domingo, 2 de janeiro de 2011

Outros intentos:SETÚBAL CIDADE SECRETA

Ontem prometi voltar e vou já dizer quais os «outros intentos» que me exigiram transcrever para aqui a importantíssima página que pelo Dia de Camões de 2007 João Bénard da Costa escreveu sobre Setúbal e que pessoalmente  nos veio  cá trazer.
No dia seguinte, cumpridas as cerimónias em que foi lida, ficar sepultada no nosso esquecimento? Não pude consentir-mo.
Tanta coisa que era bom esquecer! Mas não é fácil…
Quem pudesse esquecer tudo aquilo com que se lança em esquecimento, de si e de tanto de válido que lhe diz respeito, esta bela e rica cidade de Setúbal…
Não creio que a transcrição aqui no «chapeuebengala» do discurso de Bénard da Costa sirva de muito, mas serve-me para dois fins.

O primeiro! 
Pedir a quantos andam a viajar na blogosfera e desejam uma cidade de Setúbal mais aberta e consciente das suas reais  condições para ser um dos paraísos mais relevantes
destes extremos da Europa que Portugal é:
divulguem esta mensagem de um tão confesso admirador da nossa região!

O segundo! 
Dar à leitura e aprofundamento do discurso de Bénard da Costa, não apenas precedência,  mas incomparavelmente mais importância do que às palavras que a partir desse discurso proferi no dia 9 de Dezembro p. p., numa cerimónia da iniciativa da Universidade Sénior de Setúbal e extremamente enriquecida  pelos dois oradores que se dispuseram a nela participar: Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida e Viriato Seromenho-Marques.

A quem mo pediu tinha prometido que, mal sentisse algum distanciamento para um mínimo de auto-crítica,  divulgaria o que escrevi e li então.
Não vai tão cedo quanto houve quem desejasse?
Asseguro, porém,  que ainda estou mais empenhado agora do que quando em público as proferi, em que alguém se convença a tomar para si as últimas palavras, mesmo, mesmo, aquele  último parágrafo do meu discursosito!

L. V.

SETÚBAL CIDADE SECRETA

NUMAS APROXIMAÇÕES DE AMADOR

AOS CONCEITOS DE

IDENTIDADE, ENIGMA E SEGREDO

(Palavra para a cerimónia do doutoramento honoris causa

pela Universidade Sénior de Setúbal – 9 de Dezembro de 2009)

 

Aproximação 1: A metáfora das portas

 

O mal do mundo está em o homem não completar a pergunta ou em não lhe sujeitar o construir e o instituir.

É com esta sentença que José Enes encerra o seu À Porta do Ser, uma obra grandiosa da Filosofia Portuguesa do século XX, que será extremamente fecunda quando for descoberta.

Quão densa fala, esta: «completar a pergunta»!

Como completar a pergunta? Alguém o consegue? Estará isso ao alcance das nossas humanas inteligências?

Oh! As nossas perguntas e o misterioso horizonte que sempre as acolhe no aquém e além de todas as respostas!

Não sei se noutros momentos senti melhor a profundidade misteriosa da «pergunta», mas sei que nunca expressei melhor o meu pensamento e sentimento, a respeito, do que nestes versos:

 

nasci num mar que me deu

um horizonte sem fim

nunca ninguém respondeu

melhor do que ele às perguntas

que nascem dentro de mim[1] 

Perguntar, isso pergunto. Imperiosamente. Desde que me conheço. O mais silenciosamente possível, evidentemente. Para que nada nem ninguém consiga jamais trancar-me a inteligência. Esse grande perigo de nos fecharem as portas da inteligência com as respostas necessárias, as possíveis, que tão generosamente as coisas e, eminentemente, as pessoas, de modo especial em livros, nos oferecem!

Portas! As portas!

Permitam-me antecipar-me a mim mesmo, numa tentativa de estabelecer por metáfora o sentido do segredo e do enigma.

Segredo…

O segredo simbolizado pela porta fechada.

Quando se abre uma porta e entramos numa sala, passamos a conhecer essa mesma sala e quanto nela há ou se está passando.

Enigma…

O enigma simbolizado pela porta aberta, sempre aberta, aberta desde sempre e para sempre. Um mistério. Um permanente apelo a entrarmos, uma revelação que se revela como apelo à abertura a nova revelação, essa inesgotável riqueza de uma explicação que nos impele a de novo perguntar, mantendo-nos assim nesse superior intuito de «completar a pergunta».

