domingo, 25 de setembro de 2011

CÁ ‘STAMOS - VI


O LEITOR DE FEYNMAN
PASSEIA NA PRAIA
COM O SENHOR PALOMAR*

A verdade ou se havia de saber ou nada deveria acontecer.
Também por isso, talvez, é que Feynman disse:
«Há todo o tipo de mitos e pseudociência por todo o lado».
Porque se vê em verdade que as coisas acontecem,
mas não se vê que a verdade sustente os acontecimentos.

Nenhum dos crentes mandou parar o sol à meia noite
de modo a que hoje se vivesse o belo dia
que nunca um dia seguinte pudesse apagar.
Dá que pensar, o perigo do dia seguinte,
perigo tão presente em hoje...    

É isso. Pode bem ser:
de um dia para o outro pode volatilizar-se
tudo aquilo que se tenha conseguido numa vida inteira de trabalho.

Ao menos mitos!
Ao menos pseudociência!
Em orfandade,
viver nesta orfandade em que ninguém sabe o que vai acontecer
e os velhos mitos já revelaram
a sua ineficácia e nos abandonaram
à ignorância colectiva da família humana,
isso não!       

Isso é que nunca, nunca, nunca!
É insuportável! É suicida!
 

Se os homens que disseram alguma coisa em verdade
e não em «mitos e pseudociência»
tivessem continuado a falar,
o problema estaria hoje resolvido.
Como não crê-lo?
Feynman de novo:
«É uma posição um bocado louca para se estar,
ter uma teoria cujas consequências não se conseguem vislumbrar…
não o suporto,
tenho de resolver isto».   

«Tenho de resolver isto»!!!
Mas, mas…
Após «o prazer da descoberta», vem um dia seguinte e a-con-te-ce…
que «tudo parece estar a correr bem, temos todas as leis, parece óptimo,
mas, de repente, ocorre um fenómeno estranho (…)
– é perturbador, algo de que não estávamos à espera».
Feynman a chegar a uma filosofia destas,
ele que da Filosofia parece ter tido uma ideia muito sua...

A verdade, a verdade que se dizia ser a verdade,
sendo apenas e sempre o convite
para se ir batendo de porta em porta,
a mendigá-la!

Resistir à loucura não pode quem,
«querendo evitar as sensações vagas»,
persistir sem fim na tentativa
de fazer a «leitura de uma onda».
E no entanto, «que desgraça seria se a imagem
que o senhor Palomar conseguiu minuciosamente construir
se baralhasse e se quebrasse e se dispersasse».       
Como poderia «iniciar a segunda fase da operação:
estender este conhecimento ao universo inteiro»!?

Ler uma onda?!
«Bastaria não perder a paciência, o que não tarda a acontecer.
O senhor Palomar afasta-se pela praia fora,
com os nervos tão tensos como quando chegara,
e ainda mais inseguro acerca de tudo».

A loucura não sobrevirá,
sossegada que for a tentativa
de isolar em hoje o que acontece
como sossegou a de ler uma onda.

O senhor Palomar vai chegar a uma «visão
que lhe é particularmente grata»
e quem quiser poderá acompanhá-lo
no ir e vir do seu olhar na praia.
       
Mesmo a quem o não leia nem queira compreender
o senhor Palomar convida       
para o «arrebatamento de benevolência e de gratidão pelo todo,
pelo sol e pelo céu,
pelos pinheiros inclinados,
pela duna e a areia e os escolhos e as nuvens e as algas,
pelo cosmos que gira em torno daqueles cumes aureolados».
Quão saudável atitude  
perante o que acontece no mundo e vai impondo
a consciência de que a verdade não se sabe
e os mitos sempre se renovam!

Voto final:
Que nenhum «peso-morto»
venha impedir que assim se vá
«lambendo voluptuosamente a paisagem»!

R. V.
24. Setembro
2011/alp & l. er.

*
O
Prazer da Descoberta – Feynman       
Palomar – Italo Calvino

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