domingo, 30 de outubro de 2011

JOÃO JOSÉ PEREIRA DA SILVA DUARTE

Setúbal . 5 . Junho . 1918  –  Würzburg . 23 . Outubro . 2011

In Memoriam a seguir a In memoriam. Domingo após domingo, «como se o domingo tivesse sido propositadamente escolhido»…

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Foto:
Silva Duarte na sessão de 19/5/ 2002 na Culsete em que faz a 
entrega à Gailivro dos originais da sua monumental tradução
de
HISTÓRIAS E CONTOS COMPLETOS DE H. C. ANDERSEN

Há uns tempos largos que só falávamos com a D. Maria José, a Ex.ma Sra. D. Maria José Käser Vieira, a dedicadíssima esposa que a meio da semana  finda, quando algum repouso lho permitiu, nos deu a notícia das últimas horas e suave passamento de seu marido, o ilustre e nosso querido amigo João José Pereira da Silva Duarte, o Silva Duarte dos livros e o J. J. Duarte da pintura.
Foi um desgosto grande, o de apercebermo-nos de que a lucidez e a memória já não lhe permitiam dar-nos aquele enorme prazer que era ouvi-lo ao telefone, muitas vezes sobre as suas obras, das quais de vez em quando me ia enviando uma destas que tenho sobre a mesa e continuam inéditas.
Esperada, sim, esperada. E ao longo do muito tempo, esta notícia que finalmente chegou.
Recebida, porém, como um cúmulo desse desgosto em que já se vinha.
Dói…
 
Na foto acima as mãos acompanhando o discurso e na cadeira ao lado os quantos dossiês de Histórias e Contos Completos de H. C. Andersen, fruto de esforçado trabalho de dois anos, de Abril de 2000 a Maio de 2002,  muitos dias de oito horas. De cá íamos acompanhando com um misto de culpa, receio, admiração e alegria. É que aos oitenta e dois anos, como nos disse antes de se abalançar ao cometimento…A felicidade na voz, quando recebeu o  livro publicado! Sentiu que era uma excelente coroa de um longo percurso. 
Foi também nesse dia que revelámos à sua cidade natal que o conhecido tradutor era também um originalíssimo poeta e um pintor duas vezes originalíssimo.

É um dever compendiar tudo o que for memória possível do ilustre setubalense que passou mais de meio século a cultivar, a nível universitário, a língua e cultura portuguesas na Alemanha e a aproximar-nos das literaturas escandinavas.
Temos de voltar a Silva Duarte.
Neste melancólico silêncio de domingo de outono, porém, apenas este sentir-nos perto da sua arte, a sua pintura, a sua poesia. Em rito de sétimo dia.

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a noite vai cerrar-se cobrir toda a grande cidade grande e a ti seu habitante todas as destinações são já longínquas e todas as ausências mais se alongam uma respiração dominadora é agora toda a noite chegada profunda
(Silva Duarte, De Tarisi Capital da Taríntia, inédito)

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              afastado da pompa dos reis aqui te refugias na sombra dos bosques na velha floresta de verdura espessa e seu silêncio é-te doce no exílio em que estás adeus bailes danças e mascaradas agora só te encanta o murmúrio das fontes e o compassar de seus mistérios retirado assim da multidão para longe viver de vaidades e servidão doce é-te este silêncio no exílio que buscaste e tua paz é aqui profunda
(Silva Duarte, Tempo Barroco, inédito)

19

alegria muita colhes do vasto mar em seu melhor tempo quando ouves sua voz grandiosa de esperança muita e abraças sua saudação com sede eterna mas curto é o tempo e pronto para mudar seu brio marinho

ouves os ventos que passam e vês o sol em sua coroa luminosa descobres navios em mares infindos mais perto um galeão que navega por ondas altas e passas por ilhas a descobrir neste mar de aventuras que cruzas a enfrentar teu ânimo.
(Silva Duarte, Do Livro das Tuas Navegações – V, inédito)
L. V.

sábado, 29 de outubro de 2011

POR AMOR À ARTE - I

O senhor Henrique Machado é marceneiro. Trabalha agora sozinho, sem ajudantes, aprendizes muito menos. Ele… que foi aprendiz e depois mestre de muitos aprendizes, antes mesmo de ter oficina sua...
Agora?
Pois é, agora!
Às vezes ainda lhe aparecem alguns homens e rapazes a pedir emprego, mas sem sinal de amor à arte. Como a resposta até diz a verdade, o mestre esconde a sua verdadeira razão. Que já não vai em aventuras, mantém a oficina é só por gosto e já lá vai o tempo em que os filhos andavam nos estudos e era preciso facturar… Gente sem amor à arte a trabalhar com ele? «Estou bem sozinho». É muito trabalho, digo-lhe. «Vai-se fazendo». 
O senhor Machado pede o dinheiro que quer pelo seu trabalho. Os seus clientes conhecem a qualidade e não discutem preços.
Nunca lhe faltou trabalho e também nunca alguém o convenceu a trabalhar por amor ao dinheiro. Precisava dele e soube sempre fazer-se pagar. Mas o que mandou mais em obra das suas mãos ou dos ajudantes em quem  depositou confiança foi sempre o amor à arte .
Quem mo disse? Ele e a sua companheira da vida toda, a prática D. Maria que me comentou: «Ele exagera e sempre exagerou, podíamos vir a deixar uma fortuna aos nossos filhos. É verdade que estão bem, não precisam de nós agora e nunca lhes faltou nada para a sua educação, mas...».
A D. Maria diz isto à frente do marido. A repreender? Talvez um bocadinho, mas só um bocadinho. Percebe-se o orgulho que sente por ser tão apreciado o trabalho dele e por... «pessoas de tanto respeito». Menciona-me alguns nomes e agora sou eu que me sinto orgulhoso e privilegiado por me terem recomendado tão bom profissional.
Assim. Uma conversa tranquila. Ouvir com um gosto muito grande, enquanto ele, o senhor Henrique Machado, de lápis atrás da orelha vai, como quem as acaricia, passando a mão pelas peças que está preparando para serem mais uma estante igual às que lhe encomendei aqui há uns anos. É muito livro por arrumar…
L. V.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

