domingo, 31 de julho de 2011

«UMA IMENSA PERGUNTA»

«Oferecer simplesmente o que somos, mais ainda, o que pretendemos ser, neste terceiro milénio que se abre diante de nós como uma imensa pergunta» –últimas duas linhas do Tratado sobre a Convivência – Concórdia sem Acordo, do conhecido filósofo espanhol Julián Marías.

Dá para me chamar a mim próprio aquilo que sou: um ignorante entre muito bons livros que estão disponíveis. Como este.
Ao autor conhecia-o há muito, a sua História da Filosofia houve um tempo em que era incontornável. A edição actualmente disponível é também brasileira e da Martins Fontes, como este«tratado», que por um feliz relançamento no mercado a Dinalivro me proporcionou o prazer e o proveito de ler.

Prendeu-me. Pelo autor, nem tanto. Pelo título e tema, sim, e a conclusão está certa: «és um ignorante, continuas agarrado à tua ignorância e ainda por cima deste com um teu preconceito que…».

Não posso nem devo ser longo. É só mais uma transcrição que, ao menos por agora, não pretendo comentar.
«Trata-se, pois, do que acontece à verdade; quando esta é desconhecida ou negada, não só se perde a liberdade e se é servo da falsidade, como também é suscitada a destruição da concórdia, da capacidade de conviver conservando todas as diferenças, as discrepâncias ocasionais; em suma, o conjunto das diversas e verdadeiras liberdades»
São as últimas palavras da «Introdução». Dos textos ou capítulos de entre as duas passagens aqui transcritas apetece-me ir relendo e também transcrevendo as verdadeiras preciosidades que já encontrei e vou encontrando. Mas sustenho-me.

Sustive-me, sim, mas em compensação transcreverei, do nosso Antero de Quental, umas linhas do exórdio da célebre conferência Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Percebe-se o meu porquê? Acho bem que sim.

«Não posso apelar para a fraternidade das ideias(…). As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, senão acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão – o amor e a procura desinteressada da verdade. Que seria dos homens se, acima dos ímpetos da paixão e dos desvarios da inteligência, não existisse essa região serena da concórdia na boa-fé e na tolerância recíproca (…)».

Há quantos anos concluí que se Antero tivesse filosofado no fim do século XX e não do século XIX não se teria suicidado porque teria conseguido ver o que tanto entreviu. Quando um homem, como sucedeu  com Antero de Quental, está muito à frente do seu tempo, não adianta discutir-lhe o destino. Está marcado.
L. V.

*5 de DESORDENS & ABUSOS do ACABA-LÁ-COM-ISSO

*5
digamos que são fases e conforme as fases as marés não as ondas que essas gostam é de se fazerem de amores com o vento amores donde nascem favores e rancores quem vive do mar sabe bem disso hoje morre-se menos de muita coisa também se morre menos das fúrias do mar e vai daí talvez seja melhor nem me lembrar do caso tinha oito anos o temporal tinha sido fortíssimo mas passara e já a vida na nossa aldeia regressara ao normal quando veio o alarme por quem fora trabalhar para aquelas bandas até a escola parou um barquinho a remos com mortos e sobreviventes dera à costa na «rocha da relva» porque teria este nome se era mesmo em água-retorta e não na freguesia da relva que também tinha e tem a sua rocha não sei é se com nome próprio e então foi um dia de juízo fui até ao lombo e já não desci a rocha porque vinham chegando os homens que traziam em braços o mocinho e mais um homem os outros dois vinham a pau e corda os mortos já encobertos em mantas  um deles o avô do moço que sobreviveu a mocidade a aguentar-se melhor e ele contou o que se passara sobreviveram à fúria do temporal agarrados ao barco subindo e descendo nos altos e baixos das ondas levados os remos e o mais e assim ficaram no alto mar à deriva sem alimentos nem água eram de santa maria naquele tempo era assim um abandono que hoje é inconcebível não sei porque conto isto aqui e só mais me lembro de como levaram os mortos até à igreja da nossa freguesia e foram a enterrar no dia seguinte e ainda hoje me custa suportar a lembrança do rapazinho a contar como tudo tentara para animar o avô que não morresse que haviam de chegar a terra e que viu o avô morrer mesmo e são estas e muitas coisas sem fala que fazem um passado sabendo-se que nesse tempo não havia tempo a não ser o tempo que fazia com alguns dias lindos de bom tempo e muitos dias de mau tempo vento chuva nevoeiro nem passado nem presente nem futuro as coisas simplesmente acontecendo vivia-se e morria-se não nos fazia falta a noção de que era natural o nosso viver bastava-nos viver assim cumprindo com os ritos apropriados a cada estação repito que não sei de uma razão para estar aqui com isto mas talvez possa vir a servir-me de lição para saber melhor como viver enquanto há tempo e hoje por hoje
V. L.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

