sábado, 31 de dezembro de 2011

De O CALAFATE para o comentário enviado da outra margem do Rio Atlântico

«UMA» SÓ
ESCOLHIDA À TOA
PARA UM «LER MAIS»

Vi o nosso açougue antigo
Essa nojenta espelunca
Guardado por um farrunca
Com cara de pouco amigo.
Era um roubo e era um perigo
P'ra os pequenos compradores
Mas os ricos, os senhores
Esses eram bem servidos
Eram amigos conhecidos
Dos intrujões cortadores

( António Maria Eusébio, Versos do Cantador de Setúbal, Recordações da Minha Vida, 300)

Com O CALAFATE e o BOCAGE ainda em 2011

imageimage
http://aeiou.escape.pt/cartaz/exposicoes/antonio-maria-eusebio-calafate-entre-monarquia-republica-2156333
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Maria_Eus%C3%A9bio

Acaba o mês e acaba o ano: é 31 de Dezembro. Em Dezembro é sempre assim, mas só em 2011 é que o ano que acaba é o do 1.º centenário da morte de um dos maiores poetas populares portugueses, o setubalense António Maria Eusébio, conhecido, por via da sua efectiva  profissão, por O Calafate.
Um poeta popular que terá sido, de entre todos os outros poetas que celebraram o Bocage, o que mais o terá celebrado, talvez. Pelo menos um dos que mais.

Estou a contar cerca de uma dúzia e meia de composições, enversadas entre 1871, quando foi das festas da estátua do vate,  e 1911, ano em que faleceu o poeta, aos 91 anos, a 22 de Novembro.
1911, as festas do 15 de Setembro, com a jovem República Portuguesa - um Teófilo Braga naturalmente e como bom exemplo - a querer vingar-se de não ter protagonizado a comemoração do centenário de 1905.

Bocage faleceu a 21 de Dezembro de 1805. A 15 de Dezembro de 1819 nasceu O Calafate.
Por isso sente este, O Calafate, que Dezembro os aproxima muito pessoalmente os aproxima , aos dois setubalenses poetas:
Sou velho, mas apareço
Ainda me não escondi.
Tu desceste e eu subi
Cada qual por sua vez:
Neste memorável mês

Tu morreste e eu nasci.

Próximos por isso e também pela terra natal, naturalmente:
O
cantar foi o meu vício
E numa obra que eu fiz
Há um letreiro que diz:
Bocage foi meu patrício.

E esta assim? Esta aproximação?:
Alguém me tem comparado
Co’o nosso poeta Elmano
O que é para mim engano
Pois onde tenho estudado?
Eu já tenho perguntado
Quem foi ele e quem sou eu
Que merecimento é o meu?

Vasta recolha existe dos «versos» de O Calafate e a diversidade dos seus temas, em especial os de crítica social, são uma delícia.
E lê-los? Foram muito lidos, neste ano centenário que hoje acaba, «os versos» de O Calafate?

Uma pequena brochura, com todas as pequenas obras preciosas dedicadas ao Bocage pel’O Calafate, e lida, muito lida pela população, em larga escala...
Era!
Era se…

Por ser poeta foi pobre
Ser pobre não é defeito
Se o vulto é de respeito
Bocage foi homem nobre.

Nobre é a cidade que conhece os seus ilustres, os honra e deles se honra.
E?…
Não sei…  Mas não estava a sentir-me bem comigo por tanto desejar e ainda não ter conseguido trazer para aqui um apontamento, ainda que assim mínimo, dedicado a este poeta popular setubalense que tanto admiro: António Maria Eusébio, O Calafate.
L. V.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CONCORDÂNCIAS

RESPEITO

a insignificância de quanto se faz
um nada em si
e todavia já cumprindo a lei da realidade
o mundo a ser feito por tudo.

compreende pois o respeito por quanto existe e acontece
não desprezes ninguém
não desprezes nada

na incomensurável vastidão do espaço e do tempo
aprender o resumo em que fiques na consciência de ti mesmo
e em que deves ficar enquanto vivo
perante ser e fazer 

consciência de ti no caminhar
para um dia em resto

aí chegando
esquece


juntamente com o pão que já comeste
esquece por igual os sonhos em que tudo projectaste
quanto?
quantos?

o tudo de tudo assim entregue à soberana verdade
que te impregna de luz e ilusão
num mesmo movimento


R.V.
Setúbal
29.VI.2003 e 28-29.XII.2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

NA MÃO DO INVERNO

a alma escandida
no corpo transido dispersou
uma existência volátil

a mão que escreve
é aqui substantiva e permanece
em única ponte
                                                R. V.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A 24 horas da NOITE FELIZ

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http://unisetifotografiamultimedia.blogspot.com/2011/12/luzes-de-natal-em-setubal-por-ana-t.html

imagese dedico a meia noite desta noite à meia noite de amanhã é porque sei e acredito que quem visita este blogue…

