sexta-feira, 30 de setembro de 2011

«OS MONTES DA CIDADE / FESTEJAM o seu tempo HOJE»

A. Cunha de Oliveira:
Não lhe tendo sido possível ficar perto de nós por mais uma semana, de nós, este nosso grupo de antigos alunos e seus admiradores muito amigos, nem por isso queremos que não possa sentir o carinho com que neste último de Setembro de 2011 o queremos homenagear pelo que de abertura de espírito lhe devemos.
Este sentimento de gratidão e carinho e respeitosa admiração,
cada um, de mais perto ou de mais longe,
não deixará de o aconchegar em memórias da sua própria juventude e dos longos e bem diversos percursos de ilhéus que por todos os mares se foram atrevendo.

Aqui de Setúbal, confirmo esta atenção em que sempre vim, porque há marcas que ficam, que nos marcam, que nunca se apagam.


De
Silva Grêlo
em a Cidade e a Sombra



                POSSE

O que não digo (porque o digo)
              é como o fogo.

O que não tenho (porque o tenho)
              é como o fogo.

O que não amo (porque o amo)
              é como o fogo.

Fogo, fogo, fogo!

Se eu fora o anjo que tem,
entre as mãos, a cabeça adormecida,
saberia a fonte da palavra.

Até dos céus me chovem rosas,
             brancas e vermelhas
            (Encarnadas),
que me afogam de perfumes.

Com as flechas do amor
              cravei o sol no peito.
E rubras de calor,
              com elas morro.

Fogo, que te quero, fogo!   


(
Angra do Heroísmo, Cadernos do Pensamento 2, Maio de 1954, pág.35),
Do prefácio:
«apresentando Silva Grêlo, nesta editorial, cremos oferecer, à poesia portuguesa, algo de novo e de real valor».

Quem não se orgulharia de ser autor deste poema?
Tão maior, este orgulho, porém!
Este que sinto de na altura certa ter tido um mestre que o escreveu e teve a coragem, direi que talvez contra si, de o publicar, a este e aos outros do Silva Grêlo, para nosso intemporal benefício.
R. V.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Caderno de SIGNIFICADO - V

«E o problema é que se instalou uma mentalidade de direitos tão forte que não vai ser fácil o ajustamento à nova situação, se ela de facto se concretizar, como ameaça. Passar a viver-se melhor depois de uma vida dura é bem mais simples do que caminhar-se no sentido contrário (Onésimo Teotónio Almeida).
http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=170

Muitos parabéns para os dois, Onésimo e Eduardo, por esta notável entrevista «(realizada por via electrónica em Agosto e Setembro de 2011)».
   
«Só uma visão ingénua da natureza humana(…)».
Pois é! E no entanto…
Porque, apesar de não acreditarmos, nem já por hipótese, acontecem milagres capazes de abalar a nossa descrença no ser humano. Provas de que é possível sonhar com «uma  suprema alegria».

Muito sinceros e felizes, estes parabéns do
L. V.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

TAMBWE–A UNHA DO LEÃO, o novo romance de António Oliveira e Castro

- Leva-os para ali, para junto daquele penhasco!
Consegue imaginar, caro leitor, que pensamentos se alojam no íntimo de um condenado à morte? (…) Não o consegue? Porque pensa  que todo este enredo não passa de um devaneio de escritor, de um exercício de imaginação febril?


(…)

Cheirava a frutos silvestres.
Os quatro homens pairavam, invisíveis, na noite do cárcere quando os carrascos vieram buscar o prisioneiro para ser fuzilado. Gravada nas paredes sujas, tinha ficado a partitura de Brahms.

- Ainda não leu este TAMBWE-A Unha do Leão, o novo romance de António Oliveira e Castro?
Pois não, sei bem que não! Nem precisa de se apressar.
- Por…?
- Porque o livreiro espera que quem leu A Especiaria, o anterior romance do nosso conhecido e amigo autor, venha por este novo romance. 
Com tempo! Ainda é Setembro e depois vem Outubro…
Também Angola, neste romance, mas diferente, a abordagem. Um romance novo.
L. V.

Caderno de SIGNIFICADO - III

http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/02/21/pai.aspx
Ponta Delgada, 20 de Fevereiro de 2006.

Hoje, quando fui à visita das 20h, encontrei-o amarrado. Tiveram de o imobilizar, pois ele queria retirar os tubos de oxigénio e de soro. Queria vir-se embora, tresvariava, não sabia onde estava, referia factos e pessoas que só ocorreram na sua mente. Meu pai está no fim. Se estivesse consciente, estaria triste com a sua situação; contudo, como está a viver de ilusões mentais, isso liberta-o da tristeza consciente e dá-lhe outras preocupações que só poderiam ocorrer se tivesse uma vida activa.

Enquanto fala, coloco, instintivamente, a mão sobre a cabeça. Os cabelos brancos. É meu pai.

Que impoder.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Caderno de SIGNIFICADO - II

http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/antonio-vieira
1
PADRE ANTÓNIO VIEIRA:
"O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive."

(Encontrei! Quem me deu a ouvir, só a ouvir, sem decorar ou anotar, esta frase bem ao jeito do genial Vieira? Devia lembrar-me… De qualquer modo, obrigado! Só me falta saber qual o texto de Vieira de que esta citação é tirada. Ah! Já me lembro: foi o Sr. Fernando! Obrigado! L. V.)
2
ANDRÉ GIDE:
"Tantas pessoas que escrevem e tão poucas que lêem!"
3
BOILEAU:
"Antes de escrever, portanto, aprendei a pensar."

Caderno de SIGNIFICADO - I

http://nestahora.blogspot.com/

Rostos (166)

Memorial a João José da Graça (1836-1893),
introdutor do primeiro jornal no Faial - O Incentivo, datado de 10 de Janeiro de 1857 -,
na Horta (Faial, Açores)

domingo, 25 de setembro de 2011

CÁ ‘STAMOS - VI


O LEITOR DE FEYNMAN
PASSEIA NA PRAIA
COM O SENHOR PALOMAR*

A verdade ou se havia de saber ou nada deveria acontecer.
Também por isso, talvez, é que Feynman disse:
«Há todo o tipo de mitos e pseudociência por todo o lado».
Porque se vê em verdade que as coisas acontecem,
mas não se vê que a verdade sustente os acontecimentos.

Nenhum dos crentes mandou parar o sol à meia noite
de modo a que hoje se vivesse o belo dia
que nunca um dia seguinte pudesse apagar.
Dá que pensar, o perigo do dia seguinte,
perigo tão presente em hoje...    

