não se tem revelado tarefa fácil, o neto de Cecília, à guarda de quem está o espólio, diz que o mesmo está inacessível. É pena! Fazer uma edição conjunta das cartas só poderia contribuir para um melhor conhecimento e divulgação destes poetas.
    Peço aos anjos, aos santos aos deuses, aos atlantes e a todas as divindades que façam com que o senhor altere o seu pensar. A Literatura e nós todos, ficar-lhe-íamos eternamente gratos.
    Anabela Almeida

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