sábado, 5 de fevereiro de 2011

«A PUREZA DE NÃO SER COISA NENHUMA EXACTAMENTE»

Coisa nenhuma, a Poesia? Ou…?
É uma conversa com Eduíno de Jesus que fica  adiada. Porque chegou-me aqui um momento de preciosa leitura.

Lembras-te, amigo Eduíno, daquele verso de Ossadas, para mim incontornável livro do mestre também teu, de modo tão especial do teu amicíssimo Jacinto Soares de Albergaria, mestre de tantos outros moços de então, de João José Cachofel e Carlos de Oliveira - os que mais o acompanharam na fase final –, o nosso Afonso Duarte?

É este, o verso:
«Vive-se de olhar uma flor». 

Para deixar que o teu-meu momento de beleza passe a quem veio ler o blogue, não vou fazer comentários,  não acrescento mais que isto:
Lembrei-me deste verso do mestre ao reler um teu precioso poema, que te peço licença para trancrever.   Que poema, este poema!
A FLOR NA ÁGUA
A imagem da flor na água
não tem dentro:
É como

o amor a dor a fome o gume
do canto. E,
no entanto,

ondula na água como
uma flor real
ao vento.

E assim como a flor
que lhe empresta a forma,
o vento, por fim, destrói: assim

sem ser tocada
de nenhum
vento real

(senão aquém
onde ondulava
o seu suporte),

a imagem morre
na água
e tudo acaba

como se a morte
tocasse também
realmente

aquela flor de nada.

(Os Silos do Silêncio, pág. 232)

Comentários?
Hum!
«A poesia, não se sabe o que é./Nem é preciso/(…) O que ninguém sabe/ é que tem o mistério e a pureza de não ser/ coisa nenhuma exactamente»

(Eduíno de Jesus, Os Silos do Silêncio, pág. 149).

Depois deste comentário do próprio Eduíno, posso pedir o cuidado de voltarmos a ler «aquela flor de nada»? Com cuidado!… É uma «flor de nada»!
L. V.

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