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…este blogue que me calhou em sorte e em pão de cada dia para assossegar o desespero de já não poder arrostar com o trabalho da livraria a tempo inteiro (ocupação e preocupação e dedicação quase sem intervalos nem descanso, sim por dedicação a uma causa e com gosto, mas, por isso mesmo, também tanto e mais que tanto por obrigação e necessidade, que isto quem vive à sua custa num ramo tão mau de se pensar em margens compensatórias e em lealdades do mercado quer a jusante quer a montante…)

sei e acredito que quem visita este blogue são pessoas minhas amigas (todas? não, ao que já se viu, mas essas que…, não me dão cuidado, existem, não imagino um mundo sem pulgas e essa de perguntar «se deus é que criou o mundo, porque é que há pulgas e moscas?» foi só na infância)

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…se dedico a meia noite desta noite à meia noite de amanhã, aqui assim por meio desta escrita no meu chapéu-e-bengala, é porque amanhã serei o homem mais feliz deste mundo (toda a família reunida à volta da mesa preparada a preceito com sabor e muito amor)
…o homem mais feliz deste mundo…. e como poderia não desejar nessa noite uma noite assim feliz a todos os meus amigos conhecidos e desconhecidos? e amanhã ia poder vir aqui com esta escrita?

se dedico a meia noite desta noite a vir aqui a esta escrita para os meus amigos é porque mesmo que quisesse não o faria amanhã 
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amanhã, quando já for noite e vestido de festa, hei-de sentir-me perto de todos os longes de quem me estima e estimo, mas é hoje que posso dizê-lo e não é bem ou apenas um sorridente cumprimento, antes e sobretudo um desejo,
um forte desejo e voto: 
              FELIZ NATAL! 

                
                           AMIGOS, SEJAM FELIZES, POR FAVOR!
                                                                                                                  L. V.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PRESÉPIO COMO JÁ SE VIU

Menino
Jesus
velhinho
de barro da
Lagoa

O resto…
Ai!
O resto
meu Menino Jesus!
….
Ai meu Menino Jesus!
Quantos anos já passaram!

Ai meu Menino Jesus!
Se eu pudesse ainda ser
o menino que já fui…
 
             (Dias de Melo, Na Noite Silenciosa)

Natal 2011
 de trigo e ervilhaca
  presépio enfeitado
  em todo o espaço
  da capela ao lado

  que verde tão verde
  e eu vendo encantado
  pra sempre o presépio
  da capela ao lado
                  R. V.



FOTO: MARIANA BETTENCOURT

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

DESORDENS & ABUSOS–hoje em 15

«IMÓVEL NA SOMBRA»
 
                               os dedos da voz / rolam / em marés
  
                               ainda o pulsar da luz / no coração do silêncio
  
                               ainda esta mão / imóvel na sombra / de escrever
 
                               tempo / donde sopra / polifónica / a palavra 

(De um poema de Carmo Sousa Lima em Paisagem Branca)
image    image 
http://www.azoresgeopark.com/geoparque_acores/fotos/geositios_big/3_47_big.jpg
 externatoseneca.com.pt

primitiva a voz
primitiva a luz
primitivo o silêncio

as marés acodem ao vaivém de respirar e uma garganta acorda as lágrimas ao dizer silêncios guardados no sal dos teus mares de água e segredos diz-me só quem foste e sentirei donde vens tu que vais 

no início era tudo como se a voz ao mesmo tempo te acolhesse em si e te enviasse para longe «vem vai» «vai vem» e aqui assim vens tu que vais 

voltas sempre as origens são luz a mão que estendeste ao romper da sombra concorda mas nenhuma palavra dirá sozinha o que diz entre voz e silêncio

quando a voz pronuncia o silêncio revela e esconde sentidos e aqui vens voltas sempre tu que vais ao que foste em que vens
R. V.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PRÉMIO PESSOA: EDUARDO LOURENÇO e «UM MOMENTO CRÍTICO»

http://cadeiraovoltaire.wordpress.com/(© Nelson Garrido, Público)

O mais admirável no presente, neste 2011 que já nos pode servir de actualíssimo argumento, é que Eduardo Lourenço, para além de ser eminente pensador do nosso século XX, o temos visto a pensar, profundamente e em constantes aparecimentos nos areópagos de opinião, este século XXI que, assim, também conquistou.

O Prémio Pessoa é um reconhecimento, mas sempre o considerei também – quem sou eu? – como gesto de crença na continuidade de créditos dos premiados.
«Num momento crítico da História e da Sociedade Portuguesa, torna-se imperioso e urgente» que Eduardo Lourenço e, quanto ele, também outros dos nossos intelectuais, dos autênticos, sejam ouvidos, reunidos, difundidos, influenciem. 

  «Num momento crítico da História e da Sociedade Portuguesa, torna-se imperioso e urgente» que sejam muito activos, os nossos intelectuais.
Activos!
É o que pedimos.
Temos que o pedir!
E a um livreiro até que não fica mal pedir como prenda deste Natal uma aproximação à obra e pensamento de Eduardo Lourenço. Directamente, ou através dos ensaios publicados e disponíveis sobre esse pensamento e essa obra. E a fotobiografia, ainda se encontra? É questão de passar pela livraria e ir ver à estante.
L. V.

domingo, 18 de dezembro de 2011

NATAL DOS LIVROS

GRUTA DO NATAL
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gruta_do_Natal,_ilha_Terceira,_A%C3%A7ores,_Portugal.JPG

- Há uma luz, ao fundo do túnel! Estás a vê-la? Parece que algo de bom a crise vai trazer: melhores leitores, melhores leituras.
- Bons conselhos, Livreiro Velho?
- Não será bem o que estás a pensar, julgo eu. Estás supondo que te venho com uma lista de títulos, como duas vezes por ano os jornalistas culturais gostam de fazer, uma no verão – as leituras de férias – outra no Natal – os livros que hás-de oferecer?
- Não me digas que desaprovas!
- Também não é bem isso… Deixemos as listas para tu as fazeres a teu gosto e discernimento.
- Então?

