sexta-feira, 13 de maio de 2011

«DOIS ACONTECIMENTOS» por-T-antes:«O CORETO E A MEMÓRIA»

Uma pura página do humor, à Álamo Oliveira, em CONTOS COM DESCONTO, edição IAC – Instituto Açoriano de Cultura, 1991, conta-me o caso de «o Grande Músico inaugurador de coretos».
Tenho uma dívida para com o Álamo, o mérito não é meu mas do Onésimo, não pretendo pagá-la. Como assim? É para que me prolongue em honradez, ao pagar juros.

«Mesmo que se olhasse duas vezes para o mapa não se dava por nada» (pág. 11). Não é do mesmo conto. É do anterior, o primeiro do livro: «Arquipélago das Lapas».
Literatura açoriana publicada nos Açores? Conhecida cá, no que de país em aquéns do Cabo da Roca? Nem sequer por arrastamento, nos casos em que os autores que não emigram aparecem em edições de cá. Seria de esperar?  A visibilidade cultiva-se de dentro para fora ou de fora para dentro. Mas cultiva-se. Como e quem e com quem?

Mas não está certo!
Eu não digo que a causa seja apenas a descuidada atenção de quem entre nós se considera e é considerado um entendido em nossas literaturas.
Pelo contrário, a causa vem de lá. Pelo menos tanto quanto é muito própria de cá, um sítio em que qualquer um sabe tudo, nesta paisagem em que muito poucos sabem muito do que devia ser conhecimento comum.    
Estou assim tão convencido?
Não… Ao menos aqui, não… Não me peçam para contar quando e como «vi» a causa à vista.
Agora já se disse: tudo indica que a autonomia vai dando sinais de querer, ao mesmo tempo, desembarcar e aterrar nas mais belas e preservadas ilhas atlânticas. O que é que ainda falta à convicção: acção ou pensamento?
Talvez já não falte nada.
A esta hora já leram «O Arquipélago das Lapas» até esta última linha: «E a autonomia mantém-se como à nascença: tremida e boazinha». Mas este texto foi publicado há já vinte anos! E escrito há vinte e nove! Nessa altura ainda alguma coisa justificaria dizer-se que «os intelectuais indígenas (…) andavam de tanga em busca da árvore letruda da Literatura Laparosa». Ora hoje a autonomia…

Ah! O tal conto! Título: «O Coreto».
Escrever bem é isto!
Saber escrever (quanto àquele «teve» a gente já fala):
«Já o avô fora Joaquim e sacristão e o pai não deixou de ser uma coisa e a outra».
Qualquer um diria: «uma coisa e outra». Estou a exagerar?

Gostaria tanto! De?
De que os nossos «grande-revelação» apreciassem…, soubessem onde está o segredo!
Não é fácil. Escrever bem não é apenas ter um bom argumento e uma escrita rica de desembaraços (Já é bom! Já é bom!). É saber falar com ricos pormenores de português perfeito, sem transigências.
Bom! Mas quem sou eu, ao dizer coisas tão estranhas a…?!
«Eu bem digo, mas ninguém me acredita»: mais vale quem diz do que o que diz! O que me vale é que no fundo estou cal(ej)ado.

Pág. 22:
«-Porco! –cuspiu Maria. E foi-se para sempre.
Joaquim recolheu o sexo desfalecido, abotoou a braguilha e quedou-se por largo tempo na sua lástima e infortúnio. Ele sabia que aquele peido de clarinete acabava de lhe passar um definitivo atestado de celibato.


Daqui até à inauguração do coreto foi um lamiré de tempo.
As gentes da freguesia consideravam de necessidade gritante a existência de um coreto. É verdade que não tinham água canalizada, nem rede de esgotos; que estavam mal servidos de electricidade; que viviam sob uma economia de subsistência; possuíam um ensino pouco acima da linha separadora da cartilha de João de Deus. Mas – c’os diabos! – já tinham televisão, sociedade recreativa, casa do povo e filarmónica. Só coreto é que não.»

Anotar por favor que retirei o adjectivo à «memória» do acontecimento. O «coreto» não tinha adjectivo e assim dei voto à igualdade dos «dois acontecimentos» adjectivados por um comum «importantes». Além de que, agora com mais calor, o cheiro se tornaria mais incomodativo.  Que acham?

Um livro com vinte anos! E onde, hoje?
«Por acaso», aqui na Culsete, desculpem que seja verdade…
L. V.

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