UMA DAS MELHORES DO MÊS PARA RELER AMANHÃ E QUE FAÇA BOM TEMPO NOS AÇORES

Publicada por Pó dos Livros em 10/11/2011 
Protesto

Quando pretendemos protestar contra alguma coisa ou contra alguém devemos aguardar primeiro, pacientemente, que nos causem o maior número de injustiças possíveis. Creio estar na hora do protesto.

livreiro anónimo

E…
PARA QUEM ME PERGUNTAR ONDE TENHO A CABEÇA, aqui vai o endereço:
http://www.congressodolivro.com/programa/
L. V.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Não vou dizer nada Só ouvir E mais somente ler os vossos comentários Obrigado Artur

PEDE-SE UMA LEGENDA E MUITAS MAIS A QUANTOS AS TIVERAM DENTRO DE SI E ACORDARAM AO OUVIR GALEANO

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DESORDENS E ABUSOS vai a 10

passaste completamente absorvido e senti-me como se te estivesse a ver dum estado meu de invisibilidade e disse cá comigo «vai tão metido só consigo que não respeita ninguém» e foi aí que vendo-te já pelas costas como merecias te vi a sacudir qualquer coisa com a mão direita enquanto a esquerda em braço estendido já ia a meio caminho entre o tronco e o ombro e nesse ponto parou «não pode ir metido consigo» e então percebi que ias com a encrenca esta grande encrenca que veio parar à nossa freguesia ias com a encrenca a bordo para a atirares ao mar de um lado fazia de mosca e do outro puxava-te para o seu lado «canhoto canhoto» digo eu porque canhoto nem sempre é estar acusando um toque à esquerda pois sempre ouvi dizer que «o diabo tece-as» e essa encrenca maldita veio e não queria ir para longe do centro de gravidade que era o teu e onde se instalara e desenvolvia  uma verdadeira crise que não se fartava de provocar provocar e de novo provocar e  tão certa certinha estava de que tinha vindo para ficar e de que já tinha  a partida ganha mas apanhaste-a e surpreendeu-se porque pensava que é que te tinha nas suas poderosas mãos de vaca «moucha»  ferrão de vespa em disfarce de mosca e pés de cabra cabrita isso mesmo um monstro assim já não me aborreço desisto de te ver pelas costas e vou avaliar os estragos que a crise deixou para ter a certeza de que ainda assim ficou pão e conduto que dê para a ceia
V.L.

domingo, 23 de outubro de 2011

«toda uma vida dedicada a uma arte sublime» http://mysticpiano.blogspot.com/

1
«A notícia chegou brutal: morreu o Rui.»
Sábado, 22 de Outubro de 2011
Memória – Rui Serodio (1937-2011)
http://nestahora.blogspot.com/
2

O NOSSO SENTIMENTO DE RESPEITO E HOMENAGEM AO ARTISTA, AO HOMEM BOM, AO CONCIDADÃO INDISPENSÁVEL À VIDA CULTURAL DE SETÚBAL
http://www.youtube.com/watch?v=HQxE3Zxw2x4
Obrigado a Brissos Lino e seus colaboradores por um vídeo em tão boa altura oferecido a Rui Seródio e ao mesmo tempo tão apropriado para este doloroso momento.

3
«Pianista e compositor português, concentrei toda a minha actividade de intérprete e de compositor na criação de climas sonoros de grande serenidade, por improvisação ao piano sobre poesia ou pela construção de bandas sonoras, cenários musicais descritivos de espaços abertos e guias de uma viagem imaginária a horizontes remotos.
Neste meu site tento partilhar com toda a comunidade não só aquilo que já fiz, como também o muito que há para fazer. 
Espero que gostem.
Rui Serodio»
http://www.ruiserodio.com/index_port.html
4
O nosso sentimento de respeito e homenagem em comunhão com todos quantos guardam e guardarão do maestro Rui Serodio a imagem de um homem crente nos outros, sempre generoso  e dedicado tanto à verdade da sua música como a oferecê-la à comunidade, numa participação cívica exemplar. 
Fátima e Manuel Medeiros

sábado, 22 de outubro de 2011

QUE BASTE SENTIR

o céu limpou tens ainda luz do dia a coragem para continuar viagem está a segurar-se sobre uma precária serenidade e ao lado ouve-se esta notícia triste e com ela o esclarecimento do sentido da música como se o domingo tivesse sido propositadamente escolhido para um convite a guardarmos na memória esse sentido em definitiva verdade de um último dia


só por si as palavras não se dão a entender a música sim e por isso o poeta exige musicalidade verso verso para que  as palavras revelem o interior de si mesmas e musicar as palavras pode ser uma dupla revelação eu já vi e chorei comovido agradecido enriquecido

resta pedir que não queiras fazer as perguntas de quem não sente baste apenas sentir para que na sobriedade do entender a verdade seja também a tua uma verdade tua que sem palavras entendas e te encoraje a viagem num ambiente em que a música pode revelar o sentido do grande silêncio
R. V.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Caderno de SIGNIFICADO - VII

Já veio o novo JL, mas a quinzena do anterior não me trouxe de ninguém um eco que esperei. E na mesma semana em que o JL também Os Meus Livros e também a Ler me trouxeram muito para «significado» no caderno. E ainda houve…

JL
«Com a integração  da BN, da política do livro e dos arquivos no mesmo organismo, o que se pode ganhar?»
FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
«Ganha-se a existência de uma política para o Livro até aqui inexistente e que é prioridade para este Governo. Desde o reativar da rede de bibliotecas até aos apoios ao Livro e à tradução, esta integração na direção-geral do Livro, Bibliotecas e Arquivos permitirá reconstruir o que foi destruído e iniciar projetos indispensáveis orientados para a leitura e o Livro.»

E se desse para comentar e talvez até…?
JL
«Em que contexto(…)?» 
MANUEL ROSA
«(…) estamos a perder a capacidade de lidar com a forma como se comercializa o livro hoje em dia.»
JL
«O que mudou?»
MANUEL ROSA
«Tudo, sobretudo no mercado livreiro.»