*1 *2 *3 *4 DESORDENS & ABUSOS DE ACABA-LÁ-COM-ISSO

*1
sensação de estar nos limites da sobrevivência de que já o abismo está a agarrá-lo não é justo senti-lo acho um abuso das leis da vida sobre a sua consciência de si bem sabe que já deu o que tinha a dar mas dói ir escorregando se massacrado para além do aceitável e o caso sendo esse é cada pancada na cabeça
*2
nem data nem avio só tu como se horizonte aonde nunca se chega pois que para haver horizonte tem de haver distância
*3
olhos abertos ou fechados vendo o mesmo certo e sabido que o mesmo não devia impressionar ou prender o olhar ver o mesmo fica igual a nunca ter visto o que sempre esteve à vista será por isso que ninguém consegue ver com olhos de ver o que vê
*4
aqui nada se pode dizer que valha a pena e estender a mão em gesto e ofício de escrever só de alguém que aceitasse fingir que a pena valia e que para se encher de vazio e mais vazio precisasse de enganos e mais enganos
V. L.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

NADA DISTO FAZ FALTA - VII

no espelho do quem-foi  não se consegue ver o quem-será tentando esquecer o quem-é  «ermitão ermitão dá-nos a tua lição» oportuno pedido sente-se que é um pedido de em-quando resta já só o que resta do caminho para o longe de tudo e de todos inclusivamente de si próprio como qualquer um pode confirmar por experiência em seu ermo é só encarar o quem-é junto ao quem-foi e vê-se então devidamente o quem-será  e assim em ao contrário o espelho já não pode mentir
V. L.

SEI OS VERSOS – E BASTA-ME

I
A ROSALIA DE CASTRO

Não sei como foi a sua vida
nem da morte que teve.
Sei os versos – e basta-me.
(…………………………………….)
Pedro da Silveira
Corografias

II
Já nem rancor nem desprezo,
já nem temor de mudanças;
Tão só uma sede… uma sede
dum não-sei-quê, que me mata.
Rios da vida, onde estais?
Ar, ar !… porque o ar me falta.

- Quê vês nesse fundo escuro?
Quê vês, que tremes e calas?
-Não vejo! Fito qual fita
um cego a luz do sol clara.
E vou cair ali onde 
nunca o que cai se levanta.

Rosalia de Castro
Folhas Novas

III
-Por mão de quem?
-Ora! de quem havia de ser?!
De Ernesto Guerra da Cal, evidentemente:
ROSALIA DE CASTRO
1837-1885
homenagem no seu centenário
«COLECÇÃO POESIA E VERDADE - GUIMARÃES EDITORES».
-Ainda em alguma livraria?
-«Sei os versos – e basta-me»!
L. V.




segunda-feira, 25 de julho de 2011

MARIA LÚCIA LEPECKI (1940-2011): Deixa saudades, a Maria Lúcia

Rever as fotografias de um serão na Culsete. Escolher a única em que Maria Lúcia Lepecki nos aparece com os três conhecidos escritores a seu lado. Permitir à saudade que fale e se cale, ao mesmo tempo. Deixar que falem, mais do que quaisquer palavras do livreiro velho, as mensagens que hoje lhe chegaram de três escritores açorianos amigos.


LEGENDA: «13/XII/2003 – Quarenta anos de vida literária, com Baptista Bastos, Mário Ventura e Urbano Tavares Rodrigues, acompanhados por Maria Lúcia Lepecki. Recordo-me! Recordo-me! E não é mesmo possível esquecer o nível desse convívio com os três escritores-jornalistas nem o que, sob a batuta sábia e pertinente de Maria Lúcia Lepecki, nos disseram da sua riquíssima experiência da vida política e literária portuguesa» (Papel a Mais, p.228).