 

Aproximação 2: Passar os umbrais

 

Embora abertas! Pelas portas só entra quem ultra-passa os umbrais.

Passar os umbrais do enigma e do segredo, com as ajudas do «id» dos latinos ou o nosso «mesmo», acrescentadas das ajudas do «ag’ri» grego ou nosso «perto», «de perto», «em proximidade».

A partir daí, ir admirando o que se vai descobrindo.

A curiosa pergunta de Heidegger no fim do opúsculo Serenidade (pág. 69): poderia a admiração abrir o que está fechado?

Sentir a ecoar, nesta pergunta, o nosso «Setúbal Cidade Secreta»!

Gostava de saber se mais alguém sentiu: eu senti.

Quando, após ter aceite o desafio de vir acrescentar em Setúbal a minha experiência de livreiro, iniciada em Lisboa um ano antes, tive de procurar a Avenida 22 de Dezembro para ver a loja de um prédio ainda em construção na qual foi instalada a livraria que então, em 1970, se chamou Culdex e que, a partir de 1973, é a Culsete, quis saber o que significava para a cidade esse registo toponímico, mas não encontrei quem me elucidasse. Tive de descobrir sozinho, na placa afixada no términus da dita avenida. Foi chegar perto dela e, nessa proximidade em que me pus, foi só fixar-me numa atenção, por entre o 22 de Dezembro da avenida, o 22 de Dezembro da placa e o 22 de Dezembro da efeméride, e ficou estabelecida uma relação de «mesmo» ou idêntico, que me revelou um pormenor da identidade de Setúbal.

E a Rua Batalha do Viso?

Nenhuma das minhas abundantes leituras da nossa História me haviam falado em tal batalha. E também, antes que casualmente o descobrisse, ao ler Sob os Ciprestes de Bulhão Pato, não encontrei ninguém que me informasse.

E que Tordesilhas, do lado de cá da recém-nascida Espanha dos Reis Católicos, se chamava Setúbal? Quanto tive de esperar para que me fosse dado encontrar nesta nossa cidade alguém que o soubesse?

E o caso do açoriano Frei Alexandre da Sagrada Família, celebrado tio de Almeida Garrett, que desde os 24 anos foi mestre de muito saber no Convento de Brancanes, até ir para  Bispo de Angra, já octogenário?

E a naturalidade setubalense de D.Guilhermina, mãe do grande Antero?

«Setúbal Cidade Secreta», com tanto para contar!

Ao longo destes meus quarenta anos, que se completaram agora, em 2010, e sempre a viver e trabalhar cá, quanta dificuldade em saber de Setúbal! Por encontrar uma cidade secreta e enigmática, tão escondida, ainda mais de si mesma do que dos estranhos, tantos estranhos, que desde sempre atraiu e aos quais muito permitiu que a fossem colonizando, com reconhecidos benefícios, pagos, porém, e demasiadas vezes, ao preço enorme de enormes depredações.

 

Aproximação 3: A imperiosa necessidade:

Para o trabalho, o amor

Para o amor, o conhecimento

Nunca de alguém chegamos a saber tudo. Cada um de nós sabe dos seus segredos. Nem sequer é preciso pensar que o segredo seja escondimento voluntário. Cada um se recorda de algo de si que, por qualquer razão ou sem razão nenhuma, nunca revelou a ninguém: este ou aquele episódio, este ou aquele sentimento, este ou aquele bom ou mau momento. Tanto de nós que acaba por ser segredo, ainda que só por isso: por ficar fechado neste segredo do que somos e vivemos!

E será que alguém chega a saber tudo de si? «Gnodi zauton», «conhece-te a ti mesmo», a célebre inscrição grega no templo de Tebas, repetida em cada vez que cada um entra em seu templo ou se reconhece em qualquer espelho.

Progredir no conhecimento de si mesmo, ir progredindo, mas saber que a meta não será atingida, porque o enigma, do Homem e de Tudo, se impõe…

Tanto a cada um como em cada um de nós.

Entre enigma e segredo teremos de definir-nos, identificar-nos e ser identificados.

Talvez possa dizer, neste ponto em que vou, que todo o nosso conhecimento é um reconhecimento. O encontro entre o que somos e o conhecimento «de que» somos e «do que» somos, é que nos permite que nos identifiquemos, que, portanto, nos «firmemos» e «a-firmemos».

