segunda-feira, 30 de maio de 2011

O poeta, ficcionista e ensaísta URBANO BETTENCOURT, viajante entre nuvens de AÇORES–SETÚBAL e já hoje de SETÚBAL-AÇORES

image









O poeta, ficcionista e ensaísta Urbano Bettencourt regressa aos Açores com mais uma inapagável memória da paisagem setubalense.

Quem participou no sábado p. p. na sessão de apresentação de Que Paisagem Apagarás, livro que para o evento trouxe dos Açores, propositadamente, a Setúbal e aqui à Culsete  o seu autor,  um escritor açoriano que não precisa de pedir a nenhum deus do Olimpo que lhe empreste arte ou engenho, sabe que isto é verdade: foi uma tarde riquíssima e inesquecível. Quem não participou tem de acreditar. Agradeço. 
Porque, francamente, alguém que não queira acreditar fica a merecer tanto respeito «como a primeira camisa que eu vesti» (esta expressão tão tradicional e dita à micaelense!…).
Uma coisa é não ter cá estado por não poder, outra por não ter querido e outra ainda por nem sequer «ligar». 

Ora é assim:

1) A quem não teve possibilidade de vir é bom dizermos que os compreendemos e que a sua falta  foi sentida  afectiva e intelectualmente mas não fisicamente, pois que o espaço pouco mais pessoas comportaria;

2) Quem não quis vir, não dá para compreender. Procuremos, porém,  ser «compreensivos», o que é bem outra coisa. Sobretudo com os devotos e os entendidos da coisa literária portuguesa, porque  todos nós, de um dia para o outro, também poderíamos e ainda poderemos ser apanhados, até numa de contágios, por essa terrível doença da presunção, mais grave se  conjunta com outra, a dos zarolhos, quando estes são daqueles de quem se diz que «em terra de cegos quem tem um olho é rei».

3) -E aos que nem «ligar»?
Que lhes diremos?
-Isso é pergunta que se faça?!
Tão óbvia a resposta: «nada!». Se não lhes ligamos, dizer-lhes o quê?
-Ah!, mas são tão importantes! 
–Serão? É que, se forem, em algum parafuso serão confusos.

Ora vamos a ver! 
Esta tarde de sábado, assim com tanto nível, em tanta simplicidade, à volta de uma obra de literatura de elevadíssimo quilate, ouvindo oradores de reconhecidos méritos e conhecida dedicação, por texto e contexto, à obra de Urbano Bettencourt, não se perde! 
NÃO SE PODE PERDER!
A não ser por impossível ou por não se ter chegado à informação.

Sendo por não «ligar», torna-se inevitável que se mereça perder, em muito muitíssimo, o respeito de quem participou na sessão de sábado, classificada pelo  nosso querido Onésimo Teotónio Almeida, ontem,  já em dia seguinte, como a melhor das melhores em que participou na Culsete.
Comentei mais ou menos assim (Tinha de ser, amigo, tu já me conheces… Fui «comedido»?…):
«melhor» é comparativo e foi  junto da palavra «comparações» que  conheci a palavra «claudicar»(!!!).

Vai uma Nota Final (por agora, por agora… depois se vê…) !

Porque o leu directamente do moleskine, não pedi ao Urbano Bettencourt uma cópia do texto de Ernesto Gregório que foi escrito propositadamente para a abertura da sessão. 
Já hoje, porém, o Urbano, depois de uma boa aterragem no  aeroporto de Ponta Delgada, vai aterrar no seu computador.
Agora o meu pedido: 
«envia-nos para aqui mais essa preciosidade do célebre fabricante de escritas e equívocos».

L. V.

P. S.
e P. F(actum).
image






ATÉ À PRÓXIMA?







L. V.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

AÇORES-SETÚBAL COM A APRESENTAÇÃO DE UM LIVRO: QUE CURIOSIDADE?

Não posso estar mais curioso: como vai ser a «curiosidade» do leitor continental, de modo especial o que tem obrigação de estar mais atento, quando for de tarde amanhã, e aqui em Setúbal, na Culsete, Urbano Bettencourt, em conjunto com os seus amigos também escritores açorianos Artur Goulart, Eduíno de Jesus, Olegário Paz e Onésimo Teotónio Almeida, nos estiver a fazer a apresentação do seu livro Que Paisagem Apagarás ?

A «curiosidade» a que me refiro é aquela que Onésimo Teotónio Almeida  antecedeu de um «não há aqui» na sua conversa com Paula Moura Pinheiro no «Câmara Clara» do último domingo e que, tal como eu, muitíssima gente sei muito bem que ouviu(http://camaraclara.rtp.pt/): «não há aqui curiosidade».
Disse-o, como todos ouvimos, inclusive quem para amanhã vai preferir fazer ouvidos de mercador, quando falava dos livros e autores publicados no Portugal-ilhas e que o Portugal-rectângulo demasiadamente ignora, o que significa…

E como já aqui no blogue se disse tudo e também porque para bom entendedor as imagens valem mais do que mil palavras, já não é preciso dizer mais nada.

Só continuar curioso 
e acrescentar um 
«até amanhã!».
L. V.

DSCF2691
MAR-A-MAR AÇORES-SETÚBAL:
DE CÁ PARA LÁ - DE LÁ PARA CÁ

Mora_06_07_Hort_2

[image[5].png]

Até amanhã!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

LER UMA OBRA DE GRANDE CONSISTÊNCIA LITERÁRIA

18 4 09  São RoqueUrbano Bettencourt

No próximo dia 28 de Maio de 2011, sábado, pelas 16,30 horas, a Livraria Culsete, em Setúbal (culsete@gmail.com), abrirá as suas portas para um encontro com o escritor açoriano Urbano Bettencourt, a propósito do seu mais recente livro, Que Paisagem Apagarás, um conjunto de textos narrativos. A sessão contará com a presença dos escritores Artur Goulart, Eduíno de Jesus, Olegário Paz e Onésimo Teotónio Almeida, que falarão sobre este livro e a restante obra de Urbano.