Tudo, tudo?
Acho que não. E as doenças incuráveis desse nosso mercado livreiro? Se mudaram, olha, estava distraído a ler
«O Monge e o Passarinho» do Padre Manuel Bernardes.
Além de que o que é «inexistente» não pode mudar. Ou será que sim, se partirmos do princípio de que  já tudo pode acontecer? Será que aquilo que os livreiros entendem como
«projectos indispensáveis orientados para a leitura e o Livro» podem ao menos ser sonhados?
L. V.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Caderno de SIGNIFICADO - VI

1
É só
porque se este comentário passasse despercebido também a notícia que dá poderia passar:
Guerra nos Bofes – Diário de um Paciente 2.

O José Guilherme/André Moa escreveu um belo diário da sua insana luta contra dois cancros. Se ele fosse um autor famoso, o livro teria sido um êxito de vendas. E a crítica teria dito maravilhas. Assim, só um crítico aproveitou para fazer um brilharete tremendamente injusto. Injusto mesmo porque o livro vale de verdade.
O Zé Guilherme tinha pronto um segundo volume para o qual o Olegário Paz escreveu um prefácio com o nível do primeiro, pois também escrevera um. O clima editorial está muito mau, como todos sabemos, mas será uma pena se esse volume não for também publicado.
Abraço.
onésimo
http://chapeuebengala.blogspot.com/2011/10/um-dito-titulo-postumo-e-lido.html#comments

2
É só
porque esta palavra está na sinopse que vem anexa ao reclame do
Mau Tempo no Anal – Diário de um Paciente.

André Moa nunca se perguntou, desesperado: «Porquê a mim?» Na verdade, consciente de que a doença pode bater à porta de qualquer um e de que a dor nos acompanha desde o parto, preferiu perguntar- se, com toda a serenidade: «Porque não a mim?»
http://www.wook.pt/ficha/mau-tempo-no-anal/a/id/1979280

3
É só
porque queremos que, quanto antes, o livro nos venha às mãos, que já estamos a ler o prefácio de Olegário Paz.

«
GUERRA NOS BOFES - Diário de um Paciente 2 - reporta-se ao ciclo em que o cancro se alojou, como metástase, nos pulmões e só nos pulmões». Estas afirmações leem-se no princípio e no fim de três anos e vinte e cinco dias da vida do diarista aqui registados, de 12 de dezembro de 2007 a 7 de janeiro de 2011, e dizem bem da razão de ser deste diário (…)
http://www.rtp.pt/icmblogs/rtp/comunidades/

4
 É só
por aqui não se está a insistir. Simplesmente a existir . C
om sentimentos guardados. Não apenas com acontecimentos que passam.

L. V.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

UM DITO A TÍTULO PÓSTUMO E LIDO

um dia conheceste Jacques Derrida e leste uma procura de sentido e um dia conheci o André Moa que me disse
tarde encontrei
mas encontrei
a chave do segredo*


1
«Trata-se aqui de um certo fim. Apressemo-nos a começar pelo fim. (…)Nesta cena, Derrida tinha, mais do que nunca, escolhido avançar como um sobrevivente. Quer dizer, ao mesmo tempo como “um espectro ineducável que não terá nunca aprendido a viver”, e como um homem que não quer parar de dizer “sim” à vida, um pensador cuja obra presta homenagem à intensidade subversiva da existência.
Algumas semanas a seguir à publicação desta entrevista, na noite de 9 de Outubro, Derrida era levado pela doença. Àqueles que o haviam lido e amado (…) foi preciso encontrar forças. No instante em que a cortina caía, sentia-se, quase instintivamente, que valia a pena nem se mexer: ficar ali (…) nesta inexorável cena de luto (…). Não desertar a cena, então».**
2
quando o teu amigo morre não queres acreditar na sua morte sabes bem que é verdade mas ainda não aconteceu dentro de ti no recôndito da consciência do ser solidário que tu és todos somos

porque a morte de quem amas tem de ser morte também em ti da parte de ti que amor e amizade te deram do outro e com que te habituaste a viver conviver e contar

terás de aprender a morte que morres vivendo para quando sejas tu quem morre a morte morrendo

porque tua só tua
terás uma única morte
sem treino ou ensaio geral 

não foi ele somente digo-te que não foi o teu amigo somente quem morreu em sua morte todos quantos com ele viviam já não vivem a vida que viviam com ele o teu amigo morreu e consigo levou essa vida
uma vida que falta em quem vive

«quando me recordo eu o derrida dos momentos felizes também os abenço-o claro mas eles precipitam-me ao mesmo tempo para o pensamento da morte
para a morte
porque isso passou
acabou»


«fruir e chorar a morte que espreita é para mim derrida a mesma coisa»
«viver por definição não se aprende
somente pelo outro
e pela morte»


quando o teu amigo morre não queres acreditar no que acontece é como quando vês em espanto que afinal passaram os anos a vida passou mas o que é pungente é o luto e aqui vem no espanto e no luto a vida vivida em recordação e nela um sentido o sentido feliz da viva vivida nos dias felizes

em resumo
deixar-te um resumo que faz um amigo do que o amigo lhe disse e morreu

disse e morreu 
M-O-R-R-E-U

«a viver tal como a morrer não se aprende
mais não se pode do que contar com isso
J-U-N-T-O-S»

R. V.
Setúbal
17.Outubro
2011/alp&l.er.

 *    André Moa, Noites de Argila , página 50. 
**
  Jean Birnbaum, em «De Luto Carregado: Derrida Como Uma Criança», introdução à referida «esta entrevista»: Jacques Derrida, Aprender Finalmente a Viver, Ariadne Editora, Coimbra, Novembro de 2005. Do mesmo livrinho todas as restantes palavras de Derrida e Birnbaum com que, em modo de «a título póstumo», se pretendeu criar um sentido, por actualidade.

domingo, 16 de outubro de 2011

O NOSSO ADEUS A ANDRÉ MOA/JOSÉ G. MACEDO FERNANDES

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I – O DOLOROSO ADEUS AO AMIGO E AO ESCRITOR

