sábado, 8 de janeiro de 2011

RETRAI-SE AO DIZER-ME O QUE PRECISO

Ler é sempre cá um assunto!…
Já se disse e já se escreveu tudo, já se investigou muito a fundo, para algumas sensibilidades já se terá, porventura, esgotado o interesse em discutir a leitura. Apesar disso, ler continua cá um assunto!…
Digo isto recordando uma tarde de fim-de-semana no silêncio da livraria encerrada. Nem sempre trabalhar! Também o prazer de voltar no silêncio à poesia de Cecília Meireles, a grande poetisa brasileira tão portuguesa, tão açoriana sobretudo.
Essa tarde recordo-a hoje, nesta tarde de hoje, de negrume e de chuva torrencial, ao início, e, depois, de esplendoroso sol. Mas só porque um clique de acaso me trouxe aos olhos uma escrita que muito mais propriamente se me apresenta, passado o tempo, como leitura, apesar de ser efectivamente uma escrita.
Poderia partir daí para…?
Porque ler ilustra, diverte e distrai, responde a perguntas ou problemas. Mas também…
É que quando somos convocados a sentir que quem não nos conhecia ou sequer imaginava nossa possível existência,  nos deixou, apesar disso, tão perto de nós, na sua escrita, concordemos, ler é mesmo necessário. Em absoluto (…«ao dizer-me o que preciso»)!
Já aqui há uns tempos estive a ler com algumas pessoas a escrita dessa tarde de Cecília Meireles. Agora deixo-a aqui? Se a quiser mais alguém ler, evidentemente…

A SOLIDÃO PLURAL

DE CECÍLIA MEIRELES

com poemas de Cecília componho a tarde
para que em sonhos me embale a solidão
cravada nas mãos vazias do silêncio

«aqui está minha vida
aqui está minha voz
aqui está minha dor
aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era o amor e, do outro, esquecimento».(1)

não há qualquer desejo abrindo um sulco
por onde o coração indo ao encontro
liberte a solidão e o silêncio desta enorme ilusão
de que o tempo parou

«perdeu-se a forma dos abraços»(2)
«e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho»(3)

és tu quem mo pergunta?
perguntas-mo Cecília
desse outro lado agora
do teu «Mar Absoluto»?

não sei que me responda
surpreso onde me deixas
sozinho frente ao mar

mil vezes releio
mil vezes repito
a pergunta e olho o mar
ouvindo e vendo o seu marulho

«e encontro tudo sobre-humano
e este mar visível levanta para mim
uma face espantosa
e retrai-se, ao dizer-me o que preciso»(4)

se não mo diz
pois em «pequena concha»(4)
fechou o seu e teu e meu segredo
ao teu silêncio me confio

e ecoa plural
neste imenso silêncio de quem foste e quem sou
a precisa resposta
que sinto minha
bem sabendo que é tua
tão tua
tanto
tanto

«queremos a ilusão grande do mar
queremos a sua solidão robusta»(4)

R.V.

Poemas de Cecília Meireles citados:

(1) De Retrato Natural, «Apresentação»

(2) De Solombra, «Esses adeuses…»

(3) De Sonhos, «Sonhei um Sonho»

(4) De Mar Absoluto e Outros Poemas, «Mar Absoluto» 

Foi à segunda ou à terceira? «Copiar», «colar» – lá se conseguiu!
Boas leituras neste fim-de-semana!
L. V.





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