sábado, 15 de outubro de 2011

«SER EXPONTÂNEO DÁ-ME MUITO TRABALHO»– uma afirmação de MANUEL DA FONSECA

 MANUEL DA FONSECA

I  -  UM CONVITE
Irás, porventura, meu amigo, a Santiago do Cacém hoje, 15 de Outubro, quando for dia? É sábado e, de passeio, ir até lá por homenagem a Manuel da Fonseca seria um prazer muito grande. Invejo quem lá for, eu não posso. Se também não fores, convido-te, amigo, para nos sentarmos a ler em comum,
na colecção Ensaios Literários,
(Seara Nova – Comunicação)  
sob o título de conjunto
Três Ensaios Sobre a Obra de Manuel da Fonseca
o primeiro deles, que é de Maria de Lourdes Belchior:
«Da Poesia de Manuel da Fonseca ou a Demanda do Paraíso».

Começa assim:
«Ao reler a obra poética de Manuel da Fonseca, a memória traz-nos como que através de um eco (…)».
E este ensaio, um ensaio  agradabilíssimo de se ler, da professora que por sempre temos que ter como nossa professora, a ensinar-nos a ler,
é assim que acaba:
«Um dia virá em que os homens se hão-de olhar como irmãos. Nesse dia há-de começar paraíso».  

Convido-te.
Falo a sério.
E é evidente que, depois de lermos o ensaio de Maria de Lourdes Belchior, vamos ter que ler alguns poemas de Manuel da Fonseca. Pelo menos dois: escolhes um e eu outro.

II - UM POEMA ESCOLHIDO 
(se permites, escolho já os dois, fica adiantado para o caso de não poderes nem ir a Santiago nem  aparecer por cá para neste meu cantinho escondido compartilharmos a nossa atenção por um centenário que tanto nos diz) 

1
SETE CANÇÕES DA VIDA
Sétima

Entontecido
como asa que se abre para o azul
abarco a Vida toda
e parto
para os longes mais longes das distâncias mais longas
sei lá de que destinos ignorados!
Como pirata à hora da abordagem
grito e estremeço
liberto!
Grito e estremeço
perdido o sentido das pátrias
e a cor das raças,
livre para todos os caminhos dos homens!
Inebriado de posse
vou contigo, Vida, como se fosses a minha namorada
e eu te levasse inteira nos meus braços!
Vida!
agora que comecei o poema que andava nos meus gestos,
me arrepiava a carne e me tocava nos ouvidos como um eco,
tudo em mim grita a ânsia da largada:
- os músculos, retesados nos braços prontos a todas as audácias,
os olhos jogados para a frente, jogados para a frente,
e nas veias esta lava escaldante que corre e se dispersa
com o rumor de mil milhões de abelhas saindo de mil cortiços
para o sol!


2
O VAGABUNDO DO MAR

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá!
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.

Ou apareces, e hei-de teimar em lermos um outro poema à tua escolha ou não chegas a aparecer, e aprovarás a escolha que fiz por ti.
Julgo que te conheço.
L. V.

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