A luta acabou.
Agora que a luta acabou, o nosso luto pede-nos silêncio, a dor pede-nos palavras, muitas palavras, que têm de ficar para depois. 
André Moa, para a sua escrita, José Guilherme Macedo Fernandes, para a nossa amizade, faleceu hoje, 16 de Outubro de 2011, domingo, pela madrugada.
Que estava a finar-se, nos terrenos malévolos do cancro, o heróico conquistador da Vida  que foi durante os últimos anos o nosso José Guilherme, bem o sabíamos nós, os seus amigos. A tristeza foi menor, por isso? Não, não foi. Não está a ser.
O nome do José Guilherme fica-nos gravado entre os de mais elevado grau da coragem de lutar contra a adversidade por grande Amor à Vida.
Dos nossos ficheiros algumas fotografias da sua participação nas sessões da Culsete.
Tão participante, tão participativo! 
E com que prazer!
Nosso prazer, é claro, mas também dele. Confessadamente.
Só não comparecia quando não podia. E mesmo já quando o cancro lhe dava luta desigual não deixou de vir como aqui se documenta. Uma fotografia é mais antiga, 2005, na comemoração, com José Carlos de Vasconcelos, do Dia Mundial da Poesia . O seu livro O Espírito das Águas na mão do conhecido jornalista e homem de letras, a quem o acabava de oferecer. A seguinte é da sua participação activa, a 23 de Abril deste ano de 2011, na sessão do Dia Mundial do Livro. E também deste ano é a que virá em terceiro lugar, já de 28 de Maio, em que nos aparece a ler a sua saudação ao escritor Urbano Bettencourt que viera propositadamente de Ponta Delgada apresentar-nos o seu livro Que Paisagem Apagarás.

ADEUS, QUERIDO JOSÉ GUILHERME.
FICAS CONNOSCO
NA TUA OBRA
NO TEU EXEMPLO DE HERÓICO AMOR À VIDA.
E MAIS NESTA SEGURA E PROFUNDA AMIZADE QUE SÓ MORRERÁ CONNOSCO.

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II – COMO VAI SER

BARQUEIRO DO RIO HOMEM
tocar o paraíso
liberto destas mágoas
despojos desta guerra
que se trava na terra
e então depois seguir
até ao mar azul
para nele se acolher
e assim feliz morrer
sabendo que é assim
que tudo chega ao fim
(Versos soltos, aqui hoje irmanados, do poema «Barqueiro do rio homem» do livro de André Moa «Barqueiro do Rio Homem»)

Perdoas, com toda a certeza, mais este atrevimento, José Guilherme.  Oh! que falta fazem já e tanto vão fazer, aqui entre nós, os teus atrevimentos tão amigos! Como vai ser?

28-05-2011 (17)

III – «PARA TI     ESTE REENCONTRO»-
(da «Dedicatória») 

A QUIMERA DO OURO

ATRAVESSAR A VIDA
PERFURAR A TERRA
DESCER AO MAIS PROFUNDO DOS ABISMOS
BUSCAR SÓIS NA ESCURIDÃO
INVENTAR CIDADES SUBTERRÂNEAS

ARRANCAR A ESCOPRO E FANTASIA DAS ENTRANHAS
ESTRANHAS GALÁXIAS DE AQUOSA FELICIDADE
QUE CEDO SE EVAPORA AO CONTACTO
DO REAL TANGÍVEL

CONSTRUIR CATEDRAIS DOURADAS A EMERGIR
DAS ÁGUAS
QUE LOGO SE TRANSFORMAM EM BALÕES DE NADA
DO TAMANHO DO DELÍRIO
RUMO AO INFINITO DA QUIMERA
QUE ÁVIDOS APERTAMOS NA CONCHA RAREFEITA
DAS NOSSAS MÃOS VAZIAS
RESTARÁ O AZUL CONCRETO DOS ESPAÇOS
SEM LUGAR NENHUM PARA OS NOSSOS PASSOS
(O Espírito das Águas – Pintura e Poesia, Dad e André Moa, p. 18)



IV – A MÚSICA POR RESPEITO AO SILÊNCIO
José Guilherme Macedo Fernandes também cultivou a música e isso podem testemunhar as pessoas presentes no convívio, em longo serão, após uma  sessão de lançamento de livros de Teresa Rita Lopes e Ana Paula Guimarães, em 21 de Junho de 2002.

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«O ABSOLUTO IMPERCEPTÍVEL DO SER
NO AZUL INVISÍVEL DE TODAS AS COISAS»
Norberto Macedo canta-nos «O ESPÍRITO DAS ÁGUAS»


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Seja-nos permitido ficar com a música de Norberto Macedo cantando-nos «O Espírito das Águas» - um feliz  encontro de parentes afastados pelo grande mar que há entre Portugal e Brasil.
Ouvir, enquanto a imagem cheia de vida do nosso José Guilherme, com a sua arte de viver e de animar, nos comove. 
Fátima e Manuel Medeiros 

sábado, 15 de outubro de 2011

DESORDENS & ABUSOS vai em 9


BOLG BLOGUE
QUEM QUISER QUE SE AFOGUE

mesmo que alguém apareça
com algo que se veja
ninguém ouve
podes pois gritar
como quiseres e quanto quiseres
não podes é querer que eu ouça 
esse teu grito inútil
perfeitamente inútil

perfeitamente inútil o teu grito ninguém o ouve nem ouviria mesmo que quisesse porque faz parte do ruído que resulta de todos os gritos juntos

os gritos juntos são apenas ruído
e ninguém vê ninguém 
nem mesmo que alguém apareça 

mesmo que alguém apareça
com algo que se veja
ninguém ouve

ninguém ouve e portanto
abre os olhos e vê que o teu grito é só grito
sem outra razão que o ruído
em que vais vou eu vamos todos
e cale-se quem assim não quiser

QUEM ASSIM NÃO QUISER QUE SE AFOGUE
BLOG BLOG BLOGUE 

P. S.
- Chama-se a isto um poema?
- Será que ouvi bem?

Isto não se chama!
É apenas ruído.

