domingo, 16 de outubro de 2011

O NOSSO ADEUS A ANDRÉ MOA/JOSÉ G. MACEDO FERNANDES

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I – O DOLOROSO ADEUS AO AMIGO E AO ESCRITOR

A luta acabou.
Agora que a luta acabou, o nosso luto pede-nos silêncio, a dor pede-nos palavras, muitas palavras, que têm de ficar para depois. 
André Moa, para a sua escrita, José Guilherme Macedo Fernandes, para a nossa amizade, faleceu hoje, 16 de Outubro de 2011, domingo, pela madrugada.
Que estava a finar-se, nos terrenos malévolos do cancro, o heróico conquistador da Vida  que foi durante os últimos anos o nosso José Guilherme, bem o sabíamos nós, os seus amigos. A tristeza foi menor, por isso? Não, não foi. Não está a ser.
O nome do José Guilherme fica-nos gravado entre os de mais elevado grau da coragem de lutar contra a adversidade por grande Amor à Vida.
Dos nossos ficheiros algumas fotografias da sua participação nas sessões da Culsete.
Tão participante, tão participativo! 
E com que prazer!
Nosso prazer, é claro, mas também dele. Confessadamente.
Só não comparecia quando não podia. E mesmo já quando o cancro lhe dava luta desigual não deixou de vir como aqui se documenta. Uma fotografia é mais antiga, 2005, na comemoração, com José Carlos de Vasconcelos, do Dia Mundial da Poesia . O seu livro O Espírito das Águas na mão do conhecido jornalista e homem de letras, a quem o acabava de oferecer. A seguinte é da sua participação activa, a 23 de Abril deste ano de 2011, na sessão do Dia Mundial do Livro. E também deste ano é a que virá em terceiro lugar, já de 28 de Maio, em que nos aparece a ler a sua saudação ao escritor Urbano Bettencourt que viera propositadamente de Ponta Delgada apresentar-nos o seu livro Que Paisagem Apagarás.

ADEUS, QUERIDO JOSÉ GUILHERME.
FICAS CONNOSCO
NA TUA OBRA
NO TEU EXEMPLO DE HERÓICO AMOR À VIDA.
E MAIS NESTA SEGURA E PROFUNDA AMIZADE QUE SÓ MORRERÁ CONNOSCO.

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II – COMO VAI SER

BARQUEIRO DO RIO HOMEM
tocar o paraíso
liberto destas mágoas
despojos desta guerra
que se trava na terra
e então depois seguir
até ao mar azul
para nele se acolher
e assim feliz morrer
sabendo que é assim
que tudo chega ao fim
(Versos soltos, aqui hoje irmanados, do poema «Barqueiro do rio homem» do livro de André Moa «Barqueiro do Rio Homem»)

Perdoas, com toda a certeza, mais este atrevimento, José Guilherme.  Oh! que falta fazem já e tanto vão fazer, aqui entre nós, os teus atrevimentos tão amigos! Como vai ser?

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III – «PARA TI     ESTE REENCONTRO»-
(da «Dedicatória») 

A QUIMERA DO OURO

ATRAVESSAR A VIDA
PERFURAR A TERRA
DESCER AO MAIS PROFUNDO DOS ABISMOS
BUSCAR SÓIS NA ESCURIDÃO
INVENTAR CIDADES SUBTERRÂNEAS

ARRANCAR A ESCOPRO E FANTASIA DAS ENTRANHAS
ESTRANHAS GALÁXIAS DE AQUOSA FELICIDADE
QUE CEDO SE EVAPORA AO CONTACTO
DO REAL TANGÍVEL