É isso. Pode bem ser:
de um dia para o outro pode volatilizar-se
tudo aquilo que se tenha conseguido numa vida inteira de trabalho.

Ao menos mitos!
Ao menos pseudociência!
Em orfandade,
viver nesta orfandade em que ninguém sabe o que vai acontecer
e os velhos mitos já revelaram
a sua ineficácia e nos abandonaram
à ignorância colectiva da família humana,
isso não!       

Isso é que nunca, nunca, nunca!
É insuportável! É suicida!
 

Se os homens que disseram alguma coisa em verdade
e não em «mitos e pseudociência»
tivessem continuado a falar,
o problema estaria hoje resolvido.
Como não crê-lo?
Feynman de novo:
«É uma posição um bocado louca para se estar,
ter uma teoria cujas consequências não se conseguem vislumbrar…
não o suporto,
tenho de resolver isto».   

«Tenho de resolver isto»!!!
Mas, mas…
Após «o prazer da descoberta», vem um dia seguinte e a-con-te-ce…
que «tudo parece estar a correr bem, temos todas as leis, parece óptimo,
mas, de repente, ocorre um fenómeno estranho (…)
– é perturbador, algo de que não estávamos à espera».
Feynman a chegar a uma filosofia destas,
ele que da Filosofia parece ter tido uma ideia muito sua...

A verdade, a verdade que se dizia ser a verdade,
sendo apenas e sempre o convite
para se ir batendo de porta em porta,
a mendigá-la!

Resistir à loucura não pode quem,
«querendo evitar as sensações vagas»,
persistir sem fim na tentativa
de fazer a «leitura de uma onda».
E no entanto, «que desgraça seria se a imagem
que o senhor Palomar conseguiu minuciosamente construir
se baralhasse e se quebrasse e se dispersasse».       
Como poderia «iniciar a segunda fase da operação:
estender este conhecimento ao universo inteiro»!?

Ler uma onda?!
«Bastaria não perder a paciência, o que não tarda a acontecer.
O senhor Palomar afasta-se pela praia fora,
com os nervos tão tensos como quando chegara,
e ainda mais inseguro acerca de tudo».

A loucura não sobrevirá,
sossegada que for a tentativa
de isolar em hoje o que acontece
como sossegou a de ler uma onda.

O senhor Palomar vai chegar a uma «visão
que lhe é particularmente grata»
e quem quiser poderá acompanhá-lo
no ir e vir do seu olhar na praia.
       
Mesmo a quem o não leia nem queira compreender
o senhor Palomar convida       
para o «arrebatamento de benevolência e de gratidão pelo todo,
pelo sol e pelo céu,
pelos pinheiros inclinados,
pela duna e a areia e os escolhos e as nuvens e as algas,
pelo cosmos que gira em torno daqueles cumes aureolados».
Quão saudável atitude  
perante o que acontece no mundo e vai impondo
a consciência de que a verdade não se sabe
e os mitos sempre se renovam!

Voto final:
Que nenhum «peso-morto»
venha impedir que assim se vá
«lambendo voluptuosamente a paisagem»!

R. V.
24. Setembro
2011/alp & l. er.

*
O
Prazer da Descoberta – Feynman       
Palomar – Italo Calvino

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

«um encontro amigável»: http://encontrolivreiro.blogspot.com/

1
Em vez de…,
como seria compreensível, por mais normal ou comum,
o Luís Guerra,
administrador do nosso blogue de Gentes do Livro
que cada vez mais frequentado vai sendo,
pois há mesmo quem creia que isto não fica assim
convida o nosso impulsivo anónimo
para o  III Encontro Livreiro, aqui em Setúbal,
marcado, como os anteriores, para o último domingo de Março que em 2012 será
no dia 25.
Como aqui se vê e revê: http://encontrolivreiro.blogspot.com/
Digam-me lá se uma atitude destas não é de respeitar com um destaque de vénia!?
Como é que Luís Guerra sabia que eu ia ficar a bater palmas por esta sua atitude tão positiva e tão fora do espírito de briga em que vai moldada a nossa sociedade e convivência?
Porque é meu amigo e merece a minha sincera amizade. Sabia, porque é meu amigo e sabe ler. O que não impede que… 

Não é que não se dê um berro de vez em quando.
Quando o abuso o merece, tantas vezes o merece!.
Mas um berro é um berro e jogar à malcriação e ao insulto, aceitar entrar nesse jogo como forma de…, cheira mal de mais.

2
«como se a massificação das vendas fosse "servir melhor". Isso mostra alguma ignorância quanto à qualidade do serviço vs massificação.»
Rosa

«pode demorar muuuuuuiiiiiiiiiito tempo.»
Onésimo
«Anónimo cidadão que pacificamente assina»
Luís Guerra

3
O que estes comentários me trazem é o desejo de continuar aberto aos encontros possíveis, até que a noite chegue (Onde é que isto já me viera à escrita?).
 
Vamos a ver se há algo mais a dizer e se vale a pena…, se continuo a ser capaz de sorrir a quem se aborrece ou não gosta ou despreza ou  leva a mal ou trata de si e não quer saber de mais nada nem de ninguém ou tem medo de que se vier à conversa seja tratado a aguarrás.

Há tanto que fazer e tanta gente paralisada como se nada se pudesse fazer… Por favor, abram caminho! Quando eu fechar ou morrer, daqui a muuuuuuiiiiiiiiiito tempo, por favor, não se calem! Discutam sempre! Abram caminho!
L. V.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

«até morrer ou fechar (o que acontecer primeiro)»: esta é de responder com um sorriso sereno!

Não se deve responder a quem se esconde no anonimato para fazer um comentário como o que aparece aqui, neste meu blogue, feito ao post imediatamente anterior, em que comecei por pedir um comum aplauso para o facto de no blogue da livraria Fonte das Letras se poder ler uma reacção vivíssima a uma desagradável notícia sobre uma decisão atribuída a uma editora.