- Então é assim:
1.º - Estás ou não a contar que te ofereçam alguns livros? Eu estou, digo já. Para um livreiro pode parecer ridículo?…  Mas é assim. Temos cá por casa o hábito de nos surpreendermos uns aos outros com o que escolhemos.
2.º - Vais tu oferecer alguns livros neste Natal e em especial a crianças e jovens?
- Querem lá saber disso?
- Se não querem, a culpa por regra não é deles e tenho a certeza do que digo. E não estejas tão certo de que as crianças e adolescentes não se interessam por livros. É claro que se lhes deve é oferecer também livros. Também!  Porque seria um crime não se lhes oferecerem prendas mais utilitárias ou mesmo alvoroçantes, pois que um Natal sem brinquedos e roupa nova…

Mas deixa-me continuar:
3.º – Vê se consegues dar uma volta por uma boa livraria que te ofereça diversidade e qualidade. Com calma.
Boas livrarias, essas? Oh! Por favor! Também tu, não! Seria de mais! Boas livrarias essas, onde há muito à vista e pouco para ver? Por favor!…
Uma hora tranquila numa boa livraria. E vais ver que, no que te digo, há uma forte razão a favor de quem sabe o que escolhe. Depois dizes-me se encontraste ou não um livro «mesmo, mesmo…»?
4.º – Já agora, para acabar: como vai a crise levar as pessoas a ler mais e a escolher melhor os seus livros?
Mais esta semana para vermos, nas livrarias também,  como vai a crise dos bolsos, a real, e a outra, a crise das cabeças, a psicológica, aquela com que, para mais facilmente nos conformarmos com o jugo, políticos
e financeiros nos atacam, a culpar-nos dos seus desmandos, guerras secretas e surdas, ambições desmedidas de poder e dinheiro, onde os crimes em águas turvas são dos tais que de vez em quando vêm ao de cima.

- E será que ler mais e melhor nos vai ajudar a resistir à crise?
- Há quem pense que…
Queres ver? Por acaso ou de propósito, guardei aqui sobre a mesa para te pedir que releias agora, nesta quadra, umas palavras que sublinhei.
Penso que também as leste na altura, mas nada se perde em  as relermos por boa introdução a esta última semana do «Natal dos Livros».

Ora, o problema do colapso económico, da provável redução dos nossos luxos, pode ter consequências muito boas. Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor ( George Steiner, «A Necessidade de Ler», revista Ler, n.º 100, Março de 2011, pág.31).
L. V.

sábado, 17 de dezembro de 2011

A MONTE E À TOA - V

A FORTE CERTEZA
Contou-me que tinha nascido no Dia das Dúvidas e que desde que se lembrava nunca elas lhe tinham dado uma trégua nem mesmo a dormir. Só quando bebia um copo a mais é que ficavam um bocado mais brandas, zumbiam menos e as asas até pareciam doutra cor.
Tinha, pois, esse recurso: uns copos. «Mas que vida seria a minha se andasse sempre nos copos e só para amansar dúvidas? Quem cuidaria dos meus bezerros e das minhas galinhas, já não falando nas contas bancárias?» – comentou ele, mais para si do que para mim.
«Ele, quem?» - estará porventura um leitor possível a querer perguntar-me. A resposta não o vai satisfazer e deixa-me um pouco... : «não sei, não fiquei a saber». Não me disse, também não perguntei, conversa de autocarro com bancos para duas pessoas e uma curiosidade enorme em seguir a curiosíssima história sem interromper. «Sabe, nasci no Dia das Dúvidas…» - e, logo aí, a curiosidade a prender ouvidos e língua.

Acabou bem a curiosa história do homem que nasceu no Dia das Dúvidas e o receio de chegar á minha paragem sem que o desenlace tivesse aparecido não se confirmou.
Acontecera um milagre e tinham-se acabado as dúvidas: «Eu vi e não queria crer no que via».
Uma a uma as dúvidas foram trespassadas por setas finas, brilhantes, que partiam de uma nuvem. Depois da última dúvida cair, a nuvem choveu e nem uma asinha fosse de que cor fosse foi possível guardar para prova e argumento justificantes da veneração que o meu companheiro de autocarro tinha por nuvens.
«Eu vi, não queria acreditar, mas o milagre obrigou-me: não tenho a mínima dúvida de que vi uma a uma as minhas dúvidas serem trespassadas por setas que partiam de uma nuvem».
No fim da história alguma coisa era devido eu dizer: «Nuvem benfazeja, essa sua». Não tive de dizer mais nada, felizmente. A paragem, propositadamente, veio ao meu encontro. Tenho a certeza: veio de propósito. Vi-a, não disse, mas pensei : «Paragem benfazeja, esta minha».
R. V.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DESORDENS & ABUSOS… com número 14

