sexta-feira, 11 de novembro de 2011

«A ILHA DE NUNCA MAIS»

é verdade que pode parecer excesso de tristezas sem razão nem lição nem proveito mas estamos no outono é natural serem assim os dias seguidos tão sensível a tudo o fernando aires  e a muitos pormenores de sensibilidade que escapavam a qualquer um por isso creio que novembro ao ser o seu tempo de partir talvez tenha sido por um ajuste com o seu desgosto de deixar as belezas para que se cultivava e sempre se cultivara

«no domingo álvaro comeu em casa um almoço melhorado preparado pela mãe fala-se de sensualidade da boca e do olhar e é verdade a comida quando bem feita e apetitosamente» não é para qualquer um o que aqui está neste início da página setenta e seis o fernando e a sensibilidade destas linhas e de tantas outras linhas do seu «a ilha de nunca mais» e a dizer no cartão que acompanhava o exemplar dedicado  «gostei muito de o escrever talvez por ser uma coisa que tinha comigo há tempos e necessitava de se libertar agora aí está quase sem gralhas o que é uma grande mercê dos deuses»

dia de julho meados de julho a tarde agradabilíssima que juntos passámos cada um dos dois destinara oferecer-me no seu automóvel uma volta de saudade por alargados arredores da cidade lá partimos os três num só carro o do meu irmão em casa de quem estava a passar aqueles gloriosos últimos dias em que me concedeu a sua companhia

subimos pelo lado da ribeira grande à serra de água de pau parámos a admirar mais uma vez a lagoa do fogo  e descemos pelos remédios da lagoa dali a pouco estávamos a gozar o resto da tarde na galera por sobre os incenseiros a luz da tarde indo para o mar até nos prender os olhos no ilhéu de vila franca do campo

conheciam-se de outras ocasiões e dos casuais encontros em que um queria notícias do amigo ausente e o outro lhas dava e no entanto não me parece que tenham percebido aquela minha forma de os ter próximos que era em cada fevereiro no dezoito o fernando e no dezanove o aristides poderem contar com os meus parabéns de aniversário

logo em dois mil e quatro foi o último dezanove de fevereiro e o último dezoito veio a acontecer em dois mil e dez  a partida do fernando em novembro e agora como quem conta uma história antiga já só eu posso recordar esse dia de julho lá na ilha a nossa «ilha do tesouro» um tesouro de recordações tantas e tão ricas que este magoado novembro de um ano depois veio abrir

«a velha canção do mar» volta no fim de «a ilha de nunca mais» mas surge-nos primeiro em belo contexto já na página dezanove em que a personagem conta a sua leitura de «a ilha do tesouro» «é de aventuras no mar e eu limpei com reverência as mãos aos fundilhos antes de pegar nele e já na tarde daquele dia me fechei no quarto – um quarto soalheiro que dava para a serra e tinha o dom de reter sedimentos de conversas o catarro dos livros o rumor subtil do virar das páginas e dos sentimentos que delas brotavam»

muda-se a página e o discurso volta para o narrador a dar-nos conta na página vinte de que o mocinho «retomou a leitura no ponto onde a deixara e mais adiante era aquela velha canção do mar em várias ocasiões ouvida ‘quinze homens na mala do morto io-ho-ho e uma garrafa de rum’»

canção do mar canção do mar canção do mar e este repetir «tem a ver com um grito que enche o céu e a terra inteira ao outro dia era só mar o balanço mole cava no estômago uma agonia» e talvez eu possa ajudar um leitor curioso se disser que estou na página cinquenta e dois e vou  de imediato querer acabar na última ou seja a cento e vinte e quatro por sentir que já quando esta manhã abri «a ilha de nunca mais» de fernando aires «a velha canção do mar chegava através da infância por entre o ruído do vento – tão acabada de ouvir como se um tempo longamente passado não estivesse de permeio»
R. V.

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