Autor com vasta obra publicada, onde a poesia e o ensaio literário têm lugar de destaque, Urbano Bettencourt publicou o seu primeiro livro, Raiz de Mágoa, em 1972, em Setúbal. Regressou a esta cidade dez anos mais tarde como docente de português e francês, tendo trabalhado na então Escola Secundária da Bela Vista. Volta agora para dar a ler uma obra de grande consistência literária, onde a intensidade poética, a ironia e a crítica se cruzam, construindo uma escrita literária muito singular.

Ilhéu bem agarrado às ilhas, não são muito frequentes as suas vindas a este lado do Atlântico, pelo que esta é uma das raras oportunidades para ouvir e trocar algumas palavras com Urbano Bettencourt.
FRM

CONHECER O ESCRITOR URBANO BETTENCOURT

imageUrbano Bettencourt BIOBIBLIOGRAFIA

Manuel Urbano Bettencourt Machado nasceu na Ilha do Pico, freguesia da Piedade, concelho das Lajes. Completou os seus estudos secundários no Seminário de Angra, ilha Terceira. Em 1975 ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde obteve a Licenciatura em Filologia Românica. Foi Professor de Português e Francês nas Escolas da Amora, Bela Vista (Setúbal), Lagoa e Antero de Quental, entre os anos lectivos de 1980-1990. Desde 1990 lecciona na Universidade dos Açores, onde está inscrito no Curso de Doutoramento em Estudos Portugueses.

Tem participado em vários Colóquios e Encontros, no país e no estrangeiro e proferido diversas conferências sobre literatura açoriana e outras literaturas insulares.

Tem colaboração em jornais e revistas da especialidade, no país e no estrangeiro.

Publicou as seguintes obras

Raiz de Mágoa. Setúbal, Ed. do autor, 1972. (poesia)

Ilhas (de parceria com Santos Barros). Lisboa, Ed. dos autores, 1976. (narrativas)

Marinheiro com residência fixa. Lisboa, Ed. do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano. 1980. (poesia e narrativas)

O Gosto das Palavras. Angra do Heroísmo, SREC, Colecção Gaivota, 1983. (Ensaios sobre Antero de Quental e outros autores açorianos; o carácter cósmico de alguma poesia barroca; os Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo).

Naufrágios Inscrições. Ponta Delgada, Signo, 1987. (poesia, narrativa)

Emigração e Literatura. Horta, Gabinete de Cultura da Câmara Municipal, 1989. (Ensaio que aborda aspectos da emigração nalguns contistas açorianos do final do século XIX).

O Gosto das Palavras II. Ponta Delgada, Jornal de Cultura, 1995. (Ensaios sobre autores açorianos e ainda Maria Ondina Braga, Helena Marques, Antonio Tabucchi, Raul Brandão, entre outros).

Algumas das Cidades. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, Colecção Ínsula, 1995. (poemas em prosa)

De Cabo Verde aos Açores – à luz da «Claridade». Mindelo-Cabo Verde, Câmara Municipal de S. Vicente, 1998. (Ensaio sobre a recepção açoriana da literatura cabo-verdiana)

O Gosto das Palavras III. Lisboa, Ed. Salamandra, Colecção Garajau, 1999. (Ensaios sobre Literatura Clássica Portuguesa, Literatura Açoriana e Cabo-Verdiana).

Ilhas conforme as circunstâncias. Lisboa, Ed. Salamandra, Colecção Garajau, 2003. (Ensaios sobre Literatura Açoriana, Cabo-verdiana e São-tomense)

Lugares sombras e afectos (com desenhos de Seixas Peixoto). Figueira da Foz, Ed. dos Autores, 2005. (poesia, narrativa)

Santo Amaro Sobre o Mar (com desenhos de Alberto Péssimo). Arganil, Editorial Moura Pinto, 2005 (2.ª edição revista, Câmara Municipal de S. Roque, 2009). (narrativas)

Antero (com desenhos de Alberto Péssimo). Arganil, Editorial Moura Pinto, 2006. (poesia)

Que paisagem apagarás. Ponta Delgada, Publiçor, 2010 (narrativas)

(em colaboração)

Frases para ter na algibeira, org. de Sara Pais. Lisboa, Livramento, 2006.

Mística e Nuvens do Vulcão do Pico (com Victor Hugo Forjaz, Zilda Tavares Melo França, Lurdes Bettencourt e Oliveira, João José Fernandes). Ponta Delgada, Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores, 2006.

(alguns dispersos)

José Martins Garcia: a palavra, o riso. Separata da revista Arquipélago-Línguas e Literaturas, XVII. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2004.

Nas Lajes, um chá imprevisível. Separata da revista Magma, 4. Lajes do Pico, Câmara Municipal, 2007. (narrativa)

«Entre Cabo Verde e os Açores – a Literatura em viagem» in John Kinsella & Carmen Ramos Villar (ed.), Lusophone Studies, n.º 5: Mid-Atlantic Margisn, Transatlantic Identities: Azorean Literature in Context. University of Bristol, July 2007.

O tempo de Florêncio Terra. Separata do Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 17. Horta, Núcleo Cultural, 2008.

