domingo, 11 de setembro de 2011

ANTERO DE QUENTAL: O ÚLTIMO DIA

1891 - 2011
Antero de Quental  11 de Setembro
O ÚLTIMO DIA - HÁ CENTO E VINTE ANOS
I
A quem hei-de pedir que escreva o meu desejado ensaio «ANTERO E A MORTE»?
No entretanto, vou em progredir, nesse meu desejo, lendo e relendo na obra em verso e prosa do nosso Grande Mestre ANTERO DE QUENTAL  o que ao tema se encaminha directa ou indirectamente.
«A MORTE DE ANTERO» é tema bem diferente, como se compreende. Mais frequentemente abordado, este. Ainda assim, não consigo apagar o bem mais antigo desejo de que se procure ver o suicídio de Antero a outra luz, pelo menos também a outra luz: a de uma razão que serenamente coexiste com convulsivas emoções e de um carácter firme, uma firmeza acima de quaisquer acobardamentos, firmeza perante fosse quem fosse e fosse o que fosse, a morte, por exemplo. A coerência! A grandiosa coerência de Antero!

II
Relê comigo o conjunto de sonetos «ELOGIO DA MORTE», vou pedir licença para transcrever para aqui apenas o último dos seis, mas deixa-me começar pelos primeiros dois versos do terceto imediatamente anterior, o que fecha o quinto e em que posso surpreender, parece-me, muito mais do que nele li noutras vezes ao longo dos últimos sessenta anos. Talvez um dia voltemos a encontrar-nos de volta a este conjunto de sonetos, porque algo de interrogativo me chega de ter sido escrito e publicado no momento em que foi. 

«Dormirei no teu seio inalterável,
Na comunhão da paz universal»


Agora vamos ler o soneto VI:

Só quem teme o Não-Ser é que se assusta
Com teu vasto silêncio mortuário,
Noite sem fim, espaço solitário,
noite da Morte, tenebrosa, augusta…

Eu não: minh’alma humilde mas robusta,
Entra crente em teu átrio funerário:
Para os mais és um vácuo cinerário,
A mim sorri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e inefável
E o silêncio sem par do Inalterável,
Que envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo e adorar-te,
Não-Ser, que és o Ser único e absoluto.


Tenho de abster-me: descabidas aqui as exuberâncias que…
Só isto: não é fácil absorver esta aparente contradição de um «Não-Ser» que é o «Ser», mas é aí que…

III
BIBLIOTECA COSMOS
Direcção do Prof. Bento de Jesus Caraça
(da Universidade Técnica de Lisboa)
N.º 17          5.ª Secção – N.º 3 – Biografias
ANTERO DE QUENTAL
por MANUEL MENDES
*
Este volume acabou de se imprimir aos 12 de Maio de 1942.
-Foi composto nas oficinas das edições Cosmos, rua da Emenda, 111-2.º


1942?
Estranho! Não encontro neste livro uma evidente ligação da sua publicação com a ocorrência do I Centenário do nascimento de Antero. Aguçada a curiosidade: como foi, desse centenário, a comemoração?

Uma citação da «Nota Preliminar» deste volume da nossa conhecida e tão celebrada Biblioteca Cosmos:
Raro é o escritor português que tenha merecido tamanha atenção e tão grande diversidade de estudos, como mereceu Antero, nestes últimos cinquenta anos, que tantos são os que nos afastam da sua morte.
Sabemos que assim é e com terem passado mais setenta anos confirma-se e reconfirma-se.
Mas eu não sabia… E… e… devia! 

Devia saber, devia, e já há umas quantas dezenas de anos, que também Manuel Mendes e a Biblioteca Cosmos tinham entregue à minha leitura esta biografia de Antero de Quental…
Esta biografia que, precisamente há oito dias, fez ontem, sábado, no seu cuidado e nosso empenho em enriquecermos a nossa anteriana,  a Fátima adquiriu e veio colocar de prenda sobre a minha secretária, para que de surpresa a encontrasse. 
Um breve passeio de sábado à tarde oferecido a sua mãe, que manifestou o desejo de  ver a Feira das Velharias, na Av. Luísa Todi, e a Fátima, por feliz acaso…

Com um pedido de desculpas, outra vez este «copiar»-«colar»:
«Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…»

É que não estava nada a pensar neste ir a sessenta anos atrás nem para o meu primeiro encontro com Antero nem com Afonso Duarte ou Raúl Brandão, que também nesse então me apareceu com Os Pobres.

Isto foi no sábado, e no sábado só dei uma agradecida vista de olhos. Mas no domingo sentei-me a ler e…, pronto!, a semana toda com Antero e o seu 11 de Setembro. Que é hoje. E cá estou: preso! 
Pois! Preso! E de tempos a tempos é isto. E fica sempre em insatisfação o que se aprende de novo com ou sobre Antero, porque é muito o que se percebe que falta e se tem de adiar…

«E se viesses aqui ao «Chapéu e Bengala» com alguma frequência e sequência e chamasses a essas vindas VARIAÇÕES SOBRE ANTERO?»
Unh!
Estás a desafiar-me, a provocar-me, a medir-me, para veres até que ponto vai o meu atrevimento de ignorante, bem sabes, mas de velho, bem vês? As condescendências: «aos velhos e às crianças consente-se que…»?!!!
Resposta: «ao menos tu já devias ter percebido quanto não conto comigo, conto cada vez menos e com razão… Não te devo nem deverei promessas de um tal género». 
IV
O ÚLTIMO DIA,
assim contado  em «Antero de Quental por Manuel Mendes», páginas 94-96 (Passagem longa de mais para um blogue? É por respeito. Tens o livro?  Muitos dos nossos amigos não terão tido a minha sorte e alguns vão mesmo achar que valeu a pena abrir-lhes estas três páginas, espero eu.): 