UMA PANCADA NO TECTO

se te digo que não vou não é para dizer que não venhas e não te passe pela cabeça que estou fugindo de ti ou vou fugir se cá vieres talvez até esteja a precisar do abanão de um amigo daqueles amigos que sempre tentei ser para ti e que para mim sempre foste um amigo incapaz de se calar quando preciso de que alguém me faça cair na conta de que estou a ser burro

se te digo simplesmente que não vou é porque isto de mensagens electrónicas tem as suas diferenças em relação ao telefone

dantes era assim tu ou eu a chamar se te dissesse «não vou» tu insistias «não vens porquê» com o correio electrónico
dar ou não dar justificação depende só de mim não a dou e não levas a indelicadeza percebes directamente que qualquer pancada no tecto me pôs os parafusos a chocalhar e ou me engano muito ou a 9.ª de Beethoven vai arrancar no meu telemóvel

já enviei a mensagem e estou mesmo a ver a reacção «que pedra lhe terá caído hoje em cima da cabeça» sei lá como vai correr a conversa porque é um bom amigo e é certo e seguro que só se não puder é que não vai telefonar vou gaguejar talvez mas para este não vou ser capaz de inventar uma treta qualquer junta com imediata mudança de assunto e um cá-comigo assim «tratas de ti que eu trato de mim» 

agora me lembro tenho o telemóvel desligado e não faz sentido ligá-lo depois de recusar-me ao encontro  no fundo no fundo estaria porventura a desejá-lo depois duma pancada não apetece ver ninguém e muito menos conversar mas a maldição é o isolamento
não será melhor telefonar eu é isso mesmo que vou fazer antes que me arrependa «disse-te que não ia e confirmo mas se vieres tu até cá agradeço-te»  
V. L.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

E se insistíssemos no «FILTRO DA LITERATURA»?

Em menos de uma semana e por ordem de chegada três cultores da literatura com
1
Urbano Bettencourt com:
«A incapacidade de aperceber-se do mundo sem o filtro da literatura».
2
Maria de Lourdes Belchior com:
«A obra literária é também elemento que pode alterar o devir da história».
«Não há dúvida de que a literatura é, em certa medida, expressão e chave do mundo».
3
Jorge Luís Borges com:
«A literatura é uma das formas que a felicidade pode assumir».
4
E agora talvez algum de nós com:
«Acho que vou querer que estes e outros nomes da coisa literária me obriguem a uma reflexão sobre a sua maneira de ver o mundo através da arte. Com a ética falida, pode ser que a estética seja o segredo».
R. V.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Duas entradas com uma só explicação: ENCONTRO

Hoje.
1 – 10h.
http://encontrolivreiro.blogspot.com/2011/12/podemos-para-este-nosso-convivio-pedir.html
2 – 18h.
http://encontrolivreiro.blogspot.com/2011/12/ainda-ha-esperanca-para-as-livrarias.html

Não é que queira ou deva vir para aqui dar uma explicação com pormenores, mas quando o que é diferente nos chega a partir de uma mesma atenção, a única atitude que se impõe é admirar:
- como é possível?

É, portanto e apenas, um desejo de ir ao encontro de quem também conhece pessoas excepcionalmente dotadas para multiplicar  comunicação e encontro, de modo a que se ouça em coro:
- como é possível?
L. V.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ILHA DO PICO! O PICO VISTO ATRAVÉS DO FILTRO DA LITERATURA!

Nota prévia:
Visitantes amigos,
se quiserem, podem, em «comentários», dizer uma palavra ao Urbano
Bettencourt por este privilégio de possibilitar  a divulgação do texto que aqui o livreiro velho referira na «postagem» de mais um textozito «a monte e à toa», tendo achado que disso devia por viva voz dar conta ao autor.  
Se quiserem e puderem. Não o podendo fazer, que não se preocupem: já fiz a festa e agradeci por mim e por todos.
De qualquer modo, digam-me: é ou não, este texto,  a  «prova» provada de que «o filtro da literatura» é usado por Urbano Bettencourt com a mais autêntica mestria?
Passem pelas fotografias e sua arte e a seguir leiam, em sua arte, «
O leitor que se perdeu entre os leitores de nuvens» de Urbano Bettencourt. 
Livreiro Velho

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Foto de Onésimo Teotónio Almeida – Verão de 2011

Botes Lajes 1
Foto de Mariana Bettencourt – Verão de 2011

O LEITOR QUE SE PERDEU ENTRE OS LEITORES DE NUVENS
(Texto publicado na revista «Ponto Cardeal», n.º 4. Madalena, Pico, Açores, Escola Cardeal Costa Nunes, Novembro de 2011.)