«Novas do Achamento do Divino em terras brasileiras», in Jornal de Letras n.º 114. Rio de Janeiro, Instituto Antares de Cultura, Fevereiro de 2008 [Recensão ao livro Caminhos do Divino, de Lélia Pereira da Silva Nunes].

«Pedras Negras … Dias de Melo» in Jornal de Letras n.º 119. Rio de Janeiro, Instituto Antares de Cultura, Julho de 2008.

«Literatura açoriana – da solidão atlântica à perdição no mundo» in Jane Tutikian e Luiz António de Assis Brasil (org), Mar Horizonte: Literaturas insulares lusófonas. Rio Grande do Sul, Edipucrs [Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul], Colecção Memória das Letras, n.º 22, 2008.

«Manuel Lopes, escritor – um cabo-verdiano nos Açores» in José Luís Hopffer Almada (org), O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Cabo-Verdianas. Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Cabo Verde, 2009.
F.R.M.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ler QUE PAISAGEM APAGARÁS com URBANO BETTENCOURT: um prazer, uma honra, uma oportunidade


CONVITE
A Culsete tem o prazer de convidar V. Ex.ª(s)
para a apresentação do livro
Que Paisagem Apagarás,
da autoria de Urbano Bettencourt,
que terá lugar no dia 28 de Maio,
sábado, pelas 16:30 horas,
no espaço da livraria.
A sessão contará
com a presença dos escritores
Artur Goulart,
Eduíno de Jesus,
Olegário Paz
e Onésimo Teotónio Almeida,
que falarão sobre este livro
e a restante obra de Urbano.
Símbolo Culsete Liv
Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B, Setúbal


clip_image002[9]«O PRIVILÉGIO» 
                                              e «A ORDEM NATURAL DAS COISAS»
 
«Não era a primeira vez que a ilha se via contemplada com os projectos da Revista.
Alguns anos antes, e por ocasião das nove conferências que assinalaram o seu nono aniversário de publicação, fora concedido ao Corvo o privilégio de ouvir falar sobre o Papel e o Destino das Culturas Locais  num Contexto de GêGê, ou seja, Globalização Galopante. Durante duas horas, e por trás de uma mesa coberta de fatias de Queijo da Ilha e Massa Sovada, o Conferencista dissertara, e mui bravamente desacertara, num tom optimista a que não faltaram, no entanto, breves nuvens sombrias que, pronto, teve o cuidado de varrer do horizonte».

(Excerto do texto «CRÓNICA DE VIAGEM», de oferta, aqui, para quem só no dia 28 vai abrir QUE PAISAGE M APAGARÁS).

URBANO 3.doc




quinta-feira, 19 de maio de 2011

«OS POETAS TÊM UMA VANTAGEM EM RELAÇÃO AOS SEUS COLEGAS FILÓSOFOS»


FONTE DA PALAVRA - DA FILOSOFIA INUTIL - 10€

Gostava de falar com algum vizinho sobre este novo livro de João Maurício Brás, Da Filosofia Inútil, Editora Fonte da Palavra, Fevereiro 2011. Mas acho que nenhum… Nem sequer pergunto  a quem quer que seja, mesmo aqui…
Sou eu a exagerar em não querer afrontar as pessoas que não apreciam ler o que, por mim, não dispenso. 
Evidentemente! Rejubilaria se um leitor do livro comunicasse comigo e me propusesse  um irmos-por-aí de conversa sobre este caso não assim tão comum entre nós de vir um profissional do ensino das filosofias apresentar-se-nos neste modo de filosofar, talvez o mais atrevido e o mais arriscado dos modos mas que, se depurado, produz as obras magistrais  denominadas aqui e agora, se mo permitem, obras-de-pascal-pensamentos, isto para não ir a pensadores mais recentes, muitos deles também de escrita francesa e que João Maurício Brás conhece bem.

Rejubilaria…
E se, entretanto, eu fosse esta tarde à Buchholz participar na apresentação deste livro por Onésimo Teotónio Almeida?
Pois, é isso: «se fosse»…
Está diante de mim este muro alto e era preciso, além de braços e pernas, uma escada. Portanto…

Quando chego a um livro por regra também dou atenção às dedicatórias. De vez em quando são preciosas, por arte, por informação, por sentimento. Neste caso parece-me por e por e por. Peço a vossa opinião:
«Para os meus amigos
Eduardo, mestre de generosidade e Onésimo, mestre da vida».

Trancrevo a dedicatória, volto a página e obrigo-me a  trancrever também o título deste primeiro conjunto de aforismo que me atrapalhou logo no primeiros dia e momento em que sopesei o livro:
«O QUE NOS SALVA É A NOSSA PERDA».

Atrapalhou-me, porquê? Gostaria de não responder sem uma prévia conversa a três, o Onésimo Teotónio Almeida, o João Maurício Brás e este vosso criado e velho livreiro.
Talvez seja possível que este ponto de conversa, como o proporei aquando…, nos ponha a sorrir!

Sorrir?
Porquê?
Além de outras razões também propícias, porque JMB admite uma hipótese:
«Talvez alguns consigam concretizar o sonho de não morrer mas de deixar apenas de viver».

Um comentário? 
Hum! 
Talvez este, em seu pouco bom senso:
«como é que me escapou inventar uma destas?»

Um «pouco bom senso» a merecer do nosso filósofo este comentário:
«A profusão do comentário e comentadores é o signo visível da paralisia do pensar e do nosso abandono desse hábito. Nada de grave se aniquilássemos esses comentários e comentadores».

