sábado, 17 de dezembro de 2011

A MONTE E À TOA - V

A FORTE CERTEZA
Contou-me que tinha nascido no Dia das Dúvidas e que desde que se lembrava nunca elas lhe tinham dado uma trégua nem mesmo a dormir. Só quando bebia um copo a mais é que ficavam um bocado mais brandas, zumbiam menos e as asas até pareciam doutra cor.
Tinha, pois, esse recurso: uns copos. «Mas que vida seria a minha se andasse sempre nos copos e só para amansar dúvidas? Quem cuidaria dos meus bezerros e das minhas galinhas, já não falando nas contas bancárias?» – comentou ele, mais para si do que para mim.
«Ele, quem?» - estará porventura um leitor possível a querer perguntar-me. A resposta não o vai satisfazer e deixa-me um pouco... : «não sei, não fiquei a saber». Não me disse, também não perguntei, conversa de autocarro com bancos para duas pessoas e uma curiosidade enorme em seguir a curiosíssima história sem interromper. «Sabe, nasci no Dia das Dúvidas…» - e, logo aí, a curiosidade a prender ouvidos e língua.

Acabou bem a curiosa história do homem que nasceu no Dia das Dúvidas e o receio de chegar á minha paragem sem que o desenlace tivesse aparecido não se confirmou.
Acontecera um milagre e tinham-se acabado as dúvidas: «Eu vi e não queria crer no que via».
Uma a uma as dúvidas foram trespassadas por setas finas, brilhantes, que partiam de uma nuvem. Depois da última dúvida cair, a nuvem choveu e nem uma asinha fosse de que cor fosse foi possível guardar para prova e argumento justificantes da veneração que o meu companheiro de autocarro tinha por nuvens.
«Eu vi, não queria acreditar, mas o milagre obrigou-me: não tenho a mínima dúvida de que vi uma a uma as minhas dúvidas serem trespassadas por setas que partiam de uma nuvem».
No fim da história alguma coisa era devido eu dizer: «Nuvem benfazeja, essa sua». Não tive de dizer mais nada, felizmente. A paragem, propositadamente, veio ao meu encontro. Tenho a certeza: veio de propósito. Vi-a, não disse, mas pensei : «Paragem benfazeja, esta minha».
R. V.

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