O grande desafio que é assumirmo-nos em identidade! É tão chocante vermos uma pessoa que já não sabe quem é... Por ventura ainda poderá não se ter perdido de nós, mas perdeu-se de si. E, a quem não traz consigo meios de se identificar, o que lhe acontece em mundo? Um clandestino ou excluído. Inevitavelmente. A degradação, aí, surpreenderá alguém?

De outras maneiras poderia aproximar-me dos conceitos de identidade, enigma e segredo, ao querer mais esta vez que nos questionemos, nós os setubalenses por naturalidade ou adopção, sobre o novo título que a Setúbal foi atribuído no 10 de Junho de 2007 por João Bénard da Costa. «Setúbal, cidade secreta»! Quando ouvi pronunciar estas palavras, ao seguir pela televisão a cerimónia que então se desenrolava ali à Beira-Sado, fiquei deveras comovido. Aproveitei a oportunidade que me foi oferecida pelo jornal O Setubalense para chamar a atenção para a preciosidade desta palavra que Bénard da Costa, eminente homem culto português, ele também, como tantos outros, muito aproximado, e desde jovem, à Serra da Arrábida e a Setúbal, nos quis deixar na excelente oportunidade que teve de o fazer quando, sem o sabermos, já tão pouco tempo de vida lhe restava.

Em Papel a Mais, livrinho de múltiplos géneros de textos, quer de amigos quer meus, permiti-me incluir, entre os «Recortes Datados», a nota que escrevi para O Setubalense.

Embora sinta receio de que seja abusar da vossa atenção, em especial daqueles que já leram o livro, vou permitir-me reler, aqui e agora, essa nota, com a desculpa de que é curta.

 

 

SETÚBAL “CIDADE SECRETA”[2]

 

Curioso! A 8 de Junho de 2007 é feito pelos setubalenses o “escrutínio” de  “As Nossas 7 Maravilhas” e logo a seguir, no 10 de Junho, João Benard da Costa atribui a Setúbal o novo título de “Cidade Secreta”. Foi no seu responsável discurso das Solenidades, ali no Jardim da Beira-Mar, voltado para a urbe e, como arrabidino confesso que é, inevitavelmente consciente da envolvente paisagem do nosso Estuário e da Serra da Arrábida, nossa Mãe e Deusa. Fico calado e a pensar em tanta coisa. A pausa é para ler de novo o discurso do 10 de Junho e o último capítulo de  Muito Lá de Casa.

O melhor talvez fosse ficar por aqui. Só um pouco mais. É que o que é secreto pode ser revelado.

Porque é que Setúbal “talvez seja das cidades de Portugal a que tem mais para contar e da qual menos se conta”, como acabo de reler no discurso de João Benard da Costa? Quem me responde? Ninguém. E não creio que alguém o saiba e esteja a guardar em segredo. Aqui é que não me parece que haja segredo, mas sim enigma. Como decifrá-lo? Posso tentar, certo embora de o não conseguir.

Setúbal não se conta nem se respeita como deve, como quem diz, não se conhece nem se estima, porque a sua sobrevivência foi demasiado sustentada pela colonização das suas maravilhas e gentes e se deu a isso. Prova-o a queixa tantas vezes ouvida de que não é boa mãe por não reconhecer e gratificar devidamente o mérito de seus filhos.

Lisboa, todo o País e todo o Mundo vieram a Setúbal ao longo dos séculos. Deram a Setúbal história e sobrevivência, mas arrasando muito do que aqui se devia respeitar, como maravilha natural, e construir, por consciência de rica identidade.

Ciclicamente Setúbal cai em pobreza. Foi sempre assim. É sempre assim onde há colonização. E assim será enquanto a colonização não encontrar Setúbal a respeitar-se com a sua identidade decifrada e assumida. Terá então a força, que de vez em quando parece já estar a nascer, para, a quem vem por cobiça, impor o respeito que merecem as suas maravilhas, tão descaradamente descarnadas, poluídas, ameaçadas de desmoronamento e descaracterização.

Há bons sinais. As novas gerações já ouvem o que antes ninguém se atrevia a dizer e vão percebendo que Setúbal não satisfaz porque se faz pouco por ela. Que não se diga feito por ela o que alguns em mediocridade fazem por si próprios. Faz falta quantidade? E sobretudo qualidade.