Hum! Esta sensação de ter assim, ao parar neste aforismo, uma chave para entender a escrita e publicação de Da Filosofia Inútil, «caso não assim tão comum entre nós de…».
Uma
coerência que obriga a atrever-se contra  uma «paralisia»?
Bem visto?
L. V.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

NADA DISTO FAZ FALTA - II

1
a mesma chuva da noite fui à janela vê-la e continuo aqui a ouvir a sua música a mesma chuva lavando a manhã uma daquelas manhãs nevoentas em que tudo se torna assim tão próximo de si
2
aqui para nós que se isto ouvir quem está a apanhar uma molha não vai poder respeitar mas aqui só para nós podemos encontrar-nos por dentro na memória indelével dos dias antigos dias ilhéus brumosos marítimos que bem que faz um dia assim a quem encontra pela manhã este bocadinho do que para toda a vida ficou a ser
3
aí vai ele o dia e vem por dentro de mim à minha vida ou serei  eu pergunto  a ir em minha vida  a entranhá-la na sucessão e sendo que por sucessão é que o próprio dia é este novo dia compenetrando-se tempo e movimento e existência
4
e o que é devido é que não vá além da pergunta por ter clara consciência de que não percebo o suficiente de em que mundo estou nem do que sou e até saber quem sou é só até certo ponto
5
perceber-me em pergunta é já muito bom o que não quero deixar de apontar recuando um pouco para a distância que permita que veja o que aqui vai e então mo aponte da distância indispensável

e em definitivo o que aponto é a inutilidade deste modo de vida-agora-aqui não é triste não é isso tem aspectos muito bons mas é que não vale a pena fingir está à vista  que nada disto faz falta
V. L.

domingo, 15 de maio de 2011

«O RESTO É VIRTUAL!!»no comentário da querida M. Fernanda. Ou de como é bom ter provas de que alguém sabe LER um texto em conformidade.

DSCF4307

«MIMOS»!
Sob todos os aspectos o comentário da M. Fernanda ao post de um chapado V. L. a quem «nada disto faz falta», é para o L. V. um mimo de simpatia.

Há mais ou menos cinquenta e cinco anos que li, por mão de José Enes, numa revista espanhola que me emprestou, aquela citação de Rilke que desde então releio de cabeça sempre e sempre mais sem que falhe uma vez quando gente nova e bem licenciada me diz que não aprecia uma obra prima literária. Depois percebi a lição que José Enes quis dar à minha ingénua crença na literatura. E o teste que…? Perdoei-lhe e até agradeci porque acreditou! Nota positiva fora de aulas é a melhor que nos pode dar um mestre.

Ao vir por saber do resultado da lição: se  entendera o ensaio do conhecido intelectual espanhol. Quando respondi que sim, com carinha de surpreendido com o tom e a cara da sua pergunta, não é que acreditou?… 
Hoje sei que não, que praticamente ainda nada compreendera e a prova é que continuo em aprendê-la. 

Primeiro, aguçou-me a curiosidade para o artigo de José Maria Valleverde e depois pôs-me à disposição a revista, se quisesse ficar com ela por uns dias. E é o que recordo: em epígrafe aquela de Rilke, que anda comigo, de cabeça, com estas palavras: «é preciso que as pessoas não se ponham a ler um poema como quem lê um artigo de fundo».
Fiquei sem fala: «hum!?»
Mais tarde é que me colei na pergunta: «o que é que isto me está a dizer?»

Saber ler? Não, não se acaba de aprender a ler!
Por isso, M. Fernanda.
Claro que sim! Os netos. Por estes dias de sobras de sobrevivência e falta de vida, passar um momento diário com as crianças, tão maravilhosamente crianças, tem sido e foi sorte e o mais indispensável para que o ar de respirar não me faltasse. Dia em que falhou, que falta!
E de facto isso, no texto…
Que um texto, se é deste tipo e não de um qualquer  tipo de artigo de fundo, quando lido em conformidade não é para perceber. Basta lê-lo. O que diz e não diz o leitor é que… Como se prova.   

E, quando os textos são as tais obras primas? Sempre que voltamos a lê-los mais revelam. Mesmo quando às primeiras vinte leituras…
Leituras destas são as leituras preciosas. Indispensáveis e inesgotáveis!
Creio eu…
L. V.

NADA DISTO FAZ FALTA - I

ontem quando ia por ouvir a nona de beethoven tinha que ouvir boa música absoluta a falta que sentia esta já escolhida e estava bem aconteceu que passaram por mim os meus netinhos era um momento bom de uma bela tarde de domingo de maio luminosa amena e verde cuidado agora é que é domingo ontem estavas em sábado mas para a ficção dizes lá que falta faz o verídico deixei para trás beethoven e fui com eles que bom que foi e hoje compreendo que nem para eles nem para mim estava a fazer falta a nona e muito menos a centésima bastava que a tarde se fizesse connosco no jardim embora se deva compreender em outro qualquer bastava e outra vez que também aqui caberia um nada disto faz falta no caso uma febrezinha a ter de sua mão os pequeninos e a tarde amena passava e cá por casa ninguém dava por isso e então é que se veria bem que nada disto faz falta
V. L.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Pois! O «Ah! a Literatura!»… E o «Massamá»? Sei que já lá foste e apreciaste. Vais voltar?

- É difícil fazer um programa de livros para televisão? As partes dão-se bem ou é o humor que acaba por ajudar na receita?

