domingo, 12 de junho de 2011

«À BEIRA DE UM POETA»

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Sempre que se regressa à memória de Sebastião da Gama pode efectivamente nascer uma flor, porque «era uma vez» um rapaz que em Azeitão nasceu para ir povoar a Serra da Arrábida de  poemas e amigos, de  vontade de viver admirando as flores da serra, os bichos, as pedras, a areia, o mar e dedicando um imenso amor a quem encontrava e fazendo desse amor um modo de vida. Como ser humano, como amigo, como professor desse modo viveu a curta-grande vida e sendo por tudo isso e para tudo isso o poeta que mais que tudo era.
«Era uma vez», hoje, 12 de Junho de 2011, mais um dia de regresso à memória  de Sebastião da Gama:
às 10,30h. foi uma «Oficina de Arte na Rua;
às 21,30h será  a sessão de entrega do 13.º Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama – 2011.

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«Na sala do meu avô havia um búzio, havia o mar.
(…)
Na sala do meu avô havia um búzio
que me cabia na concha das duas mãos.
Se o aproximasse do ouvido,
aproximava o mar inteiro».

Nos poemas imediatamente anteriores a presença é da avó, no poema imediatamente anterior…

«Mas ás vezes a minha avó ficava-se muito quieta
a olhar para dentro dela e eu sabia
que estava a contar os dias que teimavam
em cair-lhe por entre os ossos das mãos.
Curioso como o seu olhar
tinha a pureza de uma asa branca aberta,
sendo ela um sábio pássaro negro
rasando o feno por ceifar».

São dois excertos de Retrato a Sépia, a obra que mereceu o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011.
Mereceu?
Sim, foi mesmo o que quis dizer: mereceu. Não sei se outras obras a concurso teriam igual ou mais elevado nível. Compete unicamente ao júri esse saber.  Este regresso a uma infância de uma aldeia entre mar e terra é poesia de verdade e de nível.
Autor? Paulo Assim – um nome literário.

Paulo Assim, um poeta e prosador desconhecido dos catálogos das editoras  mais conhecidas e, no entanto, reconhecido pelos júris de muitos prémios literários de norte a sul do país e até dos meus Açores: Prémio Gaspar Frutuoso de 2009, com  o romance A Quinta-feira dos Pássaros.

«Daniel de Sá, que também fez parte do júri, considerou ser um “dos mais belos livros escritos em português”, onde a língua é tratada com “carinho e cuidado”. Uma obra que pode ser lida por qualquer pessoa “desde que saiba ler”, afirma Daniel de Sá para concluir que Paulo Assim “prestou um bom serviço à literatura”, uma vez que o livro é um “hino à humanidade, à vida e à esperança” (
http://www.cm-ribeiragrande.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1625%3Aribeira-grande-ganha-espaco-cultural&catid=57%3Anoticias-em-destaque&Itemid=81&lang=pt).

É muito vencer prémios…
Se não fosse uma escrita válida, por mais que se saiba que nestes concursos muitas das obras concorrentes não valem nada, não creio que…

Estou com Retrato a Sépia nas mãos  e estou de acordo com o nosso júri: muito belo(s) poema(s) este(s)!
E  também, pelo prémio Gaspar Frutuoso, Daniel de Sá é para mim grande garantia.
Daniel de Sá é um dos excelentes escritores açorianos da actualidade, obra feita, que a quem não leu recomendo vivamente pois que nos seus livros a língua é tratada com “carinho e cuidado”.

Posso?
Se posso deixar uma proposta para uma 2.ª edição, que bem pode incluir outras obras, numa colecção e editora que  permita a muito mais leitores este prazer que me foi dado…

Por mim, obrigado, dr. João Reis Ribeiro, por me ter posto nas mãos esta edição  da nossa Associação Cultural Sebastião da Gama em parceria com as Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão).
L. V.

1 comentário:

  1. É bom poder ler críticas assim. Dão vontade de seguir em frente, uma vez que «pelo sonho é que vamos»...

    Cumprimentos,
    Paulo

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