segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CITAR! CITAR! «POIS O QUE EU QUERO É…»

Felizmente – e digo-o assim por mais que as responsabilidades comecem a presentear a cabeça com as naturais e tão cremosas dores de cabeça(!) – já vou conseguindo sair deste pasmacear em que…
Mas isto tem que ser devagar, dizem eles, os amigos que me querem continuar a ver por cá
e no marulho
dos livros e seu barulho.
É por isso que  cá estou,  permanecendo e voltando…

Como se tem notado em excesso, vou petiscando umas leituras que… e deitando aqui ao ecrã umas linhas que…
E acho que alguma abençoada mão tem posto no caminho de um trôpego algumas preciosidades.  Contrabalançam com as evidências brutais que a vida nem sempre se encolhe de nos meter pelos olhos, pelos ouvidos e, agora também, pelo nariz dentro…
Ora aqui está esta preciosidade,  que hoje me veio pôr nas mãos a minha querida sócia:
Motivos de Novo Estylo, Fidelino de Figueiredo, Bibliotheca de Ensaios n.º1, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1930.

Nunca mais acaba de surpreender-me este intelectual português que tão perplexo me traz de há muito, como livreiro e curioso das coisas do pensamento?
Perplexo por não chegar a perceber como é que nem entre a nata da nossa intelectualidade há muito quem leia e estude a obra de Fidelino de Figueiredo.
Já sei! Tive quem mo explicasse. Nem tudo se lhe perdoou. Certas más companhias, por exemplo.
Mas vamos lá a ver: não devo nada nem a parentes nem a aderentes. Conhecia Fidelino de Figueiredo somente das aulas de Literatura daquele tempo dos dezasseis-dezassete anos com o Cónego José Augusto Pereira em Angra do Heroísmo. Alguma vez imaginava toda esta vastíssima parte da sua obra, este ensaísmo de tão puro e original ensaio?! Acaso, curiosidade, atenção de livreiro ao disponível mesmo que abandonado e amarelecido E depois…

E depois, MAIS NADA! Não me compete a mim fazer o trabalho que aos intelectuais do meu país é que se deve exigir, porque deles é necessário que se espere.
Pronto! Desculpem… Está dito.

«Como vês, ó leitor transido de decepção, todo este philosophal arrazoado nada mais é do que o lindamento ou a balisagem duma posição. Nem programmas, nem esboços de leis, nem bulha em tôrno do orçamento – o eixo tabú da vida portuguesa!
(…)
Pois o que eu quero é que Portugal forje tambem o seu typo novo de humanidade, o “português europeu”, seculo XX, pela assimilação da cultura, pelo recebimento de vibrações novas, pela cooperação na tragedia creadora do espirito contemporaneo»
(Págs. 101 e 103).

Tenho de ir! Mas apetece voltar. Vou cá encontrar alguém que me diga a sua razão de não ler Fidelino de Figueiredo?
L. V.

domingo, 30 de janeiro de 2011

«ÓBVIAS RAZÕES»

A mensagem para a roda de amigos. 
Um pedido de licença para a trazer inteira aqui para o Chapéu e Bengala.
A resposta pronta:
Não tenho qualquer objecção.
Abraço
Onésimo.

A roda dos visitantes do blogue.
O gosto que estes terão, não duvido, 
em ler este apontamento diarístico,
tão ao estilo característico do seu autor.
O seu autor, Onésimo Teotónio Almeida, 
um nome cada vez mais conhecido e admirado e estimado
no ambiente cultural, açoriano, português,
norte-americano, europeu, sul-americano e…
Obrigado amigo! E quanto a provocações: «a qual te referes»?
L. V.

Caros:
Esta vai, por óbvias razões, dedicada ao Manuel. Aliás, escrevi a pensar nele.
Grande abraço do
onésimo

 28 de Janeiro
A Barnes & Noble, uma das grandes cadeias de livrarias americanas, está à venda. Algo está também a perturbar a rival Borders. Não necessariamente porque se não vendam livros, mas a Amazon.com consegue pô-los nas nossas casas a preços bem mais acessíveis e num ápice.
Todos se queixam do desaparecimento do antigo livreiro, embora por aqui à volta continuem a existir bons alfarrabistas. O livro resiste e mutiplica-se como coelhos e eu que o diga que os tenho por tudo quanto é sítio na casa e não páram de chegar mais. Os alunos na aulas aparecem sempre munidos dos seus. Não vi ainda muito divulgado entre eles o uso de edições Kindle. O assunto é tema de debates frequentes e ainda ontem li outro artigo em The New York Review of Books sobre isso: “Books” Onward to the Digital Revolution”, do famoso Jason Epstein, durante muitos anos director da Random House.
Coincidentemente, também ontem fui a uma reunião à John Carter Brown, uma das mais famosas bibliotecas americanas sobre o Novo Mundo e que tem a melhor colecção de livros sobre os descobrimentos portugueses fora do mundo lusófono (ficará toda digitalizada este ano). Criaram um programa de promoção do livro antigo para interessar mais os alunos por ele e convocaram uns quantos professores a fim de servirem de transmissores da mensagem. Não esconderam que, entre os objectivos, havia também um remoto: apanhar os jovens em idade de se interessarem a sério pelo livro antigo de modo a que daqui a cinquenta anos, quando estiverem bem da vida e sentirem saudades dos seus tempos de juventude, possam contribuir com dinheiro que assegure a manutenção de bibliotecas como a JCB e a John Hay, outra biblioteca da Brown, essa dedicada ao século XIX e primeira metade de XX, especializada em poesia e teatro americano e manuscritos de escritores (está lá o espólio de José Rodrigues Miguéis). Do programa de palestras para este semestre retiro um título: “Books and Writing in the digital environment – How to use sports, Shakespeare, and particle physics to predict the future of publishing”, por um tal Andrew Losowsky, que desconheço.
Provocante e prometedor. Lá estarei.
Ora este “provocante” foi escolhido de propósito pois, na descrição dos objectivos gerais do programa, vem anunciado que o tal Losowsky está contratado pela biblioteca como “Provocateur-in-Residence”. Por aqui há “poets-in-residence”, “writers-in-residence”, “artists-in-residence”, mas “provocateurs” é novidade. Na reunião fiz mesmo um comentário sobre os sinais dos tempos. Quando eu era estudante de pós-graduação “provocateurs” era o que menos faltava nas universidades. Agora, se querem um, têm que pagar por ele. O riso gerado, tomei-o por concordância.
Mas lá estarei a 2 de Março para ouvi-lo sobre um tema tão provocador.

Onésimo Teotónio Almeida

sábado, 29 de janeiro de 2011

«A VISÃO ESPINOSISTA DO MUNDO»

Nós, as pessoas pouco instruídas (nem todos podemos dedicar o tempo e a vida a…),  precisamos muito de subsídios. Seja da televisão, da internete, de uns jornais e revistas e, dada a nossa vontade de aprender e necessidade de entender, também dos livros. Alguém tem que subsidiar a nossa cultura, de modo a  que alcance um nível aceitável, num mundo que supostamente… 

Será que devia vir para aqui com isto?
Não me parece que neste momento tenhamos, por pouco informada que é, uma consciência muito nítida do que vem sendo, nos anos e décadas mais recentes, o diverso e o válido da reflexão filosófica portuguesa.
E no entanto…

Francamente, se, com o actual, comparo aquilo que às minhas mãos curiosas chegou e se não às mãos  de qualquer modo ao conhecimento,  naquele tempo de ler, por exemplo, A Arte de Pensar de Álvaro Ribeiro, não posso, nem como leitor nem como livreiro, deixar de pedir, a quem tem competência e tempo, que invista um pouco de uma e de outro em nos oferecer uma visão do enriquecimento, no Portugal de Abril, da nossa bibliografia filosófica:
- o nosso pensamento filosófico, não apenas  de outros épocas, mas de modo muito cuidadoso o original e contemporâneo;
- o nosso acesso ao pensamento filosófico universal, actual ou antigo. 

Será que está feito esse trabalho e sou eu que nem como leitor nem como livreiro tenho estado devida e agradecidamente atento? Para minha vergonha, claro...
Como esta, uma vergonha de hoje, que no entanto é superada pelo prazer de um bocadinho da tarde de sábado a ler Espinosa e Outros Hereges, Yirmiyahu Yovel, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1993.

Não vou queixar-me das deficiências que considero tem esta edição, porque a gratidão que sinto supera qualquer razão de queixa.
Tanto livro desaparecido!
Porque as ordens são: «ou se esgota ou guilhotina-se». Rentabilidade? A única é a financeira. Portanto,  desapareça o livreco. Por mais válido que seja e  muito seja necessário mantê-lo disponível, para não sermos um país de parvos, ao não investir, a médio e longo prazo, na cultura que só um pensamento estruturado permite.