As maravilhas de Setúbal ainda não estão a clamar por contagens, mas por serem descobertas, divulgadas, preservadas, reconstruídas e admiradas.      Setúbal, quem te visse mudada de “Cidade Secreta” em Cidade de Maravilhas! Revelada a ti mesma pela nova geração de competentes e exigentes setubalenses!

 

Peço agora licença para sublinhar, desta nota, estas duas passagens:

1. Consciência de rica identidade.

2. Setúbal a respeitar-se com a sua identidade decifrada e assumida.

Os últimos quarenta anos (1970 a 2010), não me limitei a vivê-los em Setúbal. Desde que cá cheguei vivi-os com Setúbal. Desde o início, Setúbal desafiou-me como cidade difícil de entender. Logo comecei a sentir envolverem-me as perplexidades e perante elas dei comigo a perguntar: «mas onde é que estou?».

Cedo me senti na necessidade de ir-me ilustrando, com «bocadinhos» de experiência

e de interrogação

e de pesquisa,

comparando cautelosamente as minhas aproximações com o saber e experiência das muitas pessoas informadas que fui encontrando,

em constante atenção ao modo de ser e de estar de Setúbal. A fim de que entendesse esta minha cidade e região adoptiva, que me era imperioso amar, isto é, dedicar-lhe o meu trabalho.

 

Aproximação 4. O poder-de-ser

que em si detém

cada um ou cada coisa

que é

 

Aprendi em jovem este modo de olhar a realidade, tão simples quão determinante, como efectivamente foi, para o meu encontro comigo e com o meu mundo, ao longo da longa vida:

O QUE PODE SER, PODE NÃO SER;

O QUE É, PODE SER.

O que é, tem em si, e em totalidade, o seu poder-de-ser, um poder que ninguém lhe pode tirar enquanto for o que é.

Anular, destruir, subverter, aniquilar – sinónimos para a única hipótese de vencer, em definitivo, uma guerra com o poder-de-ser do que é.

Setúbal, apesar de todas as depredações, soube resistir e continua a ser, idêntica para a identificarmos, numa promessa de excelência com que sempre nos convoca tanto a nós, os seus habitantes, como aos estranhos.

Setúbal é de uma riqueza enigmática deveras assinalável e celebrada. E é também, como aqui muito vimos aduzindo, de uma riqueza secreta que, à medida que a muitos de nós, apesar de tudo, se tem vindo e vem cada vez mais a revelar, mais curiosos e empenhados nos deixa em novos conhecimentos.

Ao que estou chamando «riqueza enigmática»?

Quererei neste ponto, e espero que com muito contentamento para o Profesor Doutor Onésimo Teotónio Almeida, voltar ao já mencionado À Porta do Ser de José Enes, meu professor de Filosofia nos anos cinquenta - professor então ainda tão jovem! - e seu, já em anos sessenta adiantados.

Ele há coisas que acontecem na vida!

Quem foi que ajudou José Enes na revisão do original dactilografado de À Porta do Ser, antes que este fosse para a tipografia?

Está aqui presente: Onésimo Teotónio Almeida.

E, a seguir, quem foi encarregado da revisão tipográfica, em Lisboa, no início de 1969, quando na Difusão Dilsar se levou a bom termo a «edição de autor»?

Também está aqui presente: fui eu próprio.

Um dos mais notáveis pensadores de sempre do tema da identidade foi Heidegger. A tese de José Enes é sobre a filosofia de S. Tomás de Aquino, mas estudada com o olhar de um profundo conhecimento latino do pensamento germânico de Heidegger.

É apaixonante a abertura do À Porta do Ser de José Enes.

Posso pedir que me acompanhem numa aproximação a essa abertura?

Capítulo I –Preliminares.

Artigo I –Junto das origens.

Parágrafo I –O impensado, medida de grandeza da obra de pensamento.

E, logo a seguir, esta epígrafe trazida de Heidegger:

«Quanto maior é a obra de um pensador, o que não corresponde ao volume e ao número dos seus escritos, tanto mais rico é o impensado nesta obra, quer dizer, aquilo que pela primeira vez e só através dela assoma como o ainda não pensado».