P.V. – Tem sido relativamente simples fazê-lo, o humor ajuda na receita e a empatia com a Catarina Homem Marques, que faz comigo o programa, é determinante. Pensamos sobre a nossa missão da mesma forma e assim é fácil construir o “Ah, a Literatura!” semanalmente, com um pé na literatura e outro no absurdo, e vice-versa.
http://irmaolucia.blogs.sapo.pt/

«DOIS ACONTECIMENTOS» por-T-antes:«O CORETO E A MEMÓRIA»

Uma pura página do humor, à Álamo Oliveira, em CONTOS COM DESCONTO, edição IAC – Instituto Açoriano de Cultura, 1991, conta-me o caso de «o Grande Músico inaugurador de coretos».
Tenho uma dívida para com o Álamo, o mérito não é meu mas do Onésimo, não pretendo pagá-la. Como assim? É para que me prolongue em honradez, ao pagar juros.

«Mesmo que se olhasse duas vezes para o mapa não se dava por nada» (pág. 11). Não é do mesmo conto. É do anterior, o primeiro do livro: «Arquipélago das Lapas».
Literatura açoriana publicada nos Açores? Conhecida cá, no que de país em aquéns do Cabo da Roca? Nem sequer por arrastamento, nos casos em que os autores que não emigram aparecem em edições de cá. Seria de esperar?  A visibilidade cultiva-se de dentro para fora ou de fora para dentro. Mas cultiva-se. Como e quem e com quem?

Mas não está certo!
Eu não digo que a causa seja apenas a descuidada atenção de quem entre nós se considera e é considerado um entendido em nossas literaturas.
Pelo contrário, a causa vem de lá. Pelo menos tanto quanto é muito própria de cá, um sítio em que qualquer um sabe tudo, nesta paisagem em que muito poucos sabem muito do que devia ser conhecimento comum.    
Estou assim tão convencido?
Não… Ao menos aqui, não… Não me peçam para contar quando e como «vi» a causa à vista.
Agora já se disse: tudo indica que a autonomia vai dando sinais de querer, ao mesmo tempo, desembarcar e aterrar nas mais belas e preservadas ilhas atlânticas. O que é que ainda falta à convicção: acção ou pensamento?
Talvez já não falte nada.
A esta hora já leram «O Arquipélago das Lapas» até esta última linha: «E a autonomia mantém-se como à nascença: tremida e boazinha». Mas este texto foi publicado há já vinte anos! E escrito há vinte e nove! Nessa altura ainda alguma coisa justificaria dizer-se que «os intelectuais indígenas (…) andavam de tanga em busca da árvore letruda da Literatura Laparosa». Ora hoje a autonomia…

Ah! O tal conto! Título: «O Coreto».
Escrever bem é isto!
Saber escrever (quanto àquele «teve» a gente já fala):
«Já o avô fora Joaquim e sacristão e o pai não deixou de ser uma coisa e a outra».
Qualquer um diria: «uma coisa e outra». Estou a exagerar?

Gostaria tanto! De?
De que os nossos «grande-revelação» apreciassem…, soubessem onde está o segredo!
Não é fácil. Escrever bem não é apenas ter um bom argumento e uma escrita rica de desembaraços (Já é bom! Já é bom!). É saber falar com ricos pormenores de português perfeito, sem transigências.
Bom! Mas quem sou eu, ao dizer coisas tão estranhas a…?!
«Eu bem digo, mas ninguém me acredita»: mais vale quem diz do que o que diz! O que me vale é que no fundo estou cal(ej)ado.

Pág. 22:
«-Porco! –cuspiu Maria. E foi-se para sempre.
Joaquim recolheu o sexo desfalecido, abotoou a braguilha e quedou-se por largo tempo na sua lástima e infortúnio. Ele sabia que aquele peido de clarinete acabava de lhe passar um definitivo atestado de celibato.


Daqui até à inauguração do coreto foi um lamiré de tempo.
As gentes da freguesia consideravam de necessidade gritante a existência de um coreto. É verdade que não tinham água canalizada, nem rede de esgotos; que estavam mal servidos de electricidade; que viviam sob uma economia de subsistência; possuíam um ensino pouco acima da linha separadora da cartilha de João de Deus. Mas – c’os diabos! – já tinham televisão, sociedade recreativa, casa do povo e filarmónica. Só coreto é que não.»

Anotar por favor que retirei o adjectivo à «memória» do acontecimento. O «coreto» não tinha adjectivo e assim dei voto à igualdade dos «dois acontecimentos» adjectivados por um comum «importantes». Além de que, agora com mais calor, o cheiro se tornaria mais incomodativo.  Que acham?

Um livro com vinte anos! E onde, hoje?
«Por acaso», aqui na Culsete, desculpem que seja verdade…
L. V.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

«SÓ UMA MINORIA ACUSA A RECEPÇÃO»

image

Abrir p. f. :
págs. 312-313.
E também p.f.:
ler o mais, do antes e do após.
Se vale a pena? Depois, diga-me.
P.f.

«Antigamente era de boa educação escrever-se a agradecer um livro só depois de lê-lo. Agora generalizou-se essa de escrever, logo após a recepção, uma nota, frequentemente computorizada e em que apenas se preencheram os espaços em branco, dizendo estar o recipiente muito grato pela oferta, que lerá na primeiríssima oportunidade. E a gente imagina o livro a ser enterrado na estante.»

O «só depois de lê-lo», neste caso, até era fácil (textos que já vinham connosco, até inclusivamente por aqui, no meu  desmodado  assim deambular de chapéu e bengala). Só que isso seria fácil de mais. As atenções muitas e várias despertadas logo ao primeiro olhar, por esta «uma antologia», sublinhe-se o «uma»…
Foi só ontem que o livro veio à Culsete e eu no fora. Mas antes da hora de jantar já cá estava diante dos olhos: «trago-te aqui uma prenda». «Obrigado». Tinha de agradecer antes de ler, não tinha? Porque bastou ver a capa e de seguida a contracapa: o «rio atlântico» e um olhar «sem filtro».
L. V.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

QUE PAISAGEM APAGARÁS? Por cá. A 28 de Maio, como já se combinou.