Gratidão, pois! 
Um livro de 1993 e, tendo-o puxado para a sua livraria só agora, em fins de 2010, veio! E aqui está a dar este prazer ao velho livreiro! 

Isto não devia ficar por aqui…
Não devia, mas deve, porque um blogue continua a não ser próprio para textos assim tão longos.

Só mais umas citações breves e creio que justificadas, se os simpáticos visitantes concordam…

«Espinosa foi mestre não apenas da clareza e rigor mas também do equívoco e da linguagem dupla. O seu uso retórico da linguagem elevou-se ao nível da arte. Espinosa levou à perfeição um estilo e uma perícia em que os seus antepassados, os marranos, se notabilizaram durante gerações, (…)».

«Não foi pura e simplesmente possível, desde a moderna reedição das suas obras, participar na actividade filosófica sem ter em conta a visão espinosista do mundo. Nas palavras de Henry Bergson, “todo o filósofo tem duas filosofias: a sua e a de Espinosa”».

Não aponho às citações a referência da página onde…?
E devia?
Creio que sim.
- Então?
- A ver se algum amigo se admira menos disso do que de eu ser capaz de ficar por aqui…
L. V. 
P. S.
Fiz uma promessa, esse dever eu cumpro:
«A procura da lucidez e do desencantamento (...)» é a abertura do último período do livro, página 399.
Simpatia com simpatia se agradece!
L. V.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A DESCRENÇA LISA

É muito perigosa, a descrença lisa. Especialmente nestes dias em que umas chuvinhas  engraxam os sujos. Pisos escorregadios, pisos escorregadios! Nunca haverá cuidado que chegue…

Ontem confirmei aos senhores de letras e livros que não sabiam o que perdiam ao não apanharem um exemplar de Que Paisagem Apagarás de Urbano Bettencourt.
Suspeito que por todas as razões e mais uma, esta, esta que não vale a pena sequer trazer a contas, não valia a pena ter dito o que disse, antes de saber se sim ou não os tais senhores sofriam de descrença lisa.

Em todo o caso, não quero crer que todos…
Alguns haverá que… 
É para esses que volto ao Que Paisagem Apagarás: 
oferecer a leitura da página 155, toda a página, e este texto por inteiro, com o seu título: «De l’économie avant toute chose»:

«Os governos não dão lucro. Encerremo-los!»

- É só isso?
- Querem mais e melhor?
(Pior do que a descrença lisa é uma inteligência afogada: ou talvez…)
L. V.

OS «ESTREITOS CORREDORES ENTRE AS ESTANTES»

Uma simpática visita, esta e de hoje, da personagem Eduardo Gregório. Como nem nomes nem desenhos fisionómicos são o meu forte, ainda ia dando mais uma das minhas barracas, mas como sempre a minha habitual salvadora e grande dominadora da coisa literária, orientou-me as lembranças. E…
Cá está ele! Em grande!  «Ernesto Gregório, clássico»: «Leitor compulsivo de Borges, o seu sonho era tornar-se um outro Pierre Menard. E (…).
Ao dar por concluído o trabalho (…)».

Hei-de, entretanto, saltar para outra dele, do Ernesto Gregório, sobre a quadra do gato! Quem perdeu isto, perdeu tudo!
E há mais...

Que livro é? Como já andava há dias nas proximidades, foi só estender a mão, e aqui o tenho, aberto, o Que Paisagem Apagarás, de Urbano Bettencourt (Publiçor, Ponta Delgada, 2010).
Já leram ou pelo menos já tomaram nota para virem a ler, senhores directores das repúblicas das letras?  Ai, não? Pois confirmo: não sabem o que andam a perder!
Mas, mas… 

Não cedo a ninguém o meu direito de acusar. Mas não sei a quem. Por um lado, desconhecer assim uma parte tão preciosa da literatura portuguesa, a açoriana…, e, por outro, apesar das tentativas já feitas não terem conseguido resultados compensadores, os açorianos que o devem, não acreditarem em que…

Quem acusarei? O mais acertado é capaz de ser isto: parte-se ao meio a acusação. Cada lado poderá assim, satisfeito, culpar o outro. E, ao fazê-lo, talvez , «entre as estantes», se encontrem uns e outros e…
Porque nos «estreitos corredores» em que afinal  os livros circulam, faz pena que continuem sem se encontrarem.
«Estreitos corredores»: outra excelente personagem: R. Blaine:

«Enquanto R. Blaine percorria os estreitos corredores entre as estantes, uma vaga música com sabor a África ou a Brasil escoava-se das prateleiras.
(…)
E, mesmo sabendo quão longe se encontrava de Casablanca e da possibilidade de chamar-se Richard Blaine, R. Blaine pôde, finalmente, compreender como a ficção, apesar de bem mais simples do que a realidade, possui o indizível dom de lançar luz sobre as sombras e as secretas dobras da vida».


Assim mesmo! Porque aqui nem uma crítica nem uma apresentação, por mais sucinta,  se há-de ver. Apenas uma acusação.
L. V.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SEBASTIÃO DA GAMA: O DIÁRIO

«A nova edição do Diário, que estará disponível no final de Fevereiro, é feita a partir do original manuscrito do próprio Sebastião da Gama e inaugura a colecção das “Obras Completas” do poeta da Arrábida, projecto que foi abraçado pela Editorial Presença.»

Os visitantes de «chapeuebengala» também visitam o «nestahora» do nosso atento amigo João Reis Ribeiro?
Todos não, certamente.
FOI DE LÁ QUE TROUXE A NOTÍCIA.
Uma notícia que o livreiro velho passou grande parte do ano 2010a esperar, mês a mês.

Não vem aí apenas uma nova edição. É também uma nova versão.
Isto se diz para o levar em conta quem é um leitor e um estudioso da Vida e Obra de Sebastião da Gama . O L. V. Já não vai conseguir proporcionar aos interessados as três versões, a de 1958, a de 2003 e a de 2011. Só as duas últimas. Tem pena.  
Mas está radiante:

Uma nova grande etapa para a divulgação da prosa e da poesia desse jovem verdadeiramente extraordinário, o nosso Sebastião da Gama!

Um jovem! Nem completou os 28 anos…
Mas tão marcante!
Muitos o sentiram, muitos o testemunharam.
Posso dizer aqui, sem receio de…?

De cada vez que releio (acabo mesmo agora de o fazer de novo) o texto de Matilde Rosa  Araújo «SEBASTIÃO, A QUE É QUE SABE A VIDA», mais me comovo e mais o admiro. Que bom foi ter aparecido em meu Papel a Mais antes que a Matilde…

Como a Matilde se alegraria ao ver aparecer a nova versão e edição do Diário e mais acrescendo que esta edição abre uma colecção nova das OBRAS COMPLETAS DE SEBASTIÃO DA GAMA!
L. V.

domingo, 23 de janeiro de 2011

«PURA E SIMPLESMENTE»

Insistir, junto dos leitores de Onésimo Teotónio Almeida, na recomendação de não adiarem a leitura de O Peso do Hífen?
Talvez. Mas não apenas. Apesar de mais ou menos inocente, aquela minha troca do «despentear» do Onésimo pelo «pentear» de José Cardoso Pires, ficou-me cá a moer a cabeça. Com um bom resultado, porém.
Porque, «pura e simplesmente», quer se vão despenteando», os «parágrafos», quer se os «penteie», eles ganham relevâncias que ajudam a compreender porque era que o Tio Quartinha se munia de um pente e uma tesoura para bem me cortar o cabelo, na infância, quando a minha mãe me obrigava a ir à sua tenda (Eu detestava, por tudo… e sobretudo pela comichão de cabelinhos no pescoço!). A maneira como usava o pente ora para levantar o cabelo ora para o alisar, entre o cortar e o avaliar como ficava, era da arte…
Por isso este «Pura e Simplesmente». Se mais com pente ou mais tesoura, para os «parágrafos», isso o amigo leitor avaliará…

«William M. Wood não é um nome esquecido na história da presença portuguesa na América: ele é pura e simplesmente, desconhecido».
Posso dizer que isto é uma tentativa de levantar cabelo? Este é o primeiro parágrafo de um dos textos trazidos de muito diversas origens para O Peso do Hífen .
O título:
«William M. Wood, magnate “self-made”».
A origem:
Textos da Diáspora. Homenagem a J. David Rosa, Berlim: AVINUS VERLAG, 2002. 
Uma origem recôndita, certo? E atenção à nota 1.
Portanto um texto que basta ter um mínimo de curiosidade, a partir de muito diversos tipos de curiosidade, para o não perdermos.