Tinha alugado uma casinha, num sítio retirado do centro da cidade de Ponta Delgada, no lugar chamado São Gonçalo, e mobilou-a, no intuito de aí se instalar com a irmã e «as pequenas», casa que abandonou, não se sabe porquê, para ir viver de novo na residência do seu amigo José Bensaúde, a quem, do continente, em carta, tinha pedido guarida.
(…)
Bensaúde escreve (…): «Resolvido a embarcar, foi a 10 instalar as pequenas numa casa de gente modesta e séria, em espécie de pensão, para lá lhe ensinarem trabalhos domésticos, até que de Lisboa diligenciasse fazê-las reentrar no asilo donde saíram.
«E as crianças que tomaram esse facto como início da separação
, choraram muito, e levaram-no a fazer o mesmo, o que lhe tirou o sono quase toda a noite de 10 para 11. Almoçámos a 11, cavaqueámos à mesa mais de 1 hora em assuntos em que pretendi animá-lo: e depois de eu sair (à 1 hora), ele saiu às 2 e 1/2 indo levar à irmã algum dinheiro em ouro que tinha, para ela «guardar aquilo, porque ele podia faltar»…
«Resolveu-se entre a 1 hora, em que eu saí, e as 2 e 1/2 em que saiu ele, vestido excepcionalmente de preto, a levar o dinheiro à irmã, a ver dois amigos e comprar o revólver.»
Antero, de facto, dirigiu-se a uma loja de quinquilharias, e, a pretexto de ir residir num lugar ermo, afastado da cidade, compra um revólver e pede que lho carreguem pois «nunca pegara em arma de fogo».
«Estava perfeitamente calmo e tranquilo.
«-Ouvi  contar, disse-lhe o empregado, que o senhor doutor seguia para Lisboa?
«-Pensei nisso, mas desisti, em consequência de ter passado ultimamente melhor.
«Tirou em seguida da algibeira algumas libras, e disse ao empregado que se pagasse, pois não estava habituado a fazer dedução de moeda fraca
(Havia então diferença entre a moeda que corria no continente e a que corria nos Açores). Em seguida retirou-se» (Alice Moderno, In Memoriam, pág. 205).
Visitou , nesse dia ainda, um parente, com quem esteve conversando sossegadamente. Levava o revólver embrulhado em papéis.
Foi, pouco depois do anoitecer, sentar-se num banco da praça pública, no Campo de S. Francisco, encostado a um muro da cerca dum convento, onde, num desenho, uma âncora se entrelaça com a palavra
Esperança. Meteu o revólver direito ao céu da boca e desfechou duas vezes.
«Entre os dois tiros – é Bensaúde que conta – mediou o tempo necessário para um polícia, que ouvira confusamente o primeiro, andar devagar na direcção dele uns sessenta metros – 40 a 60 segundos. Uma bala saiu pela saliência óssea do nariz, ao pé dos olhos, e a outra penetrou pela abóbada palatal no cérebro. Parece que o infeliz inclinara a cabeça para trás, para introduzir o revólver na boca com comodidade, mas que o primeiro tiro, dirigido muito em sentido paralelo à tangente vertical da cara, foi o da bala que saiu pelo osso do nariz, e que depois de 40 ou 60 segundos, consciente de que assim não morria, resolveu um segundo tiro, mais na direcção do cérebro.»
Transportado para o hospital, prolongou-se-lhe a vida ainda durante cerca duma hora, numa pavorosa agonia – «dois homens não podiam sustê-lo nas contracções» – acabando por se lhe derramar a massa cerebral.
Buscou assim, no dia 11 de Setembro de 1891, pelas suas próprias mãos, a libertação na morte.

V
Comentar?
Abstenho-me, só este «copiar-colar» do post anterior:
«Temos uma descrição pormenorizada. O último dia de vida de Antero de Quental sempre e cada vez mais a interrogar-me sobre a sua grandeza e a lição que ele é. Não apenas pela obra. Ele, como ser humano excepcional. A sua presença no seu tempo e para todos os tempos».
Se tiveres ainda tempo e não estiveres muito cansado, podes complementar a descrição do último dia com a leitura em José Bruno Carreiro (Op. citada no post anterior, pág. 125) do «assento de óbito». O sentimento do capelão do hospital numa escrita que…

E foi «A MORTE DE ANTERO». Assim. Impressiona… Volta sempre impressionar...
Quanto ao outro tema, «ANTERO E A MORTE, podes fazer-me o favor (desculpa a maneira não-académica de referenciação de livros) de abrir o ÍNDICE TEMÁTICO, palavra MORTE, página 269, e depois ir a cada uma das páginas aí mencionadas, do seguinte volume: 
OBRAS COMPLETAS 
ANTERO DE QUENTAL 
FILOSOFIA
Organização, introdução e notas de JOEL SERRÃO
UNIVERSIDADE DOS AÇORES
Editorial Comunicação.
É só para não pensares que o ensaio que desejo pode começar duma página em branco.

VI
Na badana da contracapa de 
Ana Maria Martins
ANTERO DE QUENTAL
FOTOBIOGRAFIA
INCM
«Acabou de imprimir-se
a dezoito de Abril de mil novecentos e oitenta e seis»:

…Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana, e, como diziam os antigos, na paz do senhor! –Assim o espero.
Antero
(Carta autobiográfica
a Wilhelm Storck, Maio de 1887)

R. V. / L. V.

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