– É sempre bom regressar ao Pico. Sobretudo quando nunca se saiu de cá.
A voz do outro chegou-lhe como um rumor longínquo e inesperado. Seria apenas um desabafo sem destinatário ou uma tentativa de contacto já no limite do tempo? Durante a viagem ele mantivera-se entregue ao seu silêncio, a mão direita presa ao braço do assento, numa imobilidade que quase permitia ouvir-se-lhe a respiração. E só agora que o avião bordejava a costa norte da ilha é que vinha romper o casulo. No pior momento para Roberto: o vulcão perfilava-se ao fundo, despido de nuvens, o rendilhado negro dos currais começava a surgir lá em baixo, num tecido muito mais impressionante do que o relato de Lídia deixara antever. «Não percas. São só uns breves minutos de aparição… A extensão daquilo! E o suor de quantos homens? Poderás depois ver tudo isso de perto, em terra. Mas já não será a mesma coisa.»
E era essa a impressão que Roberto queria guardar de imediato. No dia seguinte, teria tempo de fixar-se na Montanha, nos seus disfarces e mudanças de humor, no jogo constante das suas nuvens. Desembarcava na ilha pela primeira vez e na suposição de que era isso mesmo que ia acontecer. Os seus anfitriões, pelo menos, tinham-lho assegurado: «É uma boa altura, ventos favoráveis, suaves mas constantes.» Roberto confiara neles. E ali estava, para participar no I Congresso dos Leitores de Nuvens.
Entre o aeroporto e a Escola podia ter prestado atenção ao casario debruçado sobre a estrada, mas a quadrícula de muros negros continuava a atravessar-se-lhe na retina. Mesmo assim, ainda reparou numa placa onde se lia «Bandeiras». O nome pareceu-lhe um bom presságio e fê-lo pensar em festas, música. Talvez em tempo de vindimas os muros se enchessem de bandeiras, quilómetros e quilómetros de bandeiras de todas as cores, e houvesse bailes em qualquer largo e muito vinho por entre os corpos dos pares já tontos das voltas e do desejo. «Quando eu era novo, havia aqui muitas festas. Festas, muitas festas.», repetia o taxista no romance de Vila-Matas, como se a convocação obsessiva do passado lhe devolvesse a juventude e o viço.
A Escola chamava-se Cardeal Costa Nunes. Era-lhe de algum modo familiar, graças à pesquisa que tivera o cuidado de fazer pela net. Mas Roberto sentiu-se perdido. Nem o acolhimento afável o salvaria. A Montanha não se desprendia dele, espiava-o de todos os lados, como alguém que tivesse de registar cada um dos seus gestos. Como é que se pode suportar um olhar destes durante uma vida inteira? Em frente, uma breve faixa de terra ameaçada pelo mar do Canal. Se fosse preciso fugir, iria para onde? «Um homem nunca deve chegar sozinho a um lugar que visita pela primeira vez», dissera-lhe Margarida, vários anos antes, quando se oferecera para acompanhá-lo a Londres. Mas agora era demasiado tarde.
Roberto jantou cedo, uma refeição simples, e recolheu-se ao quarto do hotel. Aproveitou para ver os materiais impressos que a organização do Congresso distribuíra a cada participante. Entre eles, encontrou um prospecto que falava de uma sabedoria antiga, a de Mestre Daniel, um piloto marítimo que lia nas nuvens da Montanha os sinais do tempo, com o rigor que viriam a ter os futuros instrumentos de previsão meteorológica. Era o mesmo texto que Roberto lera em tempos num livro que lhe tinham oferecido em dia de aniversário, Mística e Nuvens do Vulcão do Pico. Este fora, aliás, um dos primeiros contactos com a ilha, pelo menos através de um livro daquele género, que articulava as fotos com a linguagem científica e terminava com o texto poético de um autor que lhe era totalmente desconhecido.
Anoitecera, entretanto. No outro lado do Canal, a cidade era um borrão de luz sobre um manto azul cerrado que tudo ocupara. Ocorreram-lhe imagens avulsas, fragmentos de versos, o do transatlântico iluminado ou o do barco parado que circula sem retórica na vertigem planetária, mas isto era ainda uma prova da incapacidade de Roberto para aperceber-se do mundo sem o filtro da literatura. Devia ter posto de lado os livros, para poder desembarcar e ver as coisas com um olhar transparente e seu. Mas também para isso era demasiado tarde e o arrependimento de nada lhe servia já.
O cansaço da viagem e as horas sebentas dos aeroportos fizeram-no adormecer rapidamente. Atravessou, então, uma paisagem pedregosa onde o fogo deixara as suas marcas inapagáveis. Havia currais e currais a perder de vista, homens e mulheres avançavam lentamente, curvados sobre o chão, a espaços voavam sobre os muros e cantavam cantigas de que não se ouvia o som; talvez canções melancólicas, talvez cantos de festa, mas era impossível sabê-lo, porque não se via o rosto de ninguém. Nalguns currais, rapazes e raparigas dançavam, eles seguravam os cestos com a mão esquerda, com a direita prendiam os corpos delas e aos poucos puxavam-nos para si até se fundirem na paisagem. Subitamente, Roberto descobriu Lídia e Margarida entre as mulheres. Um homem de longa barba branca e pele curtida pelo sal aproximou-se e disse-lhe que estava na hora de fazer escolhas. Como se fosse uma decisão tomada por outro, Roberto murmurou: Lídia… Pronto, Lídia! Gostaria de ouvir a sua voz vibrar no cimo da Montanha ao raiar do sol de um dia luminoso. Pegou-lhe na mão e saíram dali. Quando ela tirou o chapéu de abas largas que lhe escondia o rosto, Roberto descobriu que trouxera uma desconhecida. Chamava-se Laura, tratava-o por João e dizia-lhe: «quando estiveres indeciso entre duas mulheres, escolhe uma terceira».