E muito a abrir para umas polémicas de que não queria desistir, mas que… As últimas páginas deste texto, uma inevitável provocação, para quem, como eu…  É…

Pois, é!
Sobre um romance que aqui nos diz o Onésimo que pensou escrever e sobre a razão por que desistiu do projecto.
Mas se meto aqui o pente, então é que este post fica impossível. É melhor não me alongar.
Não prometo nem que volto nem que não volto, por não saber se já está a ser traduzido, sei é que não está publicado, «o livro de Edward G. Roddy». «Lê-se como um extraordinário romance», isso assegura Onésimo Teotónio Almeida.
Publicá-lo?
«Não nos Açores» (…), mas numa boa editora do continente». Discutimos ou não esta parte?
L. V.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

OS «PARÁGRAFOS» E O «DINOSSAURO»

«As conversas são como as cerejas», quem terá inventado esta conversa?, se soubesse quem, tinha aqui hoje uma boa ocasião para lhe enviar um aplauso daqueles que nos saltam espontâneos!

O porquê desta «conversa» sendo o comentário do próprio Onésimo Teotónio ao meu ir, aqui,  ontem, do seu «O jardim» aos seus  «Parágrafos».
«Parágrafos» que estranhamente penteei, quando,  na referida entrevista ao Correio dos Açores, ele os vinha era, efectivamente, despenteando.

Novo livro do Onésimo em 2011:
DESPENTEANDO PARÁGRAFOS.
Está feita a correcção. E vai um pedido de desculpas ao autor.
Também aos seus leitores, como devo («pretendi» enganá-los, tentei, mas felizmente o autor estava atento, o que muito me alegrou!).

E se não tivesse cometido a minha malfazeja gafe ?
Quem terá inventado estoutra «conversa»:
«não há mal que não sirva de bem»?
«Se soubesse quem…».

Porque é um espanto! Com o Onésimo é sempre, é mesmo sempre assim: as estórias são como as cerejas!
A minha gafe proporcionou-nos esta relevante «estória»:
uma promessa a Cardoso Pires  vai ser cumprida com  o  Despenteando Parágrafos. O Onésimo fez o obséquio de contá-la aqui.

E…
E foi assim que o ficámos a saber.
E a  passagem de O Dinossauro Excelentíssimo a lembrar o que na altura significou de arrojo a publicação dessa parábola.
E mais uma vez Dias de Carvalho e a então sua editora Arcádia.
E a 3.ª edição, a última a cargo deste editor, e as dificuldades em que já estava a editora.
E a venda em Setúbal de umas quantas dezenas de exemplares, mesmo quando foram aparecendo mais do dobro das edições que o livro ainda teve, o que foi bom, mas resultando, ora bem!, dessas dificuldades da editora.
E a grata, gratíssima memória, mais uma vez, do ilustre setubalense Manuel Dias de Carvalho, que não cheguei a tempo de homenagear na sua terra, como andava a planear. Tão inesperadamente partiu... Desgosto que foi para tantos de quem tantas estórias ele poderia contar, com muito proveito para a História Portuguesa da Edição e da Literatura.

E… E…
E também as estórias e as memórias são como as cerejas. Não apenas as conversas...
E, assim desgrenhados, como os lancei e estão no ecrã, alguém vai conseguir, agora,  pentear estes parágrafos?!

Peço desculpa!
L. V.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

LER «O JARDIM» À ESPERA DE «PARÁGRAFOS»

Peço-vos o favor de lerem comigo, mesmo que já tenham lido sozinhos, este parágrafo sobre o jardim luso-americano:

«As flores são coloridas e os jardins misturam-nas sem preocupações de matizes ou combinações, ao contrário do que é vulgar ver-se nos jardins americanos, cujas flores são geralmente monocromáticas ou, quando muito, bicromáticas. Na policromia portuguesa predominam as cores quentes, e as flores preferidas são as rosas, dálias, sécias e palmas, como nos jardins em Portugal, e cada vez mais se encontram hortênsias, trazidas dos Açores ou recebidas dum vizinho ou familiar.»

-É…?
- Já digo. Vou só ver  a nota 4 referente a este texto no fim do volume: «Sobre isto escrevi um texto, ainda inédito: “Hortênsias sem visto”».

É assim:
Onésimo Teotónio de Almeida, O PESO DO HÍFEN – Ensaios sobre a experiência luso-americana, Lisboa, ICS – Imprensa de Ciências Sociais, 2010, «O jardim como extensão da casa-de estar», pág. 91.

É logo o segundo, este de «O jardim…»,  dos treze ensaios aqui reunidos.

Curiosíssimo, este ensaio, neste conjunto! Curiosíssimo já em si, antes, no donde vem e onde aparece.
Trazido para aqui permite, de facto, uma leitura nas mesmas letras de muitos mais sentidos. Que?…

É só este o «que»:
o livreiro velho a lembrar aos leitores de Onésimo Teotónio Almeida,  se ainda não respigaram as preciosidades de O Peso do Hífen, que não adiem muito mais, porque vem aí novidade e não é apenas uma colectânea dos seus ensaios sobre Fernando Pessoa:

Onésimo Teotónio de Almeida  na entrevista ao Correio dos Açores anunciou, também para este ano de 2011, um título que só por si, em sua originalidade, nos deixa imediatamente atentos e curiosos: PENTEANDO PARÁGRAFOS.
L. V.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

«QUEM O SABE? QUEM?»

Algumas pessoas amigas de Matilde Rosa Araújo também são minhas amigas. Aí do outro lado do ecrã estará alguma?
Tenho muitas saudades da Matilde!…
E hoje a culpa deste momento de saudade assim tão comovida foi caírem-me os olhos sobre SEGREDOS E BRINQUEDOS.
*
Mas de quem
era a voz fininha
que chamava:
- Vira! Vem!…
Quem o sabe? Quem?

*
O menino voa
Voa 
E não cai
O menino sonha
Sonha
E vai
O que é que eu vejo?
O que é que eu oiço?

Ninguém volte a andar distraído: a poesia de Matilde Rosa Araújo é uma das mais puras e livres e literariamente excelentes da nossa actualidade.
L. V.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

«EDUÍNO DE JESUS ESCREVEU»

O título do post é compasso no ar. Para vir, neste seguimento, ao início de um parágrafo de Onésimo Teotónio de Almeida no Posfácio a Os Silos do Silêncio de Eduíno de Jesus:


«Se não existe ainda uma História da Literatura Açoriana, Eduíno de Jesus escreveu para ela alguns capítulos fundamentais (…)».

Sendo interpelado, pelo comentário de Daniel de Sá e directamente  por um outro, em privado, de Miguel Ribeiro,  a adiantar algo mais sobre o poeta Raposo de Lima, dada aquela referência que lhe fiz a partir da leitura de uma carta de Cecília Meireles, é pouco mais o que….
Mas é tocante. E trouxe-me a este Posfácio de Onésimo Teotónio de Almeida, que releio hoje, 18 de Janeiro,  com especial intenção.


«Tinha havido o 1.º Grupo d’A Ilha formado durante a Guerra: Egito Gonçalves e Vergílio Filipe, em serviço militar, e Silva Duarte (todos continentais) e, também um ou outro açoriano.

Teríamos/tivemos/teremos muito que conversar, a propósito. E, quando «tivemos», uma das vezes foi um momento único: com Silva Duarte, que lá continua a viver em Wursburg a sua bonita idade: vai nos 93!   Encontro momentoso, eu vi!,  em 2001, aqui em Setúbal, terra natal do conhecido andersanista, cuja obra poética muito desejo que venha a ser conhecida devidamente. É que vale bem a pena. O que se pode fazer?



Mas agora o pormenor é outro. Vou pedir, para ele, a atenção de Eduíno de Jesus: a altura do 1.º Grupo d’A Ilha, a juvenil e empenhada curiosidade dos quinze anos que dedica ao movimento literário de Ponta Delgada nessa primeira metade de quarenta.


Tenho diante de mim e guardo-a desde Agosto de 1951, os meus quinze anos, uma brochura com estes dizeres na capa:

Carlos Tomé
EDITOU
ESTA
MISCELÂNIA
DE PROSA E VERSO
NO ANO DE 1943

Agora, vou abrir:
páginas 1, 3 e 5:

1
Carlos Tomé
apresenta
3
EGITO GONÇALVES
GUSTAVO DE FRAGA
J. M. CAMILO DE MELO
LOPES DE ARAÚJO
LOPES DE ALMEIDA
RAPOSO DE LIMA
e
VÍRGÍLIO DE OLIVEIRA
em

5
Miscelânea
de prosa e verso

UM TRABALHO TIPOGRÁFICO DAS
OFICINAS DO «CORREIO DOS AÇORES»

São 128 páginas.
Raposo de Lima, da página 93 à 106, aparece com «LINDA AVENTURA – NOVELA» e dois sonetilhos, «QUEM FEZ A VIDA ASSIM?…» e «RI, PALHAÇO, RI…».

Voltarei  a uma«especial intenção…».
- ?

