terça-feira, 13 de setembro de 2011

VARIAÇÕES SOBRE ANTERO - I

Manuel:
E' interessante esse teu entusiasmo pelo nosso Antero.  Que isso não passe das (…)!
(António)

Caríssimo António,
da tua mensagem amiga trago para aqui com cuidado, o cuidado que se deve aquilo que o merece, três sublinhados:

*entusiasmo,
*nosso
e
*não passe.

*
Entusiasmo
–Antero está tão perto do essencial e tão despido de todo o conforto dos deuses e de nossas comuns presunções… 
O essencial do ser humano que somos, não sendo, talvez ou sem talvez, assim tão corajosos para vivermos despidos o quanto ele se arriscou a viver...
Como reages perante um SANTO?
Como reages perante um GÉNIO?
Basta que os encontres e te permitas encontrar-te a ti, quando perto deles. Aí o teu reagir só pode ser de...        
Antero, santo e também génio; génio e também santo. Quem o disse foi o Eça, mas muitos sentiram e sentem o que ele é que disse. E percebe-se bem porquê. Entusiasmo? Um modo de entusiasmo que…

*Nosso: 
Afecto!  O nosso comum afecto por Antero. E por isso já propus e proponho uma Fundação Antero de Quental. Com que fins? Com que meios? Acima de tudo, com quem? E ainda, quando? As nove ilhas açorianas a concordar,  a con-cor-dar?
Utopias, estarás a dizer e a repetir!… 

*Não passe:
Provavelmente,  a lição de Antero, ao partir, ficou suspensa na respiração da ilha. Creio que posso dizer que senti isso. E não devo ser caso único. A Ilha de Antero. A nossa.
É bem certo: devemos tentar entender-nos com o que nos diz o terceto final do soneto que já aqui lemos:
 
Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo e adorar-te,
Não-Ser, que és o Ser único e absoluto.

Mas…-Impressionante este nosso Mestre, ao estudar-se a si próprio! É antigo, o «conhece-te a ti mesmo».
 
Antero não nos permitiria segui-lo só por o admirarmos e por respeitarmos a sua decisão final, a tragédia do Campo de São Francisco. Tão
desoladora para o nosso afecto, essa tragédia do nosso Campo de São Francisco! Roubou-nos tanto! Esperava-se tanto! Aquela criação de uma nova filosofia, hoje está mais perto, mas se calhar ainda longe do que Antero deixou entrever… 
Não. Não no-lo permitiria quem de si escreveu:
Li depois muito de Hegel (…). Não sei se o entendi bem, nem a independência do meu espírito me consentia ser discípulo.
(Carta Autobiográfica a Wilhelm Storck, Cartas II, Org. Ana Maria Almeida Martins, carta 524)

Sublinha, por favor, caro António:
nem a independência do meu espírito me consentia ser discípulo.
Que com Antero se aprenda muito, que nos mereça uma admiração ilimitada, mas não uma imitação acrítica. 
É evidente e aplicável à vida e à obra. Até porque…
Tu, um santo? Creio bem que sim, pelo que vejo. Não te imito, mas falo com entusiasmo das tuas qualidades.
Tu, génio e eu a querer imitar-te? Vamos com mais cuidado… Pode ser?
R. V.

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