V. L.

«SER EXPONTÂNEO DÁ-ME MUITO TRABALHO»– uma afirmação de MANUEL DA FONSECA

 MANUEL DA FONSECA

I  -  UM CONVITE
Irás, porventura, meu amigo, a Santiago do Cacém hoje, 15 de Outubro, quando for dia? É sábado e, de passeio, ir até lá por homenagem a Manuel da Fonseca seria um prazer muito grande. Invejo quem lá for, eu não posso. Se também não fores, convido-te, amigo, para nos sentarmos a ler em comum,
na colecção Ensaios Literários,
(Seara Nova – Comunicação)  
sob o título de conjunto
Três Ensaios Sobre a Obra de Manuel da Fonseca
o primeiro deles, que é de Maria de Lourdes Belchior:
«Da Poesia de Manuel da Fonseca ou a Demanda do Paraíso».

Começa assim:
«Ao reler a obra poética de Manuel da Fonseca, a memória traz-nos como que através de um eco (…)».
E este ensaio, um ensaio  agradabilíssimo de se ler, da professora que por sempre temos que ter como nossa professora, a ensinar-nos a ler,
é assim que acaba:
«Um dia virá em que os homens se hão-de olhar como irmãos. Nesse dia há-de começar paraíso».  

Convido-te.
Falo a sério.
E é evidente que, depois de lermos o ensaio de Maria de Lourdes Belchior, vamos ter que ler alguns poemas de Manuel da Fonseca. Pelo menos dois: escolhes um e eu outro.

II - UM POEMA ESCOLHIDO 
(se permites, escolho já os dois, fica adiantado para o caso de não poderes nem ir a Santiago nem  aparecer por cá para neste meu cantinho escondido compartilharmos a nossa atenção por um centenário que tanto nos diz) 

1
SETE CANÇÕES DA VIDA
Sétima

Entontecido
como asa que se abre para o azul
abarco a Vida toda
e parto
para os longes mais longes das distâncias mais longas
sei lá de que destinos ignorados!
Como pirata à hora da abordagem
grito e estremeço
liberto!
Grito e estremeço
perdido o sentido das pátrias
e a cor das raças,
livre para todos os caminhos dos homens!
Inebriado de posse
vou contigo, Vida, como se fosses a minha namorada
e eu te levasse inteira nos meus braços!
Vida!
agora que comecei o poema que andava nos meus gestos,
me arrepiava a carne e me tocava nos ouvidos como um eco,
tudo em mim grita a ânsia da largada:
- os músculos, retesados nos braços prontos a todas as audácias,
os olhos jogados para a frente, jogados para a frente,
e nas veias esta lava escaldante que corre e se dispersa
com o rumor de mil milhões de abelhas saindo de mil cortiços
para o sol!


2
O VAGABUNDO DO MAR

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá!
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.

Ou apareces, e hei-de teimar em lermos um outro poema à tua escolha ou não chegas a aparecer, e aprovarás a escolha que fiz por ti.
Julgo que te conheço.
L. V.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

1911-2011 - uma palavra por Setúbal no Centenário do Nascimento de MANUEL DA FONSECA : «Sou, pois, um filho da terra»

     MANUEL DA FONSECA 

Setúbal, o seu liceu, durante muitos anos liceu de toda a região, os primeiros alunos, um inédito de Manuel da Fonseca, nascido a 15 de Outubro de 1911, em Santiago do Cacém :

« Aluno do 1.º ano do Liceu de Setúbal, sempre continuei como se aqui tivesse nascido – sou pois um filho da terra que cá volta de quando em quando – agora com o prazer de quem assiste ao amor da cidade pelas artes e pelas letras. Até sempre. Manuel da Fonseca. 1-8-1987».

Como, nesse serão da Feira de Sant’Iago de 1987, no Pavilhão de Feira do Livro da Culsete, transpirava felicidade e alegria essa figura extraordinária que era, foi e é Manuel da Fonseca!
O autógrafo de seis linhas que deixou escrito no Livro de Honra da Livraria Culsete e que aqui se divulga nesta data apropriadíssima, é este monumento que se vê e que reflecte essa felicidade que Manuel da Fonseca sentiu no ambiente de bom acolhimento e carinho que lhe foi proporcionado. Os visitantes da Feira que dele se aproximavam e a maneira como ele e esses visitantes se envolviam em mútua simpatia!Admirável!
Depois do serão, levar Manuel da Fonseca de regresso à sua casa de Santiago do Cacém.
A riqueza de experiência que foi viver aquele ir assistindo até de madrugada à explosão da felicidade que de Setúbal  Manuel da Fonseca levava!  Uma autêntica explosão de genialidade da sua muita inteligência e desmedida sensibilidade.
SUPEROU TUDO!
A que horas nos deixou regressar, tendo esgotado, ele e nós, tudo o que  de comer e beber tinha à mão na sua cozinha? A longa noite, por evidente prazer de Manuel da Fonseca em prolongar o convívio, a despertar alguma fome e a bela sede daquele branquinho fresco que tirou do frigorífico.
Amanhecia ao chegarmos a Setúbal, eu e o caríssimo amigo Dimas que não consentiu que na volta viesse sozinho àquelas horas.
Cansado e com muito cansaço pela frente na Feira de Sant’Iago em fim-de-semana? Sobretudo a viver o espanto que se sente ao estar perto do esplendor do génio.
Até hoje, esse espanto!
Porque é gratíssimo ler e reler a obra de Manuel da Fonseca, mas a emoção que se revive, nestes dias da grande e devida homenagem, ao recordar aquela viva revelação da sua genial grandeza, SUPERA TUDO! Um POETA! Um ser humano AUTÊNTICO!
L. V.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CÁ ‘STAMOS - VII

