segunda-feira, 25 de julho de 2011

MARIA LÚCIA LEPECKI (1940-2011): Deixa saudades, a Maria Lúcia

Rever as fotografias de um serão na Culsete. Escolher a única em que Maria Lúcia Lepecki nos aparece com os três conhecidos escritores a seu lado. Permitir à saudade que fale e se cale, ao mesmo tempo. Deixar que falem, mais do que quaisquer palavras do livreiro velho, as mensagens que hoje lhe chegaram de três escritores açorianos amigos.


LEGENDA: «13/XII/2003 – Quarenta anos de vida literária, com Baptista Bastos, Mário Ventura e Urbano Tavares Rodrigues, acompanhados por Maria Lúcia Lepecki. Recordo-me! Recordo-me! E não é mesmo possível esquecer o nível desse convívio com os três escritores-jornalistas nem o que, sob a batuta sábia e pertinente de Maria Lúcia Lepecki, nos disseram da sua riquíssima experiência da vida política e literária portuguesa» (Papel a Mais, p.228).


TRÊS MENSAGENS:
1
Fiquei ontem à noite surpreso com a notícia do Público de que tinha falecido a Maria Lúcia Lepecki. Dela tenho boas recordações, das poucas vezes em que a encontrei. Menos uma voz que gostava de ouvir ou ler. (Artur Goulart)

2
A Maria Lúcia Lepecki estava gravemente doente há tempos. Tinha lutado já contra quatro cancros e sucumbiu ao quinto. Quando há uns oito anos passou uma sabática na Brown, foi para lá com o fito de descansar psicologicamente da má experiência com o cancro, a fim de poder ler e escrever nas calmas. Foi então que tive a oportunidade de conviver bastante de perto com ela e verdadeiramente admirá-la. Era muito inteligente e era senhora de um verbo rapidíssimo, eloquente e divertido, para além de uma curiosidade intelectual ilimitada.

Mandou depois para a Brown, ao meu cuidado, alunos doutorandos e pós-doutorados seus, e recomendava mesmo a experiência numa universidade americana a todos quantos conseguissem arranjar apoios económicos para tal. Um deles, o Marcelo Oliveira, acaba de organizar um volume de homenagem a ela em que a Leonor e eu colaboramos e cuja data de lançamento foi antecipada com urgência porque a Maria Lúcia estava muito mal e queriam lançar o livro com ela em vida. Ela ainda o viu (A Primazia do Texto) e ele foi lançado quarta-feira no congresso da AIL no Algarve. Mas a Maria Lúcia já não pôde estar presente. O Marcelo disse-me que ela estava por pouco e que poderia nem passar do fim-de-semana.

Dela ficam boas memórias e uma estória açoriana contada pelo João de Melo. Um júri de que faziam parte o João, ela e o Pedro da Silveira (não sei se o Eduíno também), o eterno má-língua do Pedro aproveitava a saída de qualquer membro do júri (por exemplo uma ida à casa de banho ou, por qualquer motivo, deixar a reunião) para desancar na pessoa. Ao fim de umas quantas vezes, a Maria Lúcia voltou-se para o Pedro da Silveira e disse-lhe no seu inconfundível sotaque brasileiro: Puxa, Pedro! Não si pode 'tar longe di você!
Deixa saudades, a Maria Lúcia. (Onésimo Teotónio Almeida)

3
Também fui apanhado de surpresa pela notícia quando, antes de fechar o computador esta noite, dei um salto às notícias.

Da Maria Lúcia Lepecki retenho as impressões mais próximas do contacto aqui na Universidade em alguns colóquios e de uma mesa-redonda nemesiana em que participámos, com Roberto Carneiro, num lugar tão improvável como a Escola Secundária de Vilar de Andorinho (a sul do Douro). Acima de tudo, um modo afectuoso (não lusitano) de trato com a literatura.

Deve-se-lhe ainda o facto de ter continuado a «ler» publicamente no Diário de Notícias a obra de José Martins Garcia quando este já não era «de Lisboa» - o que diz muito do seu (dela) espírito e  modo de olhar para a literatura. (Urbano Bettencourt)

L. V.

1 comentário:

  1. Bela homenagem à Maria Lúcia. Se soubesse que ias usar o meu e-mail, teria escrito algo menos esboço, acentuando algumas facetas das suas muitas qualidades. Nela, por exemplo, o verbo rápido servia uma inteligência ainda mais veloz.
    Fui ao funeral. À nossa frente, no cemitério, havia um funeral angolano e um grupo de mulheres chorava cantando um lamento profundo e doce. Que apropriado canto para esta despedida à Maria Lúcia! – disse eu à Lídia Jorge que, a escutá-las com contida emoção, concordou em pleno.
    Abraço.
    onésimo

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