sexta-feira, 29 de abril de 2011

A OITENTA E UMA (II)

Era preferível intitular como ontem: «A 81.ª»? Ou então: «A Octogésima Primeira»?
Talvez.

Era preferível entrar hoje aqui pela crónica do ir esta manhã a exames respiratórios no Hospital de São Bernardo?  Por me saber livreiro, a  simpatiquíssima técnica de saúde a  trazer à conversa a inauguração da Feira do Livro e, já que o assunto era comigo, o quanto foi bonito ver compreendida uma história mal contada!
Depois, talvez.
Vamos a ver se é oportuna essa crónica sem que lhe passe por cima um lápis vermelho de auto-censura…

Do que apanhei na rede, entretanto, a cópia ilegal foi assunto ontem sublinhado  na sessão de abertura da 81.ª Feira do Livro de Lisboa: 
(«O presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), Paulo Teixeira Pinto, anunciou na abertura da Feira do Livro, na presença do procurador-geral, que a entidade pediu para ser constituída assistente em crimes contra a cópia ilegal.» (Site TVI24)

Cópia ilegal:
um conceito que decorre, à partida, dos conhecidos e reconhecidos e respeitáveis direitos de autor, legislados, não em todo, mas em quase todo o globo, à maneira de fazer do livro, antes de mais, uma mina de dinheiro e só depois,  por uma generosa  condescendência dos benfeitores da dignidade humana,  uma nascente de inteligência, conhecimento e arte.

Quem tem sido livreiro desde que a Feira do Livro de Lisboa ainda nem tinha metade da idade actual, recusando, embora deva reconhecer que parvamente ou ingenuamente ou utopicamente ou tudo junto, ser autor ou editor, livreiro só livreiro, portanto, e vivendo disso com a comum dificuldade deste ramo de comércio, não tem, não pode nem podia ter, nada contra uma forte rentabilidade económico-financeira do livro. Não é por aí…

De certeza que ninguém vai ignorar que aqui ficou dito: «não vou por aí».
É pela razão das coisas submetida à razão do dinheiro.

O meu pensamento não sabe como encontrar resposta. Não tanto ao olhar para os editores e livreiros quanto para os intelectuais, os que escrevem, os que são publicados, os que são os autores.
Alguma vez eu ia aceitar que após a minha morte se pretendesse com setenta anos apenas  compensar justamente  uma obra imortal («os que se vão da lei da morte libertando»)!
Ainda se os direitos assim reduzidos a um prematuro crepúsculo, mos pagassem à cabeça!
Domínio público! Domínio público a partir do dia da morte do autor! Isso é que era! Era o que devia exigir qualquer autor que acredita na sua obra e na daqueles que conheceu e não são reeditados porque…
Cinquenta ou, pior agora, setenta anos! Dá tempo de desaparecer! Pode sempre ser recuperado? Já pensei nisso e pode sempre acontecer. Está a acontecer com Raul Brandão. E o empobrecimento que foram, para a leitura portuguesa, aqueles doze anos (confirmou-mo Victor Viçoso) em que a obra de um tão indispensável autor andou desaparecida? Recuperar é sempre possível, seja o desaparecimento devido às heranças ou a «deslembramentos». Mas recuperar gerações de leitores, isso não é. Lugar aos novos!

Há respeitos que são vergonhosos. E muito menos vergonhosos para quem é respeitado do que talvez para quem respeita. Um triste modo de respeito, acho eu e não vou teimar, é o admitido em propagandistas e «lucradores» com a necessidade ou imbecilidade dos outros. Aplica-se ao caso dos direitos de autor? Talvez fosse preciso ver melhor alguns aspectos. Talvez. Pensando numa harmonia com o futuro. Mas «não é por aí»…

«De certeza que ninguém vai…», já ficou escrito.
A cópia ilegal é para combater devidamente.
Mas, dentro da legalidade, não deve haver quem combata o excesso de protecção aos direitos de autor? Neste preciso momento há casos de obras que …

Os novos tempos, as novas técnicas, as promessas de mais e melhor divulgação das artes e das ciências propõem que tudo se repense. A nova civilização, tão sensivelmente emergente e já demasiado necessária, exige! Já não se limita a propor.
L. V.

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