UM BARCO O FUNDO E UMA NUVEM

A palavra começou por vir de quem menos era de esperar, a mulher do morto, que chegou sem se fazer notada, ela que perdera o marido no mar e que  nunca mais tinha voltado à beira da maré, nem erguera os olhos do chão, nem falara com ninguém, desde que lhe deram a notícia.
Voltara agora ali, à beira do mar, ao saber ao que se vinha. O que disse deixou toda a gente comovida. Que sonhara com o marido a navegar tranquilamente e que, de repente, no exacto lugar onde o viram desaparecer com o barco, tinha visto cair, lá do alto céu, uma nuvem da cor do fundo. Caindo de uma tal altura, por mais leve que fosse como nuvem que era, a nuvem teria levado o barco consigo para o fundo do mar. Uma nuvem?  Possível? Mesmo que não se deva afirmar, talvez seja melhor também não negar, atitude que, se o caso se passasse na Ilha do Pico, chegaria sem o «talvez». Ninguém na altura do afundamento vira algo que se parecesse com uma nuvem. No sonho, porém, já sabemos o que aconteceu, e, quando se conta, é como acontece que se deve contar.
Contou, calou-se e toda a gente ficou calada.
Um sonho é um sonho, não precisa de ser verosímil, nem tem que despertar curiosidade sobre o que nele se passa. Sonhou-se, acordou-se, a vida continua. Neste caso, porém, ainda não tinha continuado, o estranho naufrágio era muito recente, a viúva ficara impressionada ao voltar a ver o marido, ainda que a dormir, e o relato do seu sonho, ouvido da sua própria boca, abalou toda a gente, por trazer todos e cada um, aí está!, à memória viva do morto. Cada um tinha a sua memória pessoal e mesmo que a não tivesse participava da memória colectiva. Em semelhantes terras - Bicarte não podia ser excepção - com todos se vive e se convive. Mesmo quem nunca toma a iniciativa de dar os bons dias tem de os retribuir, teria muito a perder, se o não fizesse, e envergonharia a família.
Também é verdade e deve contar-se: não fora para lembrar o morto que as pessoas se haviam ajuntado. O morto estava morto e enterrado. Mas um barco não se enterra. Se vai ao fundo, afunda-se, é apenas isso, não é devorado e para decompor-se, no apodrecimento, leva muito muito tempo. Anos e anos, por vezes. Dá tempo de se discutir e de se voltar a discutir até às mil vezes, ainda que discutindo sempre o mesmo e inutilmente.
Era esse o assunto: o desaparecimento do barco. O dono fora encontrado a boiar, embora algum tempo depois de o terem visto desaparecer. O corpo, por qualquer razão, terá ficado tempo de mais sem vir ao de cima e quando veio já estava muito deformado. Mas não podia ser de mais ninguém, pois em Bicarte não se morre no mar sem se dar por isso. Com todos se vive e se convive e se mais alguém tivesse desaparecido, sabia-se.
Era, pois, só esse, o assunto: o desaparecimento do barco. Como é que um barco podia assim ir ao fundo sem que ninguém se apercebesse do que ia acontecer? Um grito a tempo teria, seguramente, salvado a vida a quem só pretendia tratar da sua vida. Houve quem lembrasse que, de facto, o doido gritou, mas isso era o hábito dele. Gritar a sério só se ouviu quando a cena fatal já estava em cena.
E agora que as coisas ali tinham levado o rumo que levaram, com a conversa da viúva, qual a conclusão do assunto?
Nada se concluíu.
Muito mais calma, depois das emoções e comoções vividas, toda a gente saiu como entrou. Excepto a viúva: recuperara a fala. Isso, no sentir de todos, já não era pouco.
R. V.
Setúbal
Outubro.2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

«A Revolta da Fonte»: BOM TÍTULO PARA LEVAR LONGE UMA LONGA DISCUSSÃO

Prévia nota:
Não chega a ser carta, pois não chega a tocar nos assuntos. Apenas um breve cartão aberto.

Nosso amigo Luís Guerra,
não me custa acreditar na verdade deste meu sentimento que bem podia confirmar sem aqui vir, mas que prefiro me confirme depois: está à espera de que entre no nosso encontrolivreiro  em correspondência ao seu desafio formulado a mestre: «E ISTO FICA ASSIM?».
Como já tive ocasião de lhe dizer, lembra-se?, «estes não são exactamente os meus dias» ( Papel a Mais, p.111).
«Posto isto»,
peço-lhe que nunca pense que não continuo na nossa caravela. Mesmo que não chegue à Índia, direi daqui, a quem me quer morto, que prefiro a morte à Bartolomeu Dias. Não desembarco! «A vida no mar é boa» e quando..., aí então é só ir com âncora até ao fundo.   
Continuo, pois. Mas, agora, já os meus ritmos vão neste respeito por minha longa viagem.
Recordo um dos momentos de convivência com escritores que mais me impressionou.
Na Gulbenkian, um dos primeiros Encontros de Literatura Infantil, conversa com Adolfo Simões Müller, 92 anos,  sobre o seu projecto dos Rios de Portugal de que se publicaram Tejo e Douro – preciosidades que, presentemente…
Entusiasmo de encantar! Aquele sorriso, a vivacidade daqueles olhos, aquela cabeça de cabelo branco muito branco. A cabeça que, em vindo ao olhar uma lúcida tristeza, se inclina sobre o lado esquerdo, enquanto estas palavras ouço: «mas agora já só consigo trabalhar duas horas por dia e mesmo assim é com a ajuda da sobrinha de Mons. Moreira das Neves…».
Para quando me chegasse a mesma tristeza, guardei aquele olhar paciente e sereno.
L. V.

P. S.
E para quando a oportunidade me chegar em uma sobr(az)inha de conforto, vou guardando apontamentos. Por exemplo:
1
http://encontrolivreiro.blogspot.com/A revolta da Fonte

E não haverá por aí mais casos como este?
E ISTO FICA ASSIM?
2
http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2011/10/salvemos-o-lince-e-serra-da-malcata.html
- Avô, o que é uma livraria?

Um texto do livreiro Jaime Bulhosa
3
E mais?
Muito mais!


http://cadeiraovoltaire.wordpress.com/2011/10/12/grandes-e-pequenos-parte-ii/

http://adasartes.blogspot.com/2011/10/livreiro-ressabiado.html

E isto é mesmo sem querer por agora ir a outros vizinhos que não vieram ao nosso blogue encontrolivreiro, pois não pode chegar p'ra tudo, como é evidente.
L. V.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

«Literatura Açoriana»: OS COMENTÁRIOS DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Caro Onésimo,
os teus comentários!
Tinha a certeza de que…
Mas também de que não te levaria assim tão facilmente a responder à minha provocação:
Eu sei que há quem possa responder com a devida competência! Provocação dirigida a ti, naturalmente, mas também aos nossos outros: Eduíno de Jesus, Urbano Bettencourt, Vamberto de Freitas, e…, e…, e, com etc. no fim, para não me virem dizer que não me referi a alguém que devia.

