quarta-feira, 10 de agosto de 2011

CÁ ‘STAMOS-III

O GORGULHO E AS FORMIGAS


Venho-te contar
E venho hoje
Porque ontem não estavas onde te visse
Ou te pudesse ao menos imaginar
Venho contar-te um pouco do que ainda me recordo
Do tempo em que o Gorgulho era
Um barco-barquinho a preto e branco
Barco de carga que trazia e levava
Como na minha aldeia o burro da moenga
Carinhoso e prestável
E do tempo em que as Formigas já eram os ilhéus que são
Agora porém sem que possa voltar a vê-los
Nos dias claros dos meus dezasseis anos
Eram Julho Mar e Céu um mesmo azul
Desde os altos picos e altas rochas
Até ao horizonte onde se recortava Santa Maria
E a seu nascente estes tais Ilhéus das Formigas
Venho-te contar e se sabes o porquê
Encarecidamente peço que mo digas
Pois me sinto sem razões para seja o que for
Algo assim como a pedra grande no meio da vinha
Que não estava ali a fazer nada
Era apenas uma pedra no meio da vinha como sempre fora
Digo isto porque tive desde quando me lembro de mim
Um grande carinho para com a pedra grande no meio da vinha
E aos dezasseis anos continuava a ser uma pedra grande simpática
Só quando foi partida em pedra-aparelhada para a casa nova
É que deixou de estar no meio da terra e tive
De habituar-me a vê-la só na imaginação
Dava um romance se eu me pusesse a contar
A história vária
De algumas pedras que conheci
Por agora porém não falemos de pedras
Falemos de razões
Não das de hoje que não as tenho como disse
Mas as desse tempo do Gorgulho e
De Ilhéus das Formigas que no azul do horizonte e em
Meu silêncio contemplativo avistava de sobre o muro do curral do porco
Conto porque me recordo perfeitamente
Nada me faltava nesse tempo exactamente nesse verão
Para me sentir a caminho de um harmonioso futuro
Venho-te contar que nesse tempo que era meu
A fantasia mandava-me ir ver como eram as Formigas
E houve um simpático pequeno cargueiro que me prendeu os olhos
Muitas vezes na baía de Angra
E algumas também na doca de Ponta Delgada
Mas nem ele nem outro barco ou barquinho me levou
A esses ilhéus a nascente
De Santa Maria

Post-scriptum
Se aos dezasseis anos a referência de novo aparece
É o falso futuro
De um puro passado
Por alguma razão
De imaginação
Contando uma história

R.V.
Setúbal
10 de Agosto
2011/A-L-P&L-ER.

2 comentários:

  1. Lê-se o título e pensa-se numa fábula. Depois, descobre-se uma bela evocação atlântica de mar, horizonte, viagens apenas do olhar, tudo envolto na nostalgia que o tempo deixa. Obrigado. Abraço.
    Urbano Bett.

    ResponderEliminar
  2. Daqui de S. Jorge junto-me ao aplauso do Urbano.
    Se calhar há mais destes na gaveta.
    Um abraço, Manuel.
    onésimo

    ResponderEliminar