«Não se deve». Certo. Mas eu podia ter evitado que este comentário viesse ao blogue. Portanto… E sobretudo…
Pois! Por isto sobretudo:
porque tenho a clara e serena compreensão de que este já não é propriamente o meu tempo. O que vier a acontecer não sou capaz de lhe chamar o meu futuro. Mas o futuro de livreiros como os há e um deles na Fonte das Letras…  
 
Um melhor futuro!
«Gostava de ver, de (…)ainda ver».
Alguém acha mal que o L. V. tenha este desejo?
Assinei o meu post com o habitual L. V. – Livreiro Velho.  Que dizer do velho que não se apercebe de que já viveu o seu futuro? Ainda resta este pouco que me resta? Chamar a isso futuro? Só me resta é o presente! No meu trabalho livreiro das últimas quatro décadas podia ter feito mais e melhor. Mas tomara que então o mundo fosse o que é hoje e tivesse eu a idade e capacidades que tinha então e que desbaratei em…
Não havia remédio. 
Que hoje é mais difícil?
Pergunto: 
Para quem?
Para fazer o quê?
Podemos discutir possíveis respostas, mas depois, para que possa dizer agora o que vou em dizer, após voltar a dar uma vista de olhos ao que me diz o nosso comentarista anónimo. 

1
«Porque não monta a sua própria editora e vai vender na Fnac, como fez o livreiro independente que montou a editora em causa?»

Para quê contar que houve um momento em que alguém da escrita e com dinheiro até quis que eu passasse a editor? Confesso que hoje me rio de mim mesmo, por ter sido tão radical: «eu sou livreiro»…
Não tenho nada contra as opções legítimas de cada um. Acho legítimo, e muito mais na presente situação, que um livreiro se queira passar a editor, sem deixar de ser livreiro ou deixando de o ser.
Também acho que um editor está no seu direito de negociar com quem lhe oferece melhor escoamento das suas edições.
Portanto o meu comentarista estando habilitado a ler o meu post, não o leu, reagiu. Sendo anónimo, é lá com ele. 
O que, apesar de tudo, me parece que continua a valer a pena, é pensar e repensar a profissão de livreiro e a persistência das chamadas livrarias independentes em procurar o seu público, aquele que não pode ser bem servido onde os editores preferem que ele tenha de ir e para onde tantas vezes inconscientemente se deixa levar.
Ou o meu anónimo comentarista julgava que eu estava a acusar os editores daquilo que sempre os livreiros consentiram e tiveram de consentir por falta do peso que só teriam se falassem a uma só voz?

2
Como é possível criar um equilíbrio entre editores e livrarias independentes que torne casos destes ou impossíveis ou determinantes de limpeza geral de confusões?

Alguém me explica ou me pede que tente explicar o sentido ou sentidos desta pergunta que fiz no post que talvez possa dizer-se ter sido atacado não só anonimamente, mas também com despropositada «fúria»?

3
«Se se continua a editar é porque vale a pena».

Mais uma, e com esta me fico: também estou a concordar.
Quanto mais se editar, melhor. Quanto mais palha, mais grão. É preciso mais cuidado para encontrar o grão? Responder com uma melhor crítica e melhores livreiros. Acima de tudo com os melhores leitores, os que sabem o que querem.

O meu cumprimento:
Passar bem, mesmo aí, no avesso do seu B. I.!
Só esse avesso me impede, depois deste encontro no meu, de lhe propor um encontro amigável no seu campo.
L. V.

É SÓ UM PEDIDO: PODEM COMIGO APLAUDIR?

Aplaudir, sim! Por favor…
Não é todos dias que se consegue encontrar uma tomada de atitude como a que aqui vem:
http://fontedeletras.blogspot.com/2011/09/um-dia-de-furia.html

Dito isto…
Como é possível criar um equilíbrio entre editores e livrarias independentes que torne casos destes ou impossíveis ou determinantes de limpeza geral de confusões?
Se os editores se permitem abusar dos livreiros é porque estão convencidos de que estes não se safam sem eles. Os livreiros têm é que aguentar e engolir. Não têm peso.
Será mesmo que não têm? Ou não são capazes de dar um impulso colectivo ao seu lugar no Mundo do Livro?
A única solução é chegarem, os livreiros, a um patamar em que tanto precisem dos editores como estes deles. O resto é permanecer no primitivismo dos séculos em que o livreiro produzia e era ele que vendia o que editava. Por esmola fazia um descontozinho a uns curiosos que o ajudavam a escoar o produto.
Até agora todas as iniciativas de criar solidariedade entre os livreiros portugueses não passaram de tentativas. Faz impressão! Somos mesmo um país de improvisos milagrosos!
-Milagres?  
-Desde Ourique, desde que Portugal nasceu, como se conta. E vão ter de continuar, pois não se vê saída nem quem a queira… Quem suspire não falta, nunca faltou, mas querer? Isso aí… 
-E D. João II?  
- Um milagre na nossa história, não duvides. A educá-lo, um homem de sólida cultura e o mar aparece aos olhos de um povo que, devido a outro rei culto, teve pinheiros para construir caravelas.
O nosso mar é o mesmo e mais vasto. Ou já não é navegável? Ou é intolerável esta descrença em que nestes nossos tempos possa haver chefes capazes de...? 
A sério: somos um país «com mais sorte que juízo»! Não concordam, amigos? Ou será que… Gostava de ver, de, com estes olhos já gastos, ainda ver!
L. V.

domingo, 18 de setembro de 2011

«Dançamos todos, uns com os outros»: Um abraço para Niels Fischer


«A (…) extraordinária aventura cultural que desde 2005 e por todo o nosso país vem vivendo e levando a viver o designer dinamarquês Niels Fisher de há muito entre nós radicado (…)»…
http://chapeuebengala.blogspot.com/2010/04/niels-fisher-23-e-24-de-abril-de-2010.html
1
Neste momento, onde está a Exposição de Niels Fischer sobre Hans Christian Andersen? É só abrir o seguinte sítio:
http://www.cm-penamacor.pt/cms/images/stories/noticias/jornal_n1.pdfimage                                   image

2
O poema de Hans Christian Andersen que Niels Fischer traduziu e leva consigo para onde vai e para onde leva quem lhe abre as portas:
 
"Toca, alegremente, o Violino,
Tudo dança! Dou a minha Palavra!
Olha, a Terra gira à volta do Sol,
E a Lua à volta da nossa Terra;
Dançamos todos, uns com os outros,
Até o Coração anseia avançar.
E, se o Vinho sobre à Cabeça,
Temos a Sala, também, a dançar.”

Ler mais:
http://www.luso-poemas.net/modules/smartsection/item.php?itemid=308#ixzz1YJDYH7kv

3
http://penasdegalinha.blogspot.com/2009/03/niels-fischer.html
Sábado, 28 de Março de 2009

NIELS FISCHER

O designer, Niels Ficher veio da fria Dinamarca para nos aquecer com a sua amizade.

