sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A MONTE E À TOA - IV

«ESCREVEMOS SEMPRE DEPOIS DE OUTROS»

«A incapacidade de aperceber-se do mundo sem o filtro da literatura», se não é defeito é virtude. Quem com ela, essa incapacidade de percepção que não vem registada no catálogo das incapacidades para trabalhar, caracterizou uma personagem literária que levou de avião até à sua ilha, o Pico, foi Urbano Bettencourt, já nosso conhecido de outras conversas e em especial do seu último livro, o Que Paisagem Apagarás. Não consigo voltar a referir-me a este livro sem que repita que é uma preciosidade literária, tão preciosa que, se eu fosse profissional da LABOLIPO – Liga dos Acompanhantes da Boa Literatura Portuguesa me envergonharia de ainda não o ter lido ou pelo menos ter passado pela livraria Culsete para que estivesse a altear a pilha em que muitos outros livros já estão a aguardar uma dedicada e atenta hora.

O problema, a meu ver, não está nem na incapacidade nem no filtro, mas na literatura. Tem de haver «mundo» na literatura para que a incapacidade não seja defeito, mas virtude?
Será isso que…?
Ou basta que na literatura haja literatura?
O que preferia era dizer «entrelóquio», mas creio que basta a palavra «colóquio» - esta é que está aprovada - para se perceber a que vem esta minha tentativa de convocar pelo «filtro da literatura» alguma atenção e a curiosidade de quem deixou cair os olhos nestas linhas.

Não estou tão por um colóquio entre mim e ele, o Urbano Bettencourt, quanto por ouvir cada um em sua diversa ou igual resposta:
o nosso escritor picoense e o seu muito amigo e amigo do Pico que é Enrique Vila-Matas.
Antes que começasse a ouvi-los, pedir-lhes-ia que me permitissem ler-lhes em voz alta, como sintonização na minha estação de MITIC - Mundo Inútil Talvez das Interrogações Curiosas - este ponto/capítulo «9» de Perder Teorias, donde trouxe o título para esta minha «desordem», mais esta para aqui «amontoada» no desembrulho de quem anda «a monte» e vai escrevendo «à toa».
«Não tenhamos ilusões: escrevemos sempre depois dos outros». Tanto se podem citar estas «ilusões» a partir da página quarenta e sete como da página cinquenta (Perder Teorias, Enrique Vila-Matas, Teodolito (Afrontamento), Setembro de 2011, págs. 45-50).
Quase que asseguro, porém, que, tanto de uma página como da outra retirada esta frase, não se atingirá mais do que dez por cento do seu alcance. É indispensável que se leia e releia o seu contexto. Neste livro, para já. Depois, por ir muito mais longe no aprofundar teoria, nas obras completas quer de Enrique Vila-Matas quer de Urbano Bettencourt.

Já terei «desordenado» o suficiente…
Ao menos por hoje, obrigo-me a ficar por aqui neste prazer de uma «incapacidade» filtrada a partir de um belo texto de Urbano Bettencourt:
O Leitor que se Perdeu entre os Leitores de Nuvens.
R. V.
9/XII/2011- alp&l.er.

1 comentário:

  1. Caro Resendes Ventura,
    «Escrevemos sempre depois de outros» e é isso que nos dá a fantástica liberdade de escolher os nossos antecessores, como o J.L.Borges escreveu algures. Portanto, neste ponto, peço a H. Bloom que guarde para ele a ansiedade da influência.
    Em 1995, «Algumas das Cidades» anunciavam alguns dos meus antecessores e o tom que eu queria dar à minha voz (o Emanuel Félix foi das poucas pessoas a assinalar isso), convocando autores reais ou imaginários, reescrevendo-os (deve-se inventar os autores de que precisamos e escrever os textos que nos daria muito jeito que eles tivessem escrito).
    E isto não colide com o «mundo» de que a literatura deve vir cheia. «Algumas das Cidades» é um livro iniciado sob o forte impacto da leitura, feita 20 anos antes, de um livro de J.H.Santos Barros, «Testes e Versos para andar na rua». E inclui uma secção a transbordar de «mundo angrense», mas de um mundo diferido e muito refratado, visto a uma distância deliberada e às vezes com uma falsa inocência, também ela deliberada.
    Serve para continuação de colóquio? Grande abraço.
    Urbano Bettencourt

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