TRÊS MENSAGENS:
1
Fiquei ontem à noite surpreso com a notícia do Público de que tinha falecido a Maria Lúcia Lepecki. Dela tenho boas recordações, das poucas vezes em que a encontrei. Menos uma voz que gostava de ouvir ou ler. (Artur Goulart)

2
A Maria Lúcia Lepecki estava gravemente doente há tempos. Tinha lutado já contra quatro cancros e sucumbiu ao quinto. Quando há uns oito anos passou uma sabática na Brown, foi para lá com o fito de descansar psicologicamente da má experiência com o cancro, a fim de poder ler e escrever nas calmas. Foi então que tive a oportunidade de conviver bastante de perto com ela e verdadeiramente admirá-la. Era muito inteligente e era senhora de um verbo rapidíssimo, eloquente e divertido, para além de uma curiosidade intelectual ilimitada.

Mandou depois para a Brown, ao meu cuidado, alunos doutorandos e pós-doutorados seus, e recomendava mesmo a experiência numa universidade americana a todos quantos conseguissem arranjar apoios económicos para tal. Um deles, o Marcelo Oliveira, acaba de organizar um volume de homenagem a ela em que a Leonor e eu colaboramos e cuja data de lançamento foi antecipada com urgência porque a Maria Lúcia estava muito mal e queriam lançar o livro com ela em vida. Ela ainda o viu (A Primazia do Texto) e ele foi lançado quarta-feira no congresso da AIL no Algarve. Mas a Maria Lúcia já não pôde estar presente. O Marcelo disse-me que ela estava por pouco e que poderia nem passar do fim-de-semana.

Dela ficam boas memórias e uma estória açoriana contada pelo João de Melo. Um júri de que faziam parte o João, ela e o Pedro da Silveira (não sei se o Eduíno também), o eterno má-língua do Pedro aproveitava a saída de qualquer membro do júri (por exemplo uma ida à casa de banho ou, por qualquer motivo, deixar a reunião) para desancar na pessoa. Ao fim de umas quantas vezes, a Maria Lúcia voltou-se para o Pedro da Silveira e disse-lhe no seu inconfundível sotaque brasileiro: Puxa, Pedro! Não si pode 'tar longe di você!
Deixa saudades, a Maria Lúcia. (Onésimo Teotónio Almeida)

3
Também fui apanhado de surpresa pela notícia quando, antes de fechar o computador esta noite, dei um salto às notícias.

Da Maria Lúcia Lepecki retenho as impressões mais próximas do contacto aqui na Universidade em alguns colóquios e de uma mesa-redonda nemesiana em que participámos, com Roberto Carneiro, num lugar tão improvável como a Escola Secundária de Vilar de Andorinho (a sul do Douro). Acima de tudo, um modo afectuoso (não lusitano) de trato com a literatura.

Deve-se-lhe ainda o facto de ter continuado a «ler» publicamente no Diário de Notícias a obra de José Martins Garcia quando este já não era «de Lisboa» - o que diz muito do seu (dela) espírito e  modo de olhar para a literatura. (Urbano Bettencourt)

L. V.

domingo, 24 de julho de 2011

NADA DISTO FAZ FALTA - VI


VITÓRIA
VITÓRIA
JANTEI  BEM TARDE
E CANTO A  HISTÓRIA

agora agora agora
jantar acabando
a noite avançando
a vida restando

agora agora agora
abrindo um caminho
falando sozinho
provando bom vinho

agora agora agora
sentindo crescer
consciência de ser
em quem vai morrer

agora agora agora
nem frio ou calor
só resta ao amor
vencer contra a dor

agora agora agora
verás que há aqui
no quanto escrevi
abraços pra ti

agora agora agora
passando o momento
vou ver se o aguento
naquilo que invento
 
agora agora agora
já sinto que é hora
de me ir indo embora
daqui para fora

agora agora agora
vou já sem demora
negar-me à memória
de entrar nesta história

agora agora agora
o insulto é fatal
do etc. e tal
à escrita banal

agora agora agora
negando a memória
fiquei sem história
e vou mesmo embora

R. V.
Nota:
Escrito a brincar com o silêncio da noite
em
19 de Março
2006
às 0h. e 55m.
e
recuperado por acaso 
num reviranço do Manuel Henrique
em
24 de Julho
2011
às tantas do dia.
V. L.

SERÁ QUE AINDA VAI A TEMPO?

[CR+-+JOSE+RUY+2.jpg]
1
As novas gerações vão chegando finalmente à noção de livraria. É preciso que cheguem a tempo de travar o pessimismo e o desânimo dos livreiros. Contar com quem, a não ser com os mais novos, a quem já se proporcionou alguma familiaridade com os livros, a partir das bibliotecas públicas e das bibliotecas escolares?