Paisagens intemporais
"de cada vez que sucumbirmos ao íntimo chamamento do mar, uma voz de mulher há-de erguer-se para chorar-nos o destino e a perdição."
...

...
"Os maiores escritores açorianos vivos estão mortos", citando Urbano Bettencourt, parafraseando por sua vez Juliette Gréco, se esta é a regra, então é caso para dizer que o autor do aforismo é a excepção. Fora da estante da "literatura Açoriana", amplo mausoléu de leituras fúnebres e canhestras, lê-se com deleite literário e cosmopolita a obra de Urbano Bettencourt e, em particular, o seu mais recente livro "Que Paisagem Apagarás". Uma colectânea de textos, e uma secção de aforismos sob o "nom de plume" Ernesto Gregório, compõem um livro obrigatório de prosa límpida, fluida e universalmente elegante.
Há anos luz fui aluno de Urbano Bettencourt, no "Liceu Antero de Quental", numa cadeira de Francês e, "malgré le maitre", por um lado, pouco aprendi da dita Língua e, por outro lado, não arredei a minha resiliência atávica à cultura francófona, já à data tão "démodé".
Mas recebi de Urbano Bettencourt outras lições bem mais valiosas na aprendizagem para a vida adulta e retenho dele a ironia, como "piéce de resistance", de uma filosofia que não sendo a sua "cátedra" era o que melhor sabia ensinar ! Revejo essa mesma ironia em tantas das paisagens literárias, vividas ou imaginadas, no seu recente livro e cujas referências ora me evocam o humor mordaz de Woody Allen ora me transportam para um cáustico Philipe Roth no início da sua obra. Se a escrita é uma consequência da leitura, como o próprio Urbano afirmou, aposto que entre as suas leituras constam, com afeição, as obras de Allen e de Roth.
Mas além destas referências, tão pouco francófonas, há ainda neste livro lugar para telas de arrebatador realismo e para um onírico simbolismo que não se lê "en passant". Aliás, neste livro há textos de leitura que ficam em "repeat". Narrativas de um romantismo sedutor onde as palavras são pesadas à gramagem do papel e medidas milimetricamente à escala de uma "delicatessen" lexical. Exemplo dessa beleza é o curto, mas intenso, "Inverno de Passagem", com subliminares referências ao melhor do género "fantástico" de Adolfo Bioy Casares quando estava inspirado por Jorge Luís Borges. Noutro registo destaco ainda "Antes da Noite" e "Noite", crónicas realistas ultramarinas, e sem outro centro ideológico que não o absurdo do indivíduo como máquina de guerra, que estão originariamente publicadas nos "Anos da Guerra" de João de Melo numa antologia da guerra colonial para a Editora Dom Quixote. Não conheço outro registo mais realisticamente pungente da guerra de África sob a perspectiva de quem tem na mira os filhos da mesma Pátria.
Urbano Bettencourt afirmou em tempos: "Tenho enriquecido muito mais como leitor do que como autor, para este último caso, ando ainda à procura de uma fórmula ou receita rentável". Como seus leitores só temos a lucrar e o seu mais recente livro enriquece qualquer leitura contemporânea. Por ironia do destino este livro, que agrega textos dispersos e passados, logo no primeiro conto tem sinais de um tempo que também é o nosso. Assim, viajamos com Antero num "comboio inexistente" e "perpassa em tudo um difuso sentimento de abandono e de perda, uma nostalgia sem razão aparente". Depois deste sinal amarelo segue-se o aviso de alarme a vermelho: "uma única revolução é possível ou antes inevitável em Portugal: é a revolução anárquica da fome, mas essa não precisa que ninguém a promova, nem pode ser matéria de programas políticos".
Estas "Paisagens" não se apagam. Guardam-se como lugares intemporais. Esta crónica pode ser extemporânea, para um livro que teve a 1ª edição em 2010, mas a descoberta de um dos maiores escritores Açorianos, vivos, é sempre actual.
...
João Nuno Almeida e Sousa na edição de hoje do Açoriano Oriental. (HOJE = segunda-feira, dia 9…)
http://ilhas.blogspot.com/

NB.:
É só para anotar.
Quem abriu este nosso blog em 1 e 2 deste Maio, pode confirmar o que...


Bom mesmo era que
quem está por perto deste livro e do seu autor e da literatura feita e publicada nos Açores, desse o toque a quem por cá é seu conhecido no mundo das literaturas e não se apercebeu ainda da sua margem de desatenção para com…
 
Estou em crer que 

muita gente das letras, açorianos que andam por cá e não açorianos que ainda não olharam para lá, apreciariam, de certo, esse toque, que... que… 

E que tal?!!!
L. V.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

INTERLÚDIOS -IV

O NATURAL INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA
                 (...) - PRESSIONA SEM – (…)

«Não me empenharei em estabelecer a necessária diferença entre redundância e rotina porque me basta que esta vá prestando àquela bons serviços.

Viver exige alimento. A Vida na sua redundância traz-nos o pão quotidiano e com ele, tão renovadas quanto ele, a nossa verdade e a verdade do Nosso Mundo. Quem não nasceu à beira–mar e não aprendeu a ver a Vida e o Mundo à luz das ondas, talvez o mesmo tenha aprendido à luz das estações. Se teve tão pouca sorte que nem isso e não se quis matar, terá sido porque Vida e Mundo, com outras de suas infinitas formas de redundância, lhe vieram sustentando o natural instinto de sobrevivência.

