sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A MONTE E À TOA - II

RETROCESSO CIVILIZACIONAL EM SIRRITA
                                                                 Com endereço especial para Olegário Paz
                                                                  por tudo e muito mais
                                                                 e ainda «porque-amanhã-é-sábado» 
Quando lá cheguei já toda aquela cidade, Sirrita, se tinha habituado a viver sem dinheiro. Disseram-me: «foi a única maneira de recuperar alguma dignidade e a independência perdida». Como sobreviviam as pessoas? Essa foi a minha grande surpresa: viviam a crédito. No mercado interno da cidade, funcionava perfeitamente. E foi isso que ia dando comigo em maluco.
Como era possível um retrocesso civilizacional assim tão profundo e radical?
O dinheiro!? Essa grande invenção, muito mais produtiva de progresso do que a celebrada invenção da roda?! Atirada assim para fora do dia a dia de uma cidade tida como muito ilustre!?
Depois explicaram-me e até certo ponto quis entender. Desse ponto por diante era arriscar-me demasiado. De repente poderia ficar isolado, ali em Sirrita, onde toda a gente de facto ou trabalhava e tinha crédito ou ia viver para o mato, donde não se recebia correio.
Como não arrisquei, cá estou eu, disposto a toda a vergonha e preocupação, mas digno do meu respeito por mim mesmo como cidadão do mundo. Nem por sombras arriscar-me a perder a rica e gloriosa cidadania que a era da globalização tão radiosamente ofereceu a quem a quisesse e pudesse agarrar. O preço? Os benefícios são tão grandes, que se me quiserem preso a tanto e tanto que até a água para sobreviver tenha de comprar, ainda que tenha de vender a alma estou disposto a pagar. Dependência ou morte!
R. V.

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