sábado, 29 de janeiro de 2011

«A VISÃO ESPINOSISTA DO MUNDO»

Nós, as pessoas pouco instruídas (nem todos podemos dedicar o tempo e a vida a…),  precisamos muito de subsídios. Seja da televisão, da internete, de uns jornais e revistas e, dada a nossa vontade de aprender e necessidade de entender, também dos livros. Alguém tem que subsidiar a nossa cultura, de modo a  que alcance um nível aceitável, num mundo que supostamente… 

Será que devia vir para aqui com isto?
Não me parece que neste momento tenhamos, por pouco informada que é, uma consciência muito nítida do que vem sendo, nos anos e décadas mais recentes, o diverso e o válido da reflexão filosófica portuguesa.
E no entanto…

Francamente, se, com o actual, comparo aquilo que às minhas mãos curiosas chegou e se não às mãos  de qualquer modo ao conhecimento,  naquele tempo de ler, por exemplo, A Arte de Pensar de Álvaro Ribeiro, não posso, nem como leitor nem como livreiro, deixar de pedir, a quem tem competência e tempo, que invista um pouco de uma e de outro em nos oferecer uma visão do enriquecimento, no Portugal de Abril, da nossa bibliografia filosófica:
- o nosso pensamento filosófico, não apenas  de outros épocas, mas de modo muito cuidadoso o original e contemporâneo;
- o nosso acesso ao pensamento filosófico universal, actual ou antigo. 

Será que está feito esse trabalho e sou eu que nem como leitor nem como livreiro tenho estado devida e agradecidamente atento? Para minha vergonha, claro...
Como esta, uma vergonha de hoje, que no entanto é superada pelo prazer de um bocadinho da tarde de sábado a ler Espinosa e Outros Hereges, Yirmiyahu Yovel, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1993.

Não vou queixar-me das deficiências que considero tem esta edição, porque a gratidão que sinto supera qualquer razão de queixa.
Tanto livro desaparecido!
Porque as ordens são: «ou se esgota ou guilhotina-se». Rentabilidade? A única é a financeira. Portanto,  desapareça o livreco. Por mais válido que seja e  muito seja necessário mantê-lo disponível, para não sermos um país de parvos, ao não investir, a médio e longo prazo, na cultura que só um pensamento estruturado permite.

Gratidão, pois! 
Um livro de 1993 e, tendo-o puxado para a sua livraria só agora, em fins de 2010, veio! E aqui está a dar este prazer ao velho livreiro! 

Isto não devia ficar por aqui…
Não devia, mas deve, porque um blogue continua a não ser próprio para textos assim tão longos.

Só mais umas citações breves e creio que justificadas, se os simpáticos visitantes concordam…

«Espinosa foi mestre não apenas da clareza e rigor mas também do equívoco e da linguagem dupla. O seu uso retórico da linguagem elevou-se ao nível da arte. Espinosa levou à perfeição um estilo e uma perícia em que os seus antepassados, os marranos, se notabilizaram durante gerações, (…)».

«Não foi pura e simplesmente possível, desde a moderna reedição das suas obras, participar na actividade filosófica sem ter em conta a visão espinosista do mundo. Nas palavras de Henry Bergson, “todo o filósofo tem duas filosofias: a sua e a de Espinosa”».

Não aponho às citações a referência da página onde…?
E devia?
Creio que sim.
- Então?
- A ver se algum amigo se admira menos disso do que de eu ser capaz de ficar por aqui…
L. V. 
P. S.
Fiz uma promessa, esse dever eu cumpro:
«A procura da lucidez e do desencantamento (...)» é a abertura do último período do livro, página 399.
Simpatia com simpatia se agradece!
L. V.

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