 - «Eduíno de Jesus escreveu…»:
Quantos mais capítulos da História da Literatura Açoriana pode escrever, melhor do que ninguém, o nosso Eduíno de Jesus?  Se é só pedir-lho, os nomes e data de «MISCELÂNIA» aqui vão. A pedir!
L. V.

domingo, 16 de janeiro de 2011

«COMO CHOVE!» (2)

O silêncio, um bom silêncio, e uma manhã de domingo sem chuva e luminosa, tão agradavelmente luminosa, convidam: posso continuar a ler as cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues? 
Estava assim como que já combinado, não estava?
 
Antes que volte a perder a passagem, vou já… 
Bem me parecia que era de uma carta de 1950. Mas dar com ela, ontem ?!

«Como chove! Dizem que os loucos se alegram com a chuva. Deve ser por isso que me sinto tão bem» (Rio, 12 de Outubro de 1950).
E vamos, desta carta, ler/reler uns  parágrafos imediatamente anteriores, até para entender melhor o porquê  do «me sinto tão bem».
Depois, só concluir.
Vou ver se hoje cumpro.

«Por estas e outras é que eu quero ir-me embora.
(…)
Estou trabalhando intensamente no «Romanceiro» e, se o céu consentir e os seus santos me favorecerem, talvez para o ano possa publicá-lo.  Que desejo de publicar tudo, de livrar-me de tudo: versos, gentes, lugares! Não se professa mais, no seu convento, Fr. Armando da Soledade Florida?
Acabe com esse Liceu! Proclame a sua Independência! Terei de ir de carta na mão… ou sem Carta, a puxar da espada e a bradar que o deixem em paz, que V. é da Poesia, e não da gramática, do compêndio, dos exames…???!!!» 

Concluir, a ser já, repito-me.
É que é como ontem!
É mesmo!

«Que delícia!»
«Tudo isto!»
L. V.

P. S.
Mas quem consegue resistir?
Ia a fechar. É uma carta logo do primeiro ano desta correspondência (Rio, 3 de Novembro de 1946).

«É curioso: eu já tinha pensado em fazer-lhe um diário. Mas sou tão dispersada pelos acontecimentos, que não me fio nessas intenções. Por várias vezes tenho começado a anotar a minha vida, seguidamente. Mas vem-me um tédio grande. Tenho a impressão de mecanizar-me. E precisamente a minha «loucura», ao que parece, é uma luta involuntária contra as mecanizações, a rotina, o hábito. Eu sou um ser de liberdade. De espontaneidades, pelo menos. Enfim, eu nem sei o que sou. Você sabe o que é? Sabe-o, mesmo? Então, diga-mo.»

A gente lê  uma coisa destas, e…
Porque se a primeira carta é de 46, a última do extenso conjunto, de 3 de Março de 64,  o ano em que Cecília partiu, é escrita de «este Hospital, onde estou». E…
Se estas cartas não são um Diário, então não sei o que seja um diário.
Que rico Diário, este, dos últimos dezoito anos de vida e escrita da «grande poetisa brasileira tão portuguesa, tão açoriana sobretudo», a nossa admiradíssima Cecília Meireles!
L.V.

sábado, 15 de janeiro de 2011

«COMO CHOVE!» (1)

Neste meu aprender de uma navegação mais serena, com novos ritmos, ler está a revelar-se também excelente para o efeito compasso.  Compassar? Está escrito: «Ler é sempre cá um assunto!…» Já vem de sábado e já é sábado outra vez e  já não passa de hoje!
Voltar a trazer para aqui Cecília Meireles.
Porque Olegário Paz, Urbano Bettencourt  e Fernando Bento Gomes, nomes da literatura de cá, Setúbal, e de lá, Açores, por causa daquela «solidão plural…», com «a grande poetisa brasileira tão portuguesa, açoriana sobretudo», acabaram por me trazer para toda a semana a companhia gratíssima de dois livros: Cecília Meireles, Obra Poética em um volume (Nova Aguilar, 1983) e A Lição do Poema – Cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues (Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998).

Se faço comentários fica o post muito longo, porque não posso resistir a transcrever… E… e.. é só das cartas lidas nesta tarde de sábado. Portanto, pouca conversa!…

«Pedi-lhe que me mandasse semente de sempre-viva. A flor está mais ou menos extinta, aqui. E que luxo seria recebê-la dos Açores!»
Sempre-vivas? Boninas! Boninas! Amarelas, sim, por tudo o que era terra em minha terra de infância… E isto, quando toca a recordações de vida vivida há muito muitíssimo tempo, não é fácil que não comova. É bom recordar. Viver do passado é que não!
«O antigo é a doença que eu mais detesto,
É viciar o que já foi virtude!
O tornar ao passado é sempre um resto,
Ou, pior, uma falta de saúde.»
(Afonso Duarte, Ossadas).
Estou em crer que o nome de Cecília Meireles, a primeira vez que o encontrei foi exactamente pela mão de Afonso Duarte e em Ossadas. Fins de 1951, com os meus 15 anos.
«Meu coração é estepa delicada
E a minha alma é louca»:  
o título deste poema é «Estepa» e a dedicatória diz «A Cecília Meireles». É por isso que…

Mais comovente, porém, do que as boninas foi…
«Não lhe escrevo mais porque tenho de almoçar a correr, vestir-me a correr, sair a correr, etc., etc..
Se correndo chegasses
à rua do Frias,
meu bom calafate,
como correrias!»

Voltar com Cecília à Rua do Frias. Recordar, por cartas dela, a vizinhança dos meus vinte e pouco, alugando casa em Ponta Delgada, porque acabara de ser colocado no Liceu Antero de Quental e freguesia de S. Sebastião. A casa que aluguei era no meio: um pouco acima, a do poeta Armando Côrtes-Rodrigues e, um pouco abaixo, a do poeta Raposo de Lima, o «Sr. Raposo»:
«P. S. – Se o Sr Raposo lhe falar de mim, garanta-lhe que lhe vou escrever. Tenho na minha frente os seus versos, e ainda hoje conto mandar-lhe umas poucas palavras. Fosse tudo assim tão fácil!»

Raposo de Lima? Poeta Raposo de Lima? Sim, sim! Tanto como: não, não!  Porque o que escreveu não dará para ficar na História da Literatura Açoriana, como o outro vizinho, mas que também ele era um poeta que vivia em elevadíssima verdade a sua poesia, ah!, isso asseguro. De uma sensibilidade poética tão rica, tão delicada, tão dolorosamente humana que ainda agora, séculos passados sem ouvir falar dele, me faz estremecer…

«Se faço comentários…» –eu sabia!
Mas se ao Olegário, ao M. Urbano e ao F. Bento Gomes parecer que vale a pena,  havendo oportunidade, posso continuar amanhã. Porque um blogue, embora aberto a quem mais, dá prazer é sobretudo por quem conhecemos e nos conhece e em simpatia.

Ah! Pois! «Como chove!» É só o início de uma conversa gostosa de transcrever. Mas perdi-a ! E agora?
Mesmo a propósito: posso substituir?!
«Ai, Almirante, vou amarrar uma pedra ao pescoço e deitar-me
à água. Mas isso será depois de St.º – Depois de o ter visto e abraçado, e de ter mirado essas coisas e – quem sabe? – depois de as ter cantado».

«Almirante» era como em muitas cartas Cecília Meireles tratava Armando Côrtes-Rodrigues.
A si tratava-se por «calafate», «Calafate João Manuel» e aqui nesta que tenho diante diante dos olhos («Rio, 28 de Abril de 1951) a assinatura é «João Manuel, o corisco». 
Uma delícia!
Tudo isto!
L. V.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

«Ó DO LEME…!»

Ó do leme tem cautela!
Há baixios a aparecer!
Quero viver o meu sonho
antes de a lua esconder.

Copiei esta quadra de NO FIO DAS PALAVRAS de Artur Goulart (Velas – São Jorge, 2010) e a culpa não será só minha, também do autor do prefácio, Olegário Paz e como é natural o grande responsável não poderá deixar de ser o autor.
Voltar a ler, não apenas o primeiro, mas os três poemas alemães deste livro tão desejado e longamente esperado por amigos e eruditos da literatura açoriana. Porquê hoje? A resposta fica para o fim, mas tirada de outro poema, não destes.
Agora, do segundo poema destes três:

Menino de olhos transparentes
conheces o mar?
É um brinquedo imenso,
azul… verde… cinzento…
…………………………………….
onde os homens navegam
em barcos de verdade.

Não vou sair daqui sem antes copiar ainda a abertura do terceiro:

É como o nevoeiro
esta obsessão do ilhéu…

É bem verdade: o sal resiste às marés.
Há quantos anos - estes teus - o sal resiste?

Em ti menino ilhéu ainda resistindo o sal
ao tempo que apodrece o mantimento.
E o constante subir e baixar das marés.
Mar da Vida!

