sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

UM CIGARRO PARA DESANUVIAR

Queiram não se preocupar, amigos. Embora com este grande desgosto de andar afastado de um grande companheiro de anos e anos de vida guerrilheira, desde aquela manhã de 14 de Setembro que…
Portanto…
Então?
«Um cigarro para desanuviar», embora possa não parecer, é título para pedir uma leitura do poema que vem a seguir e que, tal como outros do mesmo livro, muito me interroga sobre as antigas e novas afirmações da poética de Helder Moura Pereira.

O pássaro que passa na ponte
sobre o Tejo, mesmo defronte
da minha janela escancarada,
não tem penas, não tem nada.

É um míssil, é uma linha
que desenha um arco de emoções. 
A roupa no estendal da vizinha
adquire súbitas conotações.

Lembra-me o tempo em que eu
tinha esperança, não havia esta gente
medieval, medonha e demente.
Isto está escuro como breu.

Não é que o pássaro me traga
boas novas, para dizer a verdade,
por sinal uma verdade bem amarga,
há coisas para que não tenho idade.

O impossível aproximava-se devagar
da realidade, o corpo que se abria
e num instante desatava a arfar
nesse instante era boa companhia.

O pássaro só eu é que o via.
Para onde olhava a minha companhia?
Enchia os pulmões de ar
e fumava um cigarro para desanuviar.

(Helder Moura Pereira,
Se as Coisas não Fossem como São,
pág.40)

L. V.

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