Tudo já foi dito. Para respeitar a ressonância desta sentença através dos tempos, releio as «palavras de Coélet, filho de David, rei de Jerusalém» o Eclesiastes. Impressiona sempre. «Nada de novo». Serás, pois, necessariamente redundante. Se, porém, não deres tréguas ao teu esforço de concisão e sempre te mantiveres aberto a quanto, da Verdade, te escondem as certezas necessárias para que, apesar da tua grande ignorância, sobrevivas, o novo irromperá no acontecer, como dádiva da força criadora que traz uma mesma árvore das folhas caídas do Outono aos novos rebentos, verdes de Primavera. Melhora a tua leitura do que escreveu o Poeta: «Todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades». O abraço em que, inseparáveis, o mesmo e o novo se revelam. Sempre que nasce uma criança aprendo que nem tudo já foi dito e que o já dito é chão propício onde o futuro se cultiva».
R.V.
In P. a M.,
Págs. 218-219

P. S.
Não era para ser, talvez nem devia ser, mas é o post que entrou.
Tem muita força, o que é! Muita mais do que o que tem que ser, pelo menos enquanto não for. E há a outra razão: a blogosfera tem isso. Faz pensar em «parar é morrer» e em «quem não aparece esquece». E também em que… 
Depois é assim: quem não leu, se quiser ler, vai ter a sua opinião;  quem se dispuser a reler, vai confirmar ou mudar a que tinha. Limitei-me ao vício das reticências por enfeite e efeito. Espero chegar ao dia de a ele, a esse vício, lhe agradecer uns favores… Se bem que vícios sempre são vícios, bem entendido. Uns melhores, outros piores… Mas disso… 
L. V.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

«SE É ASSIM», QUEM AQUI QUER VIR A PALMAS PARA ANDRÉ MOA?

INDIGNAÇÃO
O Zé Povinho que tudo sofre e tudo paga,
Que só ouve falar em crise, em vida amarga
Ao ouvir dizer que a troika já chegou -
Manguito retesado - perguntou:
«Mas, afinal, quem é que manda aqui?»
Os  homens do leme respondem a tremer: «o F.M.I.»
Indignado, o Zé Povinho retorquiu:
«Puta que os pariu.
De quem são as garras que me esvaziam a carteira
E me apertam o pescoço?»
«Os geradores da crise financeira
Que comem a carne e deixam só o osso».
«E esses salafrários já foram para a prisão?»
«Não.»
«Então?»
«Esses continuam a desfrutar
O que é nosso e andam a rapinar».
«Que fazeis vós da minha vontade,
Mais não seja expressa nas urnas?»
«Apenas fumarolas, tal como nas Furnas».
«Pois, se é assim, dizei a essa troika
Que prefiro uma consistente perestroika
Feita com coragem e sensatez,
De acordo com a vontade do povo português».

ANDRÉ MOA 

http://diariodeumpacienteii.blogspot.com/

ESTES ADJECTIVOS!?… Posso? Será que posso fazê-los meus : «EXPERIMENTADA, CONSISTENTE, CRIATIVA e FECUNDA»? Estes, posso?


Que paisagem apagarás,

de Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.

O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.

Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.

Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.

Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.

A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.

Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.

Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda.

Victor Rui Dores
http://www.faialonline.com/?p=21187

domingo, 1 de maio de 2011

Ler URBANO BETTENCOURT em 1.º de Maio


E se quem quisesse abrir o «chapeuebengala» agora,
ao serão deste 1.º de Maio…? 
Se tivesse lido o post que pela manhã coloquei neste blogue…?
Se, quem quisesse, encontrasse  este texto de Urbano Bettencourt a que tive o privilégio de poder aceder hoje? Já depois do que escrevi sobre a apresentação de
Que Paisagem Apagarás.

A pergunta pediu a devida aquiescência e só peço que ou me digam ou digam de si para si: «
um grande texto!»
Em
Que Paisagem Apagarás, este texto? Não, não está lá.
Para já, ei-lo aqui! 
L. V.

(im)próprio de Maio

No 1.º de Maio da infância, púnhamo-nos a pé muito cedo. Se o sol nos apanhasse na cama, entrava-nos no corpo e deixava-nos molengões, preguiçosos, para o resto do ano.
Esse já não era o Maio de favas e giestas que deu a Vitorino Nemésio o tom para a crónica do Jornal do Observador (18.5.1972) em que as moças da Praia e a sua lembrança convivem, tu cá, tu lá, com a alta poesia de Afonso X, o Sábio. E também não era ainda o “Maio social” que em 1976 lhe foi pretexto para o belíssimo poema “Maio de Minha Mãe”, recolhido em Sapateia Açoriana e que um crítico lisboeta referiu como um dos grandes poemas portugueses da década de 70: mestria poética e ironia sagaz subvertem planos temporais diferentes e os signos de algum discurso político dominante e submetem tudo isso ao império avassalador da evocação lírica de uma adolescência terceirense aí por 1918.
Em meados do século passado, o 1.º de Maio da infância não era nada disso. Ficava-se por um modesto Maio laborioso (nada operário, muito menos proletário, que a tanto não chegava a semântica familiar), consciente apenas, e já não era pouco, do esforço associado ao labor de cada dia.