L. V.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

DIGNIFICAR A PROPAGANDA E PROMOVER A CRÍTICA

Mesmo que seja assim por alto…
Dando uma volta de memória pelos livros que se foram publicando e apareceram no mercado livreiro ao longo de 2010,
creio que posso concluir que foi um ano de boa colheita.
E outra conclusão a propósito: as «gentes do livro» estiveram activas.

Venho sublinhar este aspecto: a nível de propaganda, o livro continua ocupando um lugar muito apreciável na comunicação de massas.
Nem sempre, é claro, a propaganda é tão respeitável quanto devia. Mas isso…
É que me preocupo menos com a falta de nível e capacidade de aldrabice exuberante de muitos  propagandistas do que com a menoridade acrítica de quem se deixa apanhar pelas suas artes.  A teoria que aprendi e, em tudo e de há muito, tento aplicar, diz-me que…
Proteger bebés e idosos. Sempre e incondicionalmente! 
E os outros?
Quem é adulto cuide de si. E se não é, faça-se! Não entregue a sua sorte ao governo para depois se queixar de que foi levado pela propaganda.   
A propaganda é uma necessidade absoluta da vida em sociedade e querê-la e promovê-la de todas as formas no que se refere aos livros é um contributo riquíssimo para o Desenvolvimento da Leitura.
Mesmo quando a propaganda do livro o que pretende é vender papel impresso sem qualquer nível de leitura que enriqueça os leitores, individual ou colectivamente.?
Defendam-me as crianças! Isso está bem. Cerrar aí uma crítica cerrada!

Crítica? Também os adultos têm direito, claro. 
É mais complicado, quanto à crítica…
Anda tudo tão móvel e movediço, que, se calhar, não há para os críticos assim tanto tempo e espaço como é preciso.
E para o tempo e espaço que há? Se calhar, (…).
Não se trata de apenas propagandistas com alguma vontade crítica.

Eu a escrever isto? Mas quem sou eu, para me atrever?
E para quem pensa pela sua cabeça interessa alguma coisa que seja eu ou não?
A mim não me interessa.
L. V.

sábado, 8 de janeiro de 2011

RETRAI-SE AO DIZER-ME O QUE PRECISO

Ler é sempre cá um assunto!…
Já se disse e já se escreveu tudo, já se investigou muito a fundo, para algumas sensibilidades já se terá, porventura, esgotado o interesse em discutir a leitura. Apesar disso, ler continua cá um assunto!…
Digo isto recordando uma tarde de fim-de-semana no silêncio da livraria encerrada. Nem sempre trabalhar! Também o prazer de voltar no silêncio à poesia de Cecília Meireles, a grande poetisa brasileira tão portuguesa, tão açoriana sobretudo.
Essa tarde recordo-a hoje, nesta tarde de hoje, de negrume e de chuva torrencial, ao início, e, depois, de esplendoroso sol. Mas só porque um clique de acaso me trouxe aos olhos uma escrita que muito mais propriamente se me apresenta, passado o tempo, como leitura, apesar de ser efectivamente uma escrita.
Poderia partir daí para…?
Porque ler ilustra, diverte e distrai, responde a perguntas ou problemas. Mas também…
É que quando somos convocados a sentir que quem não nos conhecia ou sequer imaginava nossa possível existência,  nos deixou, apesar disso, tão perto de nós, na sua escrita, concordemos, ler é mesmo necessário. Em absoluto (…«ao dizer-me o que preciso»)!
Já aqui há uns tempos estive a ler com algumas pessoas a escrita dessa tarde de Cecília Meireles. Agora deixo-a aqui? Se a quiser mais alguém ler, evidentemente…

A SOLIDÃO PLURAL

DE CECÍLIA MEIRELES

com poemas de Cecília componho a tarde
para que em sonhos me embale a solidão
cravada nas mãos vazias do silêncio

«aqui está minha vida
aqui está minha voz
aqui está minha dor
aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era o amor e, do outro, esquecimento».(1)

não há qualquer desejo abrindo um sulco
por onde o coração indo ao encontro
liberte a solidão e o silêncio desta enorme ilusão
de que o tempo parou

«perdeu-se a forma dos abraços»(2)
«e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho»(3)

és tu quem mo pergunta?
perguntas-mo Cecília
desse outro lado agora
do teu «Mar Absoluto»?

não sei que me responda
surpreso onde me deixas
sozinho frente ao mar

mil vezes releio
mil vezes repito
a pergunta e olho o mar
ouvindo e vendo o seu marulho

«e encontro tudo sobre-humano
e este mar visível levanta para mim
uma face espantosa
e retrai-se, ao dizer-me o que preciso»(4)

se não mo diz
pois em «pequena concha»(4)
fechou o seu e teu e meu segredo
ao teu silêncio me confio

e ecoa plural
neste imenso silêncio de quem foste e quem sou
a precisa resposta
que sinto minha
bem sabendo que é tua
tão tua
tanto
tanto

«queremos a ilusão grande do mar
queremos a sua solidão robusta»(4)

R.V.

Poemas de Cecília Meireles citados:

(1) De Retrato Natural, «Apresentação»

(2) De Solombra, «Esses adeuses…»

(3) De Sonhos, «Sonhei um Sonho»

(4) De Mar Absoluto e Outros Poemas, «Mar Absoluto» 

Foi à segunda ou à terceira? «Copiar», «colar» – lá se conseguiu!
Boas leituras neste fim-de-semana!
L. V.





domingo, 2 de janeiro de 2011

Outros intentos:SETÚBAL CIDADE SECRETA

Ontem prometi voltar e vou já dizer quais os «outros intentos» que me exigiram transcrever para aqui a importantíssima página que pelo Dia de Camões de 2007 João Bénard da Costa escreveu sobre Setúbal e que pessoalmente  nos veio  cá trazer.
No dia seguinte, cumpridas as cerimónias em que foi lida, ficar sepultada no nosso esquecimento? Não pude consentir-mo.
Tanta coisa que era bom esquecer! Mas não é fácil…
Quem pudesse esquecer tudo aquilo com que se lança em esquecimento, de si e de tanto de válido que lhe diz respeito, esta bela e rica cidade de Setúbal…
Não creio que a transcrição aqui no «chapeuebengala» do discurso de Bénard da Costa sirva de muito, mas serve-me para dois fins.

O primeiro! 
Pedir a quantos andam a viajar na blogosfera e desejam uma cidade de Setúbal mais aberta e consciente das suas reais  condições para ser um dos paraísos mais relevantes
destes extremos da Europa que Portugal é:
divulguem esta mensagem de um tão confesso admirador da nossa região!

O segundo! 
Dar à leitura e aprofundamento do discurso de Bénard da Costa, não apenas precedência,  mas incomparavelmente mais importância do que às palavras que a partir desse discurso proferi no dia 9 de Dezembro p. p., numa cerimónia da iniciativa da Universidade Sénior de Setúbal e extremamente enriquecida  pelos dois oradores que se dispuseram a nela participar: Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida e Viriato Seromenho-Marques.

A quem mo pediu tinha prometido que, mal sentisse algum distanciamento para um mínimo de auto-crítica,  divulgaria o que escrevi e li então.
Não vai tão cedo quanto houve quem desejasse?
Asseguro, porém,  que ainda estou mais empenhado agora do que quando em público as proferi, em que alguém se convença a tomar para si as últimas palavras, mesmo, mesmo, aquele  último parágrafo do meu discursosito!

L. V.

SETÚBAL CIDADE SECRETA

NUMAS APROXIMAÇÕES DE AMADOR

AOS CONCEITOS DE

IDENTIDADE, ENIGMA E SEGREDO

(Palavra para a cerimónia do doutoramento honoris causa

pela Universidade Sénior de Setúbal – 9 de Dezembro de 2009)

 

Aproximação 1: A metáfora das portas

 

O mal do mundo está em o homem não completar a pergunta ou em não lhe sujeitar o construir e o instituir.

É com esta sentença que José Enes encerra o seu À Porta do Ser, uma obra grandiosa da Filosofia Portuguesa do século XX, que será extremamente fecunda quando for descoberta.

Quão densa fala, esta: «completar a pergunta»!

Como completar a pergunta? Alguém o consegue? Estará isso ao alcance das nossas humanas inteligências?

Oh! As nossas perguntas e o misterioso horizonte que sempre as acolhe no aquém e além de todas as respostas!

Não sei se noutros momentos senti melhor a profundidade misteriosa da «pergunta», mas sei que nunca expressei melhor o meu pensamento e sentimento, a respeito, do que nestes versos:

 

nasci num mar que me deu

um horizonte sem fim

nunca ninguém respondeu

melhor do que ele às perguntas

que nascem dentro de mim[1] 

Perguntar, isso pergunto. Imperiosamente. Desde que me conheço. O mais silenciosamente possível, evidentemente. Para que nada nem ninguém consiga jamais trancar-me a inteligência. Esse grande perigo de nos fecharem as portas da inteligência com as respostas necessárias, as possíveis, que tão generosamente as coisas e, eminentemente, as pessoas, de modo especial em livros, nos oferecem!