Sigo para o parágrafo terceiro. Precisamente para o admirável discurso de José Enes sobre o «impensado». Que forte desejo, o que sinto, de aqui o ler por inteiro! Reconheço, porém, que me é aqui devido conter-me e espero que para os meus fins sejam suficientes estas passagens:

«Tal impensado jamais poderá ser dito formalmente pela tessitura formal da linguagem enunciativa. A sua região é a do silêncio, da fecundidade e da geração.»

E algumas linhas adiante:

«Insinuar-se é o comportamento do impensado que se refugia no seio do pensado, não por medo à luz, senão porque ele é a luz do pensado. O impensado fecunda o pensamento e o torna grávido, e quanto mais gerante for a fecundidade, tanto mais densa e entumescente resultará a gravidez e tanto mais impelida à parição.» (pág. 15).

Belo, profundo e pertinente!!!…

Talvez devesse avançar um pouco mais. Ajudar-me-ia, estou crente, a explicitar melhor a analogia que julgo poder estabelecer entre este conceito de «impensado» de Heidegger e José Enes e o conceito de enigma como aqui desejo surpreendê-lo, de modo a que me ajude na aproximação à problemática da identidade setubalense.

Talvez…

Mas também talvez que, na presente circunstância e momento, deva eu próprio, antes que de vós me venha sinal disso, considerar um exagero o estar levando tão longe e por estes caminhos o meu pensamento.

Portanto, fim de citação.

E também não avançarei por discorrer directamente sobre a referida e intentada analogia, talvez possível, entre o impensado, como indizível que é, e o enigma, sobre que nunca saberemos lançar a «pergunta completa». Que seja suficiente, para continuarmos a aproximar-nos da porta que nos abra para a revelação de Setúbal, concordarmos em que a revelação do segredo vai para um saber e também em que, pelo contrário, a revelação do enigma, cada revelação com que o enigma nos maravilha, é um apelo a aprender.

Entre segredo e enigma, o nosso saber permanentemente aberto e dominado pela nossa disponibilidade ou disposição eficaz de aprender.

 

Aproximação n.º 5: Um riquíssimo banco de temas setubalenses oferecido à cidade por um voluntariado sénior rico de saberes, experiências de viver e vontade de aprender

O conceito de «banco»: banco do dinheiro, banco dos alimentos, banco dos dados. Sem riqueza a vir ao banco, não haverá banco. Sem ser investida, a riqueza do banco «des-enriquece». Falência à vista. Pelo contrário, quanto maia intenso e extenso o investimento, maior e melhor enriquecimento.

Devo ter a franqueza de declarar que, do ponto de vista pessoal, só aceitei ser proposto para e me comprometi a receber da UNISETI, Universidade Sénior de Setúbal, esta distinção de Doutor Honoris Causa, se, entretanto, para ela fosse efectivamente nomeado e convidado, por meu empenho em agarrar esta privilegiada oportunidade de dizer o que, sobre as universidades seniores, venho pensando de há muito, isto é, desde que tive conhecimento do seu aparecimento e da sua expansão com características de fenómeno de larga aceitação e, também, de assegurado alcance, se…

Todavia, ao longo deste tempo que foi mediando entre o momento do convite para aqui estar hoje e estoutro, o de chegar a data desta cerimónia, fui mudando de ideias, melhor dito, achei que podia chegar ao mesmo de maneira talvez mais modesta, mas, se calhar, mais útil e mais nossa. Quando vos ouvir, depois de terminada esta minha fala e encerrada esta cerimónia, logo me direis se foi melhor assim. Até porque, neste quanto estou tentando trazer para aqui, está implícito, e talvez transpareça, o que julgo que deve ser a importância a atribuir pela sociedade às referidas universidades seniores, porquanto as virtualidades de enriquecimento dessa mesma sociedade, por via da acção dessas universidades, são vastíssimas.

Resumir a minha fala a um muito obrigado, como os recentes problemas de saúde tentaram impor-me, custar-me-ia muito. Um mínimo contributo de natureza intelectual considerei para mim obrigatório trazer aqui, se bem que mais ninguém mo exigisse. Isto porque levei a sério esta iniciativa da UNISETI. Consintam em que me envaideça por isso, por levá-la a sério, que não pelo doutor, apesar do muito gratificante modo do Honoris Causa.

O que havia eu de ser, numa de doutor, fui há muito, muito tempo! Até sorrio, ao lembrar a cena que originou a alcunha que à criança os seus colegas impuseram!

