domingo, 30 de outubro de 2011

JOÃO JOSÉ PEREIRA DA SILVA DUARTE

Setúbal . 5 . Junho . 1918  –  Würzburg . 23 . Outubro . 2011

In Memoriam a seguir a In memoriam. Domingo após domingo, «como se o domingo tivesse sido propositadamente escolhido»…

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Foto:
Silva Duarte na sessão de 19/5/ 2002 na Culsete em que faz a 
entrega à Gailivro dos originais da sua monumental tradução
de
HISTÓRIAS E CONTOS COMPLETOS DE H. C. ANDERSEN

Há uns tempos largos que só falávamos com a D. Maria José, a Ex.ma Sra. D. Maria José Käser Vieira, a dedicadíssima esposa que a meio da semana  finda, quando algum repouso lho permitiu, nos deu a notícia das últimas horas e suave passamento de seu marido, o ilustre e nosso querido amigo João José Pereira da Silva Duarte, o Silva Duarte dos livros e o J. J. Duarte da pintura.
Foi um desgosto grande, o de apercebermo-nos de que a lucidez e a memória já não lhe permitiam dar-nos aquele enorme prazer que era ouvi-lo ao telefone, muitas vezes sobre as suas obras, das quais de vez em quando me ia enviando uma destas que tenho sobre a mesa e continuam inéditas.
Esperada, sim, esperada. E ao longo do muito tempo, esta notícia que finalmente chegou.
Recebida, porém, como um cúmulo desse desgosto em que já se vinha.
Dói…
 
Na foto acima as mãos acompanhando o discurso e na cadeira ao lado os quantos dossiês de Histórias e Contos Completos de H. C. Andersen, fruto de esforçado trabalho de dois anos, de Abril de 2000 a Maio de 2002,  muitos dias de oito horas. De cá íamos acompanhando com um misto de culpa, receio, admiração e alegria. É que aos oitenta e dois anos, como nos disse antes de se abalançar ao cometimento…A felicidade na voz, quando recebeu o  livro publicado! Sentiu que era uma excelente coroa de um longo percurso. 
Foi também nesse dia que revelámos à sua cidade natal que o conhecido tradutor era também um originalíssimo poeta e um pintor duas vezes originalíssimo.

É um dever compendiar tudo o que for memória possível do ilustre setubalense que passou mais de meio século a cultivar, a nível universitário, a língua e cultura portuguesas na Alemanha e a aproximar-nos das literaturas escandinavas.
Temos de voltar a Silva Duarte.
Neste melancólico silêncio de domingo de outono, porém, apenas este sentir-nos perto da sua arte, a sua pintura, a sua poesia. Em rito de sétimo dia.

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a noite vai cerrar-se cobrir toda a grande cidade grande e a ti seu habitante todas as destinações são já longínquas e todas as ausências mais se alongam uma respiração dominadora é agora toda a noite chegada profunda
(Silva Duarte, De Tarisi Capital da Taríntia, inédito)

16

              afastado da pompa dos reis aqui te refugias na sombra dos bosques na velha floresta de verdura espessa e seu silêncio é-te doce no exílio em que estás adeus bailes danças e mascaradas agora só te encanta o murmúrio das fontes e o compassar de seus mistérios retirado assim da multidão para longe viver de vaidades e servidão doce é-te este silêncio no exílio que buscaste e tua paz é aqui profunda
(Silva Duarte, Tempo Barroco, inédito)

19

alegria muita colhes do vasto mar em seu melhor tempo quando ouves sua voz grandiosa de esperança muita e abraças sua saudação com sede eterna mas curto é o tempo e pronto para mudar seu brio marinho

ouves os ventos que passam e vês o sol em sua coroa luminosa descobres navios em mares infindos mais perto um galeão que navega por ondas altas e passas por ilhas a descobrir neste mar de aventuras que cruzas a enfrentar teu ânimo.
(Silva Duarte, Do Livro das Tuas Navegações – V, inédito)
L. V.

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