Portas! As portas!

Permitam-me antecipar-me a mim mesmo, numa tentativa de estabelecer por metáfora o sentido do segredo e do enigma.

Segredo…

O segredo simbolizado pela porta fechada.

Quando se abre uma porta e entramos numa sala, passamos a conhecer essa mesma sala e quanto nela há ou se está passando.

Enigma…

O enigma simbolizado pela porta aberta, sempre aberta, aberta desde sempre e para sempre. Um mistério. Um permanente apelo a entrarmos, uma revelação que se revela como apelo à abertura a nova revelação, essa inesgotável riqueza de uma explicação que nos impele a de novo perguntar, mantendo-nos assim nesse superior intuito de «completar a pergunta».

 

Aproximação 2: Passar os umbrais

 

Embora abertas! Pelas portas só entra quem ultra-passa os umbrais.

Passar os umbrais do enigma e do segredo, com as ajudas do «id» dos latinos ou o nosso «mesmo», acrescentadas das ajudas do «ag’ri» grego ou nosso «perto», «de perto», «em proximidade».

A partir daí, ir admirando o que se vai descobrindo.

A curiosa pergunta de Heidegger no fim do opúsculo Serenidade (pág. 69): poderia a admiração abrir o que está fechado?

Sentir a ecoar, nesta pergunta, o nosso «Setúbal Cidade Secreta»!

Gostava de saber se mais alguém sentiu: eu senti.

Quando, após ter aceite o desafio de vir acrescentar em Setúbal a minha experiência de livreiro, iniciada em Lisboa um ano antes, tive de procurar a Avenida 22 de Dezembro para ver a loja de um prédio ainda em construção na qual foi instalada a livraria que então, em 1970, se chamou Culdex e que, a partir de 1973, é a Culsete, quis saber o que significava para a cidade esse registo toponímico, mas não encontrei quem me elucidasse. Tive de descobrir sozinho, na placa afixada no términus da dita avenida. Foi chegar perto dela e, nessa proximidade em que me pus, foi só fixar-me numa atenção, por entre o 22 de Dezembro da avenida, o 22 de Dezembro da placa e o 22 de Dezembro da efeméride, e ficou estabelecida uma relação de «mesmo» ou idêntico, que me revelou um pormenor da identidade de Setúbal.

E a Rua Batalha do Viso?

Nenhuma das minhas abundantes leituras da nossa História me haviam falado em tal batalha. E também, antes que casualmente o descobrisse, ao ler Sob os Ciprestes de Bulhão Pato, não encontrei ninguém que me informasse.

E que Tordesilhas, do lado de cá da recém-nascida Espanha dos Reis Católicos, se chamava Setúbal? Quanto tive de esperar para que me fosse dado encontrar nesta nossa cidade alguém que o soubesse?

E o caso do açoriano Frei Alexandre da Sagrada Família, celebrado tio de Almeida Garrett, que desde os 24 anos foi mestre de muito saber no Convento de Brancanes, até ir para  Bispo de Angra, já octogenário?

E a naturalidade setubalense de D.Guilhermina, mãe do grande Antero?

«Setúbal Cidade Secreta», com tanto para contar!

Ao longo destes meus quarenta anos, que se completaram agora, em 2010, e sempre a viver e trabalhar cá, quanta dificuldade em saber de Setúbal! Por encontrar uma cidade secreta e enigmática, tão escondida, ainda mais de si mesma do que dos estranhos, tantos estranhos, que desde sempre atraiu e aos quais muito permitiu que a fossem colonizando, com reconhecidos benefícios, pagos, porém, e demasiadas vezes, ao preço enorme de enormes depredações.

 

Aproximação 3: A imperiosa necessidade:

Para o trabalho, o amor

Para o amor, o conhecimento

Nunca de alguém chegamos a saber tudo. Cada um de nós sabe dos seus segredos. Nem sequer é preciso pensar que o segredo seja escondimento voluntário. Cada um se recorda de algo de si que, por qualquer razão ou sem razão nenhuma, nunca revelou a ninguém: este ou aquele episódio, este ou aquele sentimento, este ou aquele bom ou mau momento. Tanto de nós que acaba por ser segredo, ainda que só por isso: por ficar fechado neste segredo do que somos e vivemos!

E será que alguém chega a saber tudo de si? «Gnodi zauton», «conhece-te a ti mesmo», a célebre inscrição grega no templo de Tebas, repetida em cada vez que cada um entra em seu templo ou se reconhece em qualquer espelho.

Progredir no conhecimento de si mesmo, ir progredindo, mas saber que a meta não será atingida, porque o enigma, do Homem e de Tudo, se impõe…

Tanto a cada um como em cada um de nós.

Entre enigma e segredo teremos de definir-nos, identificar-nos e ser identificados.

Talvez possa dizer, neste ponto em que vou, que todo o nosso conhecimento é um reconhecimento. O encontro entre o que somos e o conhecimento «de que» somos e «do que» somos, é que nos permite que nos identifiquemos, que, portanto, nos «firmemos» e «a-firmemos».

O grande desafio que é assumirmo-nos em identidade! É tão chocante vermos uma pessoa que já não sabe quem é... Por ventura ainda poderá não se ter perdido de nós, mas perdeu-se de si. E, a quem não traz consigo meios de se identificar, o que lhe acontece em mundo? Um clandestino ou excluído. Inevitavelmente. A degradação, aí, surpreenderá alguém?

De outras maneiras poderia aproximar-me dos conceitos de identidade, enigma e segredo, ao querer mais esta vez que nos questionemos, nós os setubalenses por naturalidade ou adopção, sobre o novo título que a Setúbal foi atribuído no 10 de Junho de 2007 por João Bénard da Costa. «Setúbal, cidade secreta»! Quando ouvi pronunciar estas palavras, ao seguir pela televisão a cerimónia que então se desenrolava ali à Beira-Sado, fiquei deveras comovido. Aproveitei a oportunidade que me foi oferecida pelo jornal O Setubalense para chamar a atenção para a preciosidade desta palavra que Bénard da Costa, eminente homem culto português, ele também, como tantos outros, muito aproximado, e desde jovem, à Serra da Arrábida e a Setúbal, nos quis deixar na excelente oportunidade que teve de o fazer quando, sem o sabermos, já tão pouco tempo de vida lhe restava.

Em Papel a Mais, livrinho de múltiplos géneros de textos, quer de amigos quer meus, permiti-me incluir, entre os «Recortes Datados», a nota que escrevi para O Setubalense.

Embora sinta receio de que seja abusar da vossa atenção, em especial daqueles que já leram o livro, vou permitir-me reler, aqui e agora, essa nota, com a desculpa de que é curta.

 

 

SETÚBAL “CIDADE SECRETA”[2]

 

Curioso! A 8 de Junho de 2007 é feito pelos setubalenses o “escrutínio” de  “As Nossas 7 Maravilhas” e logo a seguir, no 10 de Junho, João Benard da Costa atribui a Setúbal o novo título de “Cidade Secreta”. Foi no seu responsável discurso das Solenidades, ali no Jardim da Beira-Mar, voltado para a urbe e, como arrabidino confesso que é, inevitavelmente consciente da envolvente paisagem do nosso Estuário e da Serra da Arrábida, nossa Mãe e Deusa. Fico calado e a pensar em tanta coisa. A pausa é para ler de novo o discurso do 10 de Junho e o último capítulo de  Muito Lá de Casa.

O melhor talvez fosse ficar por aqui. Só um pouco mais. É que o que é secreto pode ser revelado.

Porque é que Setúbal “talvez seja das cidades de Portugal a que tem mais para contar e da qual menos se conta”, como acabo de reler no discurso de João Benard da Costa? Quem me responde? Ninguém. E não creio que alguém o saiba e esteja a guardar em segredo. Aqui é que não me parece que haja segredo, mas sim enigma. Como decifrá-lo? Posso tentar, certo embora de o não conseguir.

Setúbal não se conta nem se respeita como deve, como quem diz, não se conhece nem se estima, porque a sua sobrevivência foi demasiado sustentada pela colonização das suas maravilhas e gentes e se deu a isso. Prova-o a queixa tantas vezes ouvida de que não é boa mãe por não reconhecer e gratificar devidamente o mérito de seus filhos.

Lisboa, todo o País e todo o Mundo vieram a Setúbal ao longo dos séculos. Deram a Setúbal história e sobrevivência, mas arrasando muito do que aqui se devia respeitar, como maravilha natural, e construir, por consciência de rica identidade.

Ciclicamente Setúbal cai em pobreza. Foi sempre assim. É sempre assim onde há colonização. E assim será enquanto a colonização não encontrar Setúbal a respeitar-se com a sua identidade decifrada e assumida. Terá então a força, que de vez em quando parece já estar a nascer, para, a quem vem por cobiça, impor o respeito que merecem as suas maravilhas, tão descaradamente descarnadas, poluídas, ameaçadas de desmoronamento e descaracterização.