Conheci-o num feliz acaso, quando fui com a Cristina a Setúbal ao Museu do Trabalho Michel Giacometti, ver uma exposição sobre Hans Cristian Andersen.

Desde 2006 até hoje temos “colaborado” e cimentado uma “amizade para a vida”.

Niels Fischer tem, neste últimos anos, divulgado a vida e obra de Hans Christian Andersen de norte a sul (passando pelas ilhas) de Portugal. Tem sido o maior embaixador da Dinamarca e deste magnífico “artista” que é Andersen.

Em Alcochete, esteve três vezes, colaborando com todas as escolas do Concelho, desde o pré-escolar até ao ensino secundário. Todos ficámos a conhecer Hans C. Andersen através da realização de trabalhos baseados nas suas obras que é a melhor maneira de se conhecer alguém…entrar dentro das suas criações e transformar, recriar, inventar, fantasiar partindo do que nos foi oferecido.

Um abraço enorme, apertado, de tirar o fôlego a Niels Fischer!

Publicada por Fernanda Azevedo em 11:52


Como Niels Fischer viu e sentiu o Casal Popular da Damaia

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No mês de Outubro de 2010, convidámos Niels Fischer a visitar o Casal Popular. Mostrámos-lhe a Associação, os espaços, as actividades…

Pedimos ao designer que nos fizesse um “boneco”, uma imagem que pudesse simbolizar o Casal Popular da Damaia, para a podermos usar como logótipo da Associação.

Com um sorriso misterioso, aceitou o desafio e, passado uma semana, apresentou-nos, um projecto, acompanhado de um texto, que nos levou à comoção. De facto, o génio de Niels Fischer traduziu numa imagem aparentemente simples, toda a dimensão do Casal Popular: a pessoa humana na sua diversidade a dominar as atenções, envolta numa nuvem de sonho e poesia, que são as diversas actividades da Associação.

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Casal Popular

Homem e mulher, criança, jovem, adulto, idoso,

todos são parte da figura humana,

e das actividades do Casal Popular da Damaia.

O exemplo de actividades vem do fantástico – as Borboletas sugerem a presença dos minúsculos Elfos,

que são seres que vêm da natureza e nela vivem;

eles são infantis e brincalhões, as suas casas são as flores, baloiçam nas gotas de orvalho,

voam nas borboletas e dançam nas sementes dos cardos quando levados pelo vento.

Sabem dançar, cantar, fazer teatro, vertir-se elegantemente

e produzir maravilhosas obras de arte de teias de aranha, de orvalho e do brilho do luar.

Os Elfos são seres tímidos, sensíveis, inocentes e

nobres de espírito;

eles são invisíveis para o comum dos mortais que só, excepcionalmente, os vêem.

Eles vêem tudo e

sabem vingar as maldades dos seres humanos.

A Niels Fischer, pelo seu talento, a sua generosidade, o seu humanismo, a nossa mais profunda e sentida gratidão.

image004Niels Fischer

“… um homem de uma grandeza fora do comum e de uma bondade inigualável, que, não sendo português, se apaixonou em Portugal e se apaixonou por Portugal.

Esse homem inigualável é Niels Fischer, que tem divulgado Andersen de norte a sul de Portugal e também nas ilhas.

O seu encanto natural, a sua coragem e vitalidade; o seu amor a Andersen, em particular, à arte, em geral, e ao ensino humanista; o seu propósito de estar connosco e com outros meninos e meninas, jovens, pais, educadores, professores, tornam-no, a nossos olhos, muito especial.

Rudolf Steiner, um pedagogo austríaco, afirmou que «A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar um propósito e uma direcção para as suas vidas.» Também Niels Fischer nos faz sentir que é assim!
http://casalpopular.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=43:como-niels-fischer-viu-e-sentiu-o-casal-popular-da-damaia&catid=10:actividade-recreativa-e-cultural&Itemid=23
http://nathaliearmindo.blogspot.com/2008/01/homenagem-niels-fischer.html

5

(Quem o desejar poderá ir destas a mais referências pesquisando em sites e blogues de norte a sul do país).

6
Interrogas-me sobre a razão de novamente hoje para aqui trazer Niels Fischer?
No dia 15, «Dia de Bocage e da Cidade», fui ao Salão Nobre para lhe dar um abraço, mas faltaram forças para esperar que terminasse a longa sessão…
Só hoje, por telefone, é que…
Fiquei muito contente! O município de Setúbal a pagar uma dívida que vem crescendo desde 2005.
Niels Fischer e a sua atenção para com a memória setubalense de Hans Christian Andersen:
 http://www.mun-setubal.pt/pt/noticia/municipio-atribui-medalhas-honorificas/207
A Câmara Municipal aprovou ainda a atribuição da Medalha de Honra da Cidade, na classe Atividades Culturais, ao artista dinamarquês Neils Fisher (sic) pelo projeto “Hans Christian Andersen”, que incluiu a exposição “O Canto do Elfo” (…).

7
Em PAPEL A MAIS, na pág. 227, Francisco José Viegas pode já não se lembrar, mas estou em crer que não passou por cima destas linhas:

«Posso pedir a alguém, quer do Ministério da Cultura quer do Ministério da Educação, que preste a devida atenção ao que Niels Fischer fez e continua a fazer por todo o nosso país pela divulgação da vida e da obra de Hans Christian Andersen?».

