domingo, 31 de julho de 2011

*5 de DESORDENS & ABUSOS do ACABA-LÁ-COM-ISSO

*5
digamos que são fases e conforme as fases as marés não as ondas que essas gostam é de se fazerem de amores com o vento amores donde nascem favores e rancores quem vive do mar sabe bem disso hoje morre-se menos de muita coisa também se morre menos das fúrias do mar e vai daí talvez seja melhor nem me lembrar do caso tinha oito anos o temporal tinha sido fortíssimo mas passara e já a vida na nossa aldeia regressara ao normal quando veio o alarme por quem fora trabalhar para aquelas bandas até a escola parou um barquinho a remos com mortos e sobreviventes dera à costa na «rocha da relva» porque teria este nome se era mesmo em água-retorta e não na freguesia da relva que também tinha e tem a sua rocha não sei é se com nome próprio e então foi um dia de juízo fui até ao lombo e já não desci a rocha porque vinham chegando os homens que traziam em braços o mocinho e mais um homem os outros dois vinham a pau e corda os mortos já encobertos em mantas  um deles o avô do moço que sobreviveu a mocidade a aguentar-se melhor e ele contou o que se passara sobreviveram à fúria do temporal agarrados ao barco subindo e descendo nos altos e baixos das ondas levados os remos e o mais e assim ficaram no alto mar à deriva sem alimentos nem água eram de santa maria naquele tempo era assim um abandono que hoje é inconcebível não sei porque conto isto aqui e só mais me lembro de como levaram os mortos até à igreja da nossa freguesia e foram a enterrar no dia seguinte e ainda hoje me custa suportar a lembrança do rapazinho a contar como tudo tentara para animar o avô que não morresse que haviam de chegar a terra e que viu o avô morrer mesmo e são estas e muitas coisas sem fala que fazem um passado sabendo-se que nesse tempo não havia tempo a não ser o tempo que fazia com alguns dias lindos de bom tempo e muitos dias de mau tempo vento chuva nevoeiro nem passado nem presente nem futuro as coisas simplesmente acontecendo vivia-se e morria-se não nos fazia falta a noção de que era natural o nosso viver bastava-nos viver assim cumprindo com os ritos apropriados a cada estação repito que não sei de uma razão para estar aqui com isto mas talvez possa vir a servir-me de lição para saber melhor como viver enquanto há tempo e hoje por hoje
V. L.

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