domingo, 8 de janeiro de 2012

CABEÇA OU PÉS: para que lado se dorme melhor?

ERMITÉRIO ARRABIDINO
«Sem ter já que esperar, nem que perder» (Frei Agostinho da Cruz)

Para acomodar as crianças, punham-se a dormir umas para a cabeça e outras para os pés. Eram casos em que não havia outro remédio. 
- E o que acontecia?
- Nada mais compreensível:
Com frequência ou dava para a brincadeira ou para o confronto e lá tinha que vir pai ou mãe, avô ou avó abonançar a noite.
Era assim.

Talvez se possa, daí, vir à conversa sobre quem anda a dormir para o lado de como as coisas se passam ou para o lado de como se pensam.

Por uma outra conversa muito conhecida se pode também chegar à nossa questão:
Os povos são da cor dos seus governantes ou são os governantes que são da cor dos povos? Pergunta que se antes fazia sentido ainda mais sentido faz nos tempos presentes, se calhar, ao ver-se quanto as eleições democráticas se banalizam com a coloração dos partidos em sua ganância de votos a qualquer preço.

Ainda por outra, talvez. Aquela com que tive de responder a umas acreditadas autoridades intelectuais que se queixavam dos livreiros portugueses:
Os livreiros portugueses não estão ao nível de leitura dos portugueses ou são os portugueses, particularmente os que usam títulos de instruídos, que não têm mais e melhores livreiros porque não os merecem?

Quanto a esta outra, como me diz respeito e muito me diz, sem rodeios jogo a conversa para quem ma quiser contestar.
As pessoas «instruídas» deste país que de viva voz e muito por escrito lançaram o seu desdém sobre os livreiros portugueses, quando perante mim com esse desdém vieram, não só não me mereceram respeito como as ataquei de frente. Porque se olhassem para o seu mundinho de «pessoas instruídas» iriam ver como aí a percentagem de incompetentes e ignorantes…
O nosso problema merece muito mais cuidado e bom senso.

Também fui maltratado pessoalmente por duas ou três vezes por uns desses ditos, mas por regra até fui considerado pela positiva como uma das excepções. E portanto não é para o lado pessoal que lanço a minha carta.
-Então para qual?
- É tão aborrecido fugir como não fugir á pergunta, portanto… 
Em fim de carreira, olho para as décadas do nosso trabalho livreiro na cidade e região de Setúbal e agradeço o respeito que de muitos lados e modos nos têm chegado. Comunicação social inclusive. Mas…

É que a cidade e região se quisessem dar por si num saber tirar proveito das oportunidades oferecidas, a quanto mais e até com menos esforço se teria chegado?...
Há muito que digo o mesmo: Setúbal, quando quiser…

Estava a trabalhar em Setúbal para aí há uns seis meses, ainda sem ter vindo para cá residir, quando fui pela primeira vez ao Luísa Todi ver um filme.
- Que filme é – houve quem me perguntasse?
- Sei lá! Preciso de desaborrecer…
Era quarta-feira, dia da cidade encher a casa em cada semana. A miséria de filme que foi! E toda a cidade ali a ver, em alto estilo de pavões à espera do intervalo para exibirem penachos. Fiquei de cabeça a andar à roda:
«Onde é que eu estou?».

No dia seguinte fui à Casa dos Pescadores pedir dados sobre os pescadores inscritos e no activo e a seguir fiz outras demandas de informação a ver se finalmente me entendia com uma cidade que, de longe, antes de para cá vir fazer um trabalho livreiro, vendia bem a fama de muito progressista, mas que, na realidade, me estava a parecer que…

-E hoje?
- Não há comparação! Passaram-se mais de quarenta anos e muito a História já conta. Avançou-se. Incalculavelmente.

Mas, mas…
Embora com alguma injustiça em certos casos e aspectos, ouvem-se, continuam a ouvir-se, as críticas de que «isto, culturalmente…». 
Com razão. É inegável.

«Mas, mas…», digo eu outra vez.
Por exemplo a comunicação social setubalense. Críticas justas? Ou será que está bem e certa para o seu público?
«O seu público»!
Não digo que é toda a cidade. Há nesta nossa cidade, por exemplo e no caso do ramo em que trabalho e portanto melhor conheço, muita gente com um grau de leitura invejável.
-E o outro aspecto?
- Pois! Esse aspecto tão decisivo!…
Sim, não há que o calar.

Muita e muita gente que reside em Setúbal não é público setubalense. Nem para o que não tem nível, nem para o que o tem. Vive cá, mas não de cá, no sentido em que faz gala num pacóvio «lá fora é que é bom», isto é, só lê jornais de fora, só compra livros fora, só forra as camurças nos…
- Não é provincianismo, pois não?
- Talvez não.
- Um certo modo de ser cosmopolita?
- Será?
Enfim!…

É verdade que é difícil satisfazer como se gostaria e até talvez se tivesse conseguido muito mais se o apoio do público… Mas acho uma piada! E são casos e casos seguidos…
Por exemplo aquele caso cuja expressividade o tornou inesquecível. Eu conto!
A moça, já universitária, dirige-se a mim e começa muito cuidadosa e pausadamente a dar o título do livro e enquanto me dirigia para a estante ainda a ouvi recitar autor e editora.
«Competente a pedir um livro», pensei! Mas o melhor foi chegar ao pé da jovem estudante com o livro na mão e ela, que se apercebera de que me bastara o título, a receber-me de volta com um suspiro e este comentário: «e ainda por cima sabe o que é!». Não pude deixar de sorrir e sorrindo pedi que me dissesse o que queria dizer o seu suspiro.
Singelamente me informou de que já vinha em desespero por não ter encontrado o livro em sucessivas diligências por Lisboa e Setúbal.

É constante: « corri tudo, mas já sei que só aqui». Seria de perguntar se a pessoa se apercebe de que… Mas brinco e digo:
«Pois!, não gosta de mim, acho bem…».
-Como é isso? Não vê que estão a fazer-vos um elogio?
-Vejo, vejo! E gosto dele, claro. Não é, porém, ao que pretendo que cheguemos com esta conversa: que somos bons e que…
Não venho por queixas. Agora? Até porque… 
Boa livraria? Sei muito bem o que seria uma boa livraria.
Um sonho alimentado, sempre à espera de ser um sonho realizado.

- ?
- É que, virando do avesso o elogio, fica-se sem saber se é preferível dormir para os pés ou para a cabeça.
- Porque…?
- É difícil dar créditos à afirmação de que os agentes culturais têm o dever de puxar para cima um público que não é exigente nem se preocupa com isso nem se apercebe do apoio que deve às boas iniciativas.
Ir ao encontro do público que há ou do público que devia haver? É que a sobrevivência tem de ser assegurada e é preciso muito tempo e muita acção para se alcançar um nível cultural satisfatório.

–Então acha mal que se critiquem esses agentes culturais.
Também não é isso. 
Muito importante e indispensável é que apareçam vozes exigentes.
Exigir!
É o que penso e digo e sempre tentei fazer. Mas com cada um exigindo de si é que se vai fazendo com que tudo isto melhore. Por mais que se faça, sem isso o avanço é à caracol. 
L. V.

2 comentários:

  1. Mais uma vez gostei imenso de ler as suas sábias palavras e penso como o senhor exigir é muito importante, se começarmos por nós próprios...Não tenho conseguido ter acesso aos comentários que tenho postado, só me aparece uma página em branco. Experimento mais uma vez. Um grande abraço e um dia de cada vez! Maria Fernanda

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  2. Não consigo fazer publicar os meus comentários. Um abraço Maria Fernanda

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