Há bons sinais. As novas gerações já ouvem o que antes ninguém se atrevia a dizer e vão percebendo que Setúbal não satisfaz porque se faz pouco por ela. Que não se diga feito por ela o que alguns em mediocridade fazem por si próprios. Faz falta quantidade? E sobretudo qualidade.

As maravilhas de Setúbal ainda não estão a clamar por contagens, mas por serem descobertas, divulgadas, preservadas, reconstruídas e admiradas.      Setúbal, quem te visse mudada de “Cidade Secreta” em Cidade de Maravilhas! Revelada a ti mesma pela nova geração de competentes e exigentes setubalenses!

 

Peço agora licença para sublinhar, desta nota, estas duas passagens:

1. Consciência de rica identidade.

2. Setúbal a respeitar-se com a sua identidade decifrada e assumida.

Os últimos quarenta anos (1970 a 2010), não me limitei a vivê-los em Setúbal. Desde que cá cheguei vivi-os com Setúbal. Desde o início, Setúbal desafiou-me como cidade difícil de entender. Logo comecei a sentir envolverem-me as perplexidades e perante elas dei comigo a perguntar: «mas onde é que estou?».

Cedo me senti na necessidade de ir-me ilustrando, com «bocadinhos» de experiência

e de interrogação

e de pesquisa,

comparando cautelosamente as minhas aproximações com o saber e experiência das muitas pessoas informadas que fui encontrando,

em constante atenção ao modo de ser e de estar de Setúbal. A fim de que entendesse esta minha cidade e região adoptiva, que me era imperioso amar, isto é, dedicar-lhe o meu trabalho.

 

Aproximação 4. O poder-de-ser

que em si detém

cada um ou cada coisa

que é

 

Aprendi em jovem este modo de olhar a realidade, tão simples quão determinante, como efectivamente foi, para o meu encontro comigo e com o meu mundo, ao longo da longa vida:

O QUE PODE SER, PODE NÃO SER;

O QUE É, PODE SER.

O que é, tem em si, e em totalidade, o seu poder-de-ser, um poder que ninguém lhe pode tirar enquanto for o que é.

Anular, destruir, subverter, aniquilar – sinónimos para a única hipótese de vencer, em definitivo, uma guerra com o poder-de-ser do que é.

Setúbal, apesar de todas as depredações, soube resistir e continua a ser, idêntica para a identificarmos, numa promessa de excelência com que sempre nos convoca tanto a nós, os seus habitantes, como aos estranhos.

Setúbal é de uma riqueza enigmática deveras assinalável e celebrada. E é também, como aqui muito vimos aduzindo, de uma riqueza secreta que, à medida que a muitos de nós, apesar de tudo, se tem vindo e vem cada vez mais a revelar, mais curiosos e empenhados nos deixa em novos conhecimentos.

Ao que estou chamando «riqueza enigmática»?

Quererei neste ponto, e espero que com muito contentamento para o Profesor Doutor Onésimo Teotónio Almeida, voltar ao já mencionado À Porta do Ser de José Enes, meu professor de Filosofia nos anos cinquenta - professor então ainda tão jovem! - e seu, já em anos sessenta adiantados.

Ele há coisas que acontecem na vida!

Quem foi que ajudou José Enes na revisão do original dactilografado de À Porta do Ser, antes que este fosse para a tipografia?

Está aqui presente: Onésimo Teotónio Almeida.

E, a seguir, quem foi encarregado da revisão tipográfica, em Lisboa, no início de 1969, quando na Difusão Dilsar se levou a bom termo a «edição de autor»?

Também está aqui presente: fui eu próprio.

Um dos mais notáveis pensadores de sempre do tema da identidade foi Heidegger. A tese de José Enes é sobre a filosofia de S. Tomás de Aquino, mas estudada com o olhar de um profundo conhecimento latino do pensamento germânico de Heidegger.

É apaixonante a abertura do À Porta do Ser de José Enes.

Posso pedir que me acompanhem numa aproximação a essa abertura?

Capítulo I –Preliminares.

Artigo I –Junto das origens.

Parágrafo I –O impensado, medida de grandeza da obra de pensamento.

E, logo a seguir, esta epígrafe trazida de Heidegger:

«Quanto maior é a obra de um pensador, o que não corresponde ao volume e ao número dos seus escritos, tanto mais rico é o impensado nesta obra, quer dizer, aquilo que pela primeira vez e só através dela assoma como o ainda não pensado».

Sigo para o parágrafo terceiro. Precisamente para o admirável discurso de José Enes sobre o «impensado». Que forte desejo, o que sinto, de aqui o ler por inteiro! Reconheço, porém, que me é aqui devido conter-me e espero que para os meus fins sejam suficientes estas passagens:

«Tal impensado jamais poderá ser dito formalmente pela tessitura formal da linguagem enunciativa. A sua região é a do silêncio, da fecundidade e da geração.»

E algumas linhas adiante:

«Insinuar-se é o comportamento do impensado que se refugia no seio do pensado, não por medo à luz, senão porque ele é a luz do pensado. O impensado fecunda o pensamento e o torna grávido, e quanto mais gerante for a fecundidade, tanto mais densa e entumescente resultará a gravidez e tanto mais impelida à parição.» (pág. 15).

Belo, profundo e pertinente!!!…

Talvez devesse avançar um pouco mais. Ajudar-me-ia, estou crente, a explicitar melhor a analogia que julgo poder estabelecer entre este conceito de «impensado» de Heidegger e José Enes e o conceito de enigma como aqui desejo surpreendê-lo, de modo a que me ajude na aproximação à problemática da identidade setubalense.

Talvez…

Mas também talvez que, na presente circunstância e momento, deva eu próprio, antes que de vós me venha sinal disso, considerar um exagero o estar levando tão longe e por estes caminhos o meu pensamento.

Portanto, fim de citação.

E também não avançarei por discorrer directamente sobre a referida e intentada analogia, talvez possível, entre o impensado, como indizível que é, e o enigma, sobre que nunca saberemos lançar a «pergunta completa». Que seja suficiente, para continuarmos a aproximar-nos da porta que nos abra para a revelação de Setúbal, concordarmos em que a revelação do segredo vai para um saber e também em que, pelo contrário, a revelação do enigma, cada revelação com que o enigma nos maravilha, é um apelo a aprender.

Entre segredo e enigma, o nosso saber permanentemente aberto e dominado pela nossa disponibilidade ou disposição eficaz de aprender.

 

Aproximação n.º 5: Um riquíssimo banco de temas setubalenses oferecido à cidade por um voluntariado sénior rico de saberes, experiências de viver e vontade de aprender

O conceito de «banco»: banco do dinheiro, banco dos alimentos, banco dos dados. Sem riqueza a vir ao banco, não haverá banco. Sem ser investida, a riqueza do banco «des-enriquece». Falência à vista. Pelo contrário, quanto maia intenso e extenso o investimento, maior e melhor enriquecimento.

Devo ter a franqueza de declarar que, do ponto de vista pessoal, só aceitei ser proposto para e me comprometi a receber da UNISETI, Universidade Sénior de Setúbal, esta distinção de Doutor Honoris Causa, se, entretanto, para ela fosse efectivamente nomeado e convidado, por meu empenho em agarrar esta privilegiada oportunidade de dizer o que, sobre as universidades seniores, venho pensando de há muito, isto é, desde que tive conhecimento do seu aparecimento e da sua expansão com características de fenómeno de larga aceitação e, também, de assegurado alcance, se…

Todavia, ao longo deste tempo que foi mediando entre o momento do convite para aqui estar hoje e estoutro, o de chegar a data desta cerimónia, fui mudando de ideias, melhor dito, achei que podia chegar ao mesmo de maneira talvez mais modesta, mas, se calhar, mais útil e mais nossa. Quando vos ouvir, depois de terminada esta minha fala e encerrada esta cerimónia, logo me direis se foi melhor assim. Até porque, neste quanto estou tentando trazer para aqui, está implícito, e talvez transpareça, o que julgo que deve ser a importância a atribuir pela sociedade às referidas universidades seniores, porquanto as virtualidades de enriquecimento dessa mesma sociedade, por via da acção dessas universidades, são vastíssimas.

Resumir a minha fala a um muito obrigado, como os recentes problemas de saúde tentaram impor-me, custar-me-ia muito. Um mínimo contributo de natureza intelectual considerei para mim obrigatório trazer aqui, se bem que mais ninguém mo exigisse. Isto porque levei a sério esta iniciativa da UNISETI. Consintam em que me envaideça por isso, por levá-la a sério, que não pelo doutor, apesar do muito gratificante modo do Honoris Causa.

