terça-feira, 18 de outubro de 2011

UM DITO A TÍTULO PÓSTUMO E LIDO

um dia conheceste Jacques Derrida e leste uma procura de sentido e um dia conheci o André Moa que me disse
tarde encontrei
mas encontrei
a chave do segredo*


1
«Trata-se aqui de um certo fim. Apressemo-nos a começar pelo fim. (…)Nesta cena, Derrida tinha, mais do que nunca, escolhido avançar como um sobrevivente. Quer dizer, ao mesmo tempo como “um espectro ineducável que não terá nunca aprendido a viver”, e como um homem que não quer parar de dizer “sim” à vida, um pensador cuja obra presta homenagem à intensidade subversiva da existência.
Algumas semanas a seguir à publicação desta entrevista, na noite de 9 de Outubro, Derrida era levado pela doença. Àqueles que o haviam lido e amado (…) foi preciso encontrar forças. No instante em que a cortina caía, sentia-se, quase instintivamente, que valia a pena nem se mexer: ficar ali (…) nesta inexorável cena de luto (…). Não desertar a cena, então».**
2
quando o teu amigo morre não queres acreditar na sua morte sabes bem que é verdade mas ainda não aconteceu dentro de ti no recôndito da consciência do ser solidário que tu és todos somos

porque a morte de quem amas tem de ser morte também em ti da parte de ti que amor e amizade te deram do outro e com que te habituaste a viver conviver e contar

terás de aprender a morte que morres vivendo para quando sejas tu quem morre a morte morrendo

porque tua só tua
terás uma única morte
sem treino ou ensaio geral 

não foi ele somente digo-te que não foi o teu amigo somente quem morreu em sua morte todos quantos com ele viviam já não vivem a vida que viviam com ele o teu amigo morreu e consigo levou essa vida
uma vida que falta em quem vive

«quando me recordo eu o derrida dos momentos felizes também os abenço-o claro mas eles precipitam-me ao mesmo tempo para o pensamento da morte
para a morte
porque isso passou
acabou»


«fruir e chorar a morte que espreita é para mim derrida a mesma coisa»
«viver por definição não se aprende
somente pelo outro
e pela morte»


quando o teu amigo morre não queres acreditar no que acontece é como quando vês em espanto que afinal passaram os anos a vida passou mas o que é pungente é o luto e aqui vem no espanto e no luto a vida vivida em recordação e nela um sentido o sentido feliz da viva vivida nos dias felizes

em resumo
deixar-te um resumo que faz um amigo do que o amigo lhe disse e morreu

disse e morreu 
M-O-R-R-E-U

«a viver tal como a morrer não se aprende
mais não se pode do que contar com isso
J-U-N-T-O-S»

R. V.
Setúbal
17.Outubro
2011/alp&l.er.

 *    André Moa, Noites de Argila , página 50. 
**
  Jean Birnbaum, em «De Luto Carregado: Derrida Como Uma Criança», introdução à referida «esta entrevista»: Jacques Derrida, Aprender Finalmente a Viver, Ariadne Editora, Coimbra, Novembro de 2005. Do mesmo livrinho todas as restantes palavras de Derrida e Birnbaum com que, em modo de «a título póstumo», se pretendeu criar um sentido, por actualidade.

2 comentários:

  1. O José Guilherme/André Moa escreveu um belo diário da sua insana luta contra dois cancros. Se ele fosse um autor famoso, o livro teria sido um êxito de vendas. E a crítica teria dito maravilhas. Assim, só um crítico aproveitou para fazer um brilharete tremendamente injusto. Injusto mesmo porque o livro vale de verdade.
    O Zé Guilherme tinha pronto um segundo volume para o qual o Olegário Paz escreveu um prefácio com o nível do primeiro, pois também escrevera um. O clima editorial está muito mau, como todos sabemos, mas será uma pena se esse volume não for também publicado.
    Abraço.
    onésimo

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  2. Amigos, o nosso pesar pela perda deste vosso grande amigo. Gostámos sempre muito dos momentos
    partilhados na Culsete e das sua intervenções, cantadas, tocadas ou ditas.E a última foi em abril....já parecia muito doente.
    Emociona ver as fotos.
    Mas fica a obra!
    Um grande abraço e tudo de bom para vós. Maria Fernanda

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