Os primeiros sinais do dia entraram muito cedo pela janela propositadamente deixada aberta por Roberto. Isso dava-lhe tempo de vaguear pelas ruas, como sempre fazia, à descoberta dos traços que marcam o rosto dos lugares, tentando surpreender em cada esquina aquela vida miúda e espontânea incapaz de se furtar ao olhar do outro. O sonho nocturno parecia-lhe agora uma história remota, lida num livro qualquer e vivida por uma personagem estranha, sem qualquer relação com ele próprio.
O Congresso realizava-se ao ar livre, embora uma sala envidraçada estivesse pronta para acolher os participantes, em caso de chuva. Um tempo sereno e leve tornava quase incompreensível o movimento contínuo, embora lento, das nuvens sobre o vulcão. «A Montanha tem a sua pulsação própria, junto a ela há correntes imprevisíveis.», dissera o primeiro conferencista, muito jovem, como quase todos os que Roberto pôde identificar no meio da assistência. «Mas isso é que torna tudo tão fascinante e obriga a uma atenção redobrada. No fundo, ler nuvens é uma actividade que tem algo a ver com o windsurf: está-se dependente do vento, é preciso conhecer a sua direcção e antecipar as nuvens que se formarão e depois deixar-se ir na onda. E hoje temos aqui condições muito especiais.»
Fora uma espécie de introdução genérica, a que se seguiram intervenções mais especializadas, de natureza histórica algumas, outras do campo da meteorologia, que apresentavam explicações científicas para a justeza das observações empíricas de Mestre Daniel. Houve depois testemunhos pessoais, de quem seguramente encontrara o seu destino escrito em nuvens lidas nas mais inesperadas situações e de como essas leituras tinham constituído uma revelação decisiva; um dos depoimentos citava até um autor francês e dizia que tudo o que nos acontece aqui em baixo já estava escrito lá em cima, nas nuvens. Uns tinham descoberto nas nuvens o seu destino de poetas e outros tinham lido nelas um futuro de aventura por terras e mares estranhos. Havia ainda quem afirmasse que conseguia decifrar nas nuvens o perfil daqueles políticos funestos que nos saem nas urnas de tempos a tempos. No final da tarde e do Congresso, um lavrador e um marinheiro puseram-se a descrever as nuvens, mesmo aquelas pousadas sobre as ilhas em volta, e deixaram uma antevisão muito precisa do tempo para o dia seguinte.
E não falharam. Durante a noite a Montanha tinha desaparecido e uma cinza espessa deixava agora a ilha entregue a si mesma, com a presença apenas adivinhada das outras duas. Era uma experiência a mais, de natureza diferente. Roberto pensou em Alice C. Baker: «Nos Açores tudo é novidade e nada é novo», escrevera ela quase no final do século XIX. Podia adaptar-lhe a frase e dizer o mesmo do Pico: tudo era novidade para ele e todas as coisas tinham a serenidade de quem ali estava desde tempos imemoriais e ganhara direito a um espaço inviolável. Mas havia um poeta que já tinha dito isto de forma única, num verso definitivo: «Esta paisagem é um sopro de eternidade».
A caminho do aeroporto, o taxista fez um desvio para levar Roberto pela estrada junto ao mar. Havia ainda muito tempo para o avião… Era a primeira vez que vinha à ilha? Então, tinha de passar pela costa, ver os lugares de adegas, as vinhas, as figueiras. Ó senhor, eles chegam à ilha e querem enfiar-se logo nos museus…Aquilo está tudo morto! Os arpões já não trancam ninguém, os botes estão ali encalhados, as baleias são as da televeija... Aqui, sim! As vinhas continuam a crescer em cada ano, as figueiras enchem-se de figos. E há gente de um lado para o outro. E também ventanias salgadas que varrem isto e queimam tudo até às casas lá em cima! Não queira vir cá no Inverno, torna-se uma ilha muito triste! No Verão, sim, isto ganha outra vida. Vê-me aquela ermida? As pessoas mudavam-se para a costa, vinham trabalhar as vinhas e traziam também a sua fé.
Roberto aproveitou uma inesperada pausa e arriscou: «Quando era novo, havia aqui muitas festas?»
Isso não lhe sei dizer, senhor, não cresci cá. Quem lhe podia dizer alguma coisa é um fulano ali em baixo que tem uma loja onde vende artesanato e bebidas. Eu, não. Fui novo para o Canadá, os meus pais queriam livrar-me da guerra no Ultramar. Cresci por lá, por lá fiz a minha vida, casei-me, dei cabo do casamento, não tive filhos. Quer saber porque voltei tantos anos depois? Não mo pergunte. Acha que teve alguma a coisa a ver com aquele monte de pedra e areia ali à direita? Chamar monte a uma montanha que se perde entre as nuvens…tem a sua piada. É isso, devo ter vindo por causa da Montanha. Na sala de meus pais havia uma grande fotografia dela, não passava um dia sem olhar uns minutos para a nuvem que o fotógrafo tinha apanhado a atravessá-la. Pronto, é assim mesmo. Vim porque a Montanha me chamou.
Mais tarde, enquanto via a pista desaparecer à sua esquerda, Roberto julgou ouvir ainda a voz do taxista perdida por entre o ronco dos motores. Depois, quando o avião ganhou estabilidade, recostou-se no banco e fechou os olhos. Teria de voltar ao Pico, um dia. Talvez com Lídia. Talvez com Margarida. Quem poderia sabê-lo?