CONSTRUIR CATEDRAIS DOURADAS A EMERGIR
DAS ÁGUAS
QUE LOGO SE TRANSFORMAM EM BALÕES DE NADA
DO TAMANHO DO DELÍRIO
RUMO AO INFINITO DA QUIMERA
QUE ÁVIDOS APERTAMOS NA CONCHA RAREFEITA
DAS NOSSAS MÃOS VAZIAS
RESTARÁ O AZUL CONCRETO DOS ESPAÇOS
SEM LUGAR NENHUM PARA OS NOSSOS PASSOS
(O Espírito das Águas – Pintura e Poesia, Dad e André Moa, p. 18)



IV – A MÚSICA POR RESPEITO AO SILÊNCIO
José Guilherme Macedo Fernandes também cultivou a música e isso podem testemunhar as pessoas presentes no convívio, em longo serão, após uma  sessão de lançamento de livros de Teresa Rita Lopes e Ana Paula Guimarães, em 21 de Junho de 2002.

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«O ABSOLUTO IMPERCEPTÍVEL DO SER
NO AZUL INVISÍVEL DE TODAS AS COISAS»
Norberto Macedo canta-nos «O ESPÍRITO DAS ÁGUAS»


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Seja-nos permitido ficar com a música de Norberto Macedo cantando-nos «O Espírito das Águas» - um feliz  encontro de parentes afastados pelo grande mar que há entre Portugal e Brasil.
Ouvir, enquanto a imagem cheia de vida do nosso José Guilherme, com a sua arte de viver e de animar, nos comove. 
Fátima e Manuel Medeiros 

6 comentários:

  1. E eu recordo-o também como Comboniano (ordem religiosa missionária onde estudei vários anos, eu e mais quatro irmãos), e lembrarei para sempre o Encontro de Ex-Alunos do ano passado em Santarém. Cantou, contou-nos histórias e animou-nos ao longo de toda aquela inesquecível tarde de reencontro e de redescoberta de um especial «espírito comboniano» que ele tão bem representava, não obstante as voltas da vida... e as opções livres de cada um que os combonianos sabem respeitar como poucos.
    Guardo sobretudo a imagem de alguém que, mesmo na adversidade, mostrava uma imensa alegria de viver.
    Luís Guerra

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  2. Levo as melhores recordações, das poucas vezes que tive o prazer de com ele conviver, nos "Mucifais" do Manuel Agostinho. A alegria de viver é a melhor virtude que conheço. E. Porto

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  3. Obrigado, Manuel, por esta bela homenagem ao nosso Jose' Guilherme. As fotos agarram-no bem vivo, cheio de garra, sorridente e com uma indoma'vel vontade de vencer. Nao conseguiu mas prolongou em muito a sua vida por causa do seu espi'rito. Era ele o doente e era quem espalhava optimismo `a sua volta.
    Se nao existissem outras, esta ja' seria uma grande razao para visitar o teu blogue.
    Um abraço com saudades.

    one'simo

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  4. Os vossos comentários, amigos!...
    Chego aqui e mais este comentário, este teu,amigo Onésimo, que tantos momentos e acontecimentos bons proporcionaste ao José Guilherme. Nós sabemos...
    Posso deixar que as lágrimas cheguem aos olhos
    enquanto as mãos batem palmas ao nosso Zé pelo «optimismo que espalhava à sua volta»?
    Manuel

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  5. E que bom foi para mim esse reencontro, tantos anos depois de Lisboa... E a surpresa de ouvir aquela saudação inesperada e o seu tom vivo, cheia de um humor elegante e pairando sobre as mazelas do quotidiano. Ficam essas coisas, para lá de tudo.
    Obrigado RV/LV, aliás Manuel Medeiros, pelas palavras que leio tomando-as como minhas.
    Urbano Bettencourt

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  6. Amigo de verdade, alegria de viver e resistência ao sofrimento,foram, talvez, as razão porque para tanta dor.Amigo de muitos anos e lamento ter tido poucas oportunidades de estar com ele.Recordo a animação que ela dava nas festas dos seus sobrinhos e minhas filhas. A ultima vez que o vi, creio, foi emTavira numa feira do livro que ali se realizava. Zé Baleiro

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