L. V.

sábado, 17 de setembro de 2011

UMA PÁGINA DE ANTOLOGIA SOBRE A NOSSA PROFISSÃO DE LIVREIROS

Daqui
http://encontrolivreiro.blogspot.com/,
vim até aqui:
http://fontedeletras.blogspot.com/2011/09/fonte-de-letras-established-since.html
Fiquei emocionado, ilustrado e deliciado. Congratulemo-nos todos, com esta página, este poema, este retrato. Mote para um conto-canto-investigação que muito mais mostraria do muito que neste belo texto vai contido, no não-contado, apenas sugerido.
Com licença, vou calar-me e ouçam, melhor dito, leiam, p. f.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Fonte de Letras ESTABLISHED SINCE 16.09.2000 numa pequena cidade do interior.
Numa terra pequena há “capelinhas” - os da rua de cima que não gostam dos do clube do amarelo inimigos dos do partido preto e os que sempre tiveram o sonho de ter uma livraria – só um equilibrista se aguenta sem mossas.
Numa terra pequena as pessoas acabam por ser sempre as mesmas e, se às vezes lhes apetece tagarelar e até fazer confidências, noutros dias é preciso adivinhar que é "dia não”. Um livreiro é um bartender.
Numa terra pequena se o livreiro vai ao ginásio ou à piscina pública tem que se despir e tomar duche ao lado dos seus clientes. No dia seguinte voltamos a dizer “bom dia” com cerimónia.
Numa terra pequena ter uma porta aberta e opinião cívica é estar sujeito a perder clientes, às vezes aqueles que compram mais.
Numa terra pequena um livreiro escolhe a escola dos filhos pelo professor que conhece os melhores livros infantis. Que sorte!
Numa terra pequena conhecem-se as pessoas pelos livros que lêem e sabe-se quem são as pessoas que não lêem.
Numa terra pequena os clientes batem-nos à porta de casa mesmo ao dia de folga, informados pelos vizinhos a quem nunca demos a nossa morada. E é preciso sorrir sempre.
Numa terra pequena o livreiro conhece o amor da sua vida discutindo livros e autores. É romance mas não é ficção.
Helena Girão Santos, 11 anos de livreiro em Montemor-o-Novo.
Fonte de Letras, desde 16.09.2011.

Que me dizem?
Valeu a pena?
Os meus parabéns a Helena Girão Santos por estes 11 anos e mais que parabéns os meus respeitos, com votos de futuro aberto ao melhor.
Podia ter-me contentado com remeter para o respectivo endereço do blogue, como até remeti, mas quis assim, por…
L. V.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

QUE ABUSO! NUM BLOGUE? VAI-TE VESTIR!

Bom dia!

E que dia!
Ontem fez um ano que fumei o último cigarro. Hoje faz um ano que passei por uma aflição de asfixia por que aos catorze anos vira passar o tio Jacinto Bento, conterrâneo acompanhante até ficar sem fôlego do cantador das festas do Espírito Santo.
Vira-o, sentado, também ele, na beira da sua cama,
amparado pelo filho,
a puxar pelo fôlego até lhe pender a cabeça para o lado…
E lembrava com frequência…
E pensava que...
Mas,
afinal,
não fazia ideia do que era verdadeiramente,
porque nunca antes,
nos meus mil anos de experiência das aflições da vida,
passara por uma aflição assim.
Um ano depois continua a fazer-me muita impressão,
essa experiência.

Por ela em si?
Ou mais pelo que revelou

quer da impossibilidade de,
acerca da vida,
ficarmos a saber alguma coisa antes

quer da inutilidade, para o depois,  
do que se chega a aprender?


(Schi! Que ridículo e intragável pequeno almoço!....).
V. L.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

VARIAÇÕES SOBRE ANTERO - I

Manuel:
E' interessante esse teu entusiasmo pelo nosso Antero.  Que isso não passe das (…)!
(António)

Caríssimo António,
da tua mensagem amiga trago para aqui com cuidado, o cuidado que se deve aquilo que o merece, três sublinhados:

*entusiasmo,
*nosso
e
*não passe.

*
Entusiasmo
–Antero está tão perto do essencial e tão despido de todo o conforto dos deuses e de nossas comuns presunções… 
O essencial do ser humano que somos, não sendo, talvez ou sem talvez, assim tão corajosos para vivermos despidos o quanto ele se arriscou a viver...
Como reages perante um SANTO?
Como reages perante um GÉNIO?
Basta que os encontres e te permitas encontrar-te a ti, quando perto deles. Aí o teu reagir só pode ser de...        
Antero, santo e também génio; génio e também santo. Quem o disse foi o Eça, mas muitos sentiram e sentem o que ele é que disse. E percebe-se bem porquê. Entusiasmo? Um modo de entusiasmo que…

*Nosso: 
Afecto!  O nosso comum afecto por Antero. E por isso já propus e proponho uma Fundação Antero de Quental. Com que fins? Com que meios? Acima de tudo, com quem? E ainda, quando? As nove ilhas açorianas a concordar,  a con-cor-dar?
Utopias, estarás a dizer e a repetir!… 

*Não passe:
Provavelmente,  a lição de Antero, ao partir, ficou suspensa na respiração da ilha. Creio que posso dizer que senti isso. E não devo ser caso único. A Ilha de Antero. A nossa.
É bem certo: devemos tentar entender-nos com o que nos diz o terceto final do soneto que já aqui lemos:
 
Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo e adorar-te,
Não-Ser, que és o Ser único e absoluto.

Mas…-Impressionante este nosso Mestre, ao estudar-se a si próprio! É antigo, o «conhece-te a ti mesmo».
 
Antero não nos permitiria segui-lo só por o admirarmos e por respeitarmos a sua decisão final, a tragédia do Campo de São Francisco. Tão
desoladora para o nosso afecto, essa tragédia do nosso Campo de São Francisco! Roubou-nos tanto! Esperava-se tanto! Aquela criação de uma nova filosofia, hoje está mais perto, mas se calhar ainda longe do que Antero deixou entrever… 
Não. Não no-lo permitiria quem de si escreveu:
Li depois muito de Hegel (…). Não sei se o entendi bem, nem a independência do meu espírito me consentia ser discípulo.
(Carta Autobiográfica a Wilhelm Storck, Cartas II, Org. Ana Maria Almeida Martins, carta 524)

Sublinha, por favor, caro António:
nem a independência do meu espírito me consentia ser discípulo.
Que com Antero se aprenda muito, que nos mereça uma admiração ilimitada, mas não uma imitação acrítica. 
É evidente e aplicável à vida e à obra. Até porque…
Tu, um santo? Creio bem que sim, pelo que vejo. Não te imito, mas falo com entusiasmo das tuas qualidades.
Tu, génio e eu a querer imitar-te? Vamos com mais cuidado… Pode ser?
R. V.

domingo, 11 de setembro de 2011

ANTERO DE QUENTAL: O ÚLTIMO DIA

1891 - 2011
Antero de Quental  11 de Setembro
O ÚLTIMO DIA - HÁ CENTO E VINTE ANOS
I
A quem hei-de pedir que escreva o meu desejado ensaio «ANTERO E A MORTE»?
No entretanto, vou em progredir, nesse meu desejo, lendo e relendo na obra em verso e prosa do nosso Grande Mestre ANTERO DE QUENTAL  o que ao tema se encaminha directa ou indirectamente.
«A MORTE DE ANTERO» é tema bem diferente, como se compreende. Mais frequentemente abordado, este. Ainda assim, não consigo apagar o bem mais antigo desejo de que se procure ver o suicídio de Antero a outra luz, pelo menos também a outra luz: a de uma razão que serenamente coexiste com convulsivas emoções e de um carácter firme, uma firmeza acima de quaisquer acobardamentos, firmeza perante fosse quem fosse e fosse o que fosse, a morte, por exemplo. A coerência! A grandiosa coerência de Antero!

