quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CÁ ‘STAMOS - VII

UM BARCO O FUNDO E UMA NUVEM

A palavra começou por vir de quem menos era de esperar, a mulher do morto, que chegou sem se fazer notada, ela que perdera o marido no mar e que  nunca mais tinha voltado à beira da maré, nem erguera os olhos do chão, nem falara com ninguém, desde que lhe deram a notícia.
Voltara agora ali, à beira do mar, ao saber ao que se vinha. O que disse deixou toda a gente comovida. Que sonhara com o marido a navegar tranquilamente e que, de repente, no exacto lugar onde o viram desaparecer com o barco, tinha visto cair, lá do alto céu, uma nuvem da cor do fundo. Caindo de uma tal altura, por mais leve que fosse como nuvem que era, a nuvem teria levado o barco consigo para o fundo do mar. Uma nuvem?  Possível? Mesmo que não se deva afirmar, talvez seja melhor também não negar, atitude que, se o caso se passasse na Ilha do Pico, chegaria sem o «talvez». Ninguém na altura do afundamento vira algo que se parecesse com uma nuvem. No sonho, porém, já sabemos o que aconteceu, e, quando se conta, é como acontece que se deve contar.
Contou, calou-se e toda a gente ficou calada.
Um sonho é um sonho, não precisa de ser verosímil, nem tem que despertar curiosidade sobre o que nele se passa. Sonhou-se, acordou-se, a vida continua. Neste caso, porém, ainda não tinha continuado, o estranho naufrágio era muito recente, a viúva ficara impressionada ao voltar a ver o marido, ainda que a dormir, e o relato do seu sonho, ouvido da sua própria boca, abalou toda a gente, por trazer todos e cada um, aí está!, à memória viva do morto. Cada um tinha a sua memória pessoal e mesmo que a não tivesse participava da memória colectiva. Em semelhantes terras - Bicarte não podia ser excepção - com todos se vive e se convive. Mesmo quem nunca toma a iniciativa de dar os bons dias tem de os retribuir, teria muito a perder, se o não fizesse, e envergonharia a família.
Também é verdade e deve contar-se: não fora para lembrar o morto que as pessoas se haviam ajuntado. O morto estava morto e enterrado. Mas um barco não se enterra. Se vai ao fundo, afunda-se, é apenas isso, não é devorado e para decompor-se, no apodrecimento, leva muito muito tempo. Anos e anos, por vezes. Dá tempo de se discutir e de se voltar a discutir até às mil vezes, ainda que discutindo sempre o mesmo e inutilmente.
Era esse o assunto: o desaparecimento do barco. O dono fora encontrado a boiar, embora algum tempo depois de o terem visto desaparecer. O corpo, por qualquer razão, terá ficado tempo de mais sem vir ao de cima e quando veio já estava muito deformado. Mas não podia ser de mais ninguém, pois em Bicarte não se morre no mar sem se dar por isso. Com todos se vive e se convive e se mais alguém tivesse desaparecido, sabia-se.
Era, pois, só esse, o assunto: o desaparecimento do barco. Como é que um barco podia assim ir ao fundo sem que ninguém se apercebesse do que ia acontecer? Um grito a tempo teria, seguramente, salvado a vida a quem só pretendia tratar da sua vida. Houve quem lembrasse que, de facto, o doido gritou, mas isso era o hábito dele. Gritar a sério só se ouviu quando a cena fatal já estava em cena.
E agora que as coisas ali tinham levado o rumo que levaram, com a conversa da viúva, qual a conclusão do assunto?
Nada se concluíu.
Muito mais calma, depois das emoções e comoções vividas, toda a gente saiu como entrou. Excepto a viúva: recuperara a fala. Isso, no sentir de todos, já não era pouco.
R. V.
Setúbal
Outubro.2011

Sem comentários:

Enviar um comentário