domingo, 20 de fevereiro de 2011

A 50% do Verdadeiro ou do Falso

1.
A INTRODUZIR
«A nossa singularidade, a vida psíquica e interior, os sentimentos, as aspirações, desejos, as frustrações, angústias, prazeres, alegrias e tristezas pessoais são análogas em todos os homens. Há uma experiência comum do mundo radical na subjectividade.
(…)
A nossa dimensão única é incontornável na referência ao que somos, o não-partilhável é comum em todos os homens.»
(João Maurício Brás, A Importância de Desconfiar, págs. 67 e 68, Vega, 2010).

2.
MENTIR  A  50%
O texto que se encontrará a seguir pode parecer que é meu, mas não é.
Como se verá.
Apareceu.
Li-o, surpreendido, e o meu amigo que a seguir também o leu interpelou-me assim:
«Bonito texto.
Queres escrever algo a apresentá-lo?»
E eu, que não!

É depois que venho a um trecho destes,
o que acima transcrevi de A Importância de Desconfiar,
que só por si não me obriga a partilhar o não-partilhável.
Mas… E ao ter por detrás aquela pergunta de amigo?…
Porque  é um trecho de apresentação quase propositadamente escrito para um meu 50% de verdade e um outro tanto  de falsidade, com que sempre devo olhar-me, quer ao ver-me em espelho quer ao individualizar-me em Humanidade.  Em meu espelho, eu sou eu?  

3.
O DITO TEXTO

NUM FERIADO DE 2008,
O SILÊNCIO

Não incomodar ninguém e que ninguém se incomode comigo é o desejo impossível que estou experimentando neste momento e num dia bom para o solitário silêncio em que posso e devo medir-me com o meu Resto-restinho. Tomar-lhe o pulso para ver o ponto em que vai. Procurar despir-me de mais algumas das inevitáveis ilusões com que se vai suprindo a incapacidade de atingir a harmonia entre o viver e a realidade.
Levantei-me cedo, tomei o pequeno almoço, tomei banho, fechei-me no quarto, já sozinho, e voltei para a cama, de olhos fechados e imóvel, dedicando o corpo exclusivamente ao trabalho de respirar e a atenção ao sentir como o cérebro correspondia a esse exercício de oxigenação e quietude.
 Não há que enganar: a Vida em mim já deu o que tinha a dar. Há muito tempo que assim é e que o sinto. Como entender, então, que tenha vindo em continuação o meu viver e tanto o tenha vivido? Que respostas encontro?
Por si própria a Vida resiste à Morte.
O Amor é uma grande força e sobretudo quando junto com um entranhado sentido de Responsabilidade. Enquanto há alguma coisa para dar, alguém a quem o dar, algo ou alguém por quem ainda possamos fazer o que é preciso e por quem nos sintamos responsáveis, a generosidade e a consciência do dever multiplicam-nos.
O tabaco e o modo como em o fumando me faz companhia, por menos que toda a gente o possa e queira compreender e aceitar, dá-me um precioso complemento à coragem de viver, até certo ponto superior ao que à partida me vem das pessoas em sua boa vontade e de tantas outras coisas que não podem dar totalmente na medida em que precisam de si para si. O tabaco vai-me consumindo, mas é ao anular-se a si próprio. Tal como , a algo ou alguém, o meu também o não é, por mais que tente e deseje, o seu dar não vem puro ou perfeito, mas é do mais total que encontro e, por verdade e simbolismo, muito me enriquece.
Tanto que eu preferia, perante o perigo de o meu Amor se transformar na sua negação, que se transformasse em cinza! Estou cansado do perigo de que o Amor dê lixo. Que seja ainda, já tão ao fim do dia, a imbecilidade do querer-me para mim, sabendo, como sei, quanto a sua Verdade é querer-me para o outro. Já me basta a Inutilidade que lhe aceito, quer ao dar o que faço quer sobretudo o que sou. É tão fácil, por ilusão, dar importância quer ao que somos quer ao que fazemos! É tão difícil viver em simples harmonia do que somos e fazemos com o Universo em que somos e nos movemos!
Como viver em harmonia simples, com o Resto-restinho de mim, este resto-restinho de Tempo que ainda a Vida me vai dando?
R. V.
4.
50% DE VERDADE 
E agora?  
Se, por um lado, cada um é como todos e se, por outro, cada um é único, sou convidado pela leitura do que escreveu para nós João Maurício Brás a ir ainda mais longe. Arriscar-me pelo entendimento do «entre-eu-e-nós».  
Um convite que a um texto que é não-partilhável permite apresentar-se às hipóteses de  leitura em comum.

Foi por acaso - tão diferente o que procurava no momento! – que encontrei este texto esquecido.
Somos o que somos. Mas… 
E ainda somos quem fomos?
Podemos dizer que a vida que já vivemos é a que estamos vivendo?
Um texto do qual perdera a memória…
Com verdade o disse: «não é meu». Já não o tinha. Em nenhuma forma de lembrança.
E por mais que o reconheça, já nele só em parte me reconheço. Meu, só porque «foi» meu.
Foi?  
Fui!
5.
NÃO TENHA EU DESTA  VEZ
Isto faz-se?
Não sei.
Talvez seja melhor ir compreendendo,
em vez de querer compreender.
«(…) a sucessão do tempo e dos acontecimentos escapa a qualquer lógica que dirija e justifique os nossos interesses e motivos .» (Idem, ibidem, pág. 75).
L. V.

1 comentário:

  1. Caro Manuel Medeiros espero que se encontre cheio de ânimo. Estou a constatar que a nossa conversa a ser se torna mesmo incontornável.
    Abraço amigo
    Joao Brás

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