II
Relê comigo o conjunto de sonetos «ELOGIO DA MORTE», vou pedir licença para transcrever para aqui apenas o último dos seis, mas deixa-me começar pelos primeiros dois versos do terceto imediatamente anterior, o que fecha o quinto e em que posso surpreender, parece-me, muito mais do que nele li noutras vezes ao longo dos últimos sessenta anos. Talvez um dia voltemos a encontrar-nos de volta a este conjunto de sonetos, porque algo de interrogativo me chega de ter sido escrito e publicado no momento em que foi. 

«Dormirei no teu seio inalterável,
Na comunhão da paz universal»


Agora vamos ler o soneto VI:

Só quem teme o Não-Ser é que se assusta
Com teu vasto silêncio mortuário,
Noite sem fim, espaço solitário,
noite da Morte, tenebrosa, augusta…

Eu não: minh’alma humilde mas robusta,
Entra crente em teu átrio funerário:
Para os mais és um vácuo cinerário,
A mim sorri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e inefável
E o silêncio sem par do Inalterável,
Que envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo e adorar-te,
Não-Ser, que és o Ser único e absoluto.


Tenho de abster-me: descabidas aqui as exuberâncias que…
Só isto: não é fácil absorver esta aparente contradição de um «Não-Ser» que é o «Ser», mas é aí que…

III
BIBLIOTECA COSMOS
Direcção do Prof. Bento de Jesus Caraça
(da Universidade Técnica de Lisboa)
N.º 17          5.ª Secção – N.º 3 – Biografias
ANTERO DE QUENTAL
por MANUEL MENDES
*
Este volume acabou de se imprimir aos 12 de Maio de 1942.
-Foi composto nas oficinas das edições Cosmos, rua da Emenda, 111-2.º


1942?
Estranho! Não encontro neste livro uma evidente ligação da sua publicação com a ocorrência do I Centenário do nascimento de Antero. Aguçada a curiosidade: como foi, desse centenário, a comemoração?

Uma citação da «Nota Preliminar» deste volume da nossa conhecida e tão celebrada Biblioteca Cosmos:
Raro é o escritor português que tenha merecido tamanha atenção e tão grande diversidade de estudos, como mereceu Antero, nestes últimos cinquenta anos, que tantos são os que nos afastam da sua morte.
Sabemos que assim é e com terem passado mais setenta anos confirma-se e reconfirma-se.
Mas eu não sabia… E… e… devia! 

Devia saber, devia, e já há umas quantas dezenas de anos, que também Manuel Mendes e a Biblioteca Cosmos tinham entregue à minha leitura esta biografia de Antero de Quental…
Esta biografia que, precisamente há oito dias, fez ontem, sábado, no seu cuidado e nosso empenho em enriquecermos a nossa anteriana,  a Fátima adquiriu e veio colocar de prenda sobre a minha secretária, para que de surpresa a encontrasse. 
Um breve passeio de sábado à tarde oferecido a sua mãe, que manifestou o desejo de  ver a Feira das Velharias, na Av. Luísa Todi, e a Fátima, por feliz acaso…

Com um pedido de desculpas, outra vez este «copiar»-«colar»:
«Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…»

É que não estava nada a pensar neste ir a sessenta anos atrás nem para o meu primeiro encontro com Antero nem com Afonso Duarte ou Raúl Brandão, que também nesse então me apareceu com Os Pobres.

Isto foi no sábado, e no sábado só dei uma agradecida vista de olhos. Mas no domingo sentei-me a ler e…, pronto!, a semana toda com Antero e o seu 11 de Setembro. Que é hoje. E cá estou: preso! 
Pois! Preso! E de tempos a tempos é isto. E fica sempre em insatisfação o que se aprende de novo com ou sobre Antero, porque é muito o que se percebe que falta e se tem de adiar…

«E se viesses aqui ao «Chapéu e Bengala» com alguma frequência e sequência e chamasses a essas vindas VARIAÇÕES SOBRE ANTERO?»
Unh!
Estás a desafiar-me, a provocar-me, a medir-me, para veres até que ponto vai o meu atrevimento de ignorante, bem sabes, mas de velho, bem vês? As condescendências: «aos velhos e às crianças consente-se que…»?!!!
Resposta: «ao menos tu já devias ter percebido quanto não conto comigo, conto cada vez menos e com razão… Não te devo nem deverei promessas de um tal género». 
IV
O ÚLTIMO DIA,
assim contado  em «Antero de Quental por Manuel Mendes», páginas 94-96 (Passagem longa de mais para um blogue? É por respeito. Tens o livro?  Muitos dos nossos amigos não terão tido a minha sorte e alguns vão mesmo achar que valeu a pena abrir-lhes estas três páginas, espero eu.): 