No 1.º de Maio de 1974, a época seca aproximava-se angustiadamente do fim na Guiné-Bissau. As buganvílias floresciam sob uma intensa camada de poeira alaranjada. E não havia cravos. À noite, o PAIGC lançou um ataque maciço de artilharia contra Bissorã, cobrando-nos com juros altos o facto de ter sido através da sua rádio oficial que, durante o dia 25 de Abril, fôramos sabendo notícias da revolução em Lisboa. O nosso 25 de Abril só chegaria, aliás, a 13 de Junho. Neste dia, uma unidade de combate do PAIGC apresentou-se na pista de aviação, sob um rigoroso aparato militar que daria lugar ao convívio com a população e com a tropa portuguesa e a africana que combatia do lado português. Era o reencontro de um povo consigo mesmo. E descobríamos, enfim, que o inimigo, esse outro de cada um de nós, tinha um rosto e um corpo tangível, era possível fitarmo-nos directamente, sem o filtro do ódio e da raiva, sem a mira interposta das Kalashes e das G3. Motivos de sobra para um curto poema que chegou a conhecer publicação.

No 1.º de Maio de 2007, muitos anos depois da inocência, dou por mim ainda a organizar as fotos desse tempo, tentando pôr um pouco de ordem nalgumas sombras interiores e afectos. Enquanto isso, vou ouvindo Adriano Correia de Oliveira. O cantor é hoje vítima da amnésia militante desta democracia de plástico & esferovite, presumida e politicamente muito correcta, em que alguns abutres (jagudis, em crioulo guineense) nos espreitam de novo lá de cima. Ouço a voz magoada de Adriano, neste 25.º ano após a sua morte, percorrendo a música tradicional açoriana, os poemas de Manuel da Fonseca e de Rosalía de Castro. Mas detenho-me na "Canção com Lágrimas", de Manuel Alegre: Eu canto para ti um mês de giestas / Um mês de morte e crescimento ó meu amigo / Como um cristal partindo-se plangente / No fundo da memória perturbada.

Nesse dia 13, que não sei se terá sido sexta-feira, Cabá Santiago (comandante de uma companhia de milícias pró-portuguesas) deixou-se fotografar ao lado de alguns combatentes do PAIGC. Deveria haver nesta foto mais alguns sorrisos, para lá de um ou outro esboço que parece morto à nascença e em contraste com as fotos em que militares, combatentes e população se misturam em convivência? Talvez, mas este é o ponto de vista (o meu) de quem, naquele momento, via a história a partir de um terceiro ângulo, apesar de tudo já em distanciação. Afinal, esta pose que não disfarça algum constrangimento era já um prenúncio do que estava para acontecer. O Cabá seria assassinado após a independência, um dos milhares de guineenses que tiveram o mesmo destino, entre eles o cozinheiro a quem devo uma parte da minha sobrevivência física. Tivesses-me envenenado, ó Zé Manjaco, e hoje serias herói nacional!

Lamentavelmente, não conseguirei desescrever esse poema de 13 de Junho, vindo do futuro à procura de um presente ainda por haver.
Urbano Bettencourt 
(1/5/2007)

AÇORES, MAIO, SETÚBAL: «um extraordinário momento»

Este ano, o dia 29 não cai num sábado, mas num domingo. Tal como hoje, o dia 1.
Portanto, teremos sábado a 28. Se tudo correr como já está previsto, vai ser outra vez «um extraordinário momento» de um novo «Mar-a-Mar Açores-Setúbal, que se espera tão vivido ou mais ainda do que o de 2004.
Fazem favor: anotar na agenda que a tarde de sábado a 28 do corrente mês de Maio é na Culsete, aqui em Setúbal!

I
Trazer ao título «um extraordinário momento» quando vinha de  ler esta expressão fazem favor de ver aonde:

«O arquipélago dos Açores vive um extraordinário momento de grande transformação que vai além de obras edificadas em todas as ilhas, oferecendo uma melhor qualidade de vida para a população e um maior desenvolvimento dos espaços insulares. Por todos os lados observa-se um crescente processo de interação com o mundo exterior expandindo-se em convivências sociais globais. Busca-se a identidade aberta, a transnacionalidade cultural e o continuado reconhecimento da existência de Diásporas, na diversidade da sua dispersão geográfica e no desenho dos traços culturais que caracterizam a vida das comunidades que as constituem».
LÉLIA NUNES
Professora universitária
Ilha de Santa Catarina, Brasil
http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=69

II
E, já agora
A  seguir tinha ido por recordar esse tal 29 de Maio de 2004 (Papel a Mais, pág. 229):

«Mar-a-Mar Açores –Setúbal.
(…)
Quem adivinhasse teria pedido licença a Bruno da Ponte para gravar a sua intervenção. O editor das Edições Salamandra com dados importantíssimos para inscrever na História da Literatura Açoriana e não só.»

III
E se, já e agora (NB.: Chapéu e Bengala, postes de Janeiro de 2011) começássemos uma nova aproximação a Que Paisagem Apagarás de Urbano Bettencourt, tendo por pano de fundo toda a sua vasta e relevante obra, cujo primeiro título, Raiz de Mágoa, se publicou aqui em Setúbal na Primavera de 1972?
Os 40 anos de «vida literária» de Urbano Bettencourt em seu início.
E em Setúbal esse início a ser marcado por um «extraordinário momento» de encontro de Literatura Açoriana  em Literatura Portuguesa (Tem de ser!).
IV
Setúbal, sábado à tarde, 28 de Maio de 2011:
Apresentação por Urbano Bettencourt do seu livro Que Paisagem Apagarás, um dos melhores livros da melhor literatura portuguesa publicados em 2010
(Mas nos Açores! Mas nos Açores!)…
  
E o livro já está disponível na Culsete, se  também isso desejam saber!… 
L. V.