quinta-feira, 8 de setembro de 2011

«ALMA DA MINHA VIDA»

E já lá vão sessenta anos!… De Setembro de 1951 até este de 2011. Cumprem-se-me, por estes dias, sessenta anos de leitura constante da poesia de Afonso Duarte. Acabava o verão quando me veio às mãos o seu Ossadas.
Nesse verão…  
Antes de continuar, porém: «Sessenta anos e constantemente?! Porquê?».
Em resposta, posso pedir-te que leias comigo o poema de
Ossadas que hoje, sabe-se lá porquê,  veio pedir-me que o lesse mais uma vez?   
CÂNTICO
Não me dói a velhice
Do mundo.
Disse.
Não me dói nada.

Alma desprendida,
Canta, ri.
Saboreia o travo amargo
Do mundo que talhaste para ti.

E daí,
Do poço fundo e largo
Onde escreveste: cumpri,
Alma da minha vida,
Canta, ri.

Sim: É este o preço
Por que eu meço
Os mistérios do mundo.

O mundo!? – este desgosto
De ir pelo mundo, só de ir:
Um fogo posto
Exactamente à hora de partir.

Alma desprendida,
Alma da minha vida,
A mim que me dói toda a velhice do mundo?
Se o corpo dois palminhos são de terra,
Olhos! – fechai-vos ao mundo.

Diz-me:
mantemos a pergunta? 
Estou em preferir que deixemos as coisas neste ponto:
permites?
Efectivamente…
É que após a leitura deste poema ou já estás a compreender a razão porque fiquei preso à poesia de mestre Afonso Duarte e iria distrair-te do que ficaste a pensar e sentir ou ele nada de especial te disse e aí… vou eu acrescentar o quê? Respeito que tu não aprecies e tu respeitas que eu admire e deseje que este excelente poeta do nosso século XX seja mais lido.
Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…
Ficamos assim ou…?
Que dizes?

L. V.
P. S.
Agora me lembro: já aqui no «Chapéu e Bengala« te lera Afonso Duarte.
Importas-te de confirmar? Vê lá se te recordas desta pequena magistral lápide:
«O homem distrai-se e corporiza
Memórias de doutrina
Que em séculos de vida o não ensina
A ser o que precisa».
Acho que ta transcrevi. Confirma-se? Esta outra é que acho que não:
«Carrega-te de afecto nas palavras,
No gesto e luz dos olhos:
Colherás oiro do chão que lavras,
Rosas e não abrolhos».
                           (De Lápides, poemas V e IX)
Um verdadeiro Mestre!
Por estas e outras é que o admiro há sessenta anos. Cumprem-se agora.
L. V.

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