O meu respeito é este:

pedir que esta iniciativa da atribuição do Doutoramento Honoris Causa continue, na UNISETI, liberta de qualquer timidez inicial, que terá justificado que esta quase primeira escolha dentro da sociedade setubalense tenha recaído na minha insignificante pessoa, um simples livreiro, gerindo uma pequena empresa do comércio local.

A minha vaidade! A que mais quero ostentar de imediato, em consonância com o que acabo de dizer. Ei-la!

Meus queridos amigos e eminentes Professores Doutores Onésimo Teotónio Almeida e Viriato Seromenho-Marques!

Onésimo Teotónio Almeida, um açoriano também afecto a Setúbal e com declarada afeição por esta cidade, onde residiu durante um ano, nos seus tempos de estudante na Universidade Católica de Lisboa.

Viriato Seromenho-Marques, um filho querido de Setúbal, cujo nome é, na actualidade, um dos seus orgulhos mais eminentes.

Meus amigos:

ao desvanecerem-me, de toda a maneira, pela exuberante disponibilidade com que acolheram o compromisso de aqui estarem hoje, pelo tempo que lhes veio a tomar um tal compromisso, por com efeito hoje aqui estarem e, do que todos os presentes são qualificadas testemunhas que invoco, por me reduzirem á mais alta inutilidade, de modo nenhum à mais baixa, nem mesmo a qualquer outro grau ou degrau intermédio, com as vossas falas sobre quem sou e meu labor, tornaram-se tão credores da minha gratidão, que nem que ultrapassasse a idade de Matusalém teria tempo de fazer algo que chegasse a compensar-vos.

Muito é por vós que estou em vaidades. E com efeito…

Creio que todos os presentes me compreenderão nesta vaidade.

O que me faz sentir ainda mais desmedidamente grato a estes meus amigos, é o seu contributo para que aqui nesta cerimónia acontecesse aquilo que muito desejava que acontecesse, mas que me era a mim interdito desejar que fosse conseguido por meu mérito, sendo como sou uma fraca figura no mundo letrado. Fizeram-no por mim, os dois, ao dar a esta iniciativa, com a sua presença e brilhante colaboração, um nível intelectual digno do melhor com que apenas era possível sonhar.

Professor Doutor Viriato Seromenho-Marques,

talvez que, para o livreiro que sou, a forma mais adequada de dizer-lhe obrigado pela oração que aqui veio proferir, deva ser esta: recomendar a leitura e o aprofundado estudo de uma já muito extensa e diversificada e riquíssima obra, a sua, que nenhum setubalense com alguma consciência cultural pode ignorar.

Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida,

Já escrevi, por ocasião de uma das suas vindas à Culsete para apresentação de um dos seus livros: o que Portugal lhe deve merece, para além de todo o carinho dos seus tantos e tantos amigos, o grande reconhecimento de quem por esse mundo e sobretudo nas Américas tanto tem feito pela nossa cultura, sem esquecer o muito que também por cá vai sempre fazendo. Obrigado.

 

Continuando sensibilizado, também reconhecerei aqui publicamente o bem querer e respeito por mim do Dr. Américo Pereira, tão jovem ainda em 1971, quando comigo colaborou em espalhar livros por Setúbal, com uma eficácia tal, que, até hoje, me serve de referência.

 

Para com o Magnífico Reitor, Professor Doutor Brissos Lino, quero ter uma palavra de profundo agradecimento. Mas não é isso o principal que, nesta circunstância, assim tão publicamente mais desejo dizer-lhe.

Peço a todos os presentes que me aprovem e apoiem numa homenagem de muita admiração pelo poder de iniciativa do Professor Doutor Brissos Lino, pela sua persistência e denodo, pela coragem, pela dedicação e pelo trabalho, trabalho tão difícil, de coordenar vontades, sem, entretanto, para levar por diante este projecto da Universidade Sénior de Setúbal, ficar à espera de esperados apoios.

Desejo-lhe, Magnífico Reitor, a compensação de uma merecida alegria, como resultante dos apoios que já chegaram, dos que estão chegando, dos que é necessário e devido que venham a chegar. Comparti-lhe este voto, permita-me que peça, antes de mais com o seu muito amigo Vice-Reitor, Dr. Armando Sacramento.

Ao respeitável Senado da Uniseti, ao Conselho Científico, garante dos bons níveis do ambiente de trabalho universitário, ao generoso Corpo Docente e ao admirável Corpo discente, o meu bem hajam pela adesão a esta iniciativa, neste quando a mim me homenageia.