Tinha alugado uma casinha, num sítio retirado do centro da cidade de Ponta Delgada, no lugar chamado São Gonçalo, e mobilou-a, no intuito de aí se instalar com a irmã e «as pequenas», casa que abandonou, não se sabe porquê, para ir viver de novo na residência do seu amigo José Bensaúde, a quem, do continente, em carta, tinha pedido guarida.
(…)
Bensaúde escreve (…): «Resolvido a embarcar, foi a 10 instalar as pequenas numa casa de gente modesta e séria, em espécie de pensão, para lá lhe ensinarem trabalhos domésticos, até que de Lisboa diligenciasse fazê-las reentrar no asilo donde saíram.
«E as crianças que tomaram esse facto como início da separação
, choraram muito, e levaram-no a fazer o mesmo, o que lhe tirou o sono quase toda a noite de 10 para 11. Almoçámos a 11, cavaqueámos à mesa mais de 1 hora em assuntos em que pretendi animá-lo: e depois de eu sair (à 1 hora), ele saiu às 2 e 1/2 indo levar à irmã algum dinheiro em ouro que tinha, para ela «guardar aquilo, porque ele podia faltar»…
«Resolveu-se entre a 1 hora, em que eu saí, e as 2 e 1/2 em que saiu ele, vestido excepcionalmente de preto, a levar o dinheiro à irmã, a ver dois amigos e comprar o revólver.»
Antero, de facto, dirigiu-se a uma loja de quinquilharias, e, a pretexto de ir residir num lugar ermo, afastado da cidade, compra um revólver e pede que lho carreguem pois «nunca pegara em arma de fogo».
«Estava perfeitamente calmo e tranquilo.
«-Ouvi  contar, disse-lhe o empregado, que o senhor doutor seguia para Lisboa?
«-Pensei nisso, mas desisti, em consequência de ter passado ultimamente melhor.
«Tirou em seguida da algibeira algumas libras, e disse ao empregado que se pagasse, pois não estava habituado a fazer dedução de moeda fraca
(Havia então diferença entre a moeda que corria no continente e a que corria nos Açores). Em seguida retirou-se» (Alice Moderno, In Memoriam, pág. 205).
Visitou , nesse dia ainda, um parente, com quem esteve conversando sossegadamente. Levava o revólver embrulhado em papéis.
Foi, pouco depois do anoitecer, sentar-se num banco da praça pública, no Campo de S. Francisco, encostado a um muro da cerca dum convento, onde, num desenho, uma âncora se entrelaça com a palavra
Esperança. Meteu o revólver direito ao céu da boca e desfechou duas vezes.
«Entre os dois tiros – é Bensaúde que conta – mediou o tempo necessário para um polícia, que ouvira confusamente o primeiro, andar devagar na direcção dele uns sessenta metros – 40 a 60 segundos. Uma bala saiu pela saliência óssea do nariz, ao pé dos olhos, e a outra penetrou pela abóbada palatal no cérebro. Parece que o infeliz inclinara a cabeça para trás, para introduzir o revólver na boca com comodidade, mas que o primeiro tiro, dirigido muito em sentido paralelo à tangente vertical da cara, foi o da bala que saiu pelo osso do nariz, e que depois de 40 ou 60 segundos, consciente de que assim não morria, resolveu um segundo tiro, mais na direcção do cérebro.»
Transportado para o hospital, prolongou-se-lhe a vida ainda durante cerca duma hora, numa pavorosa agonia – «dois homens não podiam sustê-lo nas contracções» – acabando por se lhe derramar a massa cerebral.
Buscou assim, no dia 11 de Setembro de 1891, pelas suas próprias mãos, a libertação na morte.

V
Comentar?
Abstenho-me, só este «copiar-colar» do post anterior:
«Temos uma descrição pormenorizada. O último dia de vida de Antero de Quental sempre e cada vez mais a interrogar-me sobre a sua grandeza e a lição que ele é. Não apenas pela obra. Ele, como ser humano excepcional. A sua presença no seu tempo e para todos os tempos».
Se tiveres ainda tempo e não estiveres muito cansado, podes complementar a descrição do último dia com a leitura em José Bruno Carreiro (Op. citada no post anterior, pág. 125) do «assento de óbito». O sentimento do capelão do hospital numa escrita que…

E foi «A MORTE DE ANTERO». Assim. Impressiona… Volta sempre impressionar...
Quanto ao outro tema, «ANTERO E A MORTE, podes fazer-me o favor (desculpa a maneira não-académica de referenciação de livros) de abrir o ÍNDICE TEMÁTICO, palavra MORTE, página 269, e depois ir a cada uma das páginas aí mencionadas, do seguinte volume: 
OBRAS COMPLETAS 
ANTERO DE QUENTAL 
FILOSOFIA
Organização, introdução e notas de JOEL SERRÃO
UNIVERSIDADE DOS AÇORES
Editorial Comunicação.
É só para não pensares que o ensaio que desejo pode começar duma página em branco.

VI
Na badana da contracapa de 
Ana Maria Martins
ANTERO DE QUENTAL
FOTOBIOGRAFIA
INCM
«Acabou de imprimir-se
a dezoito de Abril de mil novecentos e oitenta e seis»:

…Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana, e, como diziam os antigos, na paz do senhor! –Assim o espero.
Antero
(Carta autobiográfica
a Wilhelm Storck, Maio de 1887)

R. V. / L. V.

sábado, 10 de setembro de 2011

«LIA… LIA… LIA» – Ler Antero, o nosso grande Antero!

Açores, S. Miguel, Ponta Delgada:
1842 -  o nascimento
a 18 de Abril.
«Homem! Homem! mendigo do Infinito»
Açores, S. Miguel, Ponta Delgada:
1891 - o suicídio
a 11 de Setembro.

I
JOSÉ BRUNO CARREIRO
ANTERO DE QUENTAL
Subsídios para a sua biografia
2.ª Edição
Instituto cultural de Ponta Delgada
Página 17:
«Lia muito, lia sempre e lia tudo», diz o seu condiscípulo Raimundo Capela (…). Outro contemporâneo, o Visconde de Faria e Maia, diz que era «ávido pela leitura» (…). Em 1887, na Carta Autobiográfica, ao descrever a sua entrada aos dezoito anos para o «grande mundo do pensamento e da poesia»,  Antero aludirá às «caóticas leituras» a que então se entregava, devorando (…).

II
Como encontraste ANTERO DE QUENTAL?
Para muitos, também para mim, os Sonetos como primeira aproximação a Antero.
Verão de 1951, quinze anos, férias na aldeia, um vizinho empresta-me os SONETOS.
Podes ler comigo, por favor, os dois versos finais do soneto intitulado de AMARITUDO?

O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?

Leio isto hoje, já velho, e…
Pois!, a velhice!…
Agora imagina um mocinho de quinze anos a ler este soneto nas suas noites de ler muito pela noite dentro, em um fim de mundo de silêncios, à luz do candieiro de petróleo…

III
Leste o que deixei escrito no post anterior?:
Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse Setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…
É!
É isso mesmo!
Uma atenção para mais sessenta anos sobre aquele 11 de Setembro, para mim tão doloroso quão respeitado, o do Banco da Esperança, em 1891.
Comecei a ler Antero, o nosso Santo Antero, quando se cumpriam sessenta anos sobre o seu último dia, um último dia sobre que tentarei pedir-te que nos detenhamos. Temos uma descrição pormenorizada. O último dia de vida de Antero de Quental sempre e cada vez mais a interrogar-me sobre a sua grandeza e a lição que ele é. Não apenas pela obra. Ele, como ser humano excepcional. A sua presença no seu tempo e para todos os tempos. 
11 de Setembro de 1891. Em 1951 tinham passado sessenta anos. Mais sessenta e estamos em 2011.
Como achas que juntos podemos melhor assinalar os 120 anos sobre a morte do nosso Antero?
L. V.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

«ALMA DA MINHA VIDA»

E já lá vão sessenta anos!… De Setembro de 1951 até este de 2011. Cumprem-se-me, por estes dias, sessenta anos de leitura constante da poesia de Afonso Duarte. Acabava o verão quando me veio às mãos o seu Ossadas.
Nesse verão…  
Antes de continuar, porém: «Sessenta anos e constantemente?! Porquê?».
Em resposta, posso pedir-te que leias comigo o poema de
Ossadas que hoje, sabe-se lá porquê,  veio pedir-me que o lesse mais uma vez?   
CÂNTICO
Não me dói a velhice
Do mundo.
Disse.
Não me dói nada.