Conclusão antes das premissas:
em post um comentário tem mais hipóteses de ser visitado, além de que... esta lengalenga toda.
Não vou para o «comentários» de fim de postagens, onde vêm os teus, para que mais fácil seja que se vá ao que vens:
a ACOMPANHAR. 
Como é que consegues (alguém, dos muitos e muitos que…, pode fazer o favor de me ajudar a compreender?)?
A acompanhar, incrivelmente, o que te chega de todos os lados e pessoas diferentes, e também a fazer-nos rir e sorrir, uma das artes que magistralmente cultivas.
Esta, de uma grande actriz, de um grande queijo e dos nossos grandes poetas, na nota do DN, fez-me sorrir, e também respeitar muito o que acontece.  Sorrir, mas sem deixar de ver como é. Quem é pessoa culta, é mesmo. Quem não é, por mais que se faça, não devia permitir-se-lhe que guiasse os cegos, multiplicando a ignorância.

Aproveito para acrescentar que sobre as «brigas» não há muito mais a contar. Vai à página 16 do Papel a Mais e depois à página que se segue à 188,  em que terminas e assinas o teu texto nesse mesmo livro.
Sabes tu e sabem muitos dos que o conheceram que Armando Côrtes- Rodrigues era de uma grande riqueza de aparências, de personalidade, de criatividades, de dedicações e devoções,  de gestos e atitudes, de prazeres e ascetismos.
A primeira marcante aproximação pessoal: uma colaboração no nosso jornal Euntes. 
Em 1959, como bem te lembras, lá comecei os meus anos de Ponta Delgada, sendo que os primeiros deles a morar na Rua do Frias/Rua Manuel Augusto do Amaral, poucas casas mais abaixo da dele, o nosso grande poeta,  que ficava/fica quase ao cimo dessa bonita rua.
Logo aí…
E como ele era muito crente e nessa altura frequentava por vezes diariamente a Igreja Matriz onde eu prestava serviço…   
Mais do que eu, prestou-lhe assistência o meu colega Aristides Zacarias, já falecido aí desse lado do teu «rio atlântico» para onde acabou por emigrar. Uma admirável e devotada assistência, e é bom poder dar este testemunho.

Fui sempre aquilo que tu sabes, e nunca por modo de satélite andei à volta dos deuses. O respeito tem de ser mútuo. O que perdi ou ganhei com ser assim? Não faço essas contas. Talvez tenha perdido mais do que seria equilibrado perder, mas…
Quando sai Passos de Viagem não é que o nosso Poeta e Mestre o agarra e…
Já leste a tal  página 16 onde só não se diz que a comoção do nosso poeta também os seus olhos a sentiram porque… Como foi que eu soube? Não apenas por quem me disse, mas porque ele a partir daí passou a sempre que nos encontrávamos insistir na conversa sobre as minhas responsabilidades.
E eu? Fugidio, fugidio…!
Julgava-me necessitado de muito mais amadurecer para conversarmos como ele estava a dar-me a oportunidade, aguerridamente, sobre o que da sua autoridade e do seu mérito nos poderia oferecer para a renovação em que estávamos empenhados, muitos de nós, a nova geração.
Perde-se muito por esperar, às vezes… Noutras vale a pena. Por isso repito a pergunta do post de ontem, que há-de ter seguramente… :
Autonomia sem separatismos é do que hoje vão fazendo as ilhas a sua história política. E a sua política literária como vai?
L. V.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LITERATURA AÇORIANA

ARMANDO CÔRTES-RODRIGUES:
estou enganado ou é efectivamente verdade que muita gente competentíssima em Literatura Portuguesa nunca leu nada deste grande poeta? Tão verdadeiramente poeta quanto é verdadeira a existência da própria Poesia seja em que latitude ou definição for.
Preparava uma «briga» com ele, uma «briga» que o compensasse das suas generosas «brigas» comigo. Mas desacertaram-se os caminhos e antes que voltássemos a encontrar-nos, recebi, aqui em Setúbal, à hora do jantar, a notícia do seu falecimento lá na Ilha.
Do seu lado, «a briga» era de que, após a publicação de Passos de Viagem eu tinha que assumir responsabilidades na Poesia Açoriana. Do meu lado, seria que tinha ele responsabilidades com a afirmação, para além das ilhas, da Poesia Açoriana que nos Açores se fazia e publicava.
   
   Armando Côrtes-Rodrigues

Hoje estou convencido de que ele não aceitaria a minha «briga», como eu não aceitava a dele. E não seria só porque, em comodismo de asceta, não estaria para isso, mas por saber que estava longe ainda o tempo de valer a pena entrar nessa briga. O que era decisivo era exactamente o que fizera e continuava a fazer: cultivar o seu campo, sabendo perfeitamente o que estava a fazer. Amigo e confidente privilegiado de Fernando Pessoa, optar, como optou, por uma poesia tão longe da do poeta do Orfeu, com quem a Violante de Cisneiros comungara teoria e prática, não foi apenas uma opção de estilo e de escola, mas de afirmação de uma autonomia que já também politicamente vinha de há tempos antes a ser discutida. Avento isto  com base na obra como a conhecia e continuo a ler, mas igualmente no modo como o poeta vivia à minha vista o seu dia a dia de poeta, vizinhos que éramos. Posso aceitar evidentemente ser contestado por quem ao assunto mais se tenha dedicado, aprofundando-o.
Autonomia sem separatismos é no que hoje vão fazendo as ilhas a sua história política. E a sua política literária como vai? Eu sei que há quem possa responder com a devida competência. Por agora e enquanto vou desejando ouvir sobre o caso as vozes competentes, quer a dos literatos continentais, quer dos insulares,  vou continuar a ler Armando Côrtes-Rodrigues.


