segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LITERATURA AÇORIANA

ARMANDO CÔRTES-RODRIGUES:
estou enganado ou é efectivamente verdade que muita gente competentíssima em Literatura Portuguesa nunca leu nada deste grande poeta? Tão verdadeiramente poeta quanto é verdadeira a existência da própria Poesia seja em que latitude ou definição for.
Preparava uma «briga» com ele, uma «briga» que o compensasse das suas generosas «brigas» comigo. Mas desacertaram-se os caminhos e antes que voltássemos a encontrar-nos, recebi, aqui em Setúbal, à hora do jantar, a notícia do seu falecimento lá na Ilha.
Do seu lado, «a briga» era de que, após a publicação de Passos de Viagem eu tinha que assumir responsabilidades na Poesia Açoriana. Do meu lado, seria que tinha ele responsabilidades com a afirmação, para além das ilhas, da Poesia Açoriana que nos Açores se fazia e publicava.
   
   Armando Côrtes-Rodrigues

Hoje estou convencido de que ele não aceitaria a minha «briga», como eu não aceitava a dele. E não seria só porque, em comodismo de asceta, não estaria para isso, mas por saber que estava longe ainda o tempo de valer a pena entrar nessa briga. O que era decisivo era exactamente o que fizera e continuava a fazer: cultivar o seu campo, sabendo perfeitamente o que estava a fazer. Amigo e confidente privilegiado de Fernando Pessoa, optar, como optou, por uma poesia tão longe da do poeta do Orfeu, com quem a Violante de Cisneiros comungara teoria e prática, não foi apenas uma opção de estilo e de escola, mas de afirmação de uma autonomia que já também politicamente vinha de há tempos antes a ser discutida. Avento isto  com base na obra como a conhecia e continuo a ler, mas igualmente no modo como o poeta vivia à minha vista o seu dia a dia de poeta, vizinhos que éramos. Posso aceitar evidentemente ser contestado por quem ao assunto mais se tenha dedicado, aprofundando-o.
Autonomia sem separatismos é no que hoje vão fazendo as ilhas a sua história política. E a sua política literária como vai? Eu sei que há quem possa responder com a devida competência. Por agora e enquanto vou desejando ouvir sobre o caso as vozes competentes, quer a dos literatos continentais, quer dos insulares,  vou continuar a ler Armando Côrtes-Rodrigues.


CANÇÃO DO MAR ABERTO

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!…

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar

Um poema do livro
Planície Inquieta,
Armando Côrtes Rodrigues,
Coleção Açorense,
Editorial Ilha Nova,
Vila Franca do Campo,
1987.

R. V.

2 comentários:

  1. As coisas que a gente fica a saber sem dar por isso!
    Devias escrever mais sobre essas "brigas" com o A. Côrtes-Rodrigues.
    Abraço.
    onésimo

    ResponderEliminar
  2. Aqui vai este elo para veres como ate' no DN-Economia algue'm se lembra de Armando Cortes-Rodrigues:

    http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2047029&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+DN-Economia+%28DN+-+Economia%29

    one'simo

    ResponderEliminar