Urbano Bettencourt
(
Pico e S. Miguel
Março a Setembro, 2011)

A MONTE E À TOA - IV

«ESCREVEMOS SEMPRE DEPOIS DE OUTROS»

«A incapacidade de aperceber-se do mundo sem o filtro da literatura», se não é defeito é virtude. Quem com ela, essa incapacidade de percepção que não vem registada no catálogo das incapacidades para trabalhar, caracterizou uma personagem literária que levou de avião até à sua ilha, o Pico, foi Urbano Bettencourt, já nosso conhecido de outras conversas e em especial do seu último livro, o Que Paisagem Apagarás. Não consigo voltar a referir-me a este livro sem que repita que é uma preciosidade literária, tão preciosa que, se eu fosse profissional da LABOLIPO – Liga dos Acompanhantes da Boa Literatura Portuguesa me envergonharia de ainda não o ter lido ou pelo menos ter passado pela livraria Culsete para que estivesse a altear a pilha em que muitos outros livros já estão a aguardar uma dedicada e atenta hora.

O problema, a meu ver, não está nem na incapacidade nem no filtro, mas na literatura. Tem de haver «mundo» na literatura para que a incapacidade não seja defeito, mas virtude?
Será isso que…?
Ou basta que na literatura haja literatura?
O que preferia era dizer «entrelóquio», mas creio que basta a palavra «colóquio» - esta é que está aprovada - para se perceber a que vem esta minha tentativa de convocar pelo «filtro da literatura» alguma atenção e a curiosidade de quem deixou cair os olhos nestas linhas.

Não estou tão por um colóquio entre mim e ele, o Urbano Bettencourt, quanto por ouvir cada um em sua diversa ou igual resposta:
o nosso escritor picoense e o seu muito amigo e amigo do Pico que é Enrique Vila-Matas.
Antes que começasse a ouvi-los, pedir-lhes-ia que me permitissem ler-lhes em voz alta, como sintonização na minha estação de MITIC - Mundo Inútil Talvez das Interrogações Curiosas - este ponto/capítulo «9» de Perder Teorias, donde trouxe o título para esta minha «desordem», mais esta para aqui «amontoada» no desembrulho de quem anda «a monte» e vai escrevendo «à toa».
«Não tenhamos ilusões: escrevemos sempre depois dos outros». Tanto se podem citar estas «ilusões» a partir da página quarenta e sete como da página cinquenta (Perder Teorias, Enrique Vila-Matas, Teodolito (Afrontamento), Setembro de 2011, págs. 45-50).
Quase que asseguro, porém, que, tanto de uma página como da outra retirada esta frase, não se atingirá mais do que dez por cento do seu alcance. É indispensável que se leia e releia o seu contexto. Neste livro, para já. Depois, por ir muito mais longe no aprofundar teoria, nas obras completas quer de Enrique Vila-Matas quer de Urbano Bettencourt.

Já terei «desordenado» o suficiente…
Ao menos por hoje, obrigo-me a ficar por aqui neste prazer de uma «incapacidade» filtrada a partir de um belo texto de Urbano Bettencourt:
O Leitor que se Perdeu entre os Leitores de Nuvens.
R. V.
9/XII/2011- alp&l.er.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DESORDENS & ABUSOS… - Já verifiquei e são 13

CENAS DA PEÇA «DESPIR A CAMISA»

1
em chegando hoje à porta de casa não entres com camisa
para que se ponha e imponha em única hipótese
que és mais um daqueles que foram capazes de despir a camisa
por pura amizade ou compaixão
em generosidade admirável
2
se chegares à tua porta sem teres encontrado
alguém que te tenha despido a camisa
nem quem na queira ou peça
e muito menos alguém a quem a queiras dar
problema não haja
é só olhares à tua volta
ver o contentor do lixo e adeus camisa
em menos de nada vai aparecer quem a leve
3
tudo e todos preparados para a cena seguinte
a porta e tu e a hipótese e quem está em casa
vais entrar
mas não te precipites e toma atenção
4
ao dependurar o casaco e ao ver-te
no espelho enquadrado no cabide
aproveita  bem para ensaiares uma cara
de quem não sabe onde se há-de meter para não dar nas vistas
uma atitude que seja natural
em quem tenha levado a generosidade
ao ponto de despir a camisa
alguém que não queira fazer teatro
uma autenticidade tão perfeitamente fingida
que nem a ti mesmo permita desconfianças
e de modo algum que se possa fugir à cena comovente
«ainda há gente assim neste mundo »
5
provocar lágrimas
as lágrimas a virem aos olhos
por arte bem-fazeja duma hipótese
que sempre irá permitindo acreditar
em que nunca estará tudo perdido
4
podes entrar
que já estou fazendo a gravação
à luz da única hipótese
V.L
8/XII/2011-alp&l.er.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O que lemos na LER é «UMA SÓLIDA E GENUÍNA LIÇÃO DE SOLIDARIEDADE»