CANÇÃO DO MAR ABERTO

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!…

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar

Um poema do livro
Planície Inquieta,
Armando Côrtes Rodrigues,
Coleção Açorense,
Editorial Ilha Nova,
Vila Franca do Campo,
1987.

R. V.

domingo, 9 de outubro de 2011

MANUEL DA FONSECA: do Congresso deste fim-de-semana ao Centenário de nascimento no próximo sábado dia 15


Terminando hoje o Congresso, para solidarizar-me, em minha insignificância embora, com tão justa homenagem, leio uma palavra de Mário Dionísio em que aprendo um poema do poeta, cronista, contista e romancista que foi o humaníssimo Manuel da Fonseca e prometo contar aqui o que foi uma noite de espanto entre Setúbal e Santiago do Cacém.

Do prefácio de Mário Dionísio à
OBRA POÉTICA
de Manuel da Fonseca:
«pela noite dentro, falando, falando, falando, lendo e ouvindo, ouvindo e lendo, projectando, reconstruindo o mundo todo, a vida toda:
Domingo que vem
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida».

E se abri, por feliz acaso, o blogue em que vem um «talvez Manuel da Fonseca se risse…», posso fechar deixando esse blogue aberto:
http://a-de-mar.blogspot.com/2011/10/congresso-manuel-da-fonseca.html
L. V.

sábado, 8 de outubro de 2011

NOBEL DA LITERATURA 2011–Um poema em antologia inédita de Silva Duarte

QUADRO DO TEMPO

O mar de Outubro brilha frio
com sua barbatana de miragens.

Nada fica que recorde
a alucinação branca dos regatos.

Luz de âmbar sobre a aldeia
e todos os sons em voo lento.

O hieróglifo de um ladrilho
pintado no ar sobre o jardim

onde a fruta amarela engana
a árvore e se deixa cair

   TOMAS TRANSTÖMER
 In
Poetas Suecos,
Antologia em versão directa de Silva Duarte
(Inédita)

Nota:
Com muito gosto aqui se possibilita, aos bons amigos que abrem chapeuebengala, a leitura deste poema.
Gosto acrescentado seria  ir além da divulgação aqui desta tradução e poder facilitar, e em especial a quem viesse a interessar-se pela sua publicação, a leitura da antologia em que está integrada e de muito mais da obra inédita de Silva Duarte .
Ver em http://nestahora.blogspot.com/  um outro poema do Nobel de 2011 e... ficar a sentir que ...
Pois! É, útil, apesar de tudo, o Nobel, e não só para o premiado e seus editores. Fica-se a pensar que o mundo em muito vai passando ao lado da nossa aldeia.L. V.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

«JÁ QUE PARA ERRORES FUI NACIDO»

Senti-lhe a falta, que já há uns tempos a não relia, à Canção Décima:

Sequer este refúgio só terei:
falar e errar sem culpa, livremente.
Triste quem de pouco está contente!

A nunca perder de vista, quando à escrita inútil não dá para fugir, apesar de se ver que...   

Não sei o que digo
Que o digo sei
Abri o postigo
Mais cego fiquei 

Não disse o que disse
O que abri fechei
Que grande tolice!
Por que é que tentei?

R.V.

domingo, 2 de outubro de 2011

«O CALOR DA AMIZADE… NESTE ANOITECER»

Voltar aos dois post's imediatamente anteriores, não para retroceder e sim para avançar.
Antes, porém...

Não posso guardar só para mim esta preciosidade que ontem recebi. Tenho de aqui a oferecer a quantos me acompanharam com simpatia na evocação do 30 de Setembro do querido amigo e mestre A. da Cunha Oliveira:
Manuel, meu querido Resendes Ventura,
Já não tenho coração que suporte, sem lágrimas, o calor da amizade
daqueles que, hoje Homens, como tu, enquanto rapazes, me ajudaram a ser Homem.
Nada me devem que antes o não devesse a vocês.
Perseveremos neste anoitecer de uma fraternidade e comunhão sonhadas, que os "santos" não compreenderam nem compreendem.
Artur


A quem leu a citação do prefácio de A Cidade e a Sombra, perguntarei se, como eu, também sublinhou, da entrevista de Eduardo Jorge Brum a Onésimo Teotónio Almeida, esta passagem:
E, no entanto, esses autores são pouco conhecidos no Continente (para não falar no mundo lusófono). Claro que seria possível alterar pelo menos um pouco este estado de coisas. Há planos nesse sentido que são eternamente adiados. Quer-se sempre achar a solução ideal e, como ela nunca chega, nada se faz.
 http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=170

Gostava de levar até muito longe esta conversa do nosso Onésimo, mas não agora. Apenas apontá-la para a dita citação de A Cidade e a Sombra e fazer de conta que sei quantos anos passaram de 1954 a 2011. É bom, isso de fazer de conta!...

Silva Grêlo não voltou a aparecer com mais nenhum livro de poesia. Razões? Há factos que dizem mais do que as razões. Mas os livros recentes de A. Cunha de Oliveira, esses posso abri-los e encontrar imensas passagens que…
 
De
Um Novo Conceito de Europa e Outros Ensaios
(A Casa Encantada – Publicações, Angra do Heroísmo, Maio de 2009, pág. 165):
Nos Açores, por via do relativo isolamento a que estiveram sujeitos durante séculos, foi aí que se conservaram, mais que em nenhuma parte da terra continental portuguesa, algumas características do homem português de Quinhentos. (…) Os Açores foram e de certo modo são ainda uma das parcelas mais genuínas do mundo português.

De
Jesus Profeta do Islão e Outros Ensaios (A Casa Encantada – Publicações, Angra do Heroísmo, Dezembro de 2009, pág. 292):
Fora do campo da cultura (…) pouco é o que podemos e devemos fazer contra o rolo compressor da globalização. Não tenhamos ilusões quanto ao resto, de que já não somos senhores. No vasto campo da cultura ainda temos algum poder. (…) Mas, infelizmente, não vejo para aí voltados grandes esforços, quer da parte das entidades oficiais, quer das particulares.

Vai ser imperioso, estou em crer, que aqui voltemos com A. Cunha de Oliveira. Os seus dois novos livros! Os seus dois novos livros! Que venham quanto antes!
R. V./L. V.