segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A ARTE E A SENSIBILIDADE QUE PASSA POR CÁ

Nobre é a cidade que conhece os seus ilustres, os honra e deles se honra”, afirmou o Livreiro Velho num post recente. Quantas vezes, porém, isso não acontece! Estou a pensar em todos os amigos da Culsete, setubalenses e não só, que têm sabido afirmar o seu lugar muito para lá das fronteiras da cidade e a quem esta parece ignorar ou dar pouca atenção. Sobretudo aqueles que cresceram junto destas estantes apinhadas de livros ou à sua sombra foram somando à leitura outros interesses. O seu sucesso diz-nos muito. Por isso gostamos de o partilhar. São dois os nomes de que desejo agora falar: Diogo e Cristina.

O Diogo de Oliveira Faria habituou-se desde muito pequeno a entrar na livraria como quem visita um parente. Filho, neto e etc. de Setúbal (o seu avô Pedro foi o meu dentista desde sempre até ao último dia, meu e de meia cidade), cedo começou a mostrar-se como ginasta de excelência. Primeiro foi por aqui mesmo, mas rapidamente conquistou a Europa e o mundo, tendo arrancado a muitos trampolins o tão cobiçado ouro. Hoje arrebata as plateias das cidades por onde passa o Cirque du Soleil. Começou como acrobata para em seguida vestir a pele de uma das principais personagens de Alegria.
Mal descobriram que no elenco deste famoso espetáculo havia um português, os media nacionais procuraram entrevistar o Diogo. Houve até quem fosse ao seu encontro noutros países ou viesse a Setúbal descobri-lo no ninho familiar. Nada mais justo. O que não consegui ainda foi ler uma entrevista ou uma simples notícia sobre ele na imprensa setubalense. Distração minha, certamente. Claro que por cá todos estamos felizes por ele e a juntar os cêntimos para ir vê-lo, se não desta vez pelo menos para a próxima vinda.

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Pai Nosso, por Cristina Mestre
 

Ando tão distraída que também não consegui ainda ler na imprensa local nenhuma notícia sobre o prémio recentemente atribuído a Cristina Mestre. Discretíssima, como que escondendo a sua sensibilidade artística, deixa que os seus olhos descubram o momento, o acontecimento, o sopro de vida, de beleza, de efemeridade para os fotografar. Perseguindo esses instantes, vai ao seu encontro em qualquer dia, a qualquer hora, de máquina em punho, procurando o melhor ângulo, a melhor atmosfera. São inúmeras as suas participações em eventos fotográficos, diversos os tipos e temas das suas fotos. Assumindo-se sempre como amadora, tem captado com a sua objetiva muitos momentos especiais da cidade de Setúbal. 
A sua página na net http://www.cristinamestre-fotografia.com/ deixa ver uma Cristina interessada não só pela fotografia. A sua amizade em relação à Culsete revela-se nas suas visitas frequentes, na divulgação das nossas atividades no seu blogue, nas fotos que já tirou do Livreiro Velho. Por ser uma amiga muito cá de casa, ainda mais nos alegra o prémio Metro Photo Challenge que lhe foi concedido. A foto premiada aqui fica, revelando muito da sua sensibilidade artística.

E já agora um 2012 vivido em arte, com livros, exposições, espetáculos e tudo aquilo a que temos direito.
F.R.M.

2 comentários:

  1. Antes de mais permitam-me desejar-vos um 2012 que supere positivamente todas as vossas expe(c)tativas!
    "Quando não restar ninguém para resgatar a Cultura, ela salvar-se-á pelos seus próprios meios." Algo parecido com isto já foi pensado-dito-debatido por alguém, não interessa onde, nem quando ou por quem. Neste caso particular interessa, isso sim, realçar a ideia.
    Num dos textos que escrevi para um jornal local, que (como muitos outros) já se extinguiu, 'In Setúbal', de seu nome; falei da enorme 'facilidade' que a cidade de Setúbal tinha em 'criar talentos'. Estava, como é natural, a puxar a brasa à nossa (deliciosa) sardinha, pois consigo reconhecer talento em muitas outras localidades do continente e ilhas. Mas a verdade é que o tema desse texto serviu de mote e toda a edição foi pensada para promover os talentos setubalenses. Chegou a ser equacionado, pela dire(c)ção do jornal, uma continuidade ao tema dos 'talentosos', uma vez que eram numerosos para uma só publicação. Mas a empresa faliu e com ela faliram também as suas boas intenções. O que restou da imprensa setubalense, ao longo das décadas foi, precisamente, "O Setubalense".
    Tornei-me, com o passar dos anos, um leitor assíduo de jornais. Comecei pela 'Capital' às terças, nos anos oitenta, porque tinha uma página inteira dedicada a uma das minhas grandes paixões de sempre - o Xadrez. Aproveitava e lia o resto do jornal, creio que foi assim que tudo começou. Escolhi no 10º ano de escolaridade a opção de Jornalismo, já sabia que queria ser a(c)tor (já estava no TAS), mas não havia a opção de Teatro na escola e, para além disso, cheguei, na altura, a escrever três crónicas de opinião (à borla) para (imagine-se!) o "Setubalense". Quando deixei a escola, pouco tempo depois, cheguei também a ser jornalista-estagiário na Rádio Voz de Setúbal. Belos tempos, sweet sixteen. Depois cresci para ser artista e como agente cultural vejo-me, hoje, nesta difícil luta pela sobrevivência por uma Cultura dizimada, abandonada, quase esquecida. Mas a Cultura não se 'esquece' dela própria e a prova disso é que vocês se lembraram de evocar mais dois enormes talentos da nossa bela cidade.
    Não foi a imprensa local que se lembrou porque a imprensa local parou no tempo há décadas, deixando-se ficar com o seu grafismo antigo, ultrapassado, as folhas sempre coladas, com os três reparos dos buracos na Rua de Almeida Garrett, as notícias secas sobre os eventos alegres, as gralhas nos nomes e mais uma folha colada, as casas para alugar, o Vitória, os novos mortos velhos. Pouco mais. “O Setubalense” tem talento lá dentro, precisa de, definitivamente, ser ‘pensado’ e publicado de outra forma – já chegámos ao século XXI há uns anos e os Setubalenses, talentosos ou não, merecem melhor.
    Resta-me congratular a Cristina e o Diogo (primeiro as meninas) pelos seus extraordinários feitos, pelo seu trabalho e dedicação, e por elevarem o nome da nossa cidade com o seu talento. Obrigado!
    “Setúbal agradece e sorri, como só a sua baía sabe sorrir.”

    José Nobre

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  2. Excelente artigo de F.R.M..
    Se a imprensa local está parada no tempo, anquilosada, ultrapassada e desinteressante, como é sugerido no comentário anterior, ao menos que haja blogs, como o "Chapéu e Bengala" que dêem pedradas no charco e agitem a água do pântano a que a imprensa local parece condenar a divulgação da cultura e dos ilustres setubalenses.

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