1
Ver:
- « Ler, Dezembro de 2011, nº 108, p. 2: João Pombeiro, in ‘Editorial’».
- http://encontrolivreiro.blogspot.com/

2
Se não me curvasse em muito respeito perante o que vem escrito na primeira pessoa por João Pombeiro no editorial da revista Ler – Livros & Leitores deste mês de Dezembro de 2011, perderia todo o direito de voltar a manifestar o meu empenho nas causas do livro, da leitura, das livrarias e dos livreiros. Esse direito prezo-o.
Este é um daqueles casos em que a uma culpa se deve aplicar a consagrada fórmula: «feliz culpa!».

3
A esta referência de João Pombeiro à homenagem que umas centenas de pessoas quiseram para o «Livreiro da Esperança», Jorge Figueira de Sousa, na feliz passagem dos seus oitenta anos, ajustam-se inteiramente estas palavras que dela copiei para título deste post: «uma sólida e genuína lição de solidariedade». Estamos de acordo, creio eu, todos os que subscrevemos a «Carta Aberta».

4
Genuína, porque não parte da cena final.
Esperara para ver, como sabemos que outros fizeram (embora não se possa  saber).  
Acabando por ver que era «um gesto que nos deve comover», fazia-lhe referência, respeitando, sim,  mas em estilo de repórter, não neste, tão pessoal e genuinamente solidário. 

5
Sólida, porque se afirma como desconfiança antes de vir ao convencimento. Nada mais comovente para quem à partida se arrisca a lançar uma qualquer iniciativa cuja eficácia depende da pura liberdade de outras pessoas do que este reconhecimento de quem partiu da desconfiança.

6
Daí vem uma comovente e sólida lição:
vale a pena acreditar, porque são muitos mais do cremos os que preferem o melhor.
Em muitos casos e causas bastaria que…  

7
Comovente, disse. Mas o mais comovente é João Pombeiro, na sua responsabilidade de director da Ler, vir apresentar-se como testemunha de que na iniciativa transpareceram, acima de qualquer outro sentir, um empenho e um gosto muito humanos  em que o Sr. Jorge Figueira de Sousa se surpreendesse e se sentisse feliz com este modo de festejarmos os seus anos, nós, todos os que de um ou outro modo nos entendemos como «Gentes do Livro», não querendo agora discutir o conceito, e que assim quisemos, por nossa assinatura numa carta, levar-lhe o nosso respeito, carinho e reconhecimento.

8
No dia 21 de Novembro de 2011, a meio da tarde, a voz do livreiro Jorge Figueira de Sousa, o Livreiro da Esperança, como já foi e será definitivamente distinguido, era, de facto,  a de uma pessoa feliz, de uma felicidade espontânea, transparente, simples e natural. Nenhuma melhor compensação seria tão preciosa para quantos acrescentámos um bocadinho de alegria à festa que sempre seria a passagem do seu 80.º aniversário. De novo estamos de acordo, creio eu, todos os que…

9
João Pombeiro, director da Ler: «uma genuína e sólida lição» de um criador de opinião com responsabilidades no Mundo do Livro.
Aprendida por a quem ela chegou e deve chegar?
Aprendida para levar a quê?

Livreiro Velho

domingo, 4 de dezembro de 2011

TAMBWE - A UNHA DO LEÃO: «o meu desejo de novamente sentir que…» cumprido e EM EXCESSO


Alguns amigos enviaram mensagens a perguntar e outros também gostariam de saber como foi a tarde de ontem. Sim, creio que digo bem, UM EXCESSO.
Uma prova? E bem merecida por quem recebe esta missiva da conhecida actriz e poeta setubalense Maria Clementina Pereira.
Ei-la!

Fátima, minha amiga,
quero agradecer-lhe o dia de ontem, pois há muito tempo que não me sentia tão bem. Estava a precisar de um ambiente cultural como esse, ao mais alto nível, mas ao mesmo tempo tão familiar. Senti-me como peixe dentro de água. Fiquei com a alma lavada. Tudo o que ali foi dito teve muito interesse para mim, pois desde criança que tenho um grande fascínio por África, sobretudo Angola.  Tenho alguns poemas de cariz africano, os quais, depois de ouvidos por um angolano, ele me disse que era impossível eu não conhecer África.
Em criança, nas minhas aulas de Desenho na Escola Comercial, onde andei, quando havia desenho livre, os meus eram todos representativos de África, de tal maneira que o meu professor perguntava-me sempre se eu tinha vivido lá.
Por tudo o que vivi ontem, muito obrigada. Um abraço.

Maria Clementina Pereira

A velhice tem pulsações de juventude, com alegrias assim!

Livreiro Velho