quinta-feira, 10 de novembro de 2011

«A VERA TRAGÉDIA DO HOMEM»–UMA RELEITURA OPORTUNA

Juro que não fui eu quem disse a Onésimo Teotónio Almeida estas palavras:
«Esse teu livro [é) dos que mais me interessaram».
- Livro em causa?
- «De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias»,

             clip_image002    Gradiva, Abril de 2009.

Juro que não fui eu quem as disse, mas também juro que sim, que me deram muito prazer e que as anotei e que aqui continuam anotadas a acompanhar a minha releitura deste livro que inicia, na edição portuguesa, a visibilidade indispensável e, por mim, já com atraso, da obra científica de O.T.A..

«É de grande dificuldade demarcar com nitidez a singularidade da obra de Onésimo Teotónio Almeida no panorama do pensamento português contemporâneo. Habitualmente, relembra-se o cronista cultural – espaço privilegiado da sua aparição nos órgãos de comunicação social – e, por vezes, o ficcionista (contista e dramaturgo), já que são estes os dois géneros mais evidentes da sua presença pública» (Miguel Real, O Pensamento Português Contemporâneo, IN-CM, pág. 966).

Posso entender «público» como antónimo não apenas de privado, mas também de académico? Porque no nosso mundo académico O.T.A. tem sempre dado o seu contributo de investigador tanto ou mais do que por esse mundo todo (todo ou quase…).

Felizmente que em Outubro de 2010 outro título de O.T.A. apareceu entre nós, O Peso do Hífen – Ensaios sobre a Experiência Luso-Americano, ICS, livro muito diferente, mas também na linha da vasta obra de investigação e pensamento deste destacado intelectual português da actualidade.
Há mais na calha?
Aqui, neste De Marx a Darwin, há uma promessa, mas para quando?

Estou a imaginar-me a fazer parte de um grupo de leitura que decidisse ler e discutir este livro «De Marx a Darwin»?
Proporia aos parceiros que, depois da primeira leitura, o relessem, pois seria uma pena entrarmos na discussão deste livro sem o reler (continuo a segurar o meu dito de que quem não releu, pouco leu).
E então sugeriria que relessem assim:
- «Conclusão» - págs.115-129;
- Em jeito de explicação ao leitor» - págs. 7-14;
- Capítulo 5 – págs. 89-114 (Não só pelo «vê-se logo que nunca andaste de avião!», no fim, com o João dos Ovos e o cónego Jeremias como personagens, mas por muito mais, muito mesmo, até citações como esta que é cá de um avanço no mundo dos saberes!:0s filósofos têm andado profundamente errados em quase todas as questões debaixo do sol nos últimos 200 anos. Nunca se deve fazer caso das respostas dos filósofos, mas deve-se dar atenção às suas questões – pág. 99. Aonde, só isto, nos podia levar?!)
- Depois ir baralhadamente acumulando actualíssimas problemáticas e «mundividências», sublinhando, por exemplo, as várias referências às posições hobbesianas sobre a miséria humana, tão consequentes com a linha da concepção judaico-cristã de que contemporaneamente Espinosa (1632-1677, Hobbes 1588-1679), o excomungado por todos, abjurou, mas não conseguindo vencer a adopção política dessa sentença do longevo e preponderante filósofo inglês: homo homini lupus.

O ponto em que isto já vai leva-me a concluir voltando à «Conclusão».
E agora comovidamente, porque a crença no homem sai revigorada, depois de…
Efectivamente, da mesma conversa também anotei, como excepcionais, mais estas palavras que para aqui me vêm fora do seu contexto:
« a vera tragédia do Homem».

Por favor, pois, abrir na pág. 128:
«Foi por isso que neste livro se incluiu um capítulo sobre a ignorância. A consciência dela deve, para os sábios, ditar normas de séria reserva perante a imensidão do que não sabemos, e pragmaticamente lançar-nos na construção daquilo que é possível e desejável, para que a nossa sociedade humana não exemplifique por muito mais séculos o homo homini lupus que Thomas Hobbes tão bem caracterizou. Darwin e os neo-darwinistas podem lembrar-nos a selva de onde viemos, mas não conseguirão nunca garantir-nos que temos de nela obrigatoriamente e, para sempre, viver».

Comove, ler isto!
A evolução do entendimento, em respeito pela inteligência e dignidade humanas, aponta para a «suprema alegria» de Espinosa.

Esse século novo, sem dualismos dos bons e dos maus separados apocalipticamente, não o vou ver, mas por esta citação chego a entrevê-lo.
Ele é que é o meu tempo. O tempo em que desde criança quis viver neste Mundo, insisto, aqui neste nosso Mundo.
Obrigado, portanto!
R. V.

2 comentários:

  1. Caríssimo Manuel:

    Vim visitar-te aqui, como gosto de fazer habitualmente, e dei com isto. Não comento, apenas agradeço. E aproveito para te dizer que é só por culpa minha que o que tenho escrevinhado ao longo de três décadas não começou há mais tempo a ser reunido em volume. Não dá para contar aqui.
    Mas esses não são propriamente os primeiros livros "académicos". Já agora, um antigo (de 1987) sobre a Mensagem, de Pessoa, deve sair em segunda edição bastante alargada na primeira metade do próximo ano com o título "Pessoa, Portugal e o Futuro". E outros estão agendados para se lhe seguirem. Infelizmente os tempos vão mãos para livros deste tipo. Tanto em termos de vendas como em interesse das pessoas no debate que eles propõem. Enfim.
    Mais uma vez, muito obrigado.
    Um enorme abraço do
    onésimo

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  2. Caro Manuel Medeiros:

    Partilho totalmente da sua opinião. E, curiosamente, as partes do livro que refere são as que mais gostei. Disso mesmo, dei conhecimento ao autor num email que lhe enviei então. Transcrevo parte do e-mail em causa:

    Atraiu-me o sub-título: " A desconfiança das ideologias". Começa com uma introdução maravilhosa que abre logo o apetite para o livro. E vai num crescendo, até ao fim, com o climax no capitulo 5:"Do re(co)nhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional". Excelente texto. Tenho-o quase todo sublinhado. Sempre me inquietou esta impossibilidade de tudo saber A sensação de que se perdem coisas, que nem sabemos bem o quê. A "imensidão da ignorância", como tão bem lhe chama.
    E a necessidade de desconfiar das ideologias, não as seguindo de forma cega. Mantendo sempre a noção da precaridade do nosso saber.
    Na pag.109 diz "Afinal crescer é divergir....todo o que sabe diverge.Porque cada vez mais as pessoas têm percursos diversificados, são expostas a experiências de vida diferentes, com cada vez mais combinações de toda a ordem. Só na aldeia fechada é possível pensar-se igual.". Nada me faz mais sentido.E penso que explica muito bem o fracasso dos meus casamentos. Crescemos sempre em sentidos divergentes; quando nos demos conta já tínhamos pouca coisa em comum. e uma imensidão de espaço entre nós.
    O capítulo termina com uma história engraçadíssima e sábia do João dos Ovos e do Cónego Jeremias. E com a frase: "Até porque não sou de modo nenhum imune ao perigo de fazer de cónego Jeremias". A humildade (só possível) dos grandes!
    O livro é interessantíssimo. A começar pela capa, que foi exemplarmente escolhida.

    Como vê, caro Manuel, há pelo menos mais uma pessoa que se maravilhou com o livro. E que aceita a sua sugestão: irei relê-lo, em breve.
    Deu-me imenso prazer ler este livro.

    Um abraço
    Ana Bernardo

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