Senhoras e senhores, meus muitos e queridos amigos, que por consideração e por muita amizade quisestes vir estar aqui comigo hoje: obrigado! muito obrigado pela vossa presença e simpatia!

 

Seria bom e devido que não me estivesse a alongar. Bem sinto que já estou. Por isso vou apenas lançar um desafio à nossa Universidade Sénior e à nossa «Cidade Secreta», numa querida esperança de que depois alguém o queira desenvolver e discutir.

Lançá-lo muito timidamente, sim, por saber que pode acontecer que ao lado deste título de Doutor Honoris Causa leve daqui também o de Atrevido Máximo, título que conscientemente corro o risco de merecer, sem outra causa, porém, a não ser o meu firme desejo do progresso geral de Setúbal, a cidade dos meus filhos e netos, dos filhos e netos dos seniores estudantes da UNISETI. Um progresso que sempre a subida do nível cultural assegura, nas sociedades humanas.

Sei que muito já está feito, e recolhido, e devidamente guardado, e disponível, como património intelectualmente enriquecedor produzido pela UNISETI e, portanto, para a Cidade.

Então para quê trazer e o que traz de novo o desafio que aqui vai?

Julguem-no. Com indulgência.

A e na Universidade Sénior, constituir um BANCO DE DADOS DE TEMAS SETUBALENSES. É este o desafio. É este o meu repto, um empenhado repto, que, após proferido, me convoca a meu silêncio, o da minha insignificância, em cuja consciência tanto estimo cultivar-me.

BANCO DE TEMAS SETUBALENSES:

Uma coisa em grande!

Que sem dificuldade o voluntariado pode levar muito longe, se…!

Se, devidamente, um saber e um querer se organizarem com método.

Com exigência anti-provinciana.

Abertura a todas as forças vivas.

Disciplina interna na vertente da investigação.

Tanto de independência quanto de colaboração com os poderes instituídos.

Radical negação à fatal tentativa de intromissão de poderes interesseiros, de modo especial de manipuladores e de medíocres, que, onde quer que se instalem, roem a raiz a todos os sonhos do melhor, um melhor desejado e possível.

Essa calamidade: os medíocres a roer a raiz aos sonhos…

Como em Setúbal tanto se tem visto.

E não apenas em um ou dois casos.

Nem apenas em tempos mais recentes.

Vi muita coisa, nestes meus quarenta anos de luta, dura luta pelo Desenvolvimento da Leitura na Cidade e Região de Setúbal!...

 

Vencer a barreira do desconhecimento de si, que faz de Setúbal uma cidade desnecessariamente secreta e inutilmente enigmática!

Tornar evidente, por muito mais altos níveis de conhecimento, defesa e estima, a riquíssima realidade desta cidade, realidade essa secularmente tão reconhecida pelos seus predadores!

Revelar a si mesma a cidade e região de Setúbal!

Seu ambiente misterioso nos contrastes de estuário, mar e serra!

A languidez de estar debruçada sobre espelhos d’água e o misticismo a que a Arrábida, a nossa Serra Deusa, desde sempre a convoca!

Fazer vir ao de cima tanta história que não tem havido quem conte, tão eficaz, extensa e aprofundadamente quanto às novas gerações, sobretudo, é necessário contar!

Nem quem, por outro lado e por amor à terra onde veio encontrar pão, queira ouvir contar!

Ou mesmo quem isto tudo exija, até exija, porque contar a cidade é dever a assumir por quem percebe o benefício e o dever de integrar!

Até onde pode ir, o nosso BTS - BANCO DE TEMAS SETUBALENSES, na revelação e aprofundamento da identidade desta nossa maravilhosa terra?

Sei que é mínimo, o contributo que este meu repto traz a tão ambicioso desiderato...

Mas…

Que alguém o possa transformar em outro,

um seu,

e que, por ele e muito mais, se «complete a pergunta» que nos veio por

«Setúbal Cidade Secreta»!

TENHO DITO!

 

*Vou assinar como?

Resendes Ventura?

*Ou assim:

 O Livreiro Velho,

Manuel Medeiros?

Por mim…, nisso também,

TENHO DITO!

 



[1] Resendes Ventura, Papel a Mais, «Horizonte», pág. 274.

[2] Resendes Ventura, op. cit., p. 303 (Publicado anteriormente em O Setubalense).

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