sábado, 29 de outubro de 2011

POR AMOR À ARTE - I

O senhor Henrique Machado é marceneiro. Trabalha agora sozinho, sem ajudantes, aprendizes muito menos. Ele… que foi aprendiz e depois mestre de muitos aprendizes, antes mesmo de ter oficina sua...
Agora?
Pois é, agora!
Às vezes ainda lhe aparecem alguns homens e rapazes a pedir emprego, mas sem sinal de amor à arte. Como a resposta até diz a verdade, o mestre esconde a sua verdadeira razão. Que já não vai em aventuras, mantém a oficina é só por gosto e já lá vai o tempo em que os filhos andavam nos estudos e era preciso facturar… Gente sem amor à arte a trabalhar com ele? «Estou bem sozinho». É muito trabalho, digo-lhe. «Vai-se fazendo». 
O senhor Machado pede o dinheiro que quer pelo seu trabalho. Os seus clientes conhecem a qualidade e não discutem preços.
Nunca lhe faltou trabalho e também nunca alguém o convenceu a trabalhar por amor ao dinheiro. Precisava dele e soube sempre fazer-se pagar. Mas o que mandou mais em obra das suas mãos ou dos ajudantes em quem  depositou confiança foi sempre o amor à arte .
Quem mo disse? Ele e a sua companheira da vida toda, a prática D. Maria que me comentou: «Ele exagera e sempre exagerou, podíamos vir a deixar uma fortuna aos nossos filhos. É verdade que estão bem, não precisam de nós agora e nunca lhes faltou nada para a sua educação, mas...».
A D. Maria diz isto à frente do marido. A repreender? Talvez um bocadinho, mas só um bocadinho. Percebe-se o orgulho que sente por ser tão apreciado o trabalho dele e por... «pessoas de tanto respeito». Menciona-me alguns nomes e agora sou eu que me sinto orgulhoso e privilegiado por me terem recomendado tão bom profissional.
Assim. Uma conversa tranquila. Ouvir com um gosto muito grande, enquanto ele, o senhor Henrique Machado, de lápis atrás da orelha vai, como quem as acaricia, passando a mão pelas peças que está preparando para serem mais uma estante igual às que lhe encomendei aqui há uns anos. É muito livro por arrumar…
L. V.

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