Alma desprendida,
Canta, ri.
Saboreia o travo amargo
Do mundo que talhaste para ti.

E daí,
Do poço fundo e largo
Onde escreveste: cumpri,
Alma da minha vida,
Canta, ri.

Sim: É este o preço
Por que eu meço
Os mistérios do mundo.

O mundo!? – este desgosto
De ir pelo mundo, só de ir:
Um fogo posto
Exactamente à hora de partir.

Alma desprendida,
Alma da minha vida,
A mim que me dói toda a velhice do mundo?
Se o corpo dois palminhos são de terra,
Olhos! – fechai-vos ao mundo.

Diz-me:
mantemos a pergunta? 
Estou em preferir que deixemos as coisas neste ponto:
permites?
Efectivamente…
É que após a leitura deste poema ou já estás a compreender a razão porque fiquei preso à poesia de mestre Afonso Duarte e iria distrair-te do que ficaste a pensar e sentir ou ele nada de especial te disse e aí… vou eu acrescentar o quê? Respeito que tu não aprecies e tu respeitas que eu admire e deseje que este excelente poeta do nosso século XX seja mais lido.
Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…
Ficamos assim ou…?
Que dizes?

L. V.
P. S.
Agora me lembro: já aqui no «Chapéu e Bengala« te lera Afonso Duarte.
Importas-te de confirmar? Vê lá se te recordas desta pequena magistral lápide:
«O homem distrai-se e corporiza
Memórias de doutrina
Que em séculos de vida o não ensina
A ser o que precisa».
Acho que ta transcrevi. Confirma-se? Esta outra é que acho que não:
«Carrega-te de afecto nas palavras,
No gesto e luz dos olhos:
Colherás oiro do chão que lavras,
Rosas e não abrolhos».
                           (De Lápides, poemas V e IX)
Um verdadeiro Mestre!
Por estas e outras é que o admiro há sessenta anos. Cumprem-se agora.
L. V.

domingo, 4 de setembro de 2011

HENRY MILLER: «DA OBSCENIDADE AO CÂNTICO ELEGÍACO»

CONVITE
*A1*
«Pelo verbo, pela imagem, pelo acto, todas estas abençoadas almas que me fizeram companhia testemunharam a eterna realidade da sua visão» (H. M. em O Sorriso aos Pés da Escada, no Epílogo, já ao fim).
Direi que está provado: é bruxo! Escreveu estas palavras num tal e qual em que posso aqui e agora dedicá-las aos meus amigos.    
*A2*
O nosso generoso Onésimo comentou assim, como se viu, a passagem de Viragem aos Oitenta ou seja o post que intitulei por «Minha Visão das Coisas»:
«Henry Miller era bruxo. Como é que…?». 
É favor abrir o comentário, relê-lo e sublinhar o «bruxo». E já se vai justificar o pedido. 
*A3*
Em seu estilo de PAZ, um dos nossos amigos comuns escreve-nos assim, num comentário por e-mail:
Li a citação de Henri Miller  e fiquei a interrogar-me se se trata mesmo do dos “Trópicos”. É que ‘esta coisa’ que ele escreveu disse-me ‘coisas’.

O PALHAÇO
*B1*
Bruxo?
E vai daí…
É que, de certo modo, pode dizer-se que é de bruxo fazer de si o que fez H. M., como personagem que é, qualquer escritor o é, de um papel nas Letras. No entanto, o que ele disse, me disse de si na primeira leitura que fiz de um livro seu , foi que era um palhaço:
«Meditando (…) dei-me a pensar no palhaço que sou, que sempre fui».
Bruxo quem?! Pois! A vida vai-se dizendo, até que… «disse»…
*B2*
«Da obscenidade ao cântico elegíaco – tal é a viagem de Henry Miller, o outsider permanente»:
isto escreveu Vítor Silva Tavares quando tinha vinte e nove anos e já… (Bom! Não avances! Etc.! Um excêntrico editor, felizmente!). É do Prefácio, que é dele,  na encantadora edição da velha Ulisseia: «tal é viagem (...)».
Ulisseia! E... anos sessenta!
«Este livro foi composto e impresso para a Editora Ulisseia, aos 5 do mês de Dezembro de 1966, na Companhia Editora do Minho – BARCELOS».

«O MESTRE DA INÉPCIA»
*C1*
Lê meu amigo! Lê, sobre a estupidez humana, essa página de O Sorriso aos Pés da Escada  em que (ao menos nesta tradução, mas noutra deve ser igual ou parecido…) vem inserida esta expressão: «o mestre da inépcia»!
É um pequeno-grande livro, este pequeno livro, que entre nós já apareceu em diversas edições e editoras. Vais ter que o ler todo, se leres esta boa página. Até diria que ainda melhores, algumas. Portanto…
*C2*
É pois de ABC o que temos a dizer um ao outro, ó pacífico amigo:
eu surprendido quando depois encontrei o outro, o dos Trópicos, e agora surprendes-te tu quando te aparece o H. M.que primeiro li! Embora este o tenhas agarrado por essa preciosidade que é a Viragem aos Oitenta e eu por essa outra também excelente, O Sorriso aos Pés da Escada, que por sorte apanhei nos tais anos sesssenta. Os tais!...     
É assim: ler tem disto…
Isto de ler!…
Oh! se te pusesses ou me pusesse eu, até eu, a falar e a falar e a falar de «os livros da minha vida»!…
Tu bem sabes, muitos sabem, felizmente, o que tanto falta/faltou ler e, apesar disso, também o muito que...
*C3*
Resta só lembrar esse outro monumento que nos deixou Henry Miller: Os Livros da Minha Vida (Antígona). Embora de algo mais de sua extensa obra haja traduçao entre nós, este livro é realmente…
L. V.