quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A MONTE E À TOA

Duas vezes por ano as famílias da minha freguesia passavam-se para a Fajã do Calhau. Quase toda a freguesia em Setembro, para as vindimas, durante cerca de quinze dias. Grande parte dela em Março, para podar a vinha e amarrá-la em «trancos» novos, para cavar a terra e semeá-la. Aquela terra, ali em terra baixa, praticamente ao nível do mar, no sopé da alta rocha, dava de tudo e tudo ali se cultivava, o que era uma riqueza, riqueza muito grande, para uma freguesia açoriana assim, implantada a cerca de trezentos metros de altitude, em que toda a produção agrícola era serôdia.

É melhor não contar tudo de uma vez. Mas desde um caldinho de feijão novo a um cacho de bananas bem amarelas…

É efectivamente melhor deixarmos algumas coisas para outras hipóteses de mais contar em como foi ou como era. Até porque o que aqui vem a tema e assunto é simplesmente um pormenor do que, entre o tempo das podas e o das vindimas, acontecia no calhau para onde se iam atirando as canas na limpeza das canavieiras e as vides cortadas na poda. Das vides, ainda se guardavam na cozinha as que podiam fazer bom tição. Quanto às canas, eram uma abundância! Porque as vinhas estavam divididas e protegidas por canavieiras tão cheias de vida e garbo como nunca vi noutro sítio. As escolhidas para fazer os tais «trancos», nos quais era um gosto ver com que destreza a vinha era amarrada a tabua, deixavam restos, naturalmente. Mas para além disso era preciso desbastar e amarrar a própria canavieira para não tomar conta do terreno e prejudicar as culturas, em vez de só as proteger.

Lá se ia atirando para o calhau todo esse excesso. E o mar como se entendia com essa invasão dos seus domínios?

Este é que é o meu ponto. Em Março lá nos vínhamos de regresso, esperava-se a hora da maré e mesmo assim cuidadinho e muito cuidadinho «entre os passos», descansar e beber água da nascente na água dos paus que servia de patamar da rocha, porque os «passos acabavam ali e o calhau de novo era largo. Junto às primeiras escaleiras e também nelas sentavam-se todos, os homens a enrolar e fumar um cigarro e a fazer comentários sobre isto e aquilo da vida, as mulheres juntavam-se mais para o lado delas.

«Manuel vamos andando» e era a segunda parte, para aí uma hora e mais a subir a rocha, as crianças mais pequeninas ao colo ou em cestos de milho, «agarra-te bem», as outras, ainda que muito pequenas, já subindo por sua conta, pode dizer-se que de pés e mãos, porque muitas das escaleiras não eram propriamente nem sequer imitação de degraus.

Ah!, mas não se esqueça! Estamos a falar de uma praia de calhau rolado muito extensa e só nos extremos é que não se viam os enfeites das vides e canas que deixávamos entregues ao sol, à chuva, ao vento e sobretudo-sobretudo aos abrações do mar, quando as ondas eram de varrer tudo, ao ponto de por vezes entrarem pelas terras e pelas casas que ficavam mais à beira.

A maresia empurrava, a maresia levava, a maresia trazia e, quando se voltava para a vindima, o mar, nos pontos que lhe haviam parecido mais a seu jeito, e os meses e o sol, nas suas lides próprias, tinham-nos deixado em seco e bem sequinha toda aquela riqueza de material para as nossas altas fogueiras, os espectáculos para depois da ceia.

Já noutra altura fiz disto uma boa lembrança e não é bem o mesmo o que venho fazer agora.

Quando me chegou o convite do amigo Canto para uma série intitulada «a monte e à toa», como já aqui vai em começo e direcção de caminho ou atalho, a imagem que à ideia me veio foi a das canas e vides que o mar a monte e à toa nos deixava no calhau, ano após ano, depois da longa temporada aos abrações com elas.
A monte e à toa.
É isso e assim!
Para as labaredas de mais algumas e novas fogueiras, vamos a ver o que, ainda que a monte e à toa, nos destina o mar da vida.
R. V.

1 comentário:

  1. Manel, se há um assunto sobre que gosto de ler é o das fajãs, de S. Jorge ou não. E, se das da minha ilha, não seria tanto sobre as do Ouvidor ou de S. João, dos Cubres ou da Caldeira. Outras menos conhecidas como a do Sanguinal ou de Jan Dias, da Choupana ou da Pelada ou de Vasco Martins... Muito bonito o que escreves, e bem, sobre a tua do 'Calhau'. Apetece-me agradecer-te. Até gostei de dizeres que não ias contar tudo de uma vez. Ótima ideia − textos curtos é comigo! Leio e releio sem me cansar. Lá voltarei. "A monte e à toa"!
    Oleg.

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