2
«As novas gerações vão chegando…», posso contar muitos episódios que o provam. Mas muito mais lentamente do que era bom, possível e urgente. Porque quem está a fazer o seu melhor para que os mais novos desenvolvam o gosto pelos livros  não teve livros nem em casa, nem na escola, já foi muito bom ter aprendido a ler e a escrever e acabado por tirar um curso no secundário ou no universitário. Temos de ser compreensivos com as pessoas que têm a responsabilidade de promover a leitura. Se pensarmos no atraso imenso em que foram educadas… Como consequência, os níveis de leitura das camadas sociais que a si mesmas se consideram cultas não chegam para justificar um trabalho livreiro bom e suficientemente compensador.

3
Muita gente chega ao topo do estatuto de pessoa com alto nível social sem ter lido quase nada. Não me interessa culpar essas pessoas. Façam a sua vida. A culpa da extensão da nossa falta de nível é colectiva. E dos menos inocentes foram e são os editores e os livreiros do meu país, não considerados individualmente mas como grupo ou grupos profissionais, porque nunca acreditaram em que o desenvolvimento da leitura era sua obrigação e até por uma primeira razão evidente: ganhar para o seu produto a clientela mais vasta e da melhor qualidade possíveis. Nem sequer se entenderam nunca, as Gentes do Livro… 

4
Não são possíveis saltos muito grandes em pouco tempo. Mas já são vinte e quatro anos de investimentos continuados no sector do livro e da leitura!… Não são três dias! Acho que deviam ter produzido  muito melhores resultados. Eu acho… Estarei a ver mal e a ser injusto para quem fez o que devia e mais um bom bocado? Isso não quero!
Para se resistir já é muito bom podermos olhar para o que está feito. Dar valor a quem o tem, é justo.
Em termos de leitura colectiva já se fez mesmo muito, com deficiências imperdoáveis embora. Recordar as críticas de Francisco José Viegas ao PNL. Etc., etc..

5
Contar com quem, até que desapareçam da sociedade as grandes camadas de néscios? Por mais que se julguem e os tenhamos como sábios, são néscios que sabem tudo sem ter aprendido quase nada…
Uma grande pobreza de cultura geral, em tanta gente que se julga alguém…
- Não digas isso… 
-Já disse!

6
Quem tem fome vai à comida. Quem tem nível procura a melhor comida. Quem é culto tem necessidade de boas livrarias e frequenta-as e convive com os livros, alguns que lê e muitos que não chega a ler, mas que fica conhecendo. Até porque acaba por haver encontro e convívio com quem leu o que não se chega a ler. Ninguém consegue, felizmente…, ler tudo.
Prometo que vou reler o que, por estes dias, alguns livreiros nos vieram dizer e que qualquer um pode ler em http://encontrolivreiro.blogspot.com/ .
Apetece-me muitas vezes perguntar a muita gente: há quanto tempo não entra numa livraria? Ou até fazer esta pergunta tão inocente: ainda sabe ler? Gostava que aparecesse uma que me respondesse: já não sei ler, mas sei ensinar a ler.
1, 2, 3, 4, 5, 6 e… 7
Será que ainda chegamos a tempo?
Será que aqueles pais, os da prancha tão simpática de mestre José Ruy, aqui reproduzida com a devida vénia, resolvem mesmo dar uma alegria ao filho e à livreira emérita da «Loja-107-Livraria», Isabel Castanheira?
Em Fevereiro p. p. com muita alegria se viu Isabel Castanheira ser distinguida com o Prémio Especial Livreiro Ler/Booktaillors 2010. Aqueles pais terão mesmo de entrar. E… e… e… dar-lhe com os bons dias os dias bons que merece!
L. V.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

s í n t e s e

obra de arte
em si mesma

obra de arte
para nada
e ninguém

só em si
só por si
e mais nada

o artista
não sabe
quem a vê
quem a lê
quem a ouve

obra de arte
somente

esquecer
       
a razão 
            
de estar vivo
                          
o artista
obra de arte
             em si mesma
                somente
R. V.
17.Julho.2011/alp&l.er.

terça-feira, 19 de julho de 2011

NADA DISTO FAZ FALTA - V

por mais que o expliques nem tu próprio o entendes o teu silêncio podes crer que se entende muito melhor se desistires de explicações vem de dentro da vida e confirma o teu nascimento em ti para ao mesmo tempo te abrires ao cântico da existência e ao profundo silêncio do espaço infinito em que todos os seres ficam reduzidos a pouco tão pouco e tão pouco que quase nem dá para se saber que existem o possível encontro só por acaso ao tactear em cegueira
V.L.