domingo, 16 de janeiro de 2011

«COMO CHOVE!» (2)

O silêncio, um bom silêncio, e uma manhã de domingo sem chuva e luminosa, tão agradavelmente luminosa, convidam: posso continuar a ler as cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues? 
Estava assim como que já combinado, não estava?
 
Antes que volte a perder a passagem, vou já… 
Bem me parecia que era de uma carta de 1950. Mas dar com ela, ontem ?!

«Como chove! Dizem que os loucos se alegram com a chuva. Deve ser por isso que me sinto tão bem» (Rio, 12 de Outubro de 1950).
E vamos, desta carta, ler/reler uns  parágrafos imediatamente anteriores, até para entender melhor o porquê  do «me sinto tão bem».
Depois, só concluir.
Vou ver se hoje cumpro.

«Por estas e outras é que eu quero ir-me embora.
(…)
Estou trabalhando intensamente no «Romanceiro» e, se o céu consentir e os seus santos me favorecerem, talvez para o ano possa publicá-lo.  Que desejo de publicar tudo, de livrar-me de tudo: versos, gentes, lugares! Não se professa mais, no seu convento, Fr. Armando da Soledade Florida?
Acabe com esse Liceu! Proclame a sua Independência! Terei de ir de carta na mão… ou sem Carta, a puxar da espada e a bradar que o deixem em paz, que V. é da Poesia, e não da gramática, do compêndio, dos exames…???!!!» 

Concluir, a ser já, repito-me.
É que é como ontem!
É mesmo!

«Que delícia!»
«Tudo isto!»
L. V.

P. S.
Mas quem consegue resistir?
Ia a fechar. É uma carta logo do primeiro ano desta correspondência (Rio, 3 de Novembro de 1946).

«É curioso: eu já tinha pensado em fazer-lhe um diário. Mas sou tão dispersada pelos acontecimentos, que não me fio nessas intenções. Por várias vezes tenho começado a anotar a minha vida, seguidamente. Mas vem-me um tédio grande. Tenho a impressão de mecanizar-me. E precisamente a minha «loucura», ao que parece, é uma luta involuntária contra as mecanizações, a rotina, o hábito. Eu sou um ser de liberdade. De espontaneidades, pelo menos. Enfim, eu nem sei o que sou. Você sabe o que é? Sabe-o, mesmo? Então, diga-mo.»

A gente lê  uma coisa destas, e…
Porque se a primeira carta é de 46, a última do extenso conjunto, de 3 de Março de 64,  o ano em que Cecília partiu, é escrita de «este Hospital, onde estou». E…
Se estas cartas não são um Diário, então não sei o que seja um diário.
Que rico Diário, este, dos últimos dezoito anos de vida e escrita da «grande poetisa brasileira tão portuguesa, tão açoriana sobretudo», a nossa admiradíssima Cecília Meireles!
L.V.

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