O que havia eu de ser, numa de doutor, fui há muito, muito tempo! Até sorrio, ao lembrar a cena que originou a alcunha que à criança os seus colegas impuseram!

O meu respeito é este:

pedir que esta iniciativa da atribuição do Doutoramento Honoris Causa continue, na UNISETI, liberta de qualquer timidez inicial, que terá justificado que esta quase primeira escolha dentro da sociedade setubalense tenha recaído na minha insignificante pessoa, um simples livreiro, gerindo uma pequena empresa do comércio local.

A minha vaidade! A que mais quero ostentar de imediato, em consonância com o que acabo de dizer. Ei-la!

Meus queridos amigos e eminentes Professores Doutores Onésimo Teotónio Almeida e Viriato Seromenho-Marques!

Onésimo Teotónio Almeida, um açoriano também afecto a Setúbal e com declarada afeição por esta cidade, onde residiu durante um ano, nos seus tempos de estudante na Universidade Católica de Lisboa.

Viriato Seromenho-Marques, um filho querido de Setúbal, cujo nome é, na actualidade, um dos seus orgulhos mais eminentes.

Meus amigos:

ao desvanecerem-me, de toda a maneira, pela exuberante disponibilidade com que acolheram o compromisso de aqui estarem hoje, pelo tempo que lhes veio a tomar um tal compromisso, por com efeito hoje aqui estarem e, do que todos os presentes são qualificadas testemunhas que invoco, por me reduzirem á mais alta inutilidade, de modo nenhum à mais baixa, nem mesmo a qualquer outro grau ou degrau intermédio, com as vossas falas sobre quem sou e meu labor, tornaram-se tão credores da minha gratidão, que nem que ultrapassasse a idade de Matusalém teria tempo de fazer algo que chegasse a compensar-vos.

Muito é por vós que estou em vaidades. E com efeito…

Creio que todos os presentes me compreenderão nesta vaidade.

O que me faz sentir ainda mais desmedidamente grato a estes meus amigos, é o seu contributo para que aqui nesta cerimónia acontecesse aquilo que muito desejava que acontecesse, mas que me era a mim interdito desejar que fosse conseguido por meu mérito, sendo como sou uma fraca figura no mundo letrado. Fizeram-no por mim, os dois, ao dar a esta iniciativa, com a sua presença e brilhante colaboração, um nível intelectual digno do melhor com que apenas era possível sonhar.

Professor Doutor Viriato Seromenho-Marques,

talvez que, para o livreiro que sou, a forma mais adequada de dizer-lhe obrigado pela oração que aqui veio proferir, deva ser esta: recomendar a leitura e o aprofundado estudo de uma já muito extensa e diversificada e riquíssima obra, a sua, que nenhum setubalense com alguma consciência cultural pode ignorar.

Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida,

Já escrevi, por ocasião de uma das suas vindas à Culsete para apresentação de um dos seus livros: o que Portugal lhe deve merece, para além de todo o carinho dos seus tantos e tantos amigos, o grande reconhecimento de quem por esse mundo e sobretudo nas Américas tanto tem feito pela nossa cultura, sem esquecer o muito que também por cá vai sempre fazendo. Obrigado.

 

Continuando sensibilizado, também reconhecerei aqui publicamente o bem querer e respeito por mim do Dr. Américo Pereira, tão jovem ainda em 1971, quando comigo colaborou em espalhar livros por Setúbal, com uma eficácia tal, que, até hoje, me serve de referência.

 

Para com o Magnífico Reitor, Professor Doutor Brissos Lino, quero ter uma palavra de profundo agradecimento. Mas não é isso o principal que, nesta circunstância, assim tão publicamente mais desejo dizer-lhe.

Peço a todos os presentes que me aprovem e apoiem numa homenagem de muita admiração pelo poder de iniciativa do Professor Doutor Brissos Lino, pela sua persistência e denodo, pela coragem, pela dedicação e pelo trabalho, trabalho tão difícil, de coordenar vontades, sem, entretanto, para levar por diante este projecto da Universidade Sénior de Setúbal, ficar à espera de esperados apoios.

Desejo-lhe, Magnífico Reitor, a compensação de uma merecida alegria, como resultante dos apoios que já chegaram, dos que estão chegando, dos que é necessário e devido que venham a chegar. Comparti-lhe este voto, permita-me que peça, antes de mais com o seu muito amigo Vice-Reitor, Dr. Armando Sacramento.

Ao respeitável Senado da Uniseti, ao Conselho Científico, garante dos bons níveis do ambiente de trabalho universitário, ao generoso Corpo Docente e ao admirável Corpo discente, o meu bem hajam pela adesão a esta iniciativa, neste quando a mim me homenageia.

Senhoras e senhores, meus muitos e queridos amigos, que por consideração e por muita amizade quisestes vir estar aqui comigo hoje: obrigado! muito obrigado pela vossa presença e simpatia!

 

Seria bom e devido que não me estivesse a alongar. Bem sinto que já estou. Por isso vou apenas lançar um desafio à nossa Universidade Sénior e à nossa «Cidade Secreta», numa querida esperança de que depois alguém o queira desenvolver e discutir.

Lançá-lo muito timidamente, sim, por saber que pode acontecer que ao lado deste título de Doutor Honoris Causa leve daqui também o de Atrevido Máximo, título que conscientemente corro o risco de merecer, sem outra causa, porém, a não ser o meu firme desejo do progresso geral de Setúbal, a cidade dos meus filhos e netos, dos filhos e netos dos seniores estudantes da UNISETI. Um progresso que sempre a subida do nível cultural assegura, nas sociedades humanas.

Sei que muito já está feito, e recolhido, e devidamente guardado, e disponível, como património intelectualmente enriquecedor produzido pela UNISETI e, portanto, para a Cidade.

Então para quê trazer e o que traz de novo o desafio que aqui vai?

Julguem-no. Com indulgência.

A e na Universidade Sénior, constituir um BANCO DE DADOS DE TEMAS SETUBALENSES. É este o desafio. É este o meu repto, um empenhado repto, que, após proferido, me convoca a meu silêncio, o da minha insignificância, em cuja consciência tanto estimo cultivar-me.

BANCO DE TEMAS SETUBALENSES:

Uma coisa em grande!

Que sem dificuldade o voluntariado pode levar muito longe, se…!

Se, devidamente, um saber e um querer se organizarem com método.

Com exigência anti-provinciana.

Abertura a todas as forças vivas.

Disciplina interna na vertente da investigação.

Tanto de independência quanto de colaboração com os poderes instituídos.

Radical negação à fatal tentativa de intromissão de poderes interesseiros, de modo especial de manipuladores e de medíocres, que, onde quer que se instalem, roem a raiz a todos os sonhos do melhor, um melhor desejado e possível.

Essa calamidade: os medíocres a roer a raiz aos sonhos…

Como em Setúbal tanto se tem visto.

E não apenas em um ou dois casos.

Nem apenas em tempos mais recentes.

Vi muita coisa, nestes meus quarenta anos de luta, dura luta pelo Desenvolvimento da Leitura na Cidade e Região de Setúbal!...

 

Vencer a barreira do desconhecimento de si, que faz de Setúbal uma cidade desnecessariamente secreta e inutilmente enigmática!

Tornar evidente, por muito mais altos níveis de conhecimento, defesa e estima, a riquíssima realidade desta cidade, realidade essa secularmente tão reconhecida pelos seus predadores!

Revelar a si mesma a cidade e região de Setúbal!

Seu ambiente misterioso nos contrastes de estuário, mar e serra!

A languidez de estar debruçada sobre espelhos d’água e o misticismo a que a Arrábida, a nossa Serra Deusa, desde sempre a convoca!

Fazer vir ao de cima tanta história que não tem havido quem conte, tão eficaz, extensa e aprofundadamente quanto às novas gerações, sobretudo, é necessário contar!

Nem quem, por outro lado e por amor à terra onde veio encontrar pão, queira ouvir contar!

Ou mesmo quem isto tudo exija, até exija, porque contar a cidade é dever a assumir por quem percebe o benefício e o dever de integrar!

Até onde pode ir, o nosso BTS - BANCO DE TEMAS SETUBALENSES, na revelação e aprofundamento da identidade desta nossa maravilhosa terra?

Sei que é mínimo, o contributo que este meu repto traz a tão ambicioso desiderato...

Mas…

Que alguém o possa transformar em outro,

um seu,

e que, por ele e muito mais, se «complete a pergunta» que nos veio por

«Setúbal Cidade Secreta»!

TENHO DITO!

 

*Vou assinar como?

Resendes Ventura?

*Ou assim:

 O Livreiro Velho,

Manuel Medeiros?

Por mim…, nisso também,

TENHO DITO!

 



[1] Resendes Ventura, Papel a Mais, «Horizonte», pág. 274.

[2] Resendes Ventura, op. cit